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Desabafos da Mula

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos.

Desabafos da Mula

A Mula contra os moldes do voluntariado

A Mula tem uma opinião muito própria e formada sobre o voluntariado porque o voluntariado é coisa muito bonitinha, essa coisa do altruísmo é muito bonitinha, essa coisa do trabalhar gratuitamente e do se dar ao outro em troco de nada - a não ser em troca de currículo e de cartas de recomendação - é muito bonitinha, mas o voluntariado em Portugal, nos moldes atuais, não é voluntariado é uma moda que gera ainda mais desemprego, por isso voto contra, contra e mais contra.

 

Voluntariado a sério é ir para a Somália, é ir para o Burúndi, é ir para Guiné Bissau e para o Zimbabué. Aí sim, eles precisam verdadeiramente do voluntariado como da água para viver - literalmente. Aí sim, a palavra voluntariado existe no meu dicionário. Ir ensinar línguas para esses países, prestar auxílio ao nível da saúde, da educação e da alimentação a quem de outra forma não tem como adquirir. Mas aí... Esse nível de voluntariado exige outro nível de comprometimento. Muitos o ambicionam, poucos o concretizam. Eu confesso: Eu acho que não seria capaz.

 

Aceito também o voluntariado, em Portugal, nos bombeiros, o que seria de Portugal sem os nossos Bombeiros Voluntários! Aceito aqueles voluntários que anualmente vão limpar as matas e os riachos para impedir o pior. Aceito o voluntariado em associações em que não entra um cêntimo a não ser dos seus intervenientes, como é o caso das associações responsáveis pela alimentação e distribuição de refeições aos sem abrigo. Muitas dessas associações são apenas compostas por um grupo de amigos que querem ajudar, que nada pedem em troca e dão o pouco que têm a quem tem ainda menos. Sim, isto é verdadeiramente voluntariado, isto é altruísmo, isto é amor pelos outros e vontade de ajudar o próximo.

 

Quem despende uma ou duas horas por semana a prestar algum tipo de serviço de modo gratuito, para ajudar alguma associação que não possa efetivamente contratar alguém, é outra situação verdadeira de voluntariado. No entanto, não é isto que normalmente existe.

 

Aqui em Portugal essa coisa do voluntariado é belíssima mas muitas pessoas, essencialmente da área do social, não trabalham na área à custa dessa beleza do voluntariado, porque minha gente boa, se as instituições podem ter empregados de borla porque haveriam de pagar? Óbvio que não vão pagar, se podem simplesmente não pagar...

 

"Oh Mula, mas as IPSS são pobres, precisam de apoio!" As IPSS são pobres, precisam de apoio mas nós precisamos de pagar as contas, que caso contrário somos mais pobres e um dia precisaremos de recorrer a essas mesmas associações e a situação não melhora.

 

A verdade é que alguém que esteja afeto a uma associação 8 horas, nem que seja apenas dois ou três dias por semana, é trabalho, não é voluntariado. Acreditem, em muitas associações, instituições, ou o que lhe quiserem chamar, se quem faz voluntariado não o fizesse, estas teriam de contratar alguém - a não ser que o trabalho do voluntário seja de tal modo desnecessário, ou irrelevante - e se não tivessem fundos, ter-se-iam de mexer para angariarem novas formas de sustento, o que muitas das vezes não acontece. O que acontece, é que à custa dos voluntários, alguém mete dinheiro ao bolso - ou acham que os diretores técnicos são tão benfeitores que recebem apenas o salário mínimo para prestarem os seus préstimos aos pobrezinhos? - enquanto alguém que poderia ser contratado para o cargo, não o é.

 

Anualmente não sei quantas centenas de voluntários ajudam no banco alimentar. E sabem aquelas coisas maravilhosas que dão anualmente para lá? Lamento, mas muitos dos  bons produtos que o banco alimentar recebe, são distribuídos por quem não precisa... Por patrões e patrõezinhos das associações, e seus funcionários. O que já não querem e não presta, aí chega às famílias que realmente precisam, mas isso... Isso acho que não é segredo para ninguém nos dias que correm. Só continua de olhos tapados quem quer. "Oh Mula mas a Jonet até já veio a público dizer que nem ordenado ganha.. que é voluntária por uma causa!" Claro que é. Há tantas formas de se receber um salário sem que pareça como tal...

 

Adiante.

 

O mesmo se passam com os estágios curriculares. Muitas boas associações aproveitam-se das parcerias com as escolas e universidades para troca gratuita de trabalhadores, e depois não contratam ninguém para os cargos. Fantástico, trabalhadores gratuitos, os estágios nem são remunerados... A parte boa - #sóquenão - é que em muitos lados os tratam como funcionários da empresa e em vez de lhes prestarem o apoio que os estagiários necessitam - porque choquem-se: estão lá para aprender - exigem deles produtividade e competências como se de um normal funcionário se tratasse. E ninguém faz nada! E isto cresce... E cresce...

 

Tantas trafulhices e aproveitamento dos supostos voluntários, em associações e instituições conhecidas da nossa praça...

 

Um caso que me choca, é saber que numa grande Fundação portuguesa que recebe - sem na realidade necessitar - dinheiros públicos, ainda tem por vezes trabalhadores voluntários... As entradas para essa dita fundação são pagas a peso de ouro, os bolsos dos seus gestores estão cheios de dinheiro, e não podem, coitadinhos, pagar um salário a um pobre voluntário que vai para lá, porque depois é giro dizer que trabalhou nessa grande Fundação. Que bonitinho para o currículo! Que lindo! Continuem que estão bem. Adoro-vos!

 

Só dizer-vos e repetir-vos isto: Enquanto vocês trabalharem de borla, e trabalharem bem, o país não sairá da cepa torta, e os milhares de desempregados, continuarão desempregados...

 

Admiro-vos! #Sóquenão.

 

A sério, gente do voluntariado, pensem nisso. Vocês também devem ter contas para pagar... Ou terão um dia!

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Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos. Mais do que um blog, são pedaços de uma vida.