Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Desabafos da Mula

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos.

Desabafos da Mula

Livro Secreto 1ª Edição: Balanço Final

Corria o ano de 2015, era inverno, estava frio, os fusíveis da MJ deram curto circuito e desse fusco-fusco, surgiu o desafio de leitura denominado por Livro Secreto, que fez 13 pessoas lerem um livro por mês, ao longo de 2016. Choquem-se, há livros e livros, e nós, participantes, igualmente com um, provavelmente vários, fusíveis a menos, participamos para ler livros que não escolhemos, que não desejamos, e até em algumas situações, de que não gostamos. De doidos!

 

No entanto, se nunca tivesse participado, e lido livros que não escolhi, que não desejei e que não gostei, também não teria, provavelmente, descoberto Zafón, sendo A Sombra do Vento, o meu livro favorito de todo o desafio, e um dos melhores livros que li desde sempre. Desde aí seguiram-se os restantes livros da saga, e a parte ingrata é que os tenho todos menos... A sombra do vento - falta-me este cromo para coleção! Este é sem dúvida o grande ponto positivo do desafio, porque conheci livros que de outra forma não conheceria, e deixei-me surpreender por livros pelos quais não depositava qualquer expectativa, como foi o caso d'O Navegador Solitário, uma das grandes boas surpresas do desafio. Claro que, a parte chata é quando não há esta surpresa e acabamos a ler livros que não nos dizem nada, como foi o caso d'O novíssimo testamento, que sendo engraçado e coiso e tal, não me despertou nem captou a minha atenção, tendo-o lido com batotas, saltitando páginas e mais páginas porque até fiquei com curiosidade de saber o final. Este é o grande ponto negativo do desafio, é o não gostar e o tentarmos ler ainda assim. No entanto, em 11 livros recebidos - falta-me receber o último - só não consegui ler dois livros: o Cloud Atlas por ter vindo em má altura, e a Tragédia da Rua das Flores, que por uma questão de ginástica visual, devido à fraca qualidade dos livros das edições dos Livros do Brasil me fazia enjoar nas viagens de comboio, e o pouco tempo que passei em casa não me foi suficiente para levar avante a leitura. 9/11 livros lidos. Que bem.

 

O livro que ainda tenho comigo e que conto enviar no decorrer desta semana é A Pérola, a tão preciosa pérola com excertos tão simples e belos como este: "Não é bom desejar uma coisa demasiadamente. Pode afastar a sorte. Deve-se desejar só o bastante." que de tão simples e bela nos faz querer mais.

 

Sem dúvida que é uma experiência a repetir, essencialmente agora que fiquei desempregada e tenho mais tempo para ler e menos dinheiro para comprar livros, e apesar de ter custos associados, que os envios não são gratuitos, nunca gastei mais do que 2€ para enviar um livro, com envelope incluído, por isso creio que o custo face ao benefício é mais do que reduzido.

 

O livro que enviei para o livro secreto foi o Adultério de Paulo Coelho.

 

 

Trouxe por isso, para o desafio um autor pouco apreciado pelo grupo, sendo por isso um dos livros que recebeu maior número de críticas negativas, no entanto, é sem dúvida um autor que eu aprecio bastante e por isso não me arrependo de ter sido o livro enviado, porque me fazia sentido naquela altura, no entanto o próximo será diferente, bastante diferente, e espero por isso que seja do agrado.

 

Irei fazer parte da segunda edição do livro secreto. Se se quiserem juntar a nós enviem mail para: eagoraseila@sapo.pt mas atenção que as participações são limitadas!

 

20175618_tNDks.png

Livro Secreto #10 A Pérola de John Steinbeck

Há livros, que por serem tão pequeninos foram escritos para serem lidos de uma só vez, sob pena de se perder a essência das palavras que neles contêm. Assim é A Pérola de John Steinbeck. 

 

 

A pérola é mais do que uma simples história de Kino, sua mulher e seu filho. A pérola é uma parábola, que pretende transmitir uma moral acerca dos nossos valores e do dinheiro, de como o dinheiro move o mundo e as pessoas.

 

Este pequeno livro de Steinbeck, conta assim a história de uma família de índios mexicanos que viviam de modo simples, desprovidos de bens até o filho, Coyotito, ter sido mordido por um escorpião e precisar urgentemente de cuidados médicos. Nesta história, os médicos são tidos como racistas e oportunistas e quando o médico da cidade percebe que Kino e sua esposa não tinham dinheiro para lhe pagar, disse não estar disponível para ver o seu filho. Assim Kino foi tentar pescar uma pérola para conseguir pagar a consulta e assim salvar o seu filho. Kino encontra uma pérola, mas não era uma pérola qualquer, Kino julgou ter encontrado a Pérola do Mundo de tão grande que era, e toda a gente dizia nunca ter visto uma pérola assim, que eles estavam ricos. Assim o médico já apareceu na cabana onde moravam para ver Coyotito. Kino começou a ver o seu futuro na pérola, o que poderia vir a ter e o futuro que poderia proporcionar a Coyotito. 

