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Desabafos da Mula

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos.

Desabafos da Mula

Uma espécie de Review de alguém que não percebe nada disto: O Estrangeiro

Já tinha algumas saudades de ir ao cinema e comer umas pipocas - ups! - e por isso este fim-de-semana aproveitei uma saída com a mãe - que também adora ir ao cinema - para colmatar esta falha gravíssima na minha vida. Dentro dos que estavam disponíveis àquela hora ela queria ir ver o Barry Seal: Traficante Americano - mas eu odeiooo nem sei bem porquê o Tom Cruise - e eu queria ir ver O Estrangeiro - apesar de ela não gostar nada do Jackie Chan. Acho que foi pela hora - começava mais cedo - mas ela lá se decidiu a ir ver o que eu queria e pelo que percebi não se arrependeu nem um pouco. É um bom filme.

 

 

O Estrangeiro conta a história de Quan (Jackie Chan), um homem humilde dono de um restaurante chinês em Londres cuja vida é destruída de um dia para o outro. O IRA - Exército Republicano Irlandês - está de volta e num ataque terrorista no centro de Londres a filha de Quan é morta e este, não tendo mais ninguém e nada a perder, inicia uma incansável busca pelos responsáveis da morte da filha. Inicialmente Quan é tido como uma pessoa idosa, pouco perigosa que apenas está devastado com a morte da filha mas cedo se vai perceber que este está bem mais preparado para a guerra de que muitos elementos de segurança estatal. E é assim que Quan começa a persseguir Liam Hennessey (Pierce Brosnan) que é o ministro responsável pelo tratado de paz entre Inglaterra e o IRA - por ter sido membro do IRA no passado -, em busca de nomes. Quan ai demonstrar como a segurança seja de quem for é fácil de ser colocada em causa independemente do número de pessoas que estejam a vigiar. Nada é seguro.

 

Todo o filme tem uma trama densa onde não há inocentes, e onde todos são culpados. Qual é a culpa de cada um na história?

 

Este é um filme que fala sobre a justiça ou sobre a falta dela, de como por vezes apenas quando fazemos justiça com as próprias mãos é que nos sentimos vingados, e é um filme sobre as aparências, sobre como nada é o que parece ser e sobre como tudo é relativo, porque há crimes que justificam outros crimes, que aos nossos olhos são justificáveis. Poderia ser só mais um filme sobre um ataque terrorista em Londres, como muitos, mas é muito mais do que isso, é um filme diferente, com um objetivo diferente, e por isso gostei muito. É um daqueles filmes que nos toca cá dentro e nos pergunta: "E se fosse connosco?" É no entanto um filme que exige atenção, piscamos os olhos e já não sabemos quem é que se alia a quem e o quê. Mas é um daqueles filmes que fico feliz por ter ido ver.

 

Apenas uma coisa muito má em todo o filme. Atenção, por favor atenção, realizadores/diretores/produtores deste mundo por favor oiçam-me: não ponham o Pierce Brosnan a falar com pronuncia, é das coisas mais irritantes que eu já assisti numa sala de cinema - e olhem que eu já me sentei ao lado de gente muito barulhenta a comer pipocas - por isso, a sério, para o bem dos nossos nervos, não voltem a repetir.

 

Quem é que daí já viu o filme?

Uma espécie de Review de alguém que não percebe nada disto: Baby Driver

Três meses separaram a minha última ida ao cinema e esta. Três meses é muito tempo para estar afastada de uma sala de cinema, de um balde de pipocas e de m&ms e pipocas. Queria tanto ver o Baby Driver, desde que estreou que o tinha catrapiscado, mas ainda não tinha tido oportunidade, e apesar de achar que já não iria a tempo a verdade é que encontrei uma sessão mesmo à minha medida e no fim-de-semana passado lá fomos nós.

 

Curiosamente nunca fui muito apreciadora de filmes policiais mas sou desde miúda fã de filmes de carros e perseguições: Velocidade Furiosa, Corrida Mortal, Transporter, tudo e mais alguma coisa desde que tenha moços giros, carros furiosos e um enredo emocionante. E por isso não poderia deixar de ver este filme, em casa ou no cinema eu tinha mesmo de ver.

