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Desabafos da Mula

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos.

Desabafos da Mula

Quem Conta um Conto...#9 Proibido Parte V

Eu iniciei o conto, a FatiaMor e o Fatiasmen  continuaram-no, depois o Varufakis entrou ao barulho e isto tomou proporções nunca antes vistas e até um blog fora do sapo pariticipou - Aqui ninguém no ouve. Agora, podem ler aqui a continuação.

 

E já sabem...

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Conteúdo com bolinha vermelha. És menor, virgem ou apenas sensível... é melhor ires fazer qualquer outra coisa de útil para a tua vida.

 

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Poema: Tentar

Eu já tentei, tento e continuarei a tentar...

Mas creio não dispor de mais forças para lutar!

E já sofri, sofro e continuarei a sofrer,

Até ao dia que me permitir deixar de te socorrer!

 

Eu já não sou eu...

Eu já não sou ninguém, efectivamente!

E continuas com força a cravar,

O punhal no meu coração dormente!

 

Dormente porque já não sente,

Dormente como meus olhos que  há muito já não vêem

O lascar de um sentimento que não existe,

De uma vida que deixará, também de existir!

 

Sim eu tentei, tento e continuarei a tentar...

Mas preciso que continuemos a tentar juntos.

Tenta tu também, por favor,

Para que o nosso amor não se junte, aos já defuntos!

Quem conta um conto... #9 Proibido - Continuação

Para os mais distraídos - e para quem quiser acompanhar novamente a novela iniciada pela Mula, desta vez para maiores de 18 anos - aviso que podem ler o segundo capítulo do conto Proibido aqui na casa ao lado, no O Sexo dos Outros da Fatia Mor.

 

Aviso também que há promessa de - pelo menos - mais um capítulo.

 

O Varufakis aceitou o desafio e disse-nos que para o ano existiriam novidades... Veremos se será um capítulo com preliminares e até um tanto tântrico, ou se pelo contrário, será uma rapidinha com ejaculação precoce. Veremos...

 

Para o ano conto ter novidades, para já, resta-me apenas ficar curiosa e na expectativa!

Quem conta um conto... #9 Proibido

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Conteúdo com bolinha vermelha. És menor, virgem ou apenas sensível... é melhor ires fazer qualquer outra coisa de útil para a tua vida.

 

 

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Ela sabia que era errado, e apesar do nervosismo da primeira vez, conseguia manter uma aparente calma que fazia acreditar já ser recorrente. Vestiu o seu melhor vestido e calçou os seus melhores sapatos. Queria sentir-se bonita, ainda que não precisasse de grandes artefactos para tal. Dona de uma beleza natural e de um corpo escultural, qualquer modelo lhe assentava na perfeição. E era assim que Ana desejava estar: perfeita. Ana sempre fora bastante exigente consigo própria, era mestre em esconder sentimentos, e sempre ocultara a sua infelicidade com um sorriso doce. Ana aprendera desde cedo a esconder e a disfarçar as suas verdadeiras emoções, e esta era apenas mais uma vez. Precisava de se mostrar confiante, de mostrar que tudo estava sob o seu controlo, mesmo não controlando nada, efectivamente.

 

Com o aproximar da hora, sentiu-se mais nervosa, o esfregar constante do pulso que empenhava um belo relógio, oferecido pelo seu marido no seu último aniversário, era prova desse nervosismo, ainda que só quem a conhecesse bem, perceberia. Era a primeira vez que conhecia pessoalmente alguém das suas conversas online e a primeira vez que sentia desejos de estar com outra pessoa, desde que se casara. Sentia um misto de emoções: medo, ansiedade, excitação... sentia acima de tudo algo que já não sentia há muito tempo: sentia-se viva.

 

✽✽

 

Ele chegou descontraído, sem imaginar que a moça mais bela da pastelaria, era o seu encontro. Julgou ser apenas mais um, não era a primeira vez, por esse motivo não estava nervoso. Vasco era sempre assim, descomplicado, descontraído e até um pouco desleixado com a aparência, tendo em conta que os seus vinte anos há muito tinham ficado para trás. Estaria bem para um miúdo, mas Vasco entrara este ano nos quarenta e para sua mãe, era este desleixo o motivo do seu estado civil: "solteiro e bom rapaz" como orgulhosamente anunciava.

 

✽✽

 

Reconhecendo-o pelo livro que transportava - combinado previamente - Ana acenou-lhe assim que Vasco entrou - tinha escondido o seu, na sua bolsa para que pudesse facilmente esgueirar-se, caso a visão não lhe agradasse -  e convidou-o a sentar-se na sua mesa. Vasco desejou naquele momento, e pela primeira vez, estar mais apresentável, mas também não se deixou afectar por isso.

 

Conversaram alegremente, e quem os visse julgava serem amigos de longa data. Ana continuava a esfregar o pulso. Ana achava Vasco muito atraente, e começou-o a desejar cada vez mais, à medida que conversavam, até que sem rodeios e impulsivamente:

 

- Gostava de ir contigo para um local mais sossegado... - diz-lhe com uma voz sedutora que escondia o medo da rejeição.