 

No entanto, a pérola em vez de atrair felicidade só lhes trouxe problemas, porque várias pessoas começaram a perseguir Kino para lhe roubar a pérola, e apesar da mulher lhe pedir para deitar a pérola fora, que só atraía mau agoiro Kino não a escutava, uma vez que achava que naquela pérola é que estava o seu futuro.

 

No entanto a pérola, da mesma maneira que trouxe os sonhos de Kino, também os levou com ela. 

 

Este pequeno livro contém uma história muito bonita. Esta história fala do perigo das ambições, do perigo de sair da nossa bolha de conforto e desejar ir mais além. No entanto não consigo concordar com a perspetiva que nos é dada, apesar do seu fim, uma vez que é devido a se sair da zona de conforto que permitiu ao mundo evoluir, seja na educação, seja na saúde, seja nas condições de vida. Se ninguém tivesse saído da sua zona de conforto e não ambicionasse mais e melhor, ainda estaríamos a viver junto às árvores, com peles de animais mortos a tapar o corpo e a falar como macacos, no entanto compreendo o que a história pretende transmitir, porque efetivamente pode acontecer que quem tudo quer, tudo perde, mas acho que não podemos efetivamente viver com esse medo, com essa angústia, mas é preciso efetivamente compreender e balancear se o que desejamos de diferente na nossa vida nos poderá fazer mais ou menos felizes. Kino não parou para pensar no que tinha, e se isso que tinha lhe era suficiente. Kino ficou cego com o que poderia ter, ainda que o que desejasse era o melhor para si e para a sua família. Esta história demonstra como os sonhos dos que têm tão pouco, são tão simples. Um dos sonhos de Kino era que seu filho Coyotito pudesse estudar, conhecer o mundo e ensinar-lhes o mundo.

 

Além desta lição de moral, A Pérola conta-nos também de como os povos indígenas vêm a cidade, de como são diferentes e por isso as pessoas da cidades os assustam. Fala também da união de um povo, para o bem e para o mal, fala de como a sabedoria popular na cura de certas doenças pode ser válida, fala de tanto em tão poucas páginas que souberam a pouco. Fala da coragem de regressar de onde se partiu às escondidas.

 

Fala de tanto, e soube a tão pouco!

 

Gostei! Acho que deveria de ser um livro de leitura obrigatória, no entanto considero que deva ser lido com espírito crítico e não resignado uma vez que defendo totalmente o oposto do que é defendido no livro. Venha o próximo!

 

Boas Leituras!

Livro Secreto #9 A Luz de Stephen King

Terminei finalmente, depois de tantos acontecimentos que me afastaram da leitura, o livro de Stephen King, A Luz. Foi estranho ler este livro. Foi o primeiro livro que li depois de ter visto o filme, normalmente acontece o contrário, e então não consegui imaginar de modo diferente a história, apesar de existirem elementos que se afastaram do filme, como a personagem Wendy, que no livro é descrita como sendo bonita e loira, e no filme de Kubrick, Wendy está muito longe de ser loira, e ainda mais longe de ser bonita. No entanto, porque vi o filme, não me consegui dissociar das personagens que já conhecia, e por isso foi como rever o filme, e não consegui fazer parte da história como normalmente acontece. Vamos então falar sobre A Luz, para quem não conhece.

 

 

A Luz conta a história de Jack Torrence, alcóolico em abstinência, que após ficar desempregado por agredir um aluno, aceita, sem escolha por questões financeiras, trabalhar como zelador de inverno, para o Hotel Overlook nas montanhas do Colorado, que encerra no inverno devido a ficar em total isolamento com os nevões de Novembro a Março. Assim muda-se com a sua esposa Wendy e com o seu filho de 5 anos Danny, para o Hotel com o propósito de cuidar do mesmo e de terminar um livro que há muito se encontra parado por bloqueio de Jack. Mas o que poderia ser um trabalho tranquilo complica-se e esta família corre o risco de terminar como terminou a família de Grady, o anterior zelador do Overlook, que devido ao excessivo isolamento, sofreu de síndrome da cabana, e assassinou a mulher e as suas duas filhas, suicidando-se de seguida. O problema é que o filho Danny tem uma sensibilidade sobrenatural - uma forte luz interior - e o Overlook esconde imensos segredos que prometem atormentar a criança e toda a sua família, que quanto mais descobrem sobre o passado do hotel melhor percebem que devem sair dali o mais rapidamente possível. Será que vão conseguir? O que esconde afinal o Overlook? Pois, terão de ler para descobrir.