 

 

Baby Driver conta a história de Baby, um jovem condutor que num acaso de má sorte se cruza com Doc - um poderoso homem do crime que organiza assaltos - e que passa a trabalhar para ele para pagar uma dívida. Baby apesar de adorar conduzir e ser um dos melhores não gosta de se ver envolvido no mundo do crime e tudo faz para pagar a dívida e ser um trabalhador normal. Mas tudo muda, Baby apaixona-se por Deborah e Doc vê na rapariga uma oportunidade de manter Baby a seu lado, pois vendo a rapariga ser ameaçada concorda continuar a trabalhar para Doc.

 

Este é um filme emocionante do início ao fim com uma banda sonora espetacularmente boa, diferente do habitual. Baby é peculiar e isso faz com que o filme tenha algum mistério, algum charme, pois Baby anda sempre com phones e está sempre a ouvir música, como se toda a vida dele dependesse da banda sonora que ouvisse. Baby tem esta particularidade porque tem um problema nos ouvidos, devido a um acidente em miúdo e desde então ouve um zumbido, encontrou na música uma forma de escapar a esse som ensurdecedor.

 

Baby Driver é um filme carregado de clichés, a começar por Kevin Spacey e Jamie Foxx no papel de mauzões da trama. O típico papel da jovem que não tem nada que a prenda que se apaixona por um jovem misterioso que tenta mudar a vida pela rapariga é também o principal da história, mas todo o filme prende do início ao fim apesar disso. É um filme carregado de movimento, ação e boa música.

 

É um filme que fala de escolhas, da importância que as pessoas têm na nossa vida, do que estamos dispostos a abdicar e pelo que estamos dispostos a lutar. É um filme que fala sobre novas oportunidades, sobre pessoas que não são más que apenas estiveram no dia errado e no local errado. Fala de como as nossas atitudes podem ser fundamentais para a nossa salvação apesar de os nossos atos não serem os mais corretos, e que más ações não implica que sejamos más pessoas, apenas implica que fizemos más escolhas.

 

Gostei imenso do filme e sem dúvida recomendo. E depois de tantos filmes deprimentes este ano - e por deprimentes entendamos dramáticos - já fazia falta um filme assim.

 

Alguém já viu?

Uma espécie de Review de alguém que não percebe nada disto: Conspiração Terrorista

Regressei ao cinema, desta vez para ver um filme de ação: o Conspiração Terrorista, um filme com grandes nomes do cinema: Orlando Boom, Michael Douglas, Toni Collete e o grande, grande que eu tanto gosto, John Malkovich. Há algo de louco neste ator que me faz gostar dos papeis que ele faz.

 

Este não é um grande filme, um daqueles filmes de que me vou lembrar para todo o sempre - ou simplesmente daqui a um mês - mas é um bom filme, com um tema bem atual: o terrorismo. No entanto não é nada totalmente inovador, não é propriamente diferente do filme Assalto ao Londres que falei há coisa de um ano e pouco. Acho que os filmes de ação têm este problema, já estão demasiado explorados, não têm o fator "wooow!!!" e por isso nunca me marcam particularmente, o que faz com que daqui a uns tempos não me recorde do nome, nem propriamente da trama... 

 

 

Conspiração Terrorista tem como protagonista uma antiga agente da CIA, Alice Racine, que é contactada por um suposto agente da CIA para uma nova missão: interrogar um suspeito de terrorismo para conseguir obter uma mensagem que este iria transmitir a um membro do Islão, que a polícia andava a investigar. No entanto, quando está prestes a transmitir a mensagem que o suspeito forneceu, Alice descobre que é um embuste e que não está a colaborar com a CIA como pensava. Assim, à medida que Alice tenta descobrir que ataque estão a planear - um ataque biológico devastador -, torna-se suspeita de estar a colaborar com membros terroristas e passa a ser procurada quer pela CIA quer pelos membros que se fizeram passar pela organização. Prestes a ser capturada conhece um misterioso homem, Jack, que a ajuda e a passa a acompanhar nesta missão.

 

Este é um daqueles filmes altamente complexos, onde ninguém é o que parece, e onde as personagens se vão revelando minuto após minuto..Sempre que pensamos que Alice está a ser ajudada, logo descobrimos que está numa armadilha. É um filme que nos mostra como não podemos confiar em ninguém, nem na nossa própria sombra.