- Eu moro aqui perto, queres ir até minha casa? - Diz Vasco admirado.

 

Normalmente era ele que tomava a iniciativa e o facto de não ter sido desta vez, deixou-o com ainda mais desejo. Era inegável que se sentia bastante atraído por esta mulher.

 

E assim seguiram calados o resto do tempo. Estava frio, era véspera de ano novo, e a chuva intensa molhava-lhes o corpo e gelava-lhes os ossos. Nenhum dos dois tinha guarda-chuva. À entrada do prédio, Ana deixou de resistir aos seus impulsos e esqueceu o frio que sentia. Agarrou Vasco ainda no corredor, e começou a despi-lo com fulgor e com uma urgência que só ela compreendia. Vasco não resistiu, meio atónito, mas não resistiu, levando-a para um espaço do prédio que ele próprio desconhecia. A casa das máquinas era um espaço apertado, bafiento, e sem luz natural, perfeito para crimes da alma, carregados de culpa e segredos. E foi ali mesmo, que Vasco suportou Ana no seu colo e a possuiu com a perícia e entrega de quem conhece realmente uma mulher. Ana gemia de prazer enquanto Vasco tentava, sem grande sucesso tapar-lhe a boca para que os gemidos não os denunciassem. Ana sentia o verdadeiro prazer que há muito desejava. Esqueceu inclusive, naqueles instantes quem era, o que ali estava a fazer, qual o seu propósito, pretendendo apenas aproveitar aqueles momentos que sabia que rapidamente passariam. Era hora de aproveitar o seu prazer, finalmente. Podia deixar de fingir, de fazer o que os outros esperavam que ela fizesse. Ali poderia ter o desejo dela sem culpa, sem pressões, sem mentiras nem fingimentos. Os corpos molhados, com paixão, aos poucos aqueciam e o suor que de ambos escorria fazia perceber o calor que os dois corpos continham e que não mais conseguiam suportar.

 

Cansados e extasiados deixam-se cair pelo chão e Ana, pela primeira vez em muitos anos, voltara a rir, a rir verdadeiramente, com sentido e sinceridade. Vasco tentou beijá-la mas Ana recusara amavelmente dando lhe um beijo sincero e carinhoso na face ruborizada.

 

Não sabe quando tempo passara desde que tinham caído os dois no chão. Pareceram-lhe  breves instantes, mas o relógio indicou um tempo mais longo. Apressada, levanta-se e veste-se. O espaço tinha pouca luz e a silhueta de Ana que reflectia nas paredes brancas e sujas fizeram Vasco deseja-la novamente, puxando-a para si. Mas Ana recusa os investimentos do homem que quase implorava pela sua atenção, e despede-se dele, com a certeza que não mais se voltariam a encontrar.

 

Arrependida? Não. Ana tinha perfeitamente consciência do que tinha acabado de fazer e estava feliz, porque naquele crime da alma tinha encontrado novas forças para continuar com a sua vida, à luz dos outros, tão perfeita. Poderia assim voltar para a cama do homem que não lhe provocava qualquer desejo, e para a sua vida que não lhe trazia qualquer felicidade. Mas agora Ana tinha novas forças, novo ânimo. 

 

 ✽✽

 

Estava muito frio, e a neve começou a cobrir as ruas. Era quase ano novo e era altura de regressar para junto do seu marido e filhos, para preparar a ceia que há muito estava programada. Ana estava mais sorridente que o normal, mas ninguém reparou, como era habitual. Ela estava mais bonita, com uns olhos mais brilhantes, mas ninguém reparou, como nunca reparavam. E assim prosseguiu com a vida que escolhera para si e nunca mais falara com Vasco, embora o visse todos os dias nos seus sonhos.

Conto a três mãos - À Tua Espera

E chega assim ao fim, o conto que eu, a FatiaMor e a Língua Afiada escrevemos.

 

Antes de mais quero agradecer às duas meninas por terem embarcado nesta aventura - que no fundo foi - e terem tresloucado como puderam a história da nossa personagem principal, da Ísis. Para quem esperava mais capítulos... lamento, mas há coisas que realmente não é possível prolongar mais, e há finais que quando prolongados demais, ou desviados demais, também perdem o seu encanto. E na minha opinião - que ora bolas, se sou eu que digo será sempre a minha opinião - o final foi simplesmente perfeito e garanto-vos, fiquei de lagrimazita no canto do olho! A vantagem de não se escrever sozinho é esta mesmo, é também nós, os autores, pudermos ser surpreendidos e viver a história como um comum leitor. E eu fui tantas e tantas vezes surpreendida, e isso só foi possível graças às duas outras grandes co-autoras que nunca desiludiram! 

 

E isto é só um post de agradecimento... e já agora, aproveitem para ler e reler. Aqui têm todos os capítulos da história: Treze. Um treze carregado de significado.

 

 

E já sabem: Quem conta um conto... vive uma história, e pronto!

Quem conta um conto #8 - À tua espera - Parte XII

Claro que já todos vocês conhecem a história da Ísis, não é verdade? Como tal, deixo-vos aqui os episódios anteriores, apenas para o caso de sentirem vontade de os reler:

 

 

Estão preparados? Em 3... 2... 1...

