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Desabafos da Mula

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos.

Desabafos da Mula

Lutar contra o excesso de peso #8

 

Os números da balança continuam a descer.

 

Confesso que há dias, quando subo à balança, que até me dá vontade de chorar por saber que as coisas têm corrido tão bem, apesar das facadinhas. Faltam menos de duas semanas para a próxima consulta, queria perder mais dois quilos até lá e ando motivada. Vamos ver como corre.

 

Até à próxima consulta, tenho dois dias de detox, por semana. Os dois dias de detox da semana passada correram muito bem, 800g em dois dias foram-se. Não, não ando a batidos o dia todo ao contrário do que possam imaginar mas nesse dia tudo o que é massa, arroz, batata e pão é excluído da dieta. Em compensação privilegia-se as proteínas e claro está, os legumes e frutas. Apesar de não passar propriamente fome, porque todos os lanches permanecem nos mesmos horários - ainda que diferentes - não vos vou mentir, fazer dias de detox não é fácil, senti uma grande falta de energia e andei com sono o dia todo, essencialmente no primeiro dia, em compensação não fiquei com vontade de comer este mundo e o outro, que era o que eu mais temia. Só o jantar é difícil. Beber um batido ao jantar - podia ter optado por sopa, mas sopa no verão... ai é difícil - é muito pouco, e acabei a comer uma fatia de bolo e beber um chá antes de ir para a cama num dos dias. Consigo fazer muita coisa nesta vida, mas dormir de estômago vazio não é uma delas.

 

Por livre e espontânea vontade deixei o drenante. Não que me estivesse a fazer mal, mas acabou e como entretanto fiquei doente e tive medo de continuar a tomar juntamente com a medicação, acabei por adiar a compra até que percebi que o meu organismo deixou de ser preguiçoso e continuo a beber água e a ir à casa de banho como se não houvesse amanhã. Ora, se bebo água, se a expulso e se perco peso, acho que está na hora de me manter sem o drenante mais uns tempos. Se é para fazer detox vamos lá expulsar tudo o que é extra desta vida.

 

Fazer dieta não é fácil, o mundo está cheio de tentações, mas a verdade é que está a ser mais fácil do que imaginaria que fosse ser. Não estou a ser maníaca, e há dias que como o que me apetece, esta semana até comi uns quadradinhos de chocolate, mas há vários meses que não como hambúrgueres no pão, nem pizzas, nem francesinhas, em compensação há domingos que perco a cabeça com o pão, como o domingo passado e descobri que esses dias não trazem um mal tão grande ao mundo, que é possível compensar.

 

Aprendi também a controlar-me com as sobremesas. Consigo ter gelados dos que gosto em casa - daqueles bem cremosos - e comer só um pouco. Consigo fazer uma sobremesa e comer só um pouquinho. Consigo abrir uma tablete de chocolate e comer um ou dois quadradinhos só. Acho que esta é a maior vitória. Quanto mais natural este modo de vida se tornar mais fácil será de controlar o peso no futuro.

 

A minha maior dificuldade ainda são as bebidas alcoólicas. No inverno será mais fácil porque opto quase sempre pelo vinho tinto - mas que no verão não me sabe bem - mas no verão tenho uma grande preferência por cerveja e sidra e são tão, mas tão calóricas.

 

A minha maior aliada é a balança. Peso-me todos os dias duas vezes ao dia - de manhã ao acordar, e outra ao deitar - e sei exatamente a variação que é suposto o meu corpo ter. Isto permite-me ir controlando o inchaço do corpo: atualmente à noite peso mais 800g do que de manhã, o que significa que incho 800g por dia, imagino que isto com o tempo poderá reduzir. Quando cometo um excesso ou um erro alimentar - acreditem que são situações diferentes -, consigo perceber ao deitar e isso permite-me corrigir com as refeições do dia seguinte. Estarão agora certamente a pensar que vivo obcecada com a balança, mas não vivo. Mas foi a total ausência de uma na minha vida, durante tantos anos, que me levou ao peso que hoje tenho, por isso acho que posso, e devo, usá-la em minha vantagem e não contra mim. Claro que ela por vezes magoa-me os sentimentos, mas todas as relações desta vida têm os seus dias difíceis.