 

É um bom filme de ação, mas acho que é demasiado emaranhado e confesso que por isso tive um pouco de dificuldade em segui-lo. Por vezes perdia o fio à meada, para logo o reencontrar mais à frente. Acho que tem demasiadas personagens, algumas que nem chegamos verdadeiramente a compreender quem são e qual o papel na trama, e isso é o que o torna tão confuso. No entanto coloca-nos a pensar num tema muito atual, o terrorismo, e como talvez os mais interessados no terrorismo são os próprios países, e como por vezes há excesso de informação que não é real - ou que não é bem assim - porque há interesse em aterrorizar as pessoas. É doentio o que as pessoas são capazes de fazer, das maldades que são capazes de infligir a inocentes. É um filme que demonstra bem como estas guerras não são propriamente religiosas, mas sim políticas.

 

Se gostam de filmes de ação, não percam este filme, se não gostam esperem que passe na TV ou que vá para o videoclube porque é um bom filme para ver em família, tem muita ação, carregado de reviravoltas e suspense.

 

Não estou arrebatada, porque acho que não é para tanto, mas gostei do filme.

 

Alguém já viu?

A Mula e os Remakes

 

Não sou uma pessoa de remakes, tenho algumas exceções, mas normalmente prefiro histórias originais, porque... Qual é a piada de ver um filme que já existe mas com outros atores?

 

Aceito que os filmes sejam modernizados, como aconteceu com a trilogia de filmes portugueses, modificados pelo Leonel Vieira, que me garantiram - os três - umas boas gargalhadas. Aceito que peguem num filme infantil e o transportem para o mundo do cinema real, com personagens de carne e osso, ou vice-versa. Aceito ainda remakes de filmes muito antigos, que pelas cores antigas, pela falta de qualidade das câmaras e afins, se pretenda recriar algo com mais condições. Não me chocaria por isso remakes de grandes obras antigas como E tudo o vento levou ou o Casablanca.

 

Mas não compreendo que se façam remakes de filmes recentes, que se façam duas vezes o mesmo filme, com a mesma história, o mesmo tempo histórico, com as mesmas personagens, mudando apenas os atores, de filmes que têm 10 ou 20 anos, simplesmente não me faz qualquer sentido. Por exemplo, o filme Millennium: alguém me explica porque raio se fizeram dois filmes, um em inglês outro em sueco, com a diferença de 2 anos? As legendas não são suficientes? Eu confesso que não vi nem um nem outro, mas reportando-se ao mesmo livro, não serão filmes iguais?

 

Agora, com o filme Perdidos, alguém me explica qual é a piada de fazer um filme igual ao Pânico em Alto Mar, que tem apenas 11 anos? Um dia destes ainda se lembram de gravar um novo Titanic, não?

 

Para mim os remakes representam uma coisa: Falta de criatividade, porque só se pode pensar em refazer o que já foi feito, quando não há ideias para fazer algo novo, algo diferente. Por isso não vejo os remakes com bons olhos. Posso até estar a ser injusta, e a qualidade dos novos filmes não está em questão - que podem ter ou não ter - mas não consigo ver a necessidade de se gastar rios de dinheiro em fazer algo que... simplesmente já existe!

 

O caso ganha outras proporções - mais graves diria - quando os remakes se tornam mais famosos do que os originais, porque basta fazer um remake com um ator mediático, quando o original não era com ninguém famoso da nossa praça, para que ninguém se aperceba que existe outro filme. O caso mais flagrante são os remakes de filmes japoneses, que ninguém conhece - raramente chegam até nós filmes japoneses - e que vemos pela primeira vez realizado pelos americanos e que temos como filmes originais - mesmo que até diga na capa e em mil e um sítios que o original é de 1900 e troca o passo realizado por um realizador que ninguém conhece, com atores que nunca ninguém ouviu falar. Acho um bocadinho injusto para quem escreveu a história, para quem fez o guião e se deu ao trabalho de construir o filme.

 

Provavelmente irão dizer que estarei a exagerar, que não há mal algum em repetir o que já foi feito... Mas ora vejamos um outro exemplo: Recordam-se do filme Scarface protagonizado pelo Al Pacino em 1983? Pois muito bem. Esse filme é um remake do filme Scarface de 1932, e agora em 2018 vem aí um novo remake de Scarface... Mas quantos mais filmes iguais se irão fazer ao longo dos anos? Provavelmente já não estaremos cá para contabilizar um quarto e um quinto remake mas... Não estaremos a exagerar?