 

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Desde a saída de Dinis, que as discussões entre Ísis e Ricardo se tornaram frequentes. Ricardo, sentindo-a cada vez mais distante, cobrava-lhe diariamente o que fizera por eles, como forma de lhe reprimir a intenção de divórcio, que fora diversas vezes evocada em discussões. Cobrava-lhe que fora graças a ele, que ela teve possibilidades para regressar ao trabalho e investir na carreira e tornar-se na designer de sucesso que hoje era. Que fora graças a ele, que Dinis estudou nas melhores escolas do país e que por isso tenha sido um aluno de excelência, a estudar medicina na Califórnia, como Ísis sempre sonhou. Ísis não negava que Ricardo tinha sido um bom pai, mesmo sem a certeza de o ser realmente, que tinha tentado ser um bom marido, mimando-a e esforçando-se ao máximo para que esta o amasse, mas era inegável que Ísis nunca lhe perdoara o facto de este não lhe ter dado outra opção, quando se assumiu como pai sem o seu consentimento, quando assumiu o controlo da sua vida sem que esta assim o desejasse.

 

Ísis que sempre fora muito independente, acabou por ver a sua vida mudar com o coma. Tivera uma recuperação bastante lenta e sentindo-se sozinha com um filho nos braços, não conseguiu pensar na sua felicidade e para dar o que Dinis precisava - estabilidade, amor e conforto - acabou por irracionalmente deixar-se levar por uma vida que não era a sua, por uma vida que nunca desejou. Como tal, deixou-se emaranhar numa vida de mentira, e a cada ano que passava, era mais difícil terminar com aquele casamento, tendo em conta que nunca transpareceram a Dinis as verdadeiras motivações do mesmo. Nunca contaram a Dinis que Ricardo poderia não ser seu pai, mas seu tio, e que toda a vida que conhecia até então era uma farsa. Ísis sempre soubera que daria a vida por um filho, e foi o que inevitavelmente aconteceu, em prole da felicidade do filho, Ísis abdicou da sua e durante 18 anos fingiu importar-se com o dia de Ricardo, fingiu cada sorriso, cada gesto de carinho, cada palavra de amor. Fingiu de tal modo, que com o tempo até começou a acreditar que poderia ser feliz, que poderia amar Ricardo e até tentou perdoar-lhe... tentou... mas nunca conseguiu realmente.

 

Com a saída de Dinis de casa, Ísis percebeu que já não precisava de fingir, que aqueles 18 anos de dedicação à família, tinham sido paga suficiente pelo que Ricardo fizera por eles, e claro está, o facto de Ricardo se ter tornado cada vez mais arrogante e distante também influenciou na sua decisão: Estava na altura de seguir com a sua vida, de lutar para voltar a ser a Ísis jovem, determinada e sonhadora que fora até então. E nessa noite tentou buscar algumas respostas na chama da lareira, que outrora fora sua confidente. Ísis deixou de ter dúvidas: "Perdi 18 anos da minha vida, e não perderei nem mais um segundo", pensou em voz alta. Fez as malas e saiu de casa. Passou primeiro no emprego, despediu-se e decidiu regressar a Portugal.

 

 

André nunca imaginara ser possível olhar para Inês como se fosse sua filha, quando se lembrava de Maria e de tudo o que esta lhe fizera perder, sentia ódio e temia que esse ódio fosse transferido para aquela bebé que até então não lhe dizia nada e que tanto se parecia com a mãe. No entanto, ao segurar nos braços pela primeira vez aquele ser tão aparentemente frágil, todo o rancor que sentia se desvaneceu, e deu por si a verter uma lágrima de felicidade, qual pai na zona de partos a segurar a sua filha pela primeira vez. "Vais estar no topo das minhas prioridades Inês, desculpa achar que não te poderia amar... mas eu amo... eu amo muito. Tu és e serás sempre minha filha! Minha bebé!" Dizia André lavado em lágrimas num misto de felicidade e angústia, receando não estar preparado para ser pai solteiro.

 

De volta a Paris, os primeiros tempos não foram fáceis, embora tendo a ajuda da sua amiga Catarina na parte da gestão da galeria, a sua vida passou a ser dividida entre reuniões e mudas de fraldas, até que ano depois, estando exausto, acabou por contratar uma babysitter. Claire, era uma viúva francesa, na casa dos 60 anos, reformada do ensino primário, sem filhos, que via naquela menina a possibilidade de ser avó. Claire viu Inês crescer, e tornar-se cada vez mais bonita a cada dia que passava. No dia que Inês fez 5 anos, e vendo que Claire passava cada vez mais tempo em sua casa. André fez-lhe uma proposta:

 

- Espero não ofendê-la com a minha proposta... - começa André - mas... A Claire sabe que eu gosto muito de si. Que vejo em si a mãe que há muito já não tenho. E também por tudo o que tem feito por nós... por mim e pela Inês. No fundo será a mesma coisa, porque a Claire passa muito pouco tempo em sua casa, e a sua casa é tão grande...