 

No fundo isto das dietas só tem um ponto negativo: prejudicam a conta bancária... As calças estão a começar a ficar-me largas!

Infância

Quando era Mula pequena brincava na rua e corria pelas eiras esfolando constantemente os joelhos. Catava silvas à procura de amoras, as silvestres sempre foram as minhas favoritas. Comia gelados de gelo de groselha feitos pela mãe. Andava de bicicleta e caía constantemente esfolando cotovelos. 

 

Quando era Mula pequena brincava cá fora, corria na chuva, chapinhava na lama e no verão aguentava a água fria do mar e a areia escaldante nos pés sem me queixar. 

 

Quando era Mula pequena só queria brincar, esquecia-me até de comer. Fazia fitas para me deitar cedo e gostava de adormecer com a mãe no sofá enquanto víamos filmes até tarde. 

 

Fui criança na minha infância. Acho que agora as crianças já não sabem o que é ser criança... Fui criança e fui feliz!

 

Bem sei que se mudam os tempos, mudam-se os passatempos, mas será que as de hoje poderão dizer o mesmo? 

Dia Mundial da Fotografia

 

 

Sou uma apaixonada por fotografia.

 

Agora com o smartphone tornei-me mais preguiçosa - tenho apenas um Huawei que me permite fotografias banais - e infelizmente já não ando sempre com a máquina em punho e por isso raramente tiro fotografias com a qualidade devida, daquelas que eu digo e me admiro "porra, fui mesmo eu que tirei?", porque há um anos, só ele tirava fotos de apaixonar. Tudo o que sei de fotografia ao Mulo devo, ainda que muito antes de o conhecer já gostava e já tinha a minha máquina de rolo da Olympus que sempre me acompanhava, que a mãe me ofereceu quando passei para o 5º ano.

 

Mas a verdade é que para mim fotografia era pegar na máquina, apontar e disparar. E é tão mais que isso... Hoje em dia sei bem que é muito mais que isso.

 

À medida que fui aprendendo novas técnicas tornei-me mais exigente com as fotografias dos outros. Passei a reparar em pormenores que até então não reparava - tipo fotos inteiras com os pés cortados... tiram-me do sério. Não sou, no entanto, a pessoa mais indicada para tirar planos direitos. Aliás é fácil de perceber quais são as minhas fotos e as do Mulo na mesma máquina, é que as dele estão sempre muito alinhadas, muito perfeitas e as minhas têm sempre uma ligeira inclinação para a direita, vá-se lá saber porquê - terei algum problema na mão direita?

 

Com o telemóvel acabamos por regredir um pouco, acaba por ser novamente apontar e disparar, mas o facto da fotografia ficar logo ali à mão para utilização é um charme ao qual não consigo resistir...

 

A foto ali em cima, e que há pouco publiquei no instagram é uma daquelas fotos por acaso. Encontramos este spot enquanto procurávamos um restaurante, e apesar de não termos o tripé connosco tínhamos mesmo ali um muro que nos auxiliou. É o que eu chamo de astros alinhados com os meus, adoro quando isto acontece.

 

A verdade é que adoro fotografia, qualquer tipo de fotografia: boa ou má, com qualidade ou sem, mas que seja verdadeira - não sou fã de fotomontagens e o instagram está carregadinho delas - porque fotografar é captar um momento que será guardado para recordarmos mais tarde. E eu adoro boas memórias, por isso faço por fotografar só coisas boas! Como esta vista: é uma vista deliciosa que me lembra bons momentos passados nesta cidade.

 

Fotografem muito nesta vida, porque um dia poderão recordar com outro tipo de clareza os bons momentos que viveram, quem foram e o que fizeram.

Vamos normalizar o beijo?

 

Sobre o beijo:

 

De acordo com a Priberam, o beijo é nada mais nada menos que um "toque de lábios [hoje em dia e felizmente, com mais cara que lábios] pressionando ou fazendo leve sucção [WHAT???] geralmente em demonstração de amor, gratidão, carinho, amizade, etc. [sendo tantas vezes usado como cumprimento por cortesia e educação]".