 

A verdade é que se não acrescenta nada... para quê fazer-se?

 

Vá minha gente boa, aprocheguem-se cá à Mula:

 

Remakes, sim ou não?

Uma espécie de Review de alguém que não percebe nada disto: O Sentido do Fim

Vi O Sentido do Fim no passado fim-de-semana. Nunca tinha ouvido falar sobre o filme, mas vi a sinopse e pareceu-me interessante. Parece que tomei o gosto por dramas, acho que nunca vi tantos dramas como nos últimos tempos, e este é mais um, ainda que com algum mistério e algum - pouco - humor. Este filme é uma adaptação de um romance com o mesmo nome de Julian Barnes, e pelo que ouvi comentar à saída da sala de cinema, está uma boa adaptação. Parece-me que será um livro bastante intenso e bonito, mas eu nunca li nada de Julian Barnes.

 

 

O Sentido do Fim conta a história de Tony Webster que já reformado recebe uma herança que o vai obrigar a recordar o seu passado. Sarah Ford, mãe de uma ex-namorada de infância, deixa-lhe em testamento um diário de um amigo de Tony, que na juventude se suicidou sem razão aparente. No entanto a atual depositária do diário e ex-namorada de Tony, Veronica Ford, não lhe entrega o diário. Tony inicia assim uma busca dos acontecimentos passados na sua memória, no entanto com o tempo vai-se aperceber de que as coisas não aconteceram exatamente como ele se recorda, e sentirá com o avançar do tempo que teve mais influência no destino dos seus amigos do que desejaria. O que esconde afinal o diário de Adrian Finn? Porque não quer Veronica entregar o diário a Tony? Todo o filme é contado na primeira pessoa, quando Tony decidi contar toda a sua história à sua ex-mulher Margaret, em tom de desabafo, que até então desconhecia todos estes factos do passado do ex-marido.

 

Apesar de ser um filme dramático, o mau humor constante de Tony torna-se cómico, e o facto de existir o mistério do diário faz com que o filme não seja nada aborrecido. O filme é contacto através das memórias de Tony e por vezes as imagens tornam-se repetitivas porque ele tem necessidade de recordar com mais pormenor o que aconteceu para compreender os factos. No entanto, o filme não se esgota nas memórias, e vai sendo contado à medida que Tony vive o seu presente, durante as suas rotinas, porque a vida não pára. Gostei essencialmente deste facto.

 

É aqui retratada a nossa capacidade de negação e de repressão, que nos baralham a correta visualização da nossa vida. O filme retrata também de forma suave a obsessão pelo passado, que às vezes não chega pela saudade, pela vontade de voltar ao passado, mas pela nostalgia e pela vontade de esclarecer o que se passou para se conseguir colocar um ponto final e finalmente podermos avançar com a nossa vida, independentemente da nossa idade.

 

Eu compreendo Tony Webster, eu também sou das que se prende às histórias passadas e que gostaria de resolver tantas coisas que ficaram por resolver e que apesar dos anos não suaviza o sofrimento das pessoas que passaram pela nossa vida e sem grandes explicações se esfumaram para um sempre sem retorno.

 

O fim do filme deixou-me com um gostinho amargo, imaginava algo mais, no entanto, acho que é o único final que poderia realmente se aproximar da realidade porque a nossa vida não é um conto de fadas e não é por remexermos na caixa do passado que a nossa vida tem efetivamente de se alterar, porque relembrar não é ir ao passado e modificar os nossos atos e cada ato gera uma consequência que nem sempre é possível alterar.

 

Eu gostei.

Alguém já viu?

Uma espécie de Review de alguém que não percebe nada disto: Foge

Tentei ganhar bilhetes para ver o filme Foge que estreou no passado dia 4, mas devo estar na lista negra do Sapo Lusomundo - uma vez ganhei uns bilhetes e à última da hora não consegui comparecer - e nunca mais consegui ganhar bilhetes para as antestreias. Em tempos cheguei a assistir a várias, por participar nos passatempos do Sapo Lusomundo mas infelizmente esses tempos dourados terminaram.