 

- Vá menino André, vá lá directo ao assunto... - resmunga.

 

- Sabe que a galeria está a crescer a olhos vistos e que vamos abrir uma nova galeria em Toulouse, e vou precisar mais de si do que nunca... e que tal vender a sua casa, uma vez que nem tem herdeiros, mudar-se cá para casa e olhe... aproveitar o dinheiro para viver a velhice...

 

- Está a falar a sério menino André? Nem sabe como me deixa feliz... aquela casa é realmente demasiado grande e lembra-me demasiado o Jean... e em como fomos felizes naquela casa. Mas não podemos ficar presos ao passado, não é verdade? Terei todo o gosto, e assim sempre estou mais perto da menina... ai que ela está cada vez mais bonita, é mesmo parecida consigo!

 

André sorriu e percebeu que guardou tão bem o seu segredo, que até ele próprio se esquecera não ser verdadeiramente seu pai. Entretanto Inês aparecera na sala, onde estavam e este corre para lhe dar um abraço tão profundo, agradecendo a família que possuía naquele momento.

 

Treze anos se passaram desde então. Claire agora com 77 anos, encontrava-se um pouco debilitada, e era Inês, com 18 anos que cuidava da mesma, como se de uma verdadeira avó se tratasse, a única que conhecia na realidade. Mesmo tendo conseguido organizar a sua vida, e conseguindo dar conta da gestão familiar, André cuidou sempre de Claire que passou a fazer parte da sua família. Até que esta, numa madrugada de inverno, sofre uma paragem cardíaca e acaba por falecer no hospital.

 

Com a morte da sua Avó Claire, Inês toma uma decisão:

 

- Pai, gostava de ir a Portugal conhecer os avós...

 

- Não estou a perceber... - responde André, baralhado.

 

- Algum dia teria de ser... acho que está na altura.

 

- Talvez um dia Inês, mas preciso de tempo. Sabes que os teus avós maternos nunca quiseram saber de nós, realmente, e os meus pais... sabes que é um caso complicado. 

 

A verdade é que André cortou radicalmente os laços com a família, e apesar desta ter tentado por diversas vezes contactá-lo para lhe pedir perdão, este nunca mais regressou a Portugal. André não conseguia perdoar os pais. Não por estes terem ficado do lado de Maria aquando do divórcio, que isso ele compreendia, mas porque no dia do casamento de Ísis e Ricardo, estes o terem impedido de falar com Ísis de modo a impedir o casamento, e por lhe terem ocultado que Ísis tinha tido um filho de Ricardo. Todos estes anos André sentiu-se traído pela família, pelo irmão, pela mulher da sua vida.

 

- Sim pai, sei que te impediram de ficares com a mulher que sempre amaste. Mas está na hora de seguires em frente... já se passaram mais de 18 anos, acho que está na altura de voltares a amar...

 

- Tu é que és o amor da minha vida, filha!

 

- Oh pai! - beija-o - eu já não sou pequena, vou acabar por seguir com a minha vida... um dia caso-me e... e... eu não quero que acabes sozinho como a Claire...

 

- Oh meu amor - abraça-a forte - Tu vais sempre ser a minha bebé, e a única mulher da minha vida. - desconversa. 

 

André contara a Inês, quando era pequena, vezes sem conta a sua história de amor com Ísis. Esta nunca compreendeu muito bem onde entrava a sua mãe nesta história, mas como André não gostava de falar sobre isso, Inês também nunca insistira. Por outro lado, André dizia a Inês vezes sem conta que Maria era linda, e como ela tinha herdado a beleza da mãe, nunca lhe contara que se quis divorciar desta, e o que esta lhe tinha feito, preservando a memória de Maria. Não valia apena tentar manchar a memória de alguém que já não se pode defender, e isso também não iria mudar nada.

 

Como André ficou triste, Inês conforta-o, pedindo-lhe para pensar no assunto, mas para não se apoquentar com ele, que tinham tempo para decidir. Nesse preciso momento o telefone toca: O pai de Maria estava muito doente, e pedia a André para levar Inês a Portugal uma vez que não gostaria de morrer sem conhecer a neta. André não teve como não aceder ao seu pedido. A verdade é que, se por um lado nunca quiseram saber deles, por outro foi esta indiferença que o permitiu trazer Inês para Paris sem problemas e sem lutas nos tribunais e não poderia impedir Inês a oportunidade de ela conhecer o avô materno.

 

- Vá Inês, parece que as tuas preces foram ouvidas, faz as malas, vamos para Portugal...

 

- Mas... o que é que aconteceu??? - pergunta assustada.

 

- Explico-te pelo caminho.

 

Dirigem-se para o aeroporto e apanham o primeiro avião para Portugal. Durante a viagem foi impossível não pensar em tudo o que deixou para trás em Portugal, era impossível não pensar em Ísis, e até parecia que a sua mágoa se desvanecera com o tempo.

 

Já em Portugal, André apresenta os avós maternos a Inês, e o seu avô vê o seu desejo concretizado, morrendo umas semanas mais tarde. Ao fim de um mês, André começa a ser pressionado pela filha para conhecer os seus pais, mas este ainda não se encontra preparado, adiando o regresso a Paris por mais umas semanas.