 

O beijo romântico é certamente usado por todos de mais ou menos igual forma, com mais ou menos envolvimento, com mais ou menos saliva, mas é relativamente igual. Como saudação, certamente saberão que é diferente em vários países.

 

Agora imaginem um casamento com Belgas, Luxemburgueses, Portugueses e outras tantas nacionalidades que me passaram despercebidas, cuja cultura do beijo é tão diferente. Agora imaginem uns a darem apenas um beijo, outros dois, outros três beijos, e outros apenas apertos de mão. Sabem lá vocês a ginástica que fiz com o pescoço e as vezes que nunca acertei com o número de beijos que ia receber de cada pessoa! Imaginam o desconforto? A sensação de embaraço? Acabavamos sempre a rir. Culturas diferentes, mas a mesma boa disposição da Mula, valha-nos isso.

 

Porquê complicar? Vamos normalizar o beijo?

 

De acordo com a visão da Mula: Um é pouco, três é demais. Quem concorda comigo que dois é perfeito? Um para cada bochecha e fica toda a gente feliz.

Coisas que me deixam com os nervos em franja

Pessoas que acham que o mundo gira em torno das suas convicções:

Cliente: A sério que o seu colega não podia esperar mais cinco minutos? Parece que estão sempre com pressa para ir embora!

Mula: O colega tem um horário de trabalho e cumpriu-o... O senhor é que deveria ter chegado mais cedo.

Cliente: Eu toda a vida trabalhei horas extras sem receber um cêntimo e nunca me queixei! Se eu fosse patrão do seu colega, comigo ele não levava subsídio nenhum!

O cliente disse que nunca se queixou por não ter recebido horas extras, mas a mim pareceu-me este desabafo um certo queixume. 

 

E já agora... Qual seria o subsídio que ele não pagaria ao meu colega? O de refeição que é obrigatório por lei? O de férias obrigatório por lei? Ou o de Natal obrigatório por lei?

 

Só sei que o país está como está, devido a pessoas como este senhor: que acham que deveria de ser obrigatório trabalhar para além da hora e trabalhar para além da hora sem receber, para que depois existam pessoas como este senhor que possam não cumprir de todo um horário, porque neste mundo devem existir trastes, meros empregados para servirem pessoas que se julgam mais importantes que os demais.

 

E eis que a Mula ganhou mais alguns cabelos brancos!

Lutar contra o excesso de peso #7

 

Na quinta-feira foi dia de pesagem. Após um casamento, um dia seguinte de puro deleite e após uma semana de baixa. foi dia de pesagem. Ou seja, após passar duas semanas a comer muito e a mexer-me pouco foi dia de pesagem. Tinha tudo para correr mal, terrivelmente mal.

 

Antes do casamento tinha perdido meio quilo, apesar de estar de baixa e de me mexer muito pouco, e apesar de ter cometido algumas facadinhas na dieta, a verdade é que consegui perder algum peso, no entanto no casamento de terça-feira tenho noção de que recuperei tudo o que perdi, e a balança não o negou.

 

Eu conhecia as regras para sobreviver a um casamento:

  • Bebidas: preferencialmente água, mas podia ser um copo de vinho ou coca-cola zero. Apenas uma ou duas bebidas brancas.
  • Entradas: Só o que coubesse num prato de sobremesa. Nada de empilhar.
  • Pratos principais: Podia comer o prato de carne e o de peixe, mas sem os hidratos de carbono.
  • Sobremesa: Fruta, muita fruta. Eventualmente um docinho ou dois - pouca quantidade - do que mais gostava e a respetiva fatia do bolo dos noivos.

 

Até começou bem. Nas entradas comi salada, dei um saltinho à mesa dos queijos mas não cometi excessos, comi um pouco de orelheira - que adoro, adoro, adoro - e nem me cheguei para a mesa dos mariscos. Bebi apenas um gin nas entradas e tudo corria lindamente. Passamos para o prato principal, comi um pouco de bacalhau - apenas uma batitinha à murro - e quando veio a carne o mesmo aconteceu: apenas uma batata e um pedaço pequeno de carne. Fiquei bem. Bebi vinho à refeição - ainda que mais do que o copo recomendado - e a coisa estava a correr muito bem.

