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Desabafos da Mula

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos.

Desabafos da Mula

Livro: A casa dos espíritos de Isabel Allende

Finalmente terminei de ler A casa dos espíritos de Isabel Allende e finalmente pude devolvê-la à sua fiel depositária. Confesso que já não me lembrava de demorar tanto tempo a ler um livro, é mais um daqueles casos cujo problema sou eu, não ele, mas enfim. Terminei é o que importa.

 

 

A Casa dos Espíritos retrata a história da Família Trueba, uma família chilena, ao longo do século XX. Apesar de ser uma história romanceada desta família, este livro relata paralelamente o movimento de esquerda revolucionária chilena até ao golpe de estado de 1973 pelas forças armadas chilenas que matou o presidente chileno, Salvador Allende - primo do pai da escritora - e que vitimou muitos civis.

 

Esteban Trueba na história foi um dos homens que mais esteve envolvido contra o movimento de esquerda. Era um homem de ideias extremistas, muito conservador, defensor da pátria e dos patrões. Esteban era um homem violento, com frequentes acessos de raiva, e devido ao seu poder, ninguém lhe faz frente. Este casa-se com Clara, uma jovem muito diferente, que com nada se importava e que possuía poderes místicos, conseguindo mover saleiros com a mente e comunicar com espíritos, esta consegue ainda prever o futuro, e com isso vamos tendo algumas informações do que acontecerá mais tarde, apesar de não sabermos efetivamente como. Clara é a única que durante algum tempo consegue controlar o marido, mas não será sempre assim. Deste casamento nasce Blanca, Jaime e Nicolau, também eles muito distintos entre si e que vão tendo papéis muito diferentes na história. Com o desenrolar da história Esteban acaba por afastar toda a família de si. Nenhum dos filhos se dá verdadeiramente com o pai, e só quando a sua neta Alba - filha de Blanca - nasce é que Esteban dá sinais de começar a amolecer. 

 

Esta história é narrada por três narradores, o que dá uma visão bastante global e diferente da história: É narrada por Esteban, por Clara e por Alba e que se baseia nos diários escritos por Clara ao longo da vida e não é uma história narrada no presente. A história é contada olhando para um passado, com as devidas emoções da vida que não correu como deveria, e com um certo pé na nostalgia e no arrependimento.

 

A Casa dos Espíritos é uma história muito completa, muito sul americana - com imeeeensas mortes -, e muito moderna para a época. É uma história que à parte de tudo, relata a história de uma mulher que ama outra mulher. De uma mulher que toda a vida ama um homem de uma classe social inferior e cujo maior inimigo é o próprio pai da moça. É uma história que demonstra que não há regimes políticos perfeitos e que retrata o sofrimento de um povo cujos políticos não se entendem. É uma história que consegue dividir o leitor em certa medida. Exemplificando. Esteban Trueba decide reedificar a terra Las Tres Marias que era da família e que desde a morte do pai estava ao abandono. Sem Trueba o povo não sabia cultivar, as casas estavam apodrecidas e as pessoas passavam muitas necessidades. A chegada de Trueba foi uma alegria, conseguir reerguer a terra, o povo voltou a ter trabalho, e Las Tres Marias passou a ser uma referência da região. Aquelas pessoas passaram a ter trabalho, passaram a ter o que comer e passaram a ter melhores condições de vida. No entanto, com a ascensão do comunismo isso não era suficiente - e não o é, efetivamente - e o povo começou a rebelar-se contra os patrões. Quando o comunismo voltou a chegar ao poder, a terra voltou a ficar mal parada - porque ninguém trabalhava para outrem - e tudo voltou a ficar destruído. Ou seja, o povo precisava de alguém que o gerisse, e a verdade é que cada um reger-se por si, não dá bom resultado, e vários episódios da história portuguesa e mundial demonstram isso mesmo. Então o livro divide o leitor: porque se por um lado queremos apoiar os comunistas porque realmente os trabalhadores merecem melhor, por outro lado sabemos o que é que vai acontecer se os apoiarmos. No final, com o golpe de Estado tudo piorou e instalou-se inevitavelmente uma ditadura onde muitas atrocidades foram cometidas, inclusive contra a família Trueba que até então era intocável..