 

Foram 18 anos longe do seu país natal, longe da palavra saudade, longe dos seus pais, dos seus amigos de infância. Saudoso, decide vaguear pela cidade e não poderia deixar de ir à estação de comboios, onde tantas vezes esperou por Ísis, ainda muito antes de imaginar que esta seria o grande amor da sua vida. Sentou-se na estação por várias horas. Viu comboios a chegar, comboios a partir. Viu jovens namorados a despedirem-se, a cumprimentarem-se, viu famílias a deixar os filhos, outras tantas à espera dos que chegavam. E não pôde deixar de recordar tudo o que viveu e de sentir saudade. Riu-se sozinho, e agora sentindo-se mais velho, pensou o que teria acontecido se a sua timidez não tivesse levado a melhor e se se tivesse apresentado a Ísis assim que sentiu essa vontade. Reparou também que nesse dia a sua avó faria anos se fosse viva... e que foi neste preciso dia há 19 anos atrás que conheceu, finalmente Ísis. Voltou a esboçar um sorriso.

 

 

Ísis, numa tentativa louca e inconsciente de ver André, decide vir para Portugal, de comboio, e 3 horas depois da sua decisão e de malas em punho, chega a Gare du Nord, em Paris. Como se de uma cidade pequena se tratasse, vagueou pelas ruas de Paris de olhar atento em busca dos olhos verdes que sempre lhe ficaram na memória. Por momentos esquecera-se do motivo que a levara a nunca mais ter procurado André, da raiva que lhe tinha por este a ter trocado por Maria, da raiva e confusão que sentiu quando Ricardo lhe contara que este a tinha abandonado com Inês nos braços, prematura. Toda aquela história nunca lhe fizera sentido, mas os seus sogros sempre a confirmaram... A desilusão que André lhe provocara fora sem dúvida, maior que o amor que sentira por este, mas hoje, mais velha, já não sentia rancor, sentia apenas tristeza e saudade e quando deu por si, estava no interior de uma das galerias de André. Vendo-a perdida e carregada de malas - algo pouco habitual nas visitas às galerias - uma funcionária, jovem e elegante, aproxima-se:

 

- Je peux vous aider? - pergunta com ar simpático e acolhedor.

 

E foi quando Ísis caiu em si, que não poderia simplesmente tentar voltar ao passado, que provavelmente André seguiu com a sua vida, casou, e que já nem se recordaria dela. Pediu perdão e saiu da galeria em passo apressado. Nessa noite dormiu num hotel perto do aeroporto e ligou à sua amiga Patrícia, e avisou-lhe da sua chegada a Portugal no dia seguinte. Ísis e Patrícia há muito tempo que não se falavam, mas as grandes amizades são as que perduram no tempo mesmo sem as palavra e como tal, quando Ísis chegou a Lisboa, lá estava Patrícia à sua espera de braços abertos e de sorriso rasgado no rosto.

 

- My Darling!!!! - Grita Ísis enquanto corre para os braços da amiga - que estás tu, aqui a fazer?

 

Ísis contou tudo à amiga, que há 10 anos deixara as Caldas da Rainha e vivia agora em Lisboa.

 

- Parece que não foi só a minha vida que deu uma grande volta... Tu nunca gostaste de Lisboa, que estás aqui a fazer?

 

- Acho que sabes que nem sempre as coisas são como nós queremos, e a sede da minha empresa mudou para aqui... Era mudar-me ou ficar desempregada...

 

Ísis contara-lhe toda a sua vida com Ricardo, como este se tinha tornado arrogante, que nunca o conseguira perdoar e que nunca fora feliz. Mostrou-lhe fotos do Dinis, falou dele com todo o seu orgulho e remata:

 

- Mas faria tudo novamente! Fiz tudo isto pelo meu filho, e pelos filhos fazemos tudo! Mas ele agora seguiu com a sua vida, e está na hora de eu seguir com a minha! - conclui

 

- E como está a reagir o Ricardo à tua partida?

 

- Ele... eu... hmmm... eu não lhe disse nada, peguei nas minhas coisas e vim embora, ele não sabe onde estou, e por agora não quero que ele saiba.

 

- Então?! Mas... e ele está onde? - pergunta Patrícia baralhada.

 

- Ele foi numa viagem de "negócios", diz ele... e só volta para a semana, até lá ganho tempo para saber o que vou fazer com a minha vida.

 

- E vais regressar às Caldas?

 

- Apesar de ter 45 anos, preciso do colo da minha mãe... estou cheia de saudades dos meus pais, já cá não vínhamos há imenso tempo, que com o tempo o Ricardo foi-se tornando cada vez mais preguiçoso, e era cada vez mais raro virmos a Portugal... e eu preciso dos meus pais... - e agarra-se à Patrícia a chorar.

 

- Precisamos sempre dos nossos pais... Ficas cá esta noite? Fica em minha casa.

 

- Não Patrícia, eu vou hoje apanhar o comboio para as Caldas, mas eu volto, eu não quero que os pais do Ricardo saibam que eu estou cá... Para a semana tenho abrigo no teu lar?

