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Desabafos da Mula

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos.

Desabafos da Mula

Livro Secreto II # Os olhos de Ana Marta de Alice Vieira

Os olhos de Ana Marta de Alice Vieira foi o livro que decidi enviar para a segunda ronda do desafio do livro secreto. É um livro pequeno mas não se deixem enganar, escrito com o olhar de uma criança é um pequeno livro cheio de ternura, medos e assombrações.

 

Por muitos considerado um livro infantil, eu não o consigo classificar como tal uma vez que uma criança não iria compreender a verdadeira dimensão do livro. Li-o pela primeira vez na faculdade nas aulas de Literatura para a Infância, juntamente com Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll, e a Floresta de Sophia de Mello Breyner Andresen, entre muitas outras fábulas infantis. Foi sem dúvida uma cadeira muito rica. Mas foquemo-nos neste pequeno livro.

 

 

Marta cresceu com uma mãe desestruturada que não permite ser chamada de mãe "sou demasiado velha para ser mãe de alguém" diz, e um pai que não compensa a ausência da mãe e que faz de tudo para que esta não tenha uma crise. Basicamente, Marta, é criada pela Leonor, a governanta da casa, que lhe conta histórias das Sete Partes do Mundo, do Touro Sentado e por vezes histórias que não devia de contar, sobre os segredos da casa, do motivo dos quartos das pessoas que partiram estarem sempre fechados e do porquê da sua mãe dizer que não é sua mãe. Marta à medida que sente uns olhos que a perseguem pela casa, sente que foi trocada na maternidade e sonha em conhecer a sua mãe verdadeira. Chega inclusive a fantasiar que Leonor poderia ser a sua mãe verdadeira. Marta deseja ser amada. E não o desejam todas as crianças?

 

Este é um livro sobre a descoberta de uma criança dos segredos da sua família que todos querem esconder, mas que enquanto todos se empenharem em esconder esses mesmos segredos ninguém poderá ser feliz, nem Leonor, nem Marta, nem a mãe da Marta, nem o pai. Ninguém.

 

Não posso falar muito sobre os assuntos do livro que ele é tão pequeno que seria desvendar todo o mistério, toda a trama. Mas posso adiantar-vos que fala de sofrimento, de perdas insuportáveis e inultrapassáveis, de medos, de inseguranças, de amores incondicionais e insubstituíveis. Trata ainda da luta de uma filha pelo amor da sua mãe. Não deveriam as mães amar todos os seus filhos? Mais não vos adianto, mas deixo-vos a questão que gostaria que cada participante do Livro Secreto descobrisse e se emaranhasse: De quem são os olhos que Os olhos de Ana Marta fala?

 

Espero que gostem.

 

Boas Leituras!

Livro: As Desaparecidas de Megan Miranda

Comprei este livro por impulso. Nunca tinha ouvido falar dele nem da autora, mas algo nele me chamou a atenção, quer o título, quer a capa, e a sinopse então fez o restante. Mas que escolha tão acertada, já tinha saudades desta ânsia, desta vontade de conhecer mais e mais da história.

 

As Desaparecidas não sendo um livro difícil de ler, é um livro que exige alguma atenção por ser escrito de maneira totalmente diferente do habitual: É escrito de trás para a frente. Do presente para o passado. E por isso ao lermos, vamos conhecendo pormenores da trama que não compreendemos e que naquele momento até não nos faz sentido, mas que depois, com o conhecimento do que aconteceu no dia anterior, e no dia antes, e no dia antes do antes do antes, vamos percebendo cada peça do puzzle. Por isso é um livro que não deve ser lido com grandes pausas pelo meio sob pena de não compreenderem alguns pormenores.

 

Uma das coisas que mais amei neste livro é o facto de existir pouca palha irrelevante. É habitual muitos autores escreverem sobre coisas que não são relevantes para a história, mas aqui n'As Desaparecidas, tudo tem um sentido, não há páginas mortas, tudo suscita curiosidade e por isso é um livro que se lê num ápice.

 

 

As Desaparecidas é uma história contada na primeira pessoa, pela Nicolette, que abandonou Cooley Ridge aos 18 anos após a sua melhor amiga, Corinne, desaparecer sem deixar rasto, envolvendo todos os seus amigos e namorado no seu desaparecimento. Todos são suspeitos. Todos mentiram. Todos escondem um segredo. Todos se encobrem uns aos outros para se encobrirem a si próprios. Um único álibi: Annaleise, uma rapariga bastante mais nova que assiste a algumas situações do grupo. Dez anos se passaram e Corinne nunca foi descoberta. Todos os intervenientes prosseguiram com a sua vida, ainda que em sofrimento e terrivelmente marcados, porque há situações que nunca se ultrapassam. No entanto todas as dívidas com o passado têm de ser pagas. A falta de dinheiro obriga Nicolette a regressar a casa, a Cooley Ridge, para tentar vender a casa de família, só que voltar à sua terra Natal implica voltar a reviver tudo novamente, como se não se passasse nem um único dia desde que Corinne desapareceu. Entretanto, e 10 anos depois, por volta da mesma altura, um novo desaparecimento, desta vez de Annaleise que estranhamente e inexplicavelmente está ligada a Corinne e isso faz com que todos os segredos do grupo comecem a vir a cima, e começa a luta contra o tempo para esconderem novamente aquilo que tentaram esconder 10 anos antes. Para confundir ainda mais Nicolette, o seu pai, cada vez mais confuso e demente, diz ter visto a Corinne. Será que Corinne está viva? O que aconteceu há 10 anos atrás? E Annaleise? Estão os dois crimes relacionados? Leiam que não se vão arrepender.