 

O livro está classificado como sendo um drama e um livro de terror fantástico. É efetivamente um livro de terror, ainda que nunca me tenha assustado uma única vez, talvez por já conhecer bem a história, mas as descrições são muito visuais, mórbidas e cruas, é um livro violento do ponto de vista visual, no entanto considero que o filme aterroriza muito mais do que o livro, ou não fosse um filme de Stanley Kubrick, uma vez que o filme assusta pela sequência de imagens mais do que pela história em si. O livro explora outras questões que o filme não explora, e compreendi muito melhor a história. O que eu achava que era um caso de esquizofrenia afinal é de possessão, e muitas questões que nunca consegui explicar no filme, ficaram mais claras. 

 

O que eu gostei mais no livro é a forma como nos é contado. Tem diferentes narradores, e nunca percebemos quem narra afinal, mas a verdade é que isso também não importa e compreendemos sempre o conteúdo, é como se nos tivesse a falar, a contar a sua história com a devida entoação, com questões retóricas, pequenos apontamentos e pensamentos que nos ajuda a sintonizar.

 

Se não conhecesse a história provavelmente teria sido um livro que me teria tirado o sono e captado a minha atenção desde a primeira até à última página, assim foi mais difícil, ainda assim Stephen King tem uma escrita cativante, simples sem ser simplista e uma capacidade fantástica para nos transportar para ambientes desconfortáveis, colocando-nos paralelismos entre o horror e a vida real. Questões familiares relevantes são tratadas neste livro, como o passado de violência a que Jack sofreu em pequeno, bem como a relação complicada que Wendy tem com a mãe. Todas estas questões revelam-se bastante importantes para a história, e é nelas que o livro é muito mais importante do que o filme, já que o filme se resume muito mais à história em si e não às suas motivações.

 

Para quem é fã do género, este livro é sem dúvida uma boa sugestão.

 

Boas Leituras.

Livro Secreto #8 O Novíssimo Testamento de Mário Lúcio Sousa

E o oitavo livro do Livro Secreto está lido. Faltam apenas ler quatro livros: A Contadora de Filmes de Hernan Rivera Letelier; A Luz de Stephen king, A Tragédia da Rua das Flores de Eça de Queirós e A Pérola de John Steinbeck. E em breve chegar-me-à um novo e como estou ansiosa que me chegue A Luz!

 

 

O Novíssimo Testamento de Mário Lúcio Sousa passa-se na freguesia do Lém em Cabo Verde e conta a história de uma velha beata, virgem e de vida exemplar para a igreja, que no seu leito de morte, pede às netas - emprestadas - que lhe chamem um fotógrafo em vez de um médico, que em toda a sua vida nunca tinha sido fotografada e gostava de se perpetuar para além da morte através dessa fotografia, já que não tinha filhos, nem outros elementos familiares. Assim as netas - a Maria e a outra Maria - chamam o fotógrafo, só que o improvável acontece: Assim que o flash se vislumbra a velha desaparece, e após a revelação da fotografia reconhecem na velha as feições de Jesus Cristo. Crê-se assim que Jesus ressuscitou na fotografia da velha e não houve ninguém no mundo que não A quisesse ver e admirar. A vila do Lém recebe assim vários povos de todo o mundo - crentes e céticos - para atestar que Jesus tinha regressado ao mundo dos vivos para dar novas palavras aos seus seguidores. No entanto, e como a história não poderia ser outra, que o Homem é o mesmo. Novamente Jesus tem de enfrentar as reprovações do povo, os preconceitos, e foi novamente vaiado, aprisionado e humilhado em praça pública.

 

Confesso, este livro não me cativou. Acho a história engraçada, a forma como é contada é completamente diferente do habitual, assemelhando-se a uma fábula, no entanto é tão irreal que não me convenceu. Não consigo ter uma imagem dos acontecimentos. Jesus falava através de um outro corpo e voz, de uma habitante da freguesia do Lém mas... Era apenas uma fotografia... Como é que uma fotografia é na realidade a personagem principal? Não consegui visualizar a história, e isso para mim é terrível. Tem a seu favor o tom sarcástico e cómico com que é escrito, e a critica social que é feita mas acho o livro demasiado descritivo e tonto. No entanto tem uma história curiosa, de uma Jesus que não quer ser feita à imagem de Deus, mas sim à imagem dos Homens, e quer experimentar tudo o que não experimentou enquanto comum mortal: explorar os prazeres da carne e da vida, como beber, sexo, ... E isso atrai obviamente desconfiança por parte do povo que deixa de A proteger para A querer encurralar, fazendo-lhe questões às quais Jesus não quer responder, fazendo depoimentos com histórias alucinadas sobre A sua pessoa, ou antes... fotografia.