 

- Claro que sim, minha querida! Vá, então, levo-te a Entrecampos. - abraçando-a uma vez mais.

 

Quando Ísis entra no comboio olha atentamente para o bilhete, e olhando para a data sorri. Lembrava-se bem do que tinha acontecido à 19 anos atrás. Na viagem recorda a sua juventude. Lembra-se dos tempos da faculdade, das dificuldades que teve em arranjar emprego na sua cidade, das amigas que deixara para trás, e nem deu pelo tempo passar. Após as 2 horas de viagem, ouviu a sua estação de destino ser anunciada e quando saiu do comboio e olhou para a estação, nem queria acreditar no que os seus olhos viam: o rapaz de olhos verdes e jeans, como sempre de olhar atento na estação. Por momentos, Ísis voltou a ter 25 anos e o rubor da face deixava transparecer que a sua timidez ainda fazia parte da sua personalidade.

 

 

Então Fatia, como é que é o reencontro? Apaixonado ou frio? Ou não há afinal reencontro algum? Agora é contigo! ;)

 

E então, Língua, fui ao teu encontro?... ou... nem por isso?

O que fazer?!

O que fazer quando o tempo simplesmente pára, e apesar de sentirmos o cansaço de horas, apenas se passaram alguns minutos? E o que fazer quando esse tempo anda contra nós, ou nós contra o tempo, que é basicamente a mesma coisa?

 

E quando descobrimos que o actual não nos satisfaz? E quando percebemos que a rotina destapa o pior dos outros e esse pior não nos apaixona? E quando descobrimos que fazemos mais do que os outros fazem e/ou fariam? E quando descobrimos que queremos mudar? E o que fazer quando queremos mudar mas não queremos abrir mão do que já temos? E o que fazer quando sozinhos não temos forças para mudar? E o que fazer quando os outros não querem saber destas merdas e merdinhas?

 

Pois não sei...

Quem conta um conto #8 - À tua espera - Parte IX

Pois é... e o destino da pobre moça, da Ísis continua por se decidir... será que é hoje? Com quem vai ficar a Ísis? Veremos... veremos!...

 

Para quem quer rebobinar um pouco, ou ler do início, aqui estão os capítulos anteriores:

 

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Também André nunca mais soube do paradeiro de Ísis, e como não queria magoá-la, também nunca a procurou. Sabendo que Maria vinha de uma família conservadora, apressou o casamento antes da barriga se começar a notar. Numa festa intimista, que reuniu apenas os familiares mais próximos, deram o nó. André não estava feliz, mas o carinho que sentia por Maria fez com que tentasse disfarçar os olhos verdes lacrimosos. Os pais, orgulhosos da sua atitude, perdoaram-no e tudo voltou a ser como antes. Estava novamente junto com Maria, tinha novamente o apoio dos pais, e continuava de costas avessas com o irmão Ricardo, mas isso, já era algo normal.

 

André prosseguiu com a sua vida, resignado. Tentou umas semanas mais tarde ligar a Ísis, apenas para ouvir a sua voz, mas sem coragem, desligou mesmo antes desta atender. Não imaginava que Ísis estava grávida, muito menos que poderia estar grávida dele, que poderiam construir uma família com base na união e cumplicidade, em vez de ter como base um filho e uma mentira.

 

Maria, tendo arranjado um pai para o seu filho, continuou a encontrar-se com Roberto, que apesar de recusar o filho que esta carregava, a continuava a ver como uma queca fácil, e esta, inocente e com as promessas de "quem sabe um dia" continuou sentimentalmente envolvida com ele.

 

Estava ela já grávida de 30 semanas, quando decidiu que queria ser feliz, e que André, apesar de tudo a podia fazer feliz. Decidiu assim empenhar-se no seu casamento e decidiu preparar um jantar especial para os dois. Coloca no forno o seu pedaço de carne favorito, cuidadosamente temperado, e subiu ao andar de cima, ao escritório, para escrever um e-mail a Roberto a terminar a relação que tinha com este.

 

 

 Meu amor,

 

Amo-te como nunca amei ninguém, sempre que olhar para a nossa filha, que irá nascer, irei lembrar-me de ti. Aliás, ter este filho é como ter-te para sempre. Mas decidi que quero ser feliz... Não me procures mais, por favor, se não, serei obrigada a falar com a tua mulher e contar-lhe o que se passa.

 

Com amor...

Maria

 

 

Entretanto, cheirando-lhe a queimado, apressa-se a desligar o forno e retirar o pato que lá assava. De repente, umas fortes dores de barriga, fazem Maria encolher-se no chão da cozinha. Nesse preciso momento entra André, que vendo-a ali no chão deitada, apressa-se a socorrê-la. Apercebe-se que Maria está com uma hemorragia e leva-a de imediato para o hospital.

 

André anda de um lado para o outro nervoso, sem receber notícias do estado de saúde da esposa. Até que encontra um médico:

 

- Doutor, já há alguma novidade?

- A sua mulher entrou em trabalho de parto...