 

Bem, assim como assim, no fim-de-semana fui ver este filme e apesar de imaginar um filme muito diferente, gostei do que vi. Apesar de ser de terror, não é um filme que meta medo propriamente, é um filme ligeiro com algum humor - negro - à mistura, mas ainda assim com cenas que por vezes nos assustam.

 

 

O filme Foge conta a história de Chris, um jovem negro, órfão, que namora com Rose, branca, filha de boas famílias, de pai neurocirurgião e mãe psiquiatra. Rose decide apresentar Chris aos pais e os dois jovens vão assim passar um fim-de-semana a casa de Rose. Chris está apreensivo por Rose não ter dito aos pais que ele era negro, mas Rose tranquiliza-o indicando que os mesmos têm uma mente aberta e que não são racistas, mas Chris fica muito desconfortável com a situação. Chegados a casa de Rose, Chris percebe que todos os empregados da casa são negros e que estes se comportam de uma forma muito estranha, apáticos, sempre sorridentes, mas com um sorriso vazio, algo mórbido e sinistro. Com o tempo Chris vai descobrir que naquela casa nada é o que parece e a sua vida fica em risco. Chris tentará fugir, mas... será que vai conseguir? Têm de ver para saber!

 

O filme é uma grande sátira ao comportamento daqueles que se assumem como não racistas, daqueles que dizem "eu não sou racista, até tenho um amigo preto", pois os pais de Rose assumindo-se como liberais, têm dois empregados pretos e comportam-se sempre de forma constrangedora perante ele. 

 

Este é um filme que é complicado falar sobre ele sem revelar pontos demasiado importantes sobre o filme, sem ser spoiler, mas posso adiantar-vos ainda que o filme vai mais além e no fundo demonstra que aquelas pessoas que no filme se assumem como liberais e democráticas, vivem numa espécie de limbo entre o achar um afro-americano um ser desprezível e o admirar as capacidades dos negros: desde a força, à agilidade, desejando parte deles, mas apenas isso: o seu corpo. Para aqueles brancos, Chris é apenas isso: um corpo. Uma vez mais os brancos vêm nos negros escravos, motores dos seus desejos. E é aqui que o terror e a monstruosidade ocorre.

 

O filme é agridoce. Não é um filme que queira chocar do princípio ao fim. As personagens vão estando camufladas e apesar de percebermos desde o início que algo não está bem, que as coisas não são o que parecem a verdade é que os personagens vão dissimulando para passarem despercebidos. Por isso o filme é, de certa forma, ligeiro e apesar do final ser chocante - e nojento diria até! - é um bom filme para nos pôr a pensar em questões raciais e humanas. Até que ponto continuará a existir uma noção de raça perfeita. Até que ponto os brancos continuam a achar-se superior aos pretos.

 

Este é um filme de terror, mas não metendo elementos do além nem outras criaturas anormais, não é um filme que nos tire o sono, por isso se gostam de um bom filme perturbador mas camuflado de filme ligeiro, então este poderá ser um bom filme para vocês.

 

Vejam!

E... Bom filme!

Uma espécie de Review de alguém que não percebe nada disto: 100 Metros

Acho que nunca vos disse, mas sou fã das produções espanholas. De séries a filmes, passando pela música, uma costela de mim é de los nuestros hermanos. Um dos meus filmes favoritos de sempre é inclusive espanhol: Tres metros sobre el cielo, alguém já viu? Se não vieram, vejam, é um filme simplesmente encantador, uma versão moderna de Romeu e Julieta que me apaixonou desde o primeiro minuto. Assim, quando vi que ia estrear o 100 Metros, com a Alexandra Jiménez que eu já seguia da série La Pecera de Eva fiquei curiosa. Quando vi que era sobre uma história verídica, ainda mais curiosa fiquei. Este fim-de-semana ia ver, finalmente, a Bela e o Monstro, e acabei a desviar-me pelos 100 Metros e só vos digo uma coisa: Que história incrível!