 

Esta é uma história incrível, muito tocante, muito bem escrita - apesar da edição que li estar cravadinha de gralhas ortográficas - no entanto a temática não me envolveu o suficiente para querer devorar o livro como gosto, não me motivou e por isso confesso, foi um livro que me aborreceu mais do que me divertiu. É para mim um livro demasiado político, demasiado histórico, demasiado descritivo, e são tudo características que não aprecio num livro, no entanto, sei separar as águas e tenho perfeita consciência que é um livro muito bom, só que não é um livro para mim.

 

Agora, quero ver o filme! Mas confesso-vos desde já que Antonio Banderas e Pedro Garcia Tercero são tão diferentes do que eu imaginava, e a Meryl Streep e a Clara não têm nada que ver! Acho que vai ser daqueles filmes que nenhuma das minhas personagens vai encaixar ali, mas estou curiosa para ver como é que transformaram esta trama tão densa num filme.

 

Quem já leu? Opiniões do livro e do filme?

 

Boas leituras.

Livro: O Bibliotecário de Paris de Mark Pryor

Ofereci o livro O Bibliotecário de Paris de Mark Pryor a um amigo mas a verdade é que fiquei tão curiosa, mas tão curiosa - como sabem, adoro a temática da Segunda Guerra Mundial - que tive mesmo de o ler. Não quero já ser desmancha prazeres mas... Foi um livro que me dececionou.

 

 

Quem leu O Livreiro, já conhece as personagens - não li mas sei que o Tom e Hugo estão de volta - e no caso d'O Bibliotecário de Paris a história inicia-se com a morte de Paul Rogers, diretor da Biblioteca Americana de Paris, aparentemente devido a causas naturais, apesar do seu amigo Hugo Marston - responsável pela segurança da Embaixada dos EUA em Paris - achar a morte de Paul estranha. Tudo apontava para uma falha cardíaca, mas quando a viúva também aparece morta na banheira de sua casa, aparentemente por suicídio, a trama complica-se e é aberta uma investigação. Por esta altura, duas amigas e jornalistas de Martson chegam a Paris para investigar uma ex-atriz famosa dos anos 40 que julgam ter sido espia durante a II Guerra Mundial a favor da resistência e havia relatos de que tinha morto um oficial da Gestapo com um punhal. Hugo Marston acredita que as duas histórias podem estar relacionadas e inicia uma busca incansável para descobrir quem matou o amigo e porquê.

 

Antes de mais dizer-vos o motivo da minha desilusão: É só um policial e não é, de todo, um livro sobre a II Guerra Mundial.

 

Spoiler alert!!!!!!!!!!

As duas histórias estão longe de se relacionarem, e o final é tão fora de contexto que não percebi a ideia do autor. Basicamente há duas histórias paralelas, uma que se entende, que no final tem uma explicação, e outra - a que fala sobre a atriz que pode ter sido espia - que afinal não nos leva a lado nenhum e é só para entreter e confundir o leitor.

 

O livro lê-se muito bem, li-o em duas noites, mas não me cativou tendo em conta que esperava um livro sobre a II Guerra Mundial e tal não se verificou. Ao longo do livro encontramos muitos diálogos despropositados, tem muita palha para encher chouriços muitas frases e diálogos para encher páginas que nada têm que ver com a história em si - e isso enerva-me, ó se me enerva - e o assassino é - pelo menos para mim foi - óbvio desde o início, apesar do motivo ser totalmente surpreendente. 

 

É um bom policial, não digo que não o é, mas é só isso. Não é um livro histórico - ainda que tenham tentado sem sucesso que o fosse - não é um livro de crimes de guerra - apesar de terem tentado sem sucesso que o fosse - nem é um livro sobre livros - ainda que tenham tentado sem sucesso que o fosse. É certo que se passa numa biblioteca, é certo que o Paul estava a escrever um livro - de ficção científica, é que até este elemento nada tem que ver com a história - e é certo que se fala de uma coleção de livros que pode conter uma coleção secreta de crimes de guerra - mas que nunca se verifica e que acaba por se perder no vazio. É por isso só um livro sobre um crime, e sobre o desvendar desse crime, e aí não é mau.