 

No entanto a crítica social que é feita é mais que boa: A vontade que o homem tem de ver tudo, quer acredite quer não, a forma como as pessoas julgam os outros, os preconceitos, a forma como o povo reage à noção de liberdade, e como essa é na realidade indesejada. A forma como um povo tão pobre tem de se reorganizar para receber pessoas vindas de todo o mundo aumentando assim ainda mais a fome e as necessidades da ilha. É também feita uma grande crítica à mulher, porque Jesus é homem e não deveria de reencarnar numa mulher por ser considerado à luz dos homens um ser inferior.

 

É um livro curioso com uma história engraçada, mas que do meu ponto de vista não consegue cativar o leitor. No entanto se procuram um livro bastante diferente do habitual, com uma história louca, então este pode ser uma boa leitura.

 

Boas Leituras. 

Livro Secreto #7 As velas ardem até ao fim de Sándor Márai

E terminei de ler o sétimo livro do Livro Secreto de um autor que nunca tinha ouvido falar. Shame on me!

 

As velas ardem até ao fim de Sándor Márai é um livro pequeno de rápida leitura, facilmente leem numa tarde. Alguém já leu? Leiam, que verão que não se arrependerão.

 

 

Este livro é uma espécie de carta, quase um monólogo, sobre a amizade. Todo o livro é referente a uma conversa, a uma só conversa, entre o General Henrik e o seu amigo Konrád, que fugiu para os Trópicos, de um dia para o outro há 41 anos atrás, voltando agora velho à Hungria para resolver a sua situação com o amigo de outrora. Há um segredo que os une e que os separou, e o General, magoado e traído quer respostas a perguntas que se foram formulando ao longo desses 41 anos. O General é um homem magoado que nunca conseguiu ultrapassar o sucedido, que viveu para questionar Konrád, porque sabia que este um dia iria voltar. Qual será o segredo que os une? Como sobrevive uma amizade a 41 anos de mágoas? Leiam... E logo perceberão.

 

É um livro profundo, as palavras ligeiras que o compõe faz parecer um livro básico mas está longe de ser verdade. É um livro que é mais que uma história, é um livro carregado de significados, muito para lá da história. Apesar do segredo ser expectável, porque existem pistas que tornam o segredo óbvio logo no início do livro, isso não altera o interesse porque o que importa para o General Henrik não é perceber o que aconteceu e o porquê de ter acontecido, porque com o tempo aprendeu a relativizar as coisas e os sentimentos, ficando apenas uma grande agonia no coração. É um livro onde o personagem pretende desmontar os seus sentimentos enquanto busca um perdão, se isso for possível. Acho que é um livro que facilmente qualquer um de nós compreenderá e onde qualquer pessoa facilmente cria empatia com o personagem principal que monopoliza toda a conversa, porque todos nós já fomos traídos, todos nós - acredito eu - já sofremos devido a alguém que amamos. Basicamente é um livro onde o personagem principal pretende cortar o cordão umbilical com algo, para que depois possa seguir em frente e finalmente viver... Ou morrer!

 

O livro explora vários conceitos de amizade, ao ponto de questionar se a amizade verdadeira existe realmente, ao ponto de ser altruísta e não egoísta. Ou se por contrário somos amigos de quem nos convém, devido a um egoísmo inconsciente, na medida em que esperamos sempre algo em troca, nem que seja a própria amizade, o próprio amor, da outra parte. O autor defende que a verdadeira amizade não deve nunca esperar algo em troca, e que considera isso inatingível e por isso que amizade nesse conceito total e verdadeiro não existe.

 

Acima de tudo é um livro que mostra que nem sempre são as palavras que respondem a perguntas, que às vezes são os silêncios e a linguagem corporal que dão as melhores e mais verdadeiras respostas porque como o General indica:  

 

O que vale a resposta que uma pessoa dá com palavras e não com a realidade da sua vida?... Vale pouco (...) São poucas as pessoas cujas palavras correspondem por completo à realidade das suas vidas. Talvez seja esse o fenómeno mais raro da vida.

 

- Que é que queres deste homem? – pergunta a ama.

- A verdade – disse o general.
- Conheces bem a verdade.
- Não conheço… É mesmo a verdade que não conheço.
- Mas conheces a realidade – disse a ama numa voz aguda, ofensiva.
- A realidade não é a verdade – retorquiu o general. – A realidade é apenas um pormenor.
 