 

 

 

100 Metros conta a história verídica de Ramón a quem aos 35 anos é detetado Esclerose Múltipla que o impede de realizar as mais banais tarefas, como pegar numa caneca para beber sozinho, apertar atacadores, e até mesmo andar. Ramón deixa-se ir muito a baixo com a doença e entra num estado depressivo, até que um dos colegas de tratamento lhe diz que dentro de alguns meses não conseguirá andar nem 100 metros. Eis que estas palavras despertam em Ramón um desejo enorme de fazer exercício e começa a treinar com o seu sogro até que decide inscrever-se num triatlo e mostrar a todos, acima de tudo a si mesmo, que é capaz e que pode lutar contra a doença apesar de ser a doença que luta contra ele.

 

Tinha zero conhecimento acerca da esclerose múltipla e confesso este filme deixou-me assustada com a rapidez com que esta avança e corrói por dentro.

 

A esclerose múltipla, para quem não sabe, é uma doença crónica e degenerativa que afeta o sistema nervoso central, cuja causa ainda é desconhecida. No filme a doença é descrita de modo simples para que qualquer pessoa possa compreender. A médica explica a Ramón que os nossos nervos são como cabos elétricos protegidos por fita isoladora, que com a doença começa a perder o isolamento deixando os nervos expostos originando crises. A longo prazo as pessoas podem deixar de andar, deixar de sentir, bem como ficarem cegas e surdas. É uma doença muito violenta quer para o paciente quer para os familiares e amigos.

 

Apesar do diagnóstico pesado, este filme mostra o outro lado da doença, o lado da luta, e com humor - dentro do que é possível ser humor - as personagens vão descobrindo forças dentro de si que outrora desconheciam. 

 

O filme é de opostos constantes, é bipolar, ora nos põe a rir como no momento a seguir nos leva às lágrimas e é um filme que prende desde o primeiro momento até ao último. Apesar de ser um drama é um filme com um ritmo muito bom, muito completo e enternecedor. É impossível não sentirmos empatia pelas suas personagens e raiva por outras. Foi um filme que me abalou, saber que esta doença tem um quê de aleatório revoltou-me e assustou-me confesso, por isso talvez não seja recomendado aos corações mais sensíveis, mas adorei o filme.

 

É sem dúvida um filme lindíssimo que vale bem a pena ver e sentir. Recomendo.

 

Uma espécie de Review de alguém que não percebe nada disto: São Jorge

Estava mortinha por ver o filme São Jorge que deu a Nuno Lopes o prémio Orizzonti de melhor ator. Já tinha visto o trailer, foi só esperar pela sua estreia, e assim que me foi possível - no fim-de-semana - lá fui eu. A sala estava bastante composta, fiquei admirada por não ser muito normal nos filmes portugueses, talvez o facto de estar a rodar apenas em duas salas de cinema aqui no Porto, tenha ajudado.

 

Assim que vi o trailer que fiquei curiosa, sou grande fã do cinema português, gosto muito do Nuno Lopes, gostava do tema do filme - a crise, o desemprego, as condições miseráveis em que muitos portugueses vivem -, achei que não havia nada que pudesse falhar.

 

Sabemos que estamos perante um bom filme quando saímos da sala do cinema a refletir sobre ele, a questioná-lo, a falar sobre ele.

 

 

São Jorge conta a história de Jorge, pugilista, crente em São Jorge, Santo guerreiro e mártir padroeiro dos guerreiros, que após ficar desempregado, arrisca-se a perder o seu filho - a mãe, brasileira negra, que vive em condições miseráveis pretende regressar ao Brasil com o filho - e para evitar que tal aconteça decide empregar-se como cobrador de dívidas difíceis. No entanto, Jorge que tem uma vontade enorme de ganhar dinheiro para mudar de vida, tem valores e há coisas que ele questiona, nomeadamente a forma de operar dessas empresas, que o colocarão em risco, bem como daqueles que ama. No entanto, há ciclos difíceis de fugir.

 

São Jorge tem uma boa história, a interpretação de Nuno Lopes está realmente brutal, é incrível como se consegue perceber nos silêncios - e ele fala tão pouco no filme - o sofrimento, o desespero, a raiva. Olhamos para ele e parece uma bomba relógio prestes a explodir. No entanto a concretização do filme deixou-me um pouco a desejar. É demasiado lento, exageradamente lento. Nos diálogos há silêncios de mais de 5 segundos. Não há um pergunta-resposta, há demasiados silêncios enervantes, mas apesar de não gostar muito quando assim o é, compreendo o motivo de o ser. Todo o filme é quase um silêncio absoluto, incomodativo que espicaça o expectador e o obriga a sofrer junto com as personagens porque não há forma de nos abstrairmos, não há outro entretém, que não o silêncio tão doloroso.