 

O que me revolta no livro é que o considero de publicidade enganosa. Não é um livro sobre o que diz ser. À parte disso, não é mau, é um livro que se lê bem, que entretém, que não maça. Mas no entanto, acho que a trama tinha todos os elementos para ser um grande livro e tem uma capa lindíssima que atrai, mas que no fim, na minha opinião claro, acabou por ser muito mal concretizado, para além de que - e isso o autor não tem culpa mas revolta-se-me as entranhas todas - a tradução/edição estava cheia de erros ortográficos.

 

Fiquei zangada, confesso! Eu que até tinha alguma curiosidade com O Livreiro agora acho que não o irei ler.

 

Boas leituras.

Livro: Memória de Minhas Putas Tristes de Gabriel García Márquez

A menina Alexandra ofereceu-se para me emprestar este pequeno livro e eu desde logo aceitei. Era um livro que queria ler há muito tempo, sabia que o ia ler de um só trago e porque as finanças não andam fantásticas e a minha gula por livros em alta, tenho aceitado mais do que nunca ler livros que não possuo. Li este livro numa só tarde, e foram umas horas muito bem passadas.

 

 

 

 

As Memórias das minhas putas tristes conta a história - em primeira pessoa - de um homem solitário que toda a vida fora habituado a recorrer a prostitutas para satisfação pessoal, e que quando faz 90 anos decide oferecer-se uma prenda de aniversário especial: uma virgem. Para isso recorre ao bordel que toda a vida recorreu na esperança que o ajudem a satisfazer mais este prazer na vida. A dona do bordel encontra-lhe uma virgem, uma miúda com apenas 14 anos que apesar de conhecer pouco da vida, vai mudar para sempre a história deste homem.

 

Na realidade este não é um livro sobre as putas dele, é na realidade sobre ele próprio, sobre o seu passado, sobre a sua vida, sobre os seus sentimentos e o porquê de nunca ter casado, de nunca ter tido filhos e de nunca ter amado, até ter feito 90 anos.

 

É um livro que fala sobre o envelhecimento de forma crua, sobre o que as pessoas sentem a envelhecer e de como o tempo passa por elas sem que se apercebam. É um livro que toca no tema de pedofilia mas de forma tão ténue, mas tão ténue que quase não nos apercebemos dela, uma vez que a moça não é apenas uma criança, é uma criança que vive uma vida de adulta: trabalha várias horas numa fábrica a pregar botões, e agora trabalha para o bordel para satisfazer este personagem.

 

No entanto, o livro não é chocante, não é um livro erótico ou sexual, é um livro que falando de sexo pretende falar de amor, de como o amor preenche e de como o sexo apenas esvazia. De como o sexo desaparece e de como o amor fica.

 

Posso-vos já adiantar que a moça e o velho nunca têm relações em todo o livro, no entanto ele apaixona-se por ela pela simplicidade de a ver dormir, e assim criam uma relação deveras estranha em que o velho paga para que a moça apenas durma a seu lado sem nunca lhe tocar de modo sexual, sem nunca abusar dela, levando-o a refletir sobre toda a sua vida, sobre o que ele toda a vida procurou e que nunca encontrou, a não ser agora, na velhice. Retrata também o respeito que advém da pureza, da simplicidade, do amor. Porque quando há amor há respeito. Mas quando é só sexo o respeito também desaparece.

 

Acho que acima de tudo o livro quer-nos mostrar duas coisas: Que é possível viver uma vida sem amor e que é possível morrer de amor e acima de tudo que se pode ser feliz ou infeliz seguindo qualquer um desses caminhos. E o livro mostra-nos estes dois lados da vida.

 

É na realidade um livro muito pequeno, como vos disse li-o numa tarde, mas é um livro carregado de significado. E porque em várias opiniões sobre este livro há imensas referências ao livro Lolita de Vladimir Nabokov, acrescento mais este livro à minha lista. 

 

Estreei-me com Gabriel García Márquez, gostei muito e recomendo.

Quem já leu?