 

O livro é marcante, é emocionante, é daqueles que se gruda a nós e não largamos até terminar. É daqueles livros que dentro do sofrimento, dentro das mentiras e dos segredos nos permite refletir sobre questões muito importantes, como a possibilidade de se amar e se odiar a mesma pessoa, na mesma proporção e como incrivelmente com o tempo tendemos a ver apenas as coisas boas daqueles que amamos e que irremediavelmente já não estão connosco. É um livro que também reflete acerca das pessoas tóxicas e do que os outros nos conseguem obrigar a fazer, sem obrigar efetivamente. É um livro que fala de ganância. É um livro que mostra como num crime, todos podem ser culpados por diferentes razões, porque podem efetivamente existir diversas razões e motivações, não há inocentes e como é difícil acreditar por vezes naqueles que amamos quando as evidências parecem ser claras, ainda que na realidade sejam turvas.

 

Gostei mesmo muito do livro, passa provavelmente diretamente para o meu Top10, e adorei ter um final totalmente diferente do que eu imaginava, e no fundo um final pouco habitual nos livros.

 

É um thriller mas não mete medo, leiam é realmente fantástico.

 

Boas Leituras!

Livro: Viver depois de ti de Jojo Moyes

E na semana passada terminei de ler o livro Viver Depois de Ti da Jojo Moyes. Eu vi o filme, e como o filme me soube tão a pouco, saí da sala de cinema com a certeza e com a necessidade de ler o livro, eu queria saber mais, eu queria mais, mais e mais. E apesar de não ler o livro com a magia de descobrir o final, a verdade é que infantilmente li-o com a esperança de que o livro tivesse um final diferente, um final feliz diferente. Mas não. Mas é tão mais que o filme, que vale muito a pena lê-lo.

 

 

Certamente quem não viu o filme e vê esta capa, que imagina que estas folhas contam uma história de amor, ao estilo Cinderela, mas deixem-me que vos elucide: Esta história está longe de ser uma história de amor, e ainda mais longe de um conto de fadas. 

 

Após um acidente, Will Traynor tem uma lesão na espinal medula que o atira para uma cadeira de rodas sem hipótese de recuperação. Uma vez que Will apenas tem mobilidade na cabeça e nalguns dedos de uma mão, a mãe, contrata Louisa Clark, conhecida por Lou que acaba de ficar desempregada, para fazer companhia ao filho e ajudá-lo nas necessidades básicas, como a alimentação. No início, Will é mordaz, é arrogante, e maltrata Louisa, no entanto com o tempo, e devido à persistência de Lou - que precisa muito do emprego - acaba por aceitá-la na sua vida e os dois desenvolvem uma boa amizade. Will acha que Lou está a desperdiçar a sua vida naquela aldeia e convence-a a apostar em si e no seu futuro, mas esta não o leva muito a sério. No entanto tudo muda quando Lou descobre os verdadeiros planos de Will e faz de tudo para que este mude de opinião, mostrando-lhe que há muita coisa que ele ainda pode fazer para se divertir, só que Lou acaba por se envolver demais. O que será que Will quer fazer? Será que Lou conseguirá fazer Will mudar de opinião? Não sabem? Então têm de ler.

 

O livro é muito mais, dá muito mais conta da situação que Lou vivia com os pais e com o namorado. O livro aprofunda muito mais o facto de ela nunca ter sido levada a sério, que vai muito além das roupas que vestia, ela apenas não era a filha favorita, a que valia o esforço. Isso revoltou-me muito enquanto lia. Quando vi o filme parece que vi apenas a situação do Will, acho que o filme só focou o Will, mas o livro foca muito mais a visão dela, o sofrimento dela, os problemas dela e por isso gostei muito de aprofundar esta história.

 

Este é um livro que fala sobre um tema muito triste, como já falei aqui, e polémico, essencialmente polémico: A Eutanásia. Até que ponto devem estas pessoas serem obrigadas a sobreviver agarradas eternamente a uma cadeira ou a uma cama, totalmente dependentes de outros, sem terem tão pouco a autonomia de comerem sozinhos. Will e a família eram ricos, tinham comodidades que muitas outras pessoas na mesma situação não possuem, nomeadamente a cadeira de transporte, o computador e afins. No fundo, obrigar alguém a viver agarrado a estas condições, ou falta delas, é, na minha opinião, um ato de egoísmo, porque creio que seja mais para os outros, os que cá ficam, não sofrerem, como se o sofrimento daquele que vive a situação, não valesse nada.

 

É um livro que fala da densidade das relações familiares, de como os casamentos se forçam apenas devido às circunstâncias e como isso pode influenciar a visão dos outros perante as situações, deixando as pessoas com sentimentos duais relativamente a um filho, a uma situação.