É um livro com um fim... que sabe a pouco. Que dá vontade de abanar a personagem - Konrád -, apontar-lhe o dedo e obrigá-lo a justificar-se. Isto porque no fundo tenho um lado sadomaso, um lado que não se importa de sofrer se fizer com que os outros que me magoaram sofram também um bocadinho. Sou das que gosta de escarafunchar, das que gosta de tentar perceber tudo e mais alguma coisa, os porquês e os entretantos. Sim, eu viveria como o General, 41 anos à procura de respostas, mas no final mesmo que já as soubesse de cor, exigiria que os outros as pronunciassem só para que sofressem também um bocadinho.
 
 
Agora a sério... Leiam As velas ardem até ao fim. Porque como verão... As velas ardem mesmo até ao fim!

Livro Secreto - Balanço

E algures em Outubro ou Novembro do ano que passou, a mais conhecida que o tremoço M.J. imbuída no espírito natalício da altura, teve uma epifania e lembrou-se que poderíamos trocar livros no Natal. Não sei se a ideia inicial dela era outra, ou se eu é que percebi tudo errado - que pensamento rápido e boa compreensão já sabem não ser o meu forte -, compreendi que seria para escolhermos um livro nosso e oferecermos a uma pessoa aleatória que se inscrevesse no desafio de leitura. Assim eu receberia um livro de oferta e ofereceria outro. Só e apenas, finito. Um livro. Um livro que poderíamos ler quando nos apetecesse. Afinal não foi assim. Não iríamos oferecer nenhum livro. Iríamos apenas doar temporariamente um livro ao grupo mas no final, bom filho a casa torna.

 

Confesso que me assustei, Éramos 13 pessoas. A ideia era ler 12 livros diferentes que não escolhemos ler. Tempo do desafio: 12 meses. Desde pequena que leio e que adoro ler, mas quem me conhece sabe o que acontece quando me obrigam a fazer coisas, a ler coisas... Eça sofreu com o meu desprezo devido à obrigação de o ler, Saramago não foi exceção. Odeio ler por obrigação. Mas também odeio voltar com a minha palavra atrás. Assim segui com o desafio, enviei o recém lido Adultério de Paulo Coelho, que na altura adorei, cruzei os dedos e rezei. Bem, é possível que agora esteja a exagerar um pouco, o caso também não era para tanto, mas confesso que tenho um ritmo de leitura irregular e achei que não iria conseguir cumprir os prazos.

 

Enganei-me, com à exceção do livro que me calhou na altura do casamento e da lua-de-mel e que por isso não consegui ler, cumpri todos os prazos e li com satisfação todos os livros que recebi. Ora a nossa Presidenta como a Maria das Palavras diz e muito bem, sugeriu-nos a resposta a algumas questões. Ora aqui vão:

 

1469708787009.jpg

(Livro que terminei de ler esta semana e que em breve falarei sobre e o meu refresco de abacaxi e hortelã que sabe tão bem com este calor.)

 

a) Porque decidi participar na iniciativa:

Porque percebi tudo errado, porque de um modo consciente nunca me envolveria numa loucura destas... Ler um livro por mês - e agora até mais que isso, que também tenho os meus livros para ler - tendo em conta que estou fora de casa mais de 12 horas por dia, que não me sobra grande tempo para leituras, a não ser em viagens e entre uma pitada de sal e um virar o frango. É que ler no trabalho, tirando no inverno, está fora de questão, porque não me consigo concentrar. Mas a verdade é que tenho encontrado tempo e estou a adorar. Fico muito feliz por ter percebido tudo errado e ter tido oportunidade de participar neste desafio.

 
b) Qual o livro que mais gostei até agora:

No geral gostei de todos os livros que li até agora* - uns mais que outros está claro -, mas sem dúvida que a Sombra do Vento de Carlos Zafón levou o meu coração. Há muito que um livro não me prendia como este me prendeu e devorei-o de uma ponta à outra em pouco mais de uma semana. 


c) Qual o livro que menos gostei:

Estão a circular no desafio diferentes livros, de diferentes estilos. É normal que hajam uns que se enquadrem mais nas nossas leituras habituais, e outros que por fugirem demasiado ao habitual não nos prendam tanto. Até agora o livro que esteve totalmente fora do que costumo ler e que foi o livro que menos me prendeu foi o Lua-de-Mel em Paris de Elizabeth Adler. Gostei do livro no geral, mas é para mim demasiado descritivo e com pouco sumo que se retira para a vida. Gosto de encontrar nos livros ensinamentos, frases e palavras que me toquem ao coração e me façam pensar, e neste não consegui encontrar. Ainda assim, li sem dificuldades e não me foi maçador, é um bom livro para sonhar e para os dias em que estamos tristes e chateados e precisamos de algo que nos anime. Acho que daria, por exemplo, um bom filme, que contrariamente às leituras, adoro filmes deste género.


d) Uma passagem do livro que tenho e que está sublinhada por alguém:

IMG_20160728_142031.jpg

(Da nossa Petrolina, que há-de voltar.)  