Livro: E se fosse verdade... de Marc Levy

Já conhecia a história, já tinha visto o filme Enquanto estiveres aí... [título original: Just Live Heaven] que se baseou nesta obra de Marc Levy, por isso o livro não foi de todo uma surpresa, mas depois do Para onde vão os guarda-chuvas do Afonso Cruz, precisava de uma leitura mais ligeira, e por isso escolhi este pequeno livro, que me tinham oferecido há uns anos e que desde então jazia na minha estante. Nunca tinha lido Marc Levy e como sei que está O Ladrão de Sombras no Livro Secreto, decidi espreitar a escrita deste autor.

 

 

E se fosse verdade... conta a história de Arthur que após ter mudado de casa encontra uma rapariga no armário de sua casa. Assustado, acha que foi uma partida do seu sócio, mas logo descobre que este "espírito" pertence a Lauren, uma rapariga que está em coma há cerca de 6 meses devido um acidente rodoviário e que era a antiga proprietária daquele apartamento que Arthur acabou de alugar. Lauren poderia seguir com a sua vida de alma, mas há 6 meses que não falava com ninguém, porque ninguém a via nem a ouvia e por isso vê em Arthur a sua única salvação para passar o tempo enquanto não regressa do coma, se alguma vez efetivamente regressar. Arthur aceita ajudá-la e pretende descobrir uma maneira para a fazer regressar do coma, mas o tempo dos dois começa a escassear porque os médicos querem convencer a mãe de Lauren a deixá-la partir, uma vez que, apesar de respirar pelos seus próprios meios, não tem atividade cerebral há mais de 6 meses. Arthur engendra assim um plano para salvar a mulher da sua vida e rapta-a para que não prossigam com a eutanásia. Será que Arthur vai conseguir salvar Lauren? E se conseguir, o que será desta relação?

 

O livro é engraçado, não é extraordinário, mas é engraçado. É de leitura ligeira, mas falta-lhe comédia. Achei o filme muito mais engraçado do que o livro - ainda que o tenha visto há muitos anos. Mas gostei da parte da descoberta de Arthur à medida que se vai envolvendo com Lauren, e essa parte não me recordo de existir no filme.

 

A história é obviamente surreal e por isso nada tem de ter de verdadeiro, mas achei-a excessivamente irreal. Achei os discursos muito forçados e até estúpidos. No primeiro dia, e após perceber que Lauren é apenas um espírito, Arthur começa a galanteá-la. Porque a primeira coisa que um homem faz quando vê um fantasma é começar a namorá-la. Ok é só uma história. Depois há partes totalmente incoerentes: ela não pode pegar em coisas e por isso não pode preparar-lhe o pequeno almoço, mas eles os dois têm sexo. Alguém me explica como? Pois não sei, não entendi. A verdade é que o filme é muito mais romântico que o livro, o livro parece-me mais forçado. Curiosamente sinto o mesmo com os livros do Nicholas Sparks: Adoro os filmes, mas os livros não me seduzem.

 

À parte deste tipo de questões, e à parte de imensos erros de impressão que tem esta edição - que também não ajuda a criar a ligação - é um livro engraçado, bom para passar uma tarde ou duas e perfeito para quem quer ler para se divertir sem ter de pensar muito.

 

A quem já viu o filme, adianto desde já que o final do livro é um tanto diferente. O filme é com o Mark Ruffalo e com a Reese Witherspoon, o que logo à partida é impossível não sentir a empatia destes dois, mas ao ler o livro, não a senti, a sério, que não senti. Por isso mais um ponto para o filme e zero para o livro.

 

Poderia atribuir a culpa de o livro não me ter encantado, ao facto de conhecer a história, mas não acredito porque também conhecia a história de Viver depois de ti, da Jojo Moyes e adorei o livro - mais até do que o filme - acho apenas que este foi mal concretizado. Talvez sinta isto, devido a não ser o meu tipo de livro, porque gosto de livros com que possa aprender alguma coisa, com que possa ficar inquieta e com este não aconteceu, mas acho este livro realmente mal aproveitado, apesar da história não ser má.

 

Ainda assim, e apesar desta fraca experiência com Marc Levy estou curiosa com o Ladrão de Sombras que me passará um dia destes pelas mãos, e que já ouvi falar muito bem, por isso estou a criar algumas expectativas.