 

Este é um livro que leva às lágrimas os mais sensíveis, a mim levou-me às lágrimas e aos soluços apesar de conhecer a história...

 

Este é um livro para todos aqueles que têm esperança e amor, e para todos aqueles que gostam de ver o copo meio cheio, em vez do meio vazio, porque Lou vai sempre tentar mostrar o outro lado apesar do cenário ser negro. E no fundo, no fundo, até tem um final feliz... E se é verdade que Lousia mudou a vida de Will, também é inegável que Will mudou a vida dela, estamos por isso, perante um crescimento mútuo de dois jovens tão diferentes e que num outro contexto nunca se conheceriam.

 

Este é um livro para todos. Leiam, não se vão arrepender!

O Adultério regressou ao lugar que lhe pertence

O meu livro da primeira edição do livro secreto regressou ao seu cantinho na estante com um sabor agridoce.

 

Acho que a lição número um que retiro desta primeira edição, desta fantástica troca de livros, é a de que somos todas tão diferentes que é complicado um livro agradar a todas, e um livro que para mim estava cheio de significados, significou muito pouco a muitos dos seus leitores. Bem sei que poucas o leram - poucas, porque éramos todas meninas, sim? - e algumas das que leram não gostaram, acho que isso se nota pela quantidade de linhas e rabiscos que acolheu. No entanto, e se isso inicialmente me estava a doer na alma - por saber que não estavam a gostar - a verdade é que com o tempo aprendi a aceitar, até porque me passaram também livros pelas mãos que me vi e desejei para os conseguir ler, e alguns confesso, li quase na diagonal para saber como acabavam. Lição número um: O nosso livro especial pode não despertar a atenção do outro. Deal with it!

 

Poderia ter ficado com uma má experiência do desafio, é um facto. Mas isso não aconteceu.

 

Conheci tantos livros que desconhecia e com os quais me encantei. Li pela primeira vez Zafón que se tornou no meu escritor favorito, conheci Sándor Marái com umas velas que me falaram ao coração que de outra forma não teria tido contacto, falei de uma forma única e quase desconcertante com uma Contadora de Filmes. Foram tantos e tão diferentes livros que me transportam para a lição número dois: Não podemos julgar o livro pela capa. E quem diria que um livro com uma capa tão feia podia ser tão bom! Ó Mula, e já não sabias disso? Não! Não compro livros com capas feias, é um ponto assente na minha escolha literária e um motivo de seleção tão válido quanto qualquer outro.

 

O meu livro da primeira edição do desafio secreto foi o Adultério do Paulo Coelho, o que me leva para a lição número três: Paulo Coelho está a anos luz de reunir consensos. Desde adolescente que adoro Paulo Coelho, comecei com o Brida, passei pelo Verónika Decide Morrer, abalei-me com os 11 Minutos - o meu favorito, mas que não o possuo - e terminei com o Adultério.

 

 

E porquê o Adultério, Mula? Em que é que andas a pensar?

 

Em nada. Só que o livro mostra-nos que às vezes canalizamos as nossas energias, a nossa tristeza e apatia pela vida da forma errada, às vezes achamos que a nossa felicidade está onde efetivamente não está. Eu já tive depressão, passei por períodos muito negros e também eu já procurei a felicidade onde afinal ela não existia, acabando por me magoar mais, a ser ainda mais infeliz e a fazer os que estavam à minha volta miseráveis. Creio que muitas das vezes as nossas ações afetam mais os outros que a nós mesmos, e consegui ler neste livro isso mesmo e por isso o quis partilhar. É efetivamente um livro que fala de adultério, de traição, de mentira e de um jogo perigoso de sedução, mas é acima de tudo um livro que acompanha a auto-descoberta da personagem principal que apesar de ter a vida perfeita aos olhos dos outros, efetivamente ela não a sentia como tal.

 

E porque sou teimosa, na segunda edição do livro secreto enviei um novo livro que pretende mostrar a evolução de uma nova personagem, através de mistérios e algumas traquinices, mas desta vez da mais consensual Alice Vieira, tenho cá para mim que é impossível não se gostar deste livro, mas isso só com o seguimento do desafio irei perceber se tenho ou não razão, e no final, daqui a dois anos, se ainda cá estivermos todos pois claro, cá estarei para vos falar desse pequeno livro cheio de sentimentos e acontecimentos.

 

Boas Leituras!

Livro: O Labirinto dos Espíritos de Carlos Ruiz Zafón

Toda esta febre começou em Maio do ano passado, quando através do Livro Secreto me chegou a casa A Sombra do Vento de um autor que nunca tinha lido mas do qual já tinha ouvido falar muito bem. Não me apaixonei logo nas primeiras páginas pela história, mas por volta da página 40 ou 50 a paixão deu-se e só consegui parar de ler 8 dias depois quando a última página foi alcançada. Não podia obviamente parar por aqui e assim que possível li O Jogo do Anjo e o Prisioneiro do Céu. Adorei todos, ainda que O Jogo do Anjo seja o que menos me faz sentido, de toda a saga, e provavelmente o que mais trabalho deu a Zafón ligar, n'O Labirinto dos Espíritos, já que foi, na minha opinião um imbróglio demasiado exagerado, ainda que a história seja bastante interessante.