 


e) Se já pensei em desistir:

Só mesmo no início, quando percebi a dinâmica do desafio e achei que não iria conseguir cumprir os prazos e que não iria ter prazer com as leituras uma vez que não poderia escolher os livros. Tão enganadinha que eu estava. 


f) Coisas que gosto e não gosto na iniciativa:

Gosto de ter a possibilidade de me surpreender com livros que de outra maneira não leria - e que tão boas surpresas já tive; gosto da partilha de emoções e sentimentos que se cria com as citações dos anteriores leitores; gosto de conhecer novos autores, alguns como este Sandor Marai que nunca tinha ouvido falar; gosto porque gosto de livros e livros são livros. Não gosto do terror psicológico que todos os meses sofro nos CTT a esconder as folhas com as citações no interior do livro - era bastante mais fácil se todos permitissem rabiscar o próprio livro; não gosto dos timings ainda que tenha consciência que têm de existir; odeio ter de entregar o livro a outra pessoa e não o poder colocar na minha estante como se fosse meu... A verdade é que há livros, como a Sombra do Vento que depois me obrigam a adquiri-los, mesmo depois de já os ter lido, porque se eu gosto tanto de um livro eu tenho de o ter na minha estante para o folhear sempre que sentir vontade.


g) Se pudesse trocava o livro que enviei por outro: qual!

Se pudesse trocaria o meu livro pela minha primeira opção: Estarás aí? de Guillaume Musso, só que na altura considerei que poderia ser complicado devido ao número de páginas e ao facto de ser livro de bolso e saber que nem toda a gente se dá bem com os livros de bolso por terem letras demasiado pequenas. Mas seria esse que teria oferecido. Porque foi um livro que me disse muito e me colocou algumas questões importantes ao nível do "e se...".

 

Como podem ver, o balanço é mais que positivo - se isso for possível. Posso já reservar o meu lugar no segundo round?

 

* livros lidos: Uma mulher não chora de Rita Ferro; Plano Infinito de Isabel Allende; Lua-de-mel em Paris de Elizabeth Adler; A sombra do vento de Carlos Zafón;  O Navegador Solitário de João Aguiar; Cloud Atlas de  David Mitchell (não terminado); As velas ardem até ao fim de Sandor Marai.

Livro Secreto #6 Desafio não cumprido

Gosto de cumprir quando me comprometo com algo, mas por vezes há determinados acontecimentos na vida de uma pessoa que fazem com que os desafios não possam ser concluídos com sucesso, e a verdade é que não consegui ler o sexto livro do desafio Livro Secreto - Cloud Atlas de David Mitchell.

 

 

O livro do mês de Junho foi assim entregue ao novo leitor sem que o tivesse concluído. Com a preparação do casamento e a Lua-de-Mel; com o ir ao estrangeiro buscar o carro e o baptizado do sobrinho, e apesar de o prazo ter sido prolongado por minha causa, foi muito complicado conciliar a vida com as leituras e foi totalmente impossível. Todavia, já inicei a leitura do sétimo livro - As Velas Ardem Até ao Fim do Húngaro Sándor Márai e brevemente há review do livro.

Livro Secreto #5 A Sombra do Vento de Carlos Zafón

Recebi o livro com o maior entusiasmo. Estava ansiosa por ler Carlos Zafón, e em particular a Sombra do Vento, por isso foi com grande euforia que no dia que cheguei de Londres recebi um embrulho com um livro maior que os anteriores, adivinhado o livro que o envelope continha. 

 

Comecei a ler de imediato... E fiquei desiludida. Não criei conexão com o livro, não conseguia compreender o propósito, e não conseguia compreender por isso a "maluqueira" da malta com este livro. Até a Magda o colocou num dos melhores livros de sempre... Não compreendia porquê, a sério que não...

 

... Até chegar por volta da página 40... Aí tudo passou a fazer sentido! E tornei-me completamente inseparável do livro, até à última página, e o livro que era grande fez-se pequeno... 

 

 

O livro retrata a história de Daniel Sempere que se cruza por mero acaso, no cemitério dos livros esquecidos, com um livro de um autor desconhecido - Julián Carax - com o título A Sombra do Vento. Após se identificar com o livro, pretende ler mais livros desse mesmo autor, no entanto, procurando pelos mesmos, descobre que quase ninguém conhece o autor. Daniel começa assim uma  busca incasável pela história de Julián Carax, à medida que descobre que é mais o que os une do que os separa. À medida que se vai emaranhando na perigosa história deste desconhecido autor, carregada de mentiras, enredos complexos e perigosos assassinos, não mais consegue desligar-se da mesma, colocando a própria vida em risco, bem como a dos que lhe são próximos.