 

A questão é que não encaro este filme como um filme, acho que se perde quando é classificado como um filme. Este filme é quase um documentário e é um documentário brutal. É no fundo um relato, um relato sobre as dificuldades que as pessoas enfrentam diariamente quando ficam desempregadas e não têm suporte familiar. É um relato do que se passa e acontece nos bairros mais marginais de Lisboa e arredores. As casas são feias, não há condições mínimas, as pessoas amontoam-se, o dinheiro é pouco a a comida quando chega, não dá para matar a fome.

 

É um filme que documenta a forma como os portugueses olham para os subsídios, por vezes tão erradamente. Mostram aqueles que querem viver dos rendimentos mínimos e aqueles que se recusam a viver deles. Mostra a inocência de uns, e a perversão de outros. Fala de racismo e da interculturalidade. Fala no fundo da realidade de muitos portugueses. Fala da violência de quem cobra dívidas sem olhar a quem e a forma como o Estado legitima essas cobranças violentas. Mostra o que as dívidas podem fazer às pessoas.

 

Eu gostei do filme, achei que podia ser um pouco mais agitado, enervou-me e criou-me algum aborrecimento em determinadas partes. No entanto achei o filme do ponto de vista da história e do enredo muito rico.

 

Não vejam o filme com sono, mas vejam, vale a pena.

Uma espécie de Review de alguém que não percebe nada disto: O Bebé de Bridget Jones

Assim que vi o trailer fiquei curiosa com este filme. Acho que é daquelas apostas seguras, que seja como for vamos sempre gostar, porque se a Bridget for a Bridget vai sempre ser engraçado, ainda que possa ser mais do mesmo vamos gostar. E é mais do mesmo e gostei.

 

De ressaltar que a Bridget é a Bridget mas que a Renée Zellweger não é bem a Renée Zellweger. Aquelas plásticas deixaram-na demasiado esquisita, e se quando se ri ela continua a ser ela, quando está séria parece uma cara estranha, uma outra pessoa qualquer que não a Renée. Renée se me estás a ouvir, não te metas em aventuras que eras linda e agora estás só... esquisita.

 

 

O Bebé de Bridget Jones traz mais uma aventura da agora quarentona Bridget, que após uma longa separação de Mark Darcy ainda não encontrou ninguém para refazer a sua vida, mas que em vez de se preocupar com isso decide investir na sua carreira. Num festival de música, e após um longo tempo sem sexo, Bridget decide aventurar-se com um desconhecido, num caso de uma noite apenas, desaparecendo no dia seguinte. Alguns dias mais tarde, num batizado onde Bridget é a madrinha juntamente com Mark como Padrinho, acabam por se envolver, no entanto, Bridget achando que não ia resultar, desaparece deixando uma carta a Mark, a explicar-lhe que já tentaram uma vez e que não deu certo e que por isso era melhor deixarem as coisas como estão. No entanto Bridget descobre que está grávida e como a médica não lhe consegue precisar em que data o bebé foi concebido exatamente, Bridget não faz ideia de quem é o pai. Descobre entretanto que um dos possíveis candidatos, é um milionário, guru dos encontros online, que nunca encontrou o amor da sua vida por estar demasiado ocupado com os algoritmos. E assim começa a aventura até se descobrir quem é o pai do bebé.

 

É um filme engraçado, que me levou algumas vezes às gargalhada, essencialmente nas cenas onde entra a médica altamente sarcástica e pouco dada a sorrisos. Adorei, adorei, adorei a médica. No entanto é um filme que não traz surpresa. Se lhe tivessem dado um fim diferente talvez tivesse trazido, assim, efetivamente, SPOILER ALERT, eu já sabia quem era o pai do bebé ainda antes de ver o filme, é daquelas situações que... Quase de certeza que não iria ser diferente do esperado e aí fiquei desiludida, porque se ela e o Mark já tinham tentado e tinha corrido mal, por que é que agora iria dar certo? Porque há um bebé no meio? Acho que transmite uma mensagem muito errada da vida real, uma ilusão que muitas mulheres acreditam, mas que depois corre mal e acabam sozinhas e com um bebé nos braços. Acho que a Bridget merecia um final diferente. A personagem de Jack, ainda por cima um americano interessante, poderia ter sido um bom final para a Bridget. 