 

Dizem que estes quatro livros podem ser lidos por qualquer ordem, porque como o próprio indica neste último livro: "Uma história não tem princípio nem fim, só portas de entrada." no entanto, ainda que possa conceber que A Sombra do Vento e O Jogo do Anjo possam trocar de ordem, não consigo conceber que se leia o terceiro e o quarto por outra ordem que não esta. Acho que os demais iriam perder o encanto e a surpresa.

 

Mas adiante, que não quero falar-vos da saga em si, mas do livro que encerra toda a saga.

 

Concluí finalmente O Labirinto dos Espíritos e posso vos dizer que ainda estou meia abananada com toda a história. Vou tentar falar do livro sem me alargar nem ser spoiler.

 

 

 

O Labirinto dos Espíritos é o livro que promete unir as histórias dos outros livros da saga, é por isso o livro que conta a história do início ao fim - sem contar efetivamente o fim - da família Sempere. É o livro que conta essencialmente a curta história da Isabella Sempere, mãe de Daniel Sempere, que conhecemos n'O Jogo do Anjo e cujo passado começamos a compreender n'O Prisioneiro do Céu. No entanto, e apesar de ser um livro de encerramento, é um livro com histórias únicas e novas aventuras, com introdução de novas personagens tão ou mais emocionantes que as já conhecidas, como é o caso de Alícia Gris, uma jovem e enigmática de humor peculiar com o objetivo de desvendar toda a trama. No fundo, é pelas mãos de Alícia que conhecemos o passado da família de Daniel, e é por ela que se faz justiça.

 

Este é o livro mais sangrento e macabro dos quatro. É um livro bastante visual e por várias vezes me deu náuseas devido às descrições das torturas a que alguns personagens foram sujeitos. É um livro que nos permite pensar até que ponto devemos levar uma vingança, até que ponto vale a pena e até onde pode ir a maldade humana. É só um livro! dirão alguns. Não é só um livro a partir do momento em que o cenário é o pós-guerra em Espanha, sob o regime político ditatorial de Franco. Aquela história pode não ter efetivamente acontecido, mas muitas outras histórias efetivamente aconteceram, e é isso que me choca, é isso que me comove, saber que tanta gente sofreu nas mãos dos supostos polícias do regime que nada mais eram que assassinos protegidos e promovidos pelo governo.

 

O livro é brutal, não no sentido do choque - ainda que também - mas pela forma como é construído. É um livro complexo, com múltiplas histórias a ocorrer ao mesmo tempo, com imensos personagens ao ponto de por vezes pensar "mas quem é este?", mas logo Zafón nos esclarecia. Zafón tem noção que é um livro denso e por isso se vai repetindo para nos refrescar a memória, se outra forma poderia ser complicado perceber quem era aquela gente toda.

 

Sem dúvida que foi um trabalho excecional de Zafón pegar nos outros três livros e ligá-los a este último  - por isso se seguiram a saga faz todo o sentido que o leiam. Há, no entanto, e aqui esclareço-vos já, que há pontas que não foram enlaçadas e que se perderam na história e que isso me desgostou um pouco, houveram coisas que não compreendi, e que só por isso gostava de um dia encontrar Zafón na rua e perguntar-lhe sobre essas pontas, o que aconteceu, o que significaram. Sou Mula teimosa, agarro-me a pormenores e dificilmente me esqueço.

 

Lembram-se da história das conchas na casa de banho, no filme O Demolidor com o Stallone e com a Sandra Bullock? Pois quem viu certamente recorda que existiam três conchas que o Stallone, vindo do passado, não sabia usar na casa de banho e toda a gente se ria dele. Fiquei irritada quando o filme terminou e nunca foi explicado o que eram e para que serviam as conchas e aqui não é diferente. Spoiler Alert: A grande pergunta que se impõe, uma das que mais fiz ao longo dos livros: Mas quem raio era o homem de branco, de mão dada com a Cristina? Mas esse homem alguma vez existiu? E à Cristina, o que é que lhe aconteceu realmente? E porquê tanta violência com o Valls? É verdade que ele era o vilão dos vilões, mas quem lhe fez o que fez... Fiquei sem compreender muito bem porquê. Então e... Alguém me explica por que é que quando o Fermin reencontra Alícia está zangado com ela? Não era suposto ter ficado feliz?

 

Apesar de todas as dúvidas com que fiquei, e ter vontade de fazer como a Hazel d'A Culpa é das Estrelas e ir a Espanha fazer umas perguntinhas a Zafón, a verdade é que foi sem dúvida um livro que valeu a pena carregar de um lado para o outro, que valeu a pena as quase tendinites e torcicolos na cama. É um livro carregado de mistérios, de entroncamentos sem fim, como diz a outra e rivaliza diretamente com A Sombra do Vento, ainda que este último ocupe um lugar mais especial no coração. Assim disse adeus a Daniel e pisquei o olho a Fermín, desejando-lhes toda a felicidade do mundo para lá das letras. São personagens que sem dúvida vão deixar saudades!