 

A Sombra do Vento é nada mais nada menos que uma história de força, de curiosidade, de amor e dedicação por aqueles que vêem nos livros mais do que uma simples história, mas o espelho de quem os escreve.

 

Fez-me recordar quando investiguei a vida de Nádia, dos livros Vendidas! e Uma promessa a Nádia, para perceber o que é que lhe tinha acontecido, para saber além do que os livros contam. Porque infelizmente os livros nunca nos contam tudo, porque um dia acabam e as pessoas continuam a viver, quanto mais não seja, no nosso coração. Porque há livros, que são mais do que livros, são histórias de alguém, são pedidos de ajuda.

 

Este livro fez-me pesquisar sobre a história espanhola, que eu - como triste e inculta que sou - não tinha conhecimento - acho que também nunca tinha pensado muito nisso - que também tinham vivido muitos anos sob alçada de uma ditadura macabra e doentia onde pessoas eram mortas simplesmente porque sim. É chocante saber que por este mundo fora muitos homens - e mulheres - sofreram nas mãos de militares/polícias/seguranças imbecis que incapazes de serem felizes nas suas vidinhas, se divertem a fazer mal a terceiros. Entristece-me saber que este não é um passado distante, que ainda é um presente demasiado presente, e que todos os dias muitos polícias e militares fazem uso da sua força e poder para humilhar, e reduzir a pó muitos inocentes, por racismo, por xenofobia, por homofobia, por sadismo, um pouco por todo o mundo.

 

Mas continuando e arrematando...

 

O que eu mais acho fantástico neste livro é a forma como ele é contado. É incrível como o autor consegue contar várias histórias em paralelo sem ficar confuso, sem se perder o fio à meada, e acima de tudo, conseguindo manter-nos sempre interessados e motivados a continuar a ler - o que nem sempre é fácil de conseguir. É um livro enervante, é um livro que deixa pontas soltas que nos faz querer saber mais, e mais, e mais, e que nos deixa cada vez mais intrigados. É um livro quase inexplicável! É um livro que assusta, por vezes, nos faz rir, por vezes, nos faz chorar, por vezes... E acima de tudo que nos faz suspirar quando chega ao fim.

 

Vai sem dúvida deixar saudades... E lá vou eu ter de o comprar, porque o quero na minha estante!

Livro Secreto #4 O Navegador Solitário de João Aguiar

Lido e pronto a entregar, O Navegador Solitário foi a maior surpresa até agora, dos livros que recebi do Livro Secreto. O título não me chamava nada atenção, a capa é, na minha opinião, horrível, o autor, não me dizia nada, no entanto, o conteúdo... ai o conteúdo!

 

 

O livro O Navegador Solitário conta, em forma de diário, a transformação de Solitão Fernandes de Giestal de Frades, filho de gente humilde e pouco carinhosa. Dividido em cinco partes, a personagem vai sofrendo grandes alterações na forma de escrever, na forma de pensar, na forma de ver a vida e na forma como se aceita a si próprio e à sua família. O autor tenta ainda fazer um paralelismo entre a evolução do jovem e marcos históricos portugueses, como a derrota na batalha de Alcácer-Quibir, mas como não percebo nada de história, este paralelismo, confesso, passou-me completamente ao lado. Foi muito devido a este paralelismo que imaginava um livro completamente diferente, mais histórico, mais formal, e acima de tudo, mais aborrecido. Revelou-se completamente o oposto.

 

O livro inicia-se com Solitão na fase jovem, que se vê obrigado pelo espírito do seu avô a escrever um diário, cujo propósito desconhecia. Pouco habituado a escrever e a ler, Solitão inicia o diário um tanto contrariado, com uma escrita informal e carregada de erros ortográficos. Erros como "piçarvativos" a "varredores da cultura", encontra-se de tudo um pouco, o que torna a primeira parte do livro hilariante, garanto-vos que fui às lágrimas algumas vezes, e o livro fez-me passar, por isso mesmo, alguma vergonha em público. No entanto, Solitão começa ambicionar ser alguém melhor na vida, mais culto, mais informado, e após envolver-se com a sua professora de português inicia esse processo, e no segundo capítulo encontramos um Solitão com uma escrita mais cuidada, ainda bastante informal, mas já sem erros e já com algumas virgulas, que afinal não davam assim tanto trabalho. Entretanto, Solitão entra para a faculdade de direito e é sempre a evoluir, e o terceiro e o quarto capítulos são capítulos sérios, com pensamentos sobre a vida e sobre si bastante profundos. A grande reviravolta dá-se no quinto capítulo, onde Solitão finalmente percebe quem é e o que quer realmente da vida.