 

Eis que abriram a mesa do demo. Abriram a mesa das sobremesas, com tudo o que adoro: cheescake, semifrios vários, mousse e até a fruta estava acompanhada por uma fonte de chocolate - digam lá que não é maldade colocar uma fonte de chocolate, belga pareceu-me, num casamento com pessoas em dieta e dizerem-lhes para comerem apenas fruta, saudável. Aqui tudo o que tinha para correr mal correu. Comi só um pouco de cada.... Mas comi praticamente de cada, enchi o prato duas vezes, fiquei pronta para rebolar. Ainda fui fazer uma pequena caminhada, mas obviamente que não foi nada tendo em conta o que comi. O problema continuou noite a dentro com as bebidas alcoólicas e parou apenas com o caldo verde e alguns enchidos de madrugada, na altura da ceia.

 

Sim, no fundo tudo o que tinha para correr mal correu. E no dia seguinte não foi diferente. No dia seguinte comi pão, muito pão. Cheguei a casa e fiz aproximadamente 20km de bicicleta, tinha que tentar minimizar de alguma maneira o estrago que tinha cometido, já que a balança acusava 1kg a mais - ainda que bem sei que pesando-me à noite os valores não são reais - e eu só imaginava que no dia seguinte de manhã a balança ia acusar pelo menos mais uns 500g.

 

A caminho da consulta eu só pedia que tivesse perdido nem que fossem 100g, só pedia que não tivesse engordado nem que fosse uma só grama.

 

Perdi 200g, o dobro dos meus desejos - para a próxima peço 500g a ver se perco 1kg! - e ainda perdi 4 cm na barriga e 3 cm na anca. Claro que voltei a diminuir a massa muscular - pela falta de movimento - e aumentar um pouco a massa gorda - e talvez por isso tenha perdido peso, porque a massa muscular é mais pesada que a massa gorda -, mas ainda assim os resultados não foram tão desastrosos como estava à espera, tendo em conta as circunstâncias.

 

Parece-me por isso possível sobreviver a um casamento, mas se pudermos ter mais tino, tanto melhor. Vou tentar não cometer os mesmos erros no próximo - que é já em Setembro - e muito menos marcar a pesagem para um dia após o enfardamento exagerado de doces e álcool. O ideal é pesar-me antes, mesmo antes, para depois ter pelo menos duas semanas de manobra. Até nisto das dietas temos de ser manhosos.

 

Agora vou estar 4 semanas sem lá ir que ela está de férias. Porque confia plenamente em mim - #sóquenão - receitou-me dois dias de detox por semana, onde nesses dois dias não entram hidratos - vou tentar fazer nos dois dias da folga. Nunca os fiz, vamos ver como corre, mas diz quem experimentou que é muito bom para limpar o organismo e perder bastante peso, ainda que seja um peso que seja fácil de recuperar e por isso exige cuidados.

 

Já alguém fez algum detox?

 

A correr muito bem, no dia 5 de Setembro - próximo dia de pesagem - deveria de estar com uns 72kg, a correr bem, deveria de estar com 74kg, a correr mal... Nem vou pensar nisso porque vai no mínimo correr bem. 

 

Já sabem, continuem a rezar por mim!

 

E a luta das meninas que lutam comigo, como vai?

Apercebi-me que é muito fácil tomarmos uma má decisão...

... que possa ser desastrosa, ou só perigosa e inconsequente sem que nos apercebamos.

 

 

 

Ontem quando regressava de Trás-os-Montes para o Porto apanhei dois incêndios: um de dimensão considerável que pintou o céu de negro e vermelho, deixando-me o coração amarfanhado com a dualidade de sentimentos - como é que é possível tanta coisa que representa a destruição ser bela e horrenda ao mesmo tempo? - mas que estava lá bem ao fundo, bem longe de nós; outro que não parecia tão grave - o céu não estava de vermelho carregado, apenas de um cinzento denso, horrendo, com um cheiro insuportável a fumo e muito perto de nós. 