 

Quem é que já leu o E se fosse verdade...? Não vos digo para o lerem, mas se tiverem oportunidade, vejam o filme, é uma delicia de filme, muito mais credível, muito mais romântico, muito mais engraçado!

 

Boas leituras!

 

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Aproveito desde já para vos informar que vou participar em mais um desafio literário. Pelo que às segundas, quartas e sextas às 14h vou falar sobre livros, juntamente com a Magda e com que mais se juntar a nós. Fiquem desse lado, começa já amanhã! Queres juntar-te a nós neste desafio? Vê aqui como participar.

Livro: Para onde vão os guarda-chuvas de Afonso Cruz

Terminei de ler o Para onde vão os guarda-chuvas do Afonso Cruz e fiquei com um sabor amargo no coração, não por não ter gostado, que este livro voou diretamente para o meu top 5 de livros favoritos, mas porque é tão belo e tão aterrador. Afonso Cruz teve realmente o dom de nos contar o horrível com uma pitada de humor, como nunca vi. Posso dizer muita coisa sobre este livro, mas acreditem que nunca vou dizer o suficiente, demonstrar suficientemente o quanto gostei dele. E não, acreditem que não foi por teimosia.

 

 

 

Para onde vão os guarda-chuvas é uma fábula e conta a história de uma família que vive no Médio Oriente: Fazal Elahi que tem uma fábrica de tapetes, Bibi sua esposa que vive como uma americana e tem uns cabelos que parecem pássaros, Aminah sua irmã que sonha casar-se com Dilawar - viciado em ópio e prostitutas - e rejeita quem a ama realmente - Mudaliar, que por ser hindu não é bem aceite pela família. É ainda a história de seu primo, Badini que é mudo e fala com as mãos como quem conta um poema, de Salim, filho de Elahi e Bibi que fingia ser um avião e Isa, um pobre rapaz que nasceu na América e posteriormente é adotado por Elahi, que cria pássaros atrás de si.

 

Este é um livro que mostra o Médio Oriente como imaginamos que é, como o idealizamos, com tudo o que tem de bom e de mau. Um livro que mostra como nem todos os muçulmanos são maus, porque há pessoas boas e más em todas as religiões, países e credos. Fala de como há pessoas que nos metem medo só de olhar e outras que é impossível não gostar. É um livro que fala sobre a tolerância e sobre a falta dela. Sobre o perdão. Que nos mostra como é possível coexistirmos neste mundo que não é assim tão grande. É também um livro que fala sobre a perda de um filho, e de como é (im)possível recuperar dessa perda, porque como dizia Elahi, tudo nesta vida desaparece, até as pedras. Toda a história nos é contada à luz do que conhecemos da cultura árabe: a forma de tratamento das mulheres, como os bons costumes e as aparências são importantes para estabelecerem uma certa importância social, entre muitas outras questões. Tudo isto, com uma pitada de humor, com um falso divertimento, que ora nos choca ora nos diverte.

 

Para além da história que nos prende desde a primeira palavra, a forma como é escrito é outra forma que nos encanta, e não me refiro à forma de escrever do autor. No livro, as letras funcionam como desenhos e ora têm um tamanho, ora têm outro, ora tem desenhos, ora textos que aparentemente nada têm que ver com a história, mas que têm tudo a ver. O livro parece um conjunto de vários fragmentos que se ligam entre si e contam esta história incrível.

 

Posso só dizer que não gostei de como termina...? Posso? Posso? Não gostei de como termina!

 

Ainda assim... ainda agora o terminei, e já fiquei com vontade de o ler novamente... Mas não pode ser, outros me esperam.

 

E quem é que sabe para onde vão, afinal, os guarda-chuvas?

Livro: Se Isto é um Homem do Primo Levi

Já sabem que sou sadomasoquista, e que apesar de entrar num sofrimento que só visto, gosto de ler sobre o Holocausto. Assim e por sugestão da Uva Passa comprei e li o Se Isto é um Homem do Primo Levi, químico e escritor judeu italiano que foi levado para Auschwitz com apenas 24 anos, na noite de 13 de Dezembro de 1943 onde permaneceu no campo de trabalho até 27 de Janeiro de 1945.