 

 

P.S. para quem já leu: Sou só eu a achar, ou esta família tem péssima imaginação para dar nomes aos filhos? E aquele capítulo final, hein? Menos 100 páginas e o livro estaria perfeito, não concordam?

Livro Secreto #11 A contadora de filmes de Hernan Rivera Letelier

O primeiro livro de 2017 é também o último livro do Livro Secreto - 1ª Edição. E digo-vos, do fundo do meu coração, este desafio não poderia ter terminado da melhor maneira. Mas que livro belíssimo! Tão pequeno, tão profundo, tão triste, tão belo de tão triste. Com apenas 80 páginas, A Contadora de Filmes de Hernan Rivera Letelier foi lido de um só fôlego, como os livros pequenos merecem que sejam lidos!

 

 

A Contadora de Filmes, conta a história de uma família muito pobre de mineiros, amantes de cinema que por não poderem pagar as idas ao cinema de todos, encontra na filha, única mulher e a mais nova de 5 irmãos, Maria Margarita a forma de todos poderem conhecer de fundo os filmes do cinema. Maria Margarita via os filmes e depois contava-os e interpretava-os de forma excecional, assim todos os seus familiares, essencialmente o pai, poderiam conhecer a tão desejada história. A forma como Maria Margarita contava os filmes era tão excecional que muitas das gentes da mina preferiam ir ouvir os filmes contados por ela do que conhecerem o filme original no grande ecrã, no cinema. Assim começaram a cobrar as entradas para a contadora de filmes da mina e depois Maria Margarita começou inclusive a contar os filmes ao domicílio, que era onde ganhava melhor. Só que um dia tudo muda, e quando tudo muda uma avalanche de mau agoiro sobrevoa Maria Margarita e sua família e nada volta a ser o que era.

 

Nunca falei com um livro anteriormente. Maria das Palavras possibilitou que pela primeira vez falasse com um livro, obrigada Maria!

 

Este é um livro pequenino, que começa de forma singela, simples e até romantizada de uma pobre família que é feliz dentro da sua infelicidade, mas que com o avançar das páginas se torna avassalador. A contadora de filmes é um livro que fala se sonhos, de esperanças, da coragem e força que é preciso para se ser feliz na miséria, e acima de tudo, mostra como é possível ser-se feliz quando tudo na vida corre mal. Neste caso o cinema, e as histórias que dele advinham era o escape da miséria de Maria Margarita, e todos nós precisamos de um escape para o nosso sofrimento, o meu por exemplo, é este blog e a fotografia. Fala também de como os acontecimentos na vida pode alterar de forma tão drástica a forma como se vê o mundo, como se vê as gentes, e como nos vemos a nós mesmos.

 

Muito poderia falar sobre o livro, só que acabaria a contar demais, e eu quero que vocês leiam este livro, é daqueles que vale bem a pena, eu li-o numa hora, numa hora e meia e acho que é impossível não gostarem.

 

Termino com um pequeno excerto, um dos meus favoritos:

 

Por essa altura, descobri que toda a gente gosta que lhe contem histórias. As pessoas querem sair por um momento da realidade e viver os mundos da ficcção dos filmes, dos folhetins radiofónicos, dos romances. Até gostam que lhes contem mentiras, se as mentiras forem bem contadas*. Daí o êxito dos vigaristas hábeis no falar.

 

* Até já falei disso aqui.

 

Por isso, leiam leiam que não se vão arrepender.

 

Boas Leituras!

Livro Secreto 1ª Edição: Balanço Final

Corria o ano de 2015, era inverno, estava frio, os fusíveis da MJ deram curto circuito e desse fusco-fusco, surgiu o desafio de leitura denominado por Livro Secreto, que fez 13 pessoas lerem um livro por mês, ao longo de 2016. Choquem-se, há livros e livros, e nós, participantes, igualmente com um, provavelmente vários, fusíveis a menos, participamos para ler livros que não escolhemos, que não desejamos, e até em algumas situações, de que não gostamos. De doidos!

 

No entanto, se nunca tivesse participado, e lido livros que não escolhi, que não desejei e que não gostei, também não teria, provavelmente, descoberto Zafón, sendo A Sombra do Vento, o meu livro favorito de todo o desafio, e um dos melhores livros que li desde sempre. Desde aí seguiram-se os restantes livros da saga, e a parte ingrata é que os tenho todos menos... A sombra do vento - falta-me este cromo para coleção! Este é sem dúvida o grande ponto positivo do desafio, porque conheci livros que de outra forma não conheceria, e deixei-me surpreender por livros pelos quais não depositava qualquer expectativa, como foi o caso d'O Navegador Solitário, uma das grandes boas surpresas do desafio. Claro que, a parte chata é quando não há esta surpresa e acabamos a ler livros que não nos dizem nada, como foi o caso d'O novíssimo testamento, que sendo engraçado e coiso e tal, não me despertou nem captou a minha atenção, tendo-o lido com batotas, saltitando páginas e mais páginas porque até fiquei com curiosidade de saber o final. Este é o grande ponto negativo do desafio, é o não gostar e o tentarmos ler ainda assim. No entanto, em 11 livros recebidos - falta-me receber o último - só não consegui ler dois livros: o Cloud Atlas por ter vindo em má altura, e a Tragédia da Rua das Flores, que por uma questão de ginástica visual, devido à fraca qualidade dos livros das edições dos Livros do Brasil me fazia enjoar nas viagens de comboio, e o pouco tempo que passei em casa não me foi suficiente para levar avante a leitura. 9/11 livros lidos. Que bem.