 

Estávamos a caminho da autoestrada. Vimos ao longe o incêndio, parecia-nos longe da nossa rota - ainda que mais ou menos para a mesma direção - até que começamos a aproximarmo-nos... Demais. Vimos uma grande nuvem negra, paramos, pensamos em voltar para trás, mas a alternativa ainda ficava bastante longe.

 

Hesitamos.

 

De seguida uns 10 carros passaram e nós pensamos "se eles passam, nós também passamos... não deve ser grave" e seguimos viagem, até chegarmos a um ponto em que o fumo era tão denso, mas tão denso que simplesmente deixamos de ver a estrada. Os carros que seguiram à nossa frente tiveram a mesma reação: "E agora?" uns começaram a fazer inversão da marcha, outros simplesmente ficaram como um maluquinhos no meio da ponte, e até termos ido embora ficaram ali parados, provavelmente na dúvida se avançavam se recuavam. Nos entretantos, os camiões dos bombeiros simplesmente desapareciam quando ultrapassavam aquele bocadinho de estrada. 

 

Jogamos pelo seguro, fomos uns dos que fizeram inversão de marcha e uma hora e meia depois -  o tempo que precisaríamos para chegar ao Porto - lá estávamos nós a passar aquele ponto - mas do outro lado do monte - para regressar a casa em segurança.

 

Tomei consciência do quão fácil é vacilarmos numa situação imprevisível e inesperada. "É só fumo, não há labaredas à vista" e "o mal só acontece aos outros" é um pensamento tão fácil que nos leva por vezes a tomar decisões erradas. Não sei se todos os carros decidiram regressar, ou se decidiram arriscar. Não sei tão pouco se existia um risco efetivo - no final de contas a estrada estava aberta, só a auto-estrada estava fechada, ainda que já tenhamos visto com Pedrógão que isso não é garantia de nada, infelizmente - mas a verdade é que a decisão de regressar não foi imediata, apesar de tudo apontar para ser a decisão mais sensata.

 

Na realidade sabemos muito pouco do que aconteceu, acontece, ou que poderia ter acontecido. Mas no fundo, mais vale perder uma hora e meia na vida, do que a incerteza do que se pode passar para que essa hora e meia não se perca, ou que se perca para sempre...

 

Apercebi-me que é realmente muito fácil tomarmos uma má decisão que possa ser desastrosa, ou só perigosa e inconsequente sem que nos apercebamos e isso é assustador!

A quê que sabe a vossa infância?

A minha infância sabe a bolo de arroz. Era doida por bolo de arroz. Deste tradicional com o rótulo azul, muito docinho, muito saboroso, que encontrávamos em qualquer café que se prezasse.

Lanchar fora era sempre uma alegria, porque lanchar fora com a mãe significava o meu bolo de arroz e um pingo de carioca que eu tanto gostava. Falo-vos de uma altura que não deveria de ter mais do que 5 anos, e durante anos, este foi o meu bolo favorito. Simples, sem creme, mas cheio de açúcar - e gordura, pois claro - e sabor.

 

Há inclusive uma história engraçada que roda à volta deste meu deleite.

 

Morava mesmo em frente a um café, era por isso conhecida ali na zona. Um dia, estava em casa e disse à minha mãe que queria um bolo de arroz e um pingo, deveria de ter uns 6 ou 7 anos, e a minha mãe deu-me dinheiro e disse-me:

 

"Tens de escolher: Ou comes o bolo, ou bebes o pingo."

 

Tentava incutir-me responsabilidades, pobre coitada, e como tal, deu-me apenas dinheiro que cobriria a despesa de uma das coisas. Lá fui eu, desci as escadas, atravesso à rua e peço:

 

"Queria um pingo e um bolo de arroz, se faz favor!".

 

Era descarada, mas era bem educada, sempre fui. Comi, bebi, quando chegou a hora de pagar disse toda orgulhosa:

 

"Está aqui o dinheiro do bolo de arroz, o pingo, depois o meu pai paga."

 

E assim, esta miúda, que nada sabia da vida, dava a volta ao texto em 5 segundos sem se apoquentar com as coisas. É uma história que ainda hoje em família desperta muitas gargalhadas, e já se passaram mais de 20 anos. Não me lembro se me ralharam, se me castigaram, se apenas se riram, lembro-me apenas desta história, assim, apenas assim.