 

No entanto o filme cumpre, no fundo, o que promete, continuar-nos a divertir com as peripécias desta mulher tão desastrada, que podia ser qualquer uma de nós, pelo carácter imperfeito que tem, e acho que é isso que tanto gostamos na Bridget, é que é a Renée, mas no fundo poderia ser qualquer uma de nós, todos nós temos um lado Bridget, eu pelo menos tenho.

 

Acho que fiz bem não o ter ido ver ao cinema, uma vez que gosto de ver no cinema outro tipo de filmes, que me arrasem o coração e a alma, ou pelo menos que tentem, e me surpreendam e este não seria capaz de o fazer, no entanto, é um bom filme, como eu lhe chamo... Um bom filme para domingo à tarde, em família, pois promete arrancar alguns sorrisos.

 

Quem já viu? O que acharam?

Uma espécie de Review de alguém que não percebe nada disto: Manchester by the Sea

E finalmente vi este tão falado dramalhão. Obrigada Popcorn por me facilitares a vida. O Jackie também já está na mira, durante a próxima semana devo vê-lo, que também estou bastante curiosa.

 

Realmente este ano os candidatos aos Óscars têm histórias bastante pesadas. Depois de Moonlight, Vedações, chegou a vez de Manchester by the Sea e confesso que foi o único dos três que me fez chorar, ainda que não nego, o meu favorito continua a ser o Moonlight e fico feliz por ter sido este o vencedor de melhor filme.

 

Relativamente ao Manchester by the Sea, confesso, as expectativas estavam elevadas, e o filme foi totalmente diferente do que estava à espera e surpreendeu-me bastante, este é, no fundo, uma história dentro de uma história e talvez tenha sido isso que mais me surpreendeu e que me fez gostar deste filme.

 

 

Este filme conta a história de Lee, que após a morte do seu irmão Joe, se vê como guardião e tutor legal do seu sobrinho Patrick, sem estar à espera. Este acontecimento muda totalmente a vida de Lee, que o obriga a regressar à sua terra natal - Manchester - obrigando-o a recordar mais do que desejava. À medida que são retratadas as dificuldades de Lee a educar o adolescente Patrick, vamos tendo conhecimento da vida passada de Lee e das motivações que o levaram a afastar-se da cidade. Lee não quer ficar em Manchester, não consegue ficar em Manchester, mas Patrick não quer ir para Boston com o seu tio. Será que vão chegar a um acordo? Que será de Lee e de Patrick? Vejam o filme, vale muito a pena.

 

Este é um filme acima de tudo que retrata os lutos, e as diferentes formas de se reagir a um luto. É um filme que também foca que há feridas que por mais que o tempo passe que nunca curam, porque são impossíveis de curar porque há acontecimentos que mudam totalmente a vida das pessoas de uma forma irremediável.

 

Este é daqueles filmes que por mais parados que seja - que é, é muuuito parado, ainda que não aborrecido - que é impossível ficarmos indiferentes, é impossível não nos comovermos, porque é um filme que trata tantas questões que nos tocam de alguma forma.

 

Não diria que é um filme complicado de ver, mas exige alguma atenção, uma vez que há constantes flashbacks sem aviso prévio que podem dificultar a compreensão, mas com atenção percebe-se bem quando é atual e quando é pensamento.

 

Não gostei do fim. Que é feito dos finais felizes, hein? Está certo, também não é um final triste ou infeliz, mas... imaginava algo diferente, algo que quebrasse o ciclo de sofrimento e a verdade é que isso não aconteceu.

 

Gostei bastante da personagem de Lee, e o Casey Affleck esteve realmente muito bem mas... Acho que a personagem não exigiu muita interpretação, uma vez que a apatia é dos estados que mais caracterizam Lee e por isso continuo a achar que o Denzel Washington merecia o Óscar de melhor ator pelo seu papel em Vedações, por considerar um papel com outro grau de emoção, com outro grau de exigência, mas isto já se sabe, isto sou eu que não percebe nada disto.

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos. Mais do que um blog, são pedaços de uma vida.