- Como em trabalho de parto? - Continua André - ela só está grávida de 30 semanas...

- Não se preocupe André, vamos fazer os possíveis para que corra tudo bem...

- Eu preciso de ver a minha mulher.

- E eu preciso que vá a casa buscar a mala da maternidade, que espero já estar preparada para a sua bebé... não pode ver a Maria agora. Vá para casa. Tenho confiança na minha equipa médica e vai correr tudo bem.

 

Mesmo refilando, André vai para casa, e vai buscar a mala da maternidade. Antes de sair de casa, passa apenas pelo escritório para enviar um e-mail de trabalho que se tinha esquecido. Senta-se à secretária e nem queria acreditar no que os seus olhos viam. Maria, com a pressa, pelo cheiro a queimado, esquecera-se de enviar o e-mail e este ficara aberto em primeiro plano, no cabeçalho do remetente estava escrito o e-mail de Roberto, não havia margem para dúvidas.

 

André fica baralhado e descompensado -  que por Maria perdera o amor da sua vida - vai à maternidade, deixa a mala da menina que estaria a nascer naquele preciso momento, e sem querer ver a mulher, pega no carro sem destino. Desesperado pára junto à praia, o seu local favorito, e procura no brilho do mar alguma solução.

 

A sua primeira reacção foi ligar a Ísis, pedir-lhe perdão e pedir-lhe para se encontrarem... Mas Ísis não atende... Depois André cai em si, não poderia esperar que Ísis o atendesse, ao fim de tantos meses sem nada saber dela.

 

Quando Maria acorda, já com o bebé nos seus braços, encontra uma carta de André a contar-lhe o que tinha descoberto, e que a partir daquele momento o seu advogado iria entrar em contacto para tratarem do divórcio, pediu-lhe para nunca mais o procurar, e que nunca seria capaz de lhe perdoar o que esta lhe fizera.

 

Maria conhecia bem o temperamento de André. Sabia que não adiantaria implorar-lhe por perdão. André diz-lhe ainda que se ela procurava apenas um nome, que ele lhe daria um nome, que a menina não tinha culpa de ter dois pais completamente inconscientes e que estava disposto a assegurar-lhe o futuro, mas que ela, dele nunca teria nada. Desse modo, no divórcio, tudo o que ela tivesse direito iria ter de ser colocado no nome da bebé, caso contrário os pais da jovem saberiam de toda a confusão onde ela estava envolvida.

 

Nas semanas seguintes, ninguém sabia nada de André, que uma vez mais voltou a ter a família contra si, porque na perspectiva dos mesmos, André tinha abandonado a mulher com uma filha recém-nascida, prematura, nos braços. André também não se preocupou em dar qualquer explicação.

 

André solteiro, a pensar em como estaria Ísis, e esta em Londres a refazer a sua vida da melhor maneira que conseguiu. Ísis estava neste preciso momento com 37 semanas de gravidez a tentar traçar um futuro a longo a prazo e André a apanhar um avião de regresso para Paris.

 

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Língua, acho que o destino da Ísis não está nas minhas mãos!

 

Cumékeé Fatia? O destino da moça azarada está nas tuas mãos... e acho que a malta quer saber o que lhe vai acontecer! ^_^

Quem conta um conto #8 - À tua espera - Parte VI

Tudo começou com um simples conto, pequeno, com um princípio, um meio e um fim. Desafiei a Língua mais Afiada do Sapo - que teremos o prazer de conhecer melhor na sexta-feira, na rubrica Na Cama com da nossa querida Fatia Mor - a dar seguimento ao conto e a mesma aceitou. Desde então que o conto tem sido escrito e reescrito por três maravilhosas pseudo-bloguers e a salada russa instalou-se. Pobre Ísis - e agora que penso nisso, que raio de nome lhe fui dar... ainda vai ser exterminada por um avião russo! - que desde que lhe andam a mexer e a remexer na vida nunca mais teve descanso.

 

Podem ver os capítulos anteriores aqui:

 

Quem conta um conto.jpg

 

Ísis acorda já no hospital com Ricardo ao lado dela agarrando-lhe a mão, carregado de preocupação. Entretanto entra o médico e confirmando que Ricardo era apenas um amigo, pede-lhe para sair para falar com Ísis.

 

- Temo que vá dar-lhe uma má notícia.

 

- Diga doutor...

 

- Temo que vá ter de abrandar o ritmo que a sua gravidez é de risco.

 

- Qual gravidez, doutor? Deve existir algum engano, eu não estou...

 

- Está grávida de 7 semanas e arrisca-se a perder o bebé.

 

- Mas... - remata baralhada - eu continuo com menstruação regular, eu não...

 

- Às vezes acontece. Deve abrandar o ritmo. A menos que queira pensar noutras hipóteses, está dentro das 10 semanas... Se quiser marco-lhe uma consulta com a psicóloga para a ajudar a tomar uma decisão.

 

- Não! Nunca colocaria essa hipótese!

 

- É como quiser, agora vou deixa-la descansar, e já sabe, nada de esforços nem stress, se quer que este filho nasça saudável vai ter de começar a pensar nele. Quer que ligue a alguém?