 

 

Como o próprio autor indica logo no início, este livro "não foi escrito com o objetivo de formular novas acusações; servirá talvez mais para fornecer documentos para um estudo sereno de alguns aspectos da alma humana." Este livro não pretende, por isso mesmo, ser apenas mais um que descreve as atrocidades que os alemães eram capazes de infligir aos judeus nos campos de concentração, ainda que seja impossível não os referir, quando eram uma constante e os verdadeiros responsáveis pelo que de resto o autor descreve.

 

Primo Levi, focou-se bastante no outro lado da clausura, do que era necessário fazer para se sobreviver, e o que acontecia realmente quando não se sobreviva e de como os presos lidavam com a inevitabilidade de pertencer àquele campo. É um livro que pretende chamar a atenção para os comportamentos do homem quando submetidos a condições de extrema violência e de extremas necessidades. É por isso um livro, que é quase um manual de sobrevivência, sobre como ele, o Primo Levi, conseguiu sobreviver quando muitos não tiveram a mesma sorte, destacando como fundamental: a língua - acha que sobreviveu por entender um pouco de alemão - e a desumanização, ou seja, quanto mais ele deixasse de se sentir homem e pessoa, mais hipóteses teria de sobreviver, reforçando ainda que acha que apenas sobreviveu porque foi capturado numa altura em que os alemães precisavam de muita mão de obra tendo reduzido significativamente os extremínios. Primo Levi, segundo a história do Holocausto é assim um dos homens que mais tempo aguentou, e sobreviveu, a Auschwitz, cujo tempo de sobrevivência médio rondavam os 3 meses.

 

Acho que o que mais me chocou foi a visão otimista de Levi. Se não chovia, ele sentia-se com sorte, se chovia, mas recebia mais uma ração de pão, era outro ponto positivo. No fundo ele tentava encontrar onde mais ninguém encontrava um ponto positivo, de certa forma para se conseguir agarrar e sobreviver. Há inclusive uma entrevista onde ele vai contra o que era dito sobre a alimentação do campo, indicando que não achava o pão e a sopa más, que achava era pouco. 

 

Assistimos neste livro, a toda a desconstrução de alguém que acaba por se abandonar como homem, e no final, quando os alemães abandonam o campo devido ao avanço dos Russos - deixando-os à sua sorte sem qualquer comida - de novo a construção deste e de outros elementos, enquanto homens. É por isso um livro que pretende apenas relatar, não de um ponto emotivo mas histórico, o que por lá se passava e acontecia. Não é por isso um livro que pretenda apelar às emoções, ainda que seja impossível não sentir dor e revolta perante as descrições lidas.

 

O livro é realmente muito bom, no entanto a tradução tornou o livro um pouco difícil de ler. Tem demasiados termos, falas e expressões em francês e alemão, que dificultaram a compreensão. Acho que mesmo que quisessem manter a estrutura original, que uma nota com a tradução faz alguma falta.

 

Este é mais do que um livro, é um relato de coragem. A coragem de um homem que passou mais de um ano num campo de concentração em trabalhos forçados, que conheceu muita gente capaz de tudo para sobreviver, e que em 1958, 13 anos depois, falou e escreveu sobre isso com uma frieza de quem apenas ouviu o que por lá se passava mas que não passou por, prova da desumanização que Levi relata como essencial à sobrevivência.

 

É descritivo e um tanto violento por isso não deve ser lido pelas pessoas mais impressionáveis, mas se tiverem oportunidade, leiam!

 

Boas Leituras!

Livro: O Filho de Thor de Juliet Marillier

Emprestaram-me O Filho de Thor e finalmente terminei de ler, este, que foi o primeiro livro que li de Juliet Marillier. Confesso que as minhas expectativas estavam bem lá no fundo: Primeiro porque não é, de todo, o meu estilo literário. Não sou fã de livros - nem de cinema - sobre guerreiros, sobre conquistas, sobre povos e afins. No entanto a pedido de uma colega, li este livro. E não é que fiquei surpreendida? Agradavelmente surpreendida?