 

É um livro que se lê sem dificuldades, bastante ligeiro apesar de tratar questões bastante sérias como a prostituição infantil masculina, o suicídio, o vício da droga, os abusos de poder e a corrupção. É uma história que dá conta de como a descoberta sexual é também uma forma de aprofundamento a outros níveis.

 

Confesso que a ambição meia desgovernada de Solitão me fez desejar-lhe um fim trágico, mas a reviravolta que ele deu à sua vida me fez voltar a apaixonar pela personagem e desejar-lhe o melhor.

 

No final, confesso... soube-me a pouco e como tal, passou de um livro que eu nem pegaria numa livraria, tão pouco para ler a sinopse, para ser um livro que adorei!

 

Venha o próximo!

Livro Secreto #3 O Plano Infinito de Isabel Allende

Tenho andado no limbo, quanto aos prazos de leitura do Livro Secreto, a ver se me despacho no próximo. Uma vez mais, terminei de ler à bruta na data limite, para proceder à entrega dentro do prazo, que isso, não tenciono falhar.

 

O livro que me calhou desta vez foi O Plano Infinito da Isabel Allende.

 

 

É a primeira vez que leio Isabel Allende, e apesar de ser um livro que por livre e espontânea vontade não compraria, nem leria, a verdade é que tenciono voltar a ler esta autora, fiquei agradavelmente surpreendia, é o tipo de livros que eu gosto e aprecio, tem uma escrita crua, tal como eu gosto, sem rodeios nem floreados.

 

Confesso que inicialmente estava com algumas dificuldades com este livro, é bastante denso, e inicia-se de forma bastante confusa. Com dois narradores e imensas personagens, demorei a compreender quem era quem e de que modo contribuíam para a trama, e demorei ainda a compreender quem narrava o quê, o tempo e o espaço das personagens. É um livro que passa muito rapidamente, e quase sem nos darmos conta de um narrador na terceira pessoa, para a narração do personagem principal, voltando atrás com alguma frequência. Depois de nos emaranharmos na história, a compreensão torna-se simples e facilmente damos pela diferença dos dois narradores, e o que é que a autora pretende com esta diferenciação.

 

O Plano Infinito retrata a história de Gregory Reeves, filho de Charles Reeves, australiano e imigrante nos Estados Unidos. Desenrolando-se na primeira metade do século XX, numa altura em que a imigração atingia o seu auge, os Reeves viviam como nómadas, enquanto Charles, apelidado de Doutor das Ciências Divinas, pregava cidade a cidade o Plano Infinito, que defendia que tudo acontecia por um propósito, que o acaso não existia. Após a morte de seu pai a vida dos Reeves muda radicalmente, e este livro retrata todas as privações, todo o sofrimento a que Gregory esteve sujeito, desde o abandono da mãe, aos fracassos amorosos, passando pelos problemas que tinha com gangues nos tempos de escola e pelas tentativas de ser alguém na vida.

 

O Plano Infinito demonstra a influência, positiva e negativa, de certas pessoas nas nossas vidas, e do modo como elas conseguem modificar todo um percurso. Este livro, acompanha assim todo o desenvolvimento social e pessoal do personagem, enquanto tenta lutar contra os seus fantasmas. 

 

Os cenários, são do inicio ao fim, macabros, as descrições são cruas, violentas e bastante visuais, desde a guerra, a situações de violação, são vários os cenários bárbaros a que Gregory foi sujeito, que não deixam o leitor indiferente. 

 

 

Críticas - tenho apenas duas:

  • O livro tem o poder de cativar, mas por vezes a autora dispersa, para enquadrar historicamente, o que origina algumas repetições para voltar a centrar o leitor na trama, e isso poderá originar oscilação no interesse.

  • Forma visual demasiado densa, sem parágrafos, com poucos diálogos, quase sem capítulos, o que torna a leitura um pouco mais difícil.

 

Reflexões:

  • O meio de onde vimos não tem de predizer todo o futuro, no entanto, quem vem de meios mais desfavorecidos necessita de um esforço muito maior para alcançar os mesmos objectivos, comparativamente com alguém que vem de um meio mais protegido e financeiramente mais sustentável.

  • A importância do comportamento dos pais aquando da maternidade/paternidade, e a forma como esse comportamento pode influenciar positiva ou negativamente o futuro dos filhos. Pais desinteressados, pode originar comportamentos desviantes dos filhos, que inicialmente podem ser chamadas de atenção, mas que com o tempo podem ser problemas estruturantes e complicados de alterar.

  • A importância das crenças no desenrolar das vivências dos indivíduos, sejam religiosas, místicas ou morais.

  • A importância que o dinheiro tem nas pessoas, como forma de demarcação social. 

 

Como balanço geral, adorei o livro e tenciono, efectivamente voltar a ler Allende.

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos. Mais do que um blog, são pedaços de uma vida.