 

- Não, doutor, obrigada.

 

Com a saída do médico, Ricardo entra ansioso para perceber o que se passa.

 

- Que tens Ísis? Estás bem? É alguma coisa grave?

 

- Calma Ricardo, pára lá com tanta pergunta... Está tudo bem, é só stress. Tive uma crise de ansiedade e isto já passa, nada que uns dias de repouso não resolvam. - tranquiliza-o.

 

Ísis não podia simplesmente contar a verdade, precisaria primeiro de perceber o que iria fazer. Quando dois dias depois recebeu alta, foi para casa descansar. Mais relaxada e com um novo objectivo de vida olhou para a sua vida dos últimos anos. Pensou em tudo o que lhe tinha acontecido. Pensou em André e não conseguia perdoar a desilusão que este fora, não compreendia como é que em pleno século XXI um filho ainda poderia ser motivo de amarração de um casal e como tal, decidiu não lhe contar. Ainda pensou que até poderia ser uma maneira de ele poder reconsiderar e ficar com ela, mas não, ela não lhe iria pedir uma coisa dessas, não se iria humilhar por um homem que já provou não a merecer. Olhou para a sua vida e concluiu que precisava de um novo recomeço. Liga a Patrícia para contar a novidade.

 

- Como vais para Londres? - inquire Patrícia admirada - Assim de repente?

 

- Não é assim de repente, Patrícia... Sabes perfeitamente que sempre tive essa vontade. Lá há mais oportunidades e lá na redacção já não me motiva. Preciso de algo mais desafiador. - disfarça.

 

- Ísis, o que tu estás a fazer é FUGIR! Tu estás a fugir, não estás a tomar uma atitude sensata, com consciência, não podes largar toda a tua vida, tudo o que tu construíste aqui, apenas porque o teu namorado decidiu ter um filho com outra e seguir com a sua vida. O que tu tens de fazer é exactamente o mesmo, seguir com a tua vida.

 

- É isso que eu vou fazer Patrícia... seguir com a minha vida. Eu não vou reatar com o Ricardo, eu não gosto do Ricardo! - argumenta.

 

- Quem falou em Ricardo? Eu não... ouviste-me a falar no Ricardo?! Há mais homens nesta terra, mulher, e tu não és propriamente a Cayetana Stuart, tu és linda!

 

Ambas riem.

 

- Não é isso, Patrícia. Eu não... eu não quero, para já, pensar em homens, decidi que é tempo finalmente de viver a minha vida...

 

- Tudo bem... mas que seja por isso mesmo minha querida! Não fujas, eu não iria aguentar que fosses embora por estares infeliz!

 

- Não estou infeliz, acredita, não estou!

 

Ísis disse aquelas palavras com tanta convicção que até ela acreditou no que ouviu, e foi nesse preciso momento que realmente percebeu que aquela criança que gerava dentro de si vinha mudar tudo. A amiga saiu, Ísis sorriu, sentiu um calor enorme dentro de si, e começou a chorar, só que desta vez as lágrimas não eram de tristeza, chorava de felicidade, porque só agora compreendia realmente o que o médico lhe tinha dito "se quer que este filho nasça saudável vai ter de começar a pensar nele" e ela estava a pensar nele, e sentia uma alegria profundamente sincera por pensar nele, ou nela, que ainda não tinha pensado muito no sexo do bebé.

 

Ísis há muito que desejava ser mãe, só que ainda não tinha sentido que o momento certo tinha chegado. Concluiu o que há muito lhe diziam, que o momento certo nunca chega. Apressou-se a ir ao médico, a fazer todos os exames necessários e após confirmação da médica que poderia viajar, Ísis fez as malas, e sem contar a ninguém da sua gravidez, recomeçou a sua vida em Londres.

 

Despediu-se de Ricardo, pedindo-lhe perdão por nunca o ter conseguido amar como devia, e por não o ter respeitado como ele merecia, e mesmo ele dizendo-lhe que a perdoava que estaria disposto a tudo para a conquistar, Ísis lamentou, mas que nada a demoveria da sua decisão de sair do país em busca do seu rumo.

 

Os primeiros meses em Londres, foram fantásticos, após bater a algumas portas com os seus trabalhos, a sua fama de designer rapidamente se espalhou pela cidade, e arranjar trabalho não foi difícil. Alugou um estúdio pequeno, a 20 minutos do coração de Londres, e em dois meses apenas, sentiu aquela cidade como sua. Com a sua capacidade de comunicação e simpatia, rapidamente fez amigos e a sua casa e vida nunca estava vazia. Aos 6 meses conseguiu finalmente perceber o sexo do bebé e sabia que carregava um menino. Tudo corria bem, até que percebeu que existia um problema: A criança tinha de ter um pai... quanto mais não seja no cartão de cidadão. E agora?

 

E agora... Voltará a Ísis para Portugal? Encontrará o amor em Londres? Arranjará apenas um nome e não um pai para o seu pilas? Pois muito bem... Agora... a Fatia Mor é que sabe... por isso, olhem... perguntem-lhe!

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos. Mais do que um blog, são pedaços de uma vida.