 

 

O Filho de Thor conta a história de dois amigos de infância, Somerled e Eyvind, que fizeram um juramento de sangue que os vai unir para o resto da vida. No entanto estes dois amigos são muito diferentes: Somerled é inteligente, um jogador nato, frio, cruel e uma pessoa que não mede as consequências dos seus atos para alcançar os seus fins. Já Eyvind é um bom rapaz, sonhador, que tem como objetivo de vida ser um pele-de-lobo - um guerreiro - e seguir o chamamento de Thor - o Deus dos guerreiros. Somerled tem apenas um sonho, um objetivo, ser Rei. E a forma como vai prosseguir esse sonho é a verdadeira história deste livro e é o que colocará à prova a grande amizade e irmandade que une Somerled e Eyvind, porque após viajarem para as Ilhas Brilhantes, Eyvind vai perceber finalmente quem é Somerled e tudo o que acredita será posto em causa.

 

Ao contrário do que eu achava, este não é apenas um livro sobre guerreiros, sobre tribos e rituais. É um livro carregado de intrigas, de mistérios e segredos. É um livro que fala sobre as promessas acima de tudo, que fala sobre lealdade, sobre o que é certo ou errado, e acima de tudo que fala sobre amor. Tem claro - partes que eu dispensava - rituais mágicos, coisas impossíveis, muita fantasia, mas consegui ultrapassar estas questões devido à forma intrigante como é escrito.

 

Gostei de Juliet Marillier, ela sabe realmente cativar o leitor, no entanto, considero que esticou - pelo menos neste caso - demasiado o livro. As descrições são demasiado longas - vocês sabem que eu não sou fã de grandes descrições -, os pormenores são excessivos e a história é demasiado esticada no tempo, o que fez com que por vezes me sentisse um pouco aborrecida, porque há alturas de impasse que parece que lemos, lemos, lemos e a história não avança, e isso confesso, enervou-me um pouco. Mas a história é realmente fantástica, enternecedora, e que por vezes nos revolta. E eu gosto de livros que me abalem os sentimentos.

 

É realmente um bom livro. No final, na nota histórica da autora, percebemos que apesar de toda a magia, de toda a fantasia, a mesma se inspirou em factos reais, em ilhas reais em povos reais, ainda que depois lhe tenha dado a moldura que achou melhor. Ainda não decidi se irei ler a sequela - Máscara de Raposa - uma vez que a história não tem nada que ver com a inicial, mas a seu tempo decidirei.

 

Quem já leu O Filho de Thor?

Livro: Receitas de Amor para Mulheres Tristes de Héctor Abad Faciolince

Comprei este livro em promoção na FNAC sem ter grandes expectativas. A capa chamou-me a atenção, o título ainda mais, e ao desfolha-lo percebi que eram pequenas crónicas sobre a vida que nele constavam, como se de um livro-blog se tratasse. A grande vantagem nestes livros de pequenos contos, ou pequenas crónicas, é que se não gostarmos de uma podemos facilmente avançar para a seguinte.

 

 

Este livro de Receitas de Amor para Mulheres Tristes contem sábios conselhos mascarados de receitas, para que nós mulheres, algo complicadas, possamos ver a vida com outros olhos, quando assim é possível. Mas como diz o autor em algumas situações, não há receitas milagrosas para a cura da alma e nem sempre funcionam à primeira, por vezes é necessário insistir.

 

Os temas do livro são diversos, desde o simples feitio da mulher, à traição, passando pela depressão e pela maternidade, tudo um pouco é abordado em curtos e simples textos, que tantas vezes lembram a poesia. No fundo é uma coletânea de prosa poética, como prova este pequeno excerto que já aqui partilhei.

 

Não há muito que eu possa dizer sobre este livro, apenas que gostei muito, que me revi tantas vezes, e que outras tantas olhei em volta para perceber se aquele texto teria sido escrito para mim, sem eu saber. Este não é um livro para ler, é para irmos lendo. Uma receita de cada vez para que as mesmas não se misturem na nossa cabeça e se emaranhem. 

 

Partilho uma das receitas convosco, para vos aguçar o apetite:

 

Mais tarde ou