 

O livro que ainda tenho comigo e que conto enviar no decorrer desta semana é A Pérola, a tão preciosa pérola com excertos tão simples e belos como este: "Não é bom desejar uma coisa demasiadamente. Pode afastar a sorte. Deve-se desejar só o bastante." que de tão simples e bela nos faz querer mais.

 

Sem dúvida que é uma experiência a repetir, essencialmente agora que fiquei desempregada e tenho mais tempo para ler e menos dinheiro para comprar livros, e apesar de ter custos associados, que os envios não são gratuitos, nunca gastei mais do que 2€ para enviar um livro, com envelope incluído, por isso creio que o custo face ao benefício é mais do que reduzido.

 

O livro que enviei para o livro secreto foi o Adultério de Paulo Coelho.

 

 

Trouxe por isso, para o desafio um autor pouco apreciado pelo grupo, sendo por isso um dos livros que recebeu maior número de críticas negativas, no entanto, é sem dúvida um autor que eu aprecio bastante e por isso não me arrependo de ter sido o livro enviado, porque me fazia sentido naquela altura, no entanto o próximo será diferente, bastante diferente, e espero por isso que seja do agrado.

 

Irei fazer parte da segunda edição do livro secreto. Se se quiserem juntar a nós enviem mail para: eagoraseila@sapo.pt mas atenção que as participações são limitadas!

 

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Desafio | A minha vida é um livro!

 

Quando o Crónicas de um café mal tirado desafiou a Mula para contar uma história utilizando todos os livros lidos em 2016, não tinha consciência do número de livros que li este ano, e tenho a confessar-vos que nunca li tantos livros em tão pouco tempo. Catorze livros no total. Para muitos um número pequeno, brincadeira de crianças, para a Mula é um grande número. Sempre gostei de ler, mas com a escola, e depois com a faculdade, nunca sobrava grande tempo para tal, e então lia uns dois ou três livros por ano, não... catorze. Catorze e uns pozinhos, que tenho dois ou três livros começados e não terminados, entre eles o atual, o derradeiro, o apaixonante: Labirinto dos Espíritos! ^_^

 

O Desafio consiste em:

Eis a minha história:

 

Uma Mulher Não Chora, dizem aqueles que nunca viram o seu coração partido por um malandro qualquer de cabelos loiros e olhos azuis. Maria, após chorar dias e dias a fio por um malandro que não a merece, é aconselhada pela amiga Rita a ler um Guia Astrológico para corações partidos que encontrara num café, na sua romântica Lua-de-Mel em Paris. Rita sempre fora apaixonada por Paris, tinha criado até um plano, ao qual chamava de O Plano Infinito, para viver com o seu marido naquela cidade. Mas João não estava muito para aí virado, sempre fora O Navegador Solitário, aquele que preferia viver isolado nas montanhas, longe da confusão, e Paris era demasiado confuso e com demasiadas gentes. João não gostava, quem o tirava das montanhas tirava-lhe a alma e a vontade de viver. Dizia que a cidade não tinha  A Sombra do Vento, que era tudo negro e sem vida, que as flores eram falsas que para serem verdadeiras não poderiam ser criadas em estufas, trancadas, como se d' Os Sete Últimos Meses de Anne Frank se tratasse. João dizia que as plantas mereciam ser livres, terem acesso ao vento, ao sol e à água naturalmente, longe das mãos dos homens.

 

Maria nunca gostou muito do campo, preferia a cidade, tal como Rita, mas como estava deprimida desde que fora abandonada pelo seu amante, e com saudades da sua amiga, decidiu visitar Rita e João nas montanhas. Seria uma viagem com volta no próprio dia, mas uma tempestade a impediu de regressar, tempestade essa que fez com que o casal ficasse sem luz na sua residência, obrigando-os a colocar velas em todas as divisões. Só que como se sabe, As velas ardem até ao fim e não tardaram em ficar às escuras. Maria sempre teve medo do escuro e aquele momento fazia-lhe lembrar O Jogo do Anjo que brincava em miúda, em que todas as luzes se apagavam e um miúdo previamente nomeado precisava de encontrar a outra criança que tinha a lanterna - como que um anjo - para os ajudar a encontrar os restantes meninos, que entretanto se tinham escondido longe dos olhares de todos. Maria tropeçara, e magoara-se. Como os pais eram contra que Maria brincasse a esse jogo ficou de castigo e ao longo de todo o verão fora obrigada a ler O Novíssimo Testamento, "para aprender a ser uma boa menina", dizia a mãe.  Durante todo o verão, As Gémeas do Gelo que viviam no andar de baixo, tentaram convencer a mãe de Maria a tirar-lhe o castigo para brincarem todas juntas, mas a mãe insistia que a filha precisava de encontrar A Luz que tinha dentro de si, para se portar bem e ser uma boa menina, mas a menina não encontrava essa tal luz e apenas se sentia como O Prisioneiro do Céu, na torre da sua casa, qual Rapunzel.

