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Desabafos da Mula

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos.

Desabafos da Mula

Prédios com pessoas dentro # Cinco tipos de vizinhos

Infelizmente temos de viver em sociedade, dizem. E isso, na maior parte do tempo, implica a convivência com pessoas diferentes, que nos podem agradar ou não. Já pensei em isolar-me e viver no meio das montanhas, mas avessa como sou à bicharada, acho que prefiro sacrificar a minha paciência com as pessoas do que ser comida por bichos. Parece-me um sacrifício mais aceitável.

 

Vivi até aos 20 anos com os pais, e com isso tinha apenas 4 vizinhos significativos: um de cada lado e dois à frente, basicamente era isto. Mas desde que vivo em apartamento esses 4 vizinhos são só no mesmo piso, multipliquemos agora isso pelos restantes andares. Desde que eu e o Mulo estamos a viver juntos já passamos por quatro casas - e agora de acordo com o nosso banco ficaremos nesta pelos próximos 45 anos, poucochinhos anos, portanto - e por isso acho que a experiência me permite classificar os diferentes tipos de vizinhos em cinco categorias diferentes. Pessoas normais não serão contempladas nesta categorização devido ao aborrecimento do que é ordinário.

 

O sociável

 

 

É, já foi, ou sonha vir a ser, o administrador do condomínio. Apresenta-se aos novos inquilinos do prédio, descreve os feitios dos vários vizinhos com que temos de conviver, conta-nos o essencial sobre os indivíduos do nosso piso - incluindo que se separou à pouco e que está um bocado deprimido e que por isso ouve música clássica das 9h às 21h todos os fins-de-semana - e faz-nos uma nada breve descrição das manhas do prédio - como abrir o portão manualmente em caso de avaria do sistema, como aceder ao quadro electrico da garagem -, das plantas dos jardins, e de como proceder para sermos todos uma família unida e feliz. Normalmente fala durante 3 horas seguidas e se souber que temos algum problema em casa, oferece-se para chamar um dos seus quinhentos amigos para resolver. São normalmente o jornal do prédio e conhecem a vida de toda a gente. Normalmente eu e o Mulo fugimos deste espécie-me como o diabo foge da cruz.

 

 

O odiado

 

 

Sonha ser o administrador do condomínio, mas nunca o virá a ser. O odiado faz por estar presente em todas as reuniões de condomínio e é o que normalmente está sempre do contra vetando todas as decisões. Tem um pequeno grupo de vizinhos seus aliados, que se colocam em posições estratégicas nas reuniões de forma a conseguirem levar a sua avante. Danifica - ou pode danificar - aparelhos no prédio, suja a entrada tanto quando pode de modo a manter os seus argumentos contra o administrador do condomínio - que é normalmente o seu maior rival - válidos. Diz bom dia, boa tarde e boa noite a todos de modo mais ou menos arrogante e cria pequenos conflitos com o intuito de perturbar a paz entre todos. Não raras vezes tem um ambiente familiar pouco agradável ouvindo-se discussões no interior das suas paredes porque queria peixe para o jantar e a mulher pôs-lhe à frente arroz de pato com queijo azul. Eu e o Mulo divertimo-nos muito com este espécie-me nas reuniões de condomínio e consideramos por isso um importante elemento na animação do prédio.

 

 

O festivaleiro

 

Todos os dias são dias de festa para o festivaleiro e por isso nunca se sabe ao certo quantas pessoas moram lá em casa. É caracterizado pela música alta a qualquer hora do dia, e da noite. Ela de saltos altos para trás e para a frente todo o dia - e toda a noite -, ele de botas de biqueira d'aço e pé pesado, a criança... Qual cavalo num espetáculo de equitação. Tem muitos amigos e todos os dias há jantaradas lá em casa noite dentro. No corredor junto à sua casa não raras vezes apresenta um odor de chouriço acabado de assar e batatas fritas. É o verdadeiro terror para qualquer idoso que se deite às 19h ou para qualquer pessoa, mesmo aquelas que se deitam às 2h da manhã. O barulho é constante. Foi o vizinho responsável pela nossa saída da casa número 1.

 

 

O fantasma

 

 

Somos nós. Somos aqueles vizinhos que tentam socializar o mínimo possível, aqueles que apagam as luzes e tiram o som da televisão sempre que alguém nos toca à porta  ao estilo não está ninguém em casa. Que empata tempo no carro para não dividir o elevador com os estranhos e serem obrigados a fazer conversa. No fundo, o fantasma - nós - é aquele vizinho que ninguém conhece, que ninguém sabe qual é. Quando o fantasma vai às reuniões de condomínio concorda com tudo para não chamar a atenção, encosta-se a um canto para ninguém o ver. Prefere tratar dos assuntos com o administrador via e-mail.

 

 

A gaja boa

Toda a gente tem uma gaja boa no seu prédio, apesar de ainda não ter descoberto a minha, no meu atual poiso - até agora só vi vizinhas de crocs e leggins de mau gosto com as nádegas a querer saltar do pano a qualquer momento - sei que ela deve existir algures. Completamente contrária ao vizinho fantasma é a vizinha que toda a gente conhece, que toda a gente sabe quem é - menos os vizinhos fantasmas, porque não comunicam com ninguém. À gaja boa tudo é permitido: não segurar a porta para o vizinho que está a aproximar-se, entrar; despir-se de janelas abertas ou na varanda; não apanhar o cocó que o seu lulu deixou à entrada do prédio ou no jardim, enfim, é permitido à gaja boa uma panóplia de ações que ao comum mortal origina uma queixa no condomínio, incluindo música alta, já que os homens não raras vezes imaginam que esta se bamboleia num varão no meio da sala em vez de limpar a casa de banho como uma fêmea comum. Nas reuniões de condomínio apresenta um ar bastante inteligente mas raramente emite opinião. Distrai por vezes o administrador e acalma o odiado.

 

E pronto, é isto de acordo com a minha experiência e perspetiva. Têm mais alguma categoria a acrescentar?

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Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos. Mais do que um blog, são pedaços de uma vida.