 

Hoje em dia os bolos de arroz já não sabem ao mesmo e confesso que não entendo quem mudou: se eles, se eu. Sinto-os mais secos, mais farinhentos, menos doces, ou talvez seja eu que por ter deixado a infância lá tão no passado, já não saiba apreciar o verdadeiro bolo de arroz, mas a verdade é que na minha memória são muito mais saborosos.

 

E a vossa infância, sabe a quê?

Do amor...

Hoje é um dia especial, casa-se uma pessoa muito importante para mim: a minha prima, que mais que uma prima é uma irmã para mim, apesar de viver longe, tão longe aqui da Mula. Por isso hoje não é só a noiva que está nervosa, a madrinha também, porque a madrinha - ou seja, eu - vai discursar sobre o amor....

 

E que sabe esta madrinha sobre o amor?... Ó tão pouco... Tão pouco...

 

 

Provavelmente quando vocês lerem este texto, eles já estarão casados e eu já estarei tranquila e parcialmente derretida devido às temperaturas elevadíssimas deste local nesta altura do ano, o que no fundo é bom, para ir destilando o álcool que vou bebendo, mas nada de somersby ou capirinhas, prometo, prefiro Gin cujas calorias desconheço e prefiro continuar a desconhecer porque olhos que não vêm, ancas que não sentem, não é verdade? E não serão também as ancas as responsáveis pelos amores dos outros? Vá, não entrarei por aí...

 

Ontem dizia-vos que o amor está acima de todas as coisas, brincando com as coisas a que o amor está acima, mas hoje digo-vos mesmo: que o amor está mesmo acima de todas as coisas, porque este dois que se casam hoje são o que eu chamo de um casal improvável e estão neste momento em total união de felicidade em que o filhote de ambos pode assistir.

 

Farei um discurso ensaiado mas sentido neste casório e pretendo falar ao coração das pessoas, porque a verdade é que casar é fácil, difícil é manter um casamento. Difícil é aguentar todas as provações e discussões que se interpõe tantas vezes entre o casal. Difícil é não querer desistir quando as dificuldades são mais que muitas. Não sou ninguém nesta vida para querer dar alguma espécie de lição ou conselho, mas fala-vos alguém que já passou por muito e que está junta há mais de 14 anos, por isso acho que posso dar algumas.... Dicas, digamos.

 

Às vezes perguntam-me se acredito no amor eterno, nos contos de fadas e eu não sei responder, porque acreditar num casamento para a vida - e esses conheço alguns - não significa que exista amor a vida toda. Mas gosto de acreditar que sim, que é possível amar a mesma pessoa a vida inteira sem cansar, sem aborrecer, sem desvanecer, mas também sou da opinião que se esse amor falhar não devem ser as convenções sociais a manter um casal junto, por isso o melhor voto que eu posso dar a alguém que se case é:

 

Que seja eterno enquanto durar, como dizia Vinicius de Moraes, e se tivermos a sorte que dure a vida inteira, felicidade a nossa!

 

Por isso sim, o amor deve mesmo estar acima de todas as coisas, de todas as convenções, de todas as ideias pré-construídas. E hoje eu brindo a eles, e brindo convosco ao amor!

 

Viva o amor!

O amor acima de todas as coisas

Conhecem certamente esta expressão, esta expressão que indica que devemos acima de tudo amar, e não nos importarmos com pequenas coisas.

 

Pois que esta expressão só pode ter sido inventada por um homem. Só pode. Ora vejamos

 

O amor acima de todas as coisas...

 

... acima do lixo que não foi levado para o contentor.

... acima da roupa que não foi estendida.

... acima da cama que não foi feita.

... acima do pó que não foi limpo.

... 

 

Ou seja, acima de todas as tarefas que nós lhes pedimos para fazerem, mas que manhosamente vão adiando, por forma a sermos nós a concluir-las com sucesso. No final, quando tentamos chamar-los à razão eles dizem:

 

O amor acima de todas as coisas!

 

Manhosos, é o que são!

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos. Mais do que um blog, são pedaços de uma vida.