 

Entretanto nas montanhas, a luz voltou para alegria de todos e finalmente surge João do escuro de joelhos, carregando cuidadosamente nas suas mãos A pérola mais bela que alguém alguma vez já vira, abraçando a sua amada enquanto lhe dizia baixinho ao ouvido: Vamos viver para Paris!

 

 

E eu que sou conhecida por ter histórias com finais trágicos, começo assim 2017 com uma história com final feliz, tomem lá esta, suas más línguas, tomem!

 

E os nomeados são:

- Desculpa Magda, sei que te vai dar um trabalho desgraçado, coragem m'lher! [Acho que não faz mal se fizeres uma seleção prévia!]

- Pandorinha, não podes faltar a este desafio, escrita criativa e livros que mais podias desejar para começar bem o ano?

- Cumékeé Maria, temos palavras e livros, conto contigo?

- FatiaMor, como estivemos de leituras em 2016? 'Bora lá, bem sei que não fazes reviwes dos livros, desenrasca-te com os links para a wook!

- Inês, quão trabalhoso é fazer uma tira, ou uma banda desenhada inteira, com uma história?

 

Boas histórias a todos e que 2017 seja um ano de muitas e boas leituras!

Livro Secreto #10 A Pérola de John Steinbeck

Há livros, que por serem tão pequeninos foram escritos para serem lidos de uma só vez, sob pena de se perder a essência das palavras que neles contêm. Assim é A Pérola de John Steinbeck. 

 

 

A pérola é mais do que uma simples história de Kino, sua mulher e seu filho. A pérola é uma parábola, que pretende transmitir uma moral acerca dos nossos valores e do dinheiro, de como o dinheiro move o mundo e as pessoas.

 

Este pequeno livro de Steinbeck, conta assim a história de uma família de índios mexicanos que viviam de modo simples, desprovidos de bens até o filho, Coyotito, ter sido mordido por um escorpião e precisar urgentemente de cuidados médicos. Nesta história, os médicos são tidos como racistas e oportunistas e quando o médico da cidade percebe que Kino e sua esposa não tinham dinheiro para lhe pagar, disse não estar disponível para ver o seu filho. Assim Kino foi tentar pescar uma pérola para conseguir pagar a consulta e assim salvar o seu filho. Kino encontra uma pérola, mas não era uma pérola qualquer, Kino julgou ter encontrado a Pérola do Mundo de tão grande que era, e toda a gente dizia nunca ter visto uma pérola assim, que eles estavam ricos. Assim o médico já apareceu na cabana onde moravam para ver Coyotito. Kino começou a ver o seu futuro na pérola, o que poderia vir a ter e o futuro que poderia proporcionar a Coyotito. 

 

No entanto, a pérola em vez de atrair felicidade só lhes trouxe problemas, porque várias pessoas começaram a perseguir Kino para lhe roubar a pérola, e apesar da mulher lhe pedir para deitar a pérola fora, que só atraía mau agoiro Kino não a escutava, uma vez que achava que naquela pérola é que estava o seu futuro.

 

No entanto a pérola, da mesma maneira que trouxe os sonhos de Kino, também os levou com ela. 

 

Este pequeno livro contém uma história muito bonita. Esta história fala do perigo das ambições, do perigo de sair da nossa bolha de conforto e desejar ir mais além. No entanto não consigo concordar com a perspetiva que nos é dada, apesar do seu fim, uma vez que é devido a se sair da zona de conforto que permitiu ao mundo evoluir, seja na educação, seja na saúde, seja nas condições de vida. Se ninguém tivesse saído da sua zona de conforto e não ambicionasse mais e melhor, ainda estaríamos a viver junto às árvores, com peles de animais mortos a tapar o corpo e a falar como macacos, no entanto compreendo o que a história pretende transmitir, porque efetivamente pode acontecer que quem tudo quer, tudo perde, mas acho que não podemos efetivamente viver com esse medo, com essa angústia, mas é preciso efetivamente compreender e balancear se o que desejamos de diferente na nossa vida nos poderá fazer mais ou menos felizes. Kino não parou para pensar no que tinha, e se isso que tinha lhe era suficiente. Kino ficou cego com o que poderia ter, ainda que o que desejasse era o melhor para si e para a sua família. Esta história demonstra como os sonhos dos que têm tão pouco, são tão simples. Um dos sonhos de Kino era que seu filho Coyotito pudesse estudar, conhecer o mundo e ensinar-lhes o mundo.

 

Além desta lição de moral, A Pérola conta-nos também de como os povos indígenas vêm a cidade, de como são diferentes e por isso as pessoas da cidades os assustam. Fala também da união de um povo, para o bem e para o mal, fala de como a sabedoria popular na cura de certas doenças pode ser válida, fala de tanto em tão poucas páginas que souberam a pouco. Fala da coragem de regressar de onde se partiu às escondidas.

 

Fala de tanto, e soube a tão pouco!

 

Gostei! Acho que deveria de ser um livro de leitura obrigatória, no entanto considero que deva ser lido com espírito crítico e não resignado uma vez que defendo totalmente o oposto do que é defendido no livro. Venha o próximo!

 

Boas Leituras!

Livro: O Prisioneiro do Céu de Carlos Ruiz Zafón

Depois de me ter apaixonado pel'A Sombra do Vento - um dos melhores livros alguma vez lido - e de ter devorado O Jogo do Anjo, chegou a vez d'O Prisioneiro do Céu, numa altura em que O Labirinto dos Espíritos já está na mesinha de centro a bater pé enquanto me pergunta, nada baixinho, se vou demorar muito até o devorar com todas as unhas e dentes que me for possível. Está quase, digo-lhe eu. Esta semana é a hora! Me aguarde, Labirinto, me aguarde!

 

 

Disseram-me para não ter grandes expectativas face a este livro. Então eu peguei nele de mansinho e desconfiada... Mas se n'A Sombra do Vento demorei umas 40 páginas até me emaranhar, e se n'O Jogo do Anjo só lá para meio do livro é que me captou verdadeiramente a atenção, este, curiosamente, considerado por muitos um dos piores livros da saga - não confirmo nem desminto - captou-me a atenção desde a primeira página. Talvez por saudades do Fermín e do Daniel, porque, realmente, o livro é bastante diferente dos dois primeiros. Mas, e apesar da história ligeira, pouco mórbida e surpreendente, gostei bastante, talvez por o ter lido numa altura em que sei que há mais páginas à minha espera, que é só um até amanhã. Confesso que se achasse que este era o último livro da saga me teria enervado um pouquinho com o fim, que me saberia muito a pouco, mas imagino que O Labirinto dos Espíritos, tenha as respostas para as perguntas que tenho acerca do Fermín, do Daniel, do Valls e do David Martim! Mas bem, para quem não leu ainda, vamos ao que interessa.

 

O Prisioneiro do Céu conta a história de como Fermín chegou até Daniel e de como a história de amizade entre estes dois foi pouco aleatória, apesar do que nos leva a crer no primeiro livro. Numa altura em que Fermín está prestes a casar-se com Bernarda, está na hora de enfrentar alguns demónios uma vez que a sua identidade não existe, e é necessária para os papéis do registo. Assim, Fermín decide contar toda a sua história a Daniel que o ouve com atenção e o decide ajudar a encontrar nova identidade. O Prisioneiro do Céu é um livro que une a saga, é um livro que une Fermín e Daniel - d'A Sombra do Vento - a Martim e Isabella - d'O Jogo do Anjo. Com pouco suspense, passamos a conhecer melhor Daniel, pela narração de Fermín. É um livro que do ponto de vista descritivo da realidade da época, nos revolta, uma vez que uma parte da história nos é contada na altura da Guerra Civil Espanhola, onde nos é relatado muitas das atrocidades que ocorriam nas catacumbas do governo, também chamadas de prisões, onde criminosos e inocentes - provavelmente mais inocentes que criminosos - permaneciam para cumprir penas que ninguém compreendia em condições abaixo de miseráveis.

 

O Prisioneiro do Céu é, do meu ponto de vista obviamente, um livro que atiça o ódio nos leitores apaixonados por Sempere e Filhos. Quando criamos empatia com um personagem, não queremos que nada lhes aconteça e neste livro vemos como a história de Daniel foi reescrita por quem não devia e é impossível não ficarmos revoltados com isso.

 

Aviso à navegação: O próximo parágrafo contém spoilers d'O Jogo do Anjo

 

Este livro vem desmentir algumas premissas d'O Jogo do Anjo. Quem leu sabe que o autor nos deu a entender do sobrenatural associado a Martim e a Corelli, quem leu sabe que Corelli representava a figura do diabo e que Martim jurava a pés juntos que ele existia. Pois que n'O Prisioneiro do Céu percebemos que afinal não é bem assim, e confesso que fiquei com vontade de reler todo O Jogo do Anjo para encontrar erros, e a verdade é que mesmo sem ler, fiquei com algumas dúvidas da suposta inexistência de Corelli tendo em conta a morte da Cristina, que de certa forma, atestava a sua existência. Aliás, não compreendo como Cristina nunca tenha sido referida n'O Prisioneiro do Céu, uma vez que o verdadeiro final dela, ficou meio em aberto no outro livro. Propositado? Falha? Encontrarei as respostas n'O Labirinto dos Espíritos? Vou aguardar para ver.

 

A verdade é que adorei este livro apesar de ser diferente dos seus "irmãos", não o achei uma perda de tempo, bem pelo contrário, e foi bom reencontrar o desbocado Fermín e o jovem Daniel. Fico-me só a perguntar, onde andará Caráx...  Às vezes, acho que me esqueço que eles não existem realmente...

 

Estou muito ansiosa pelo início d'O Labirinto dos Espíritos!

 

Boas leituras!

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos. Mais do que um blog, são pedaços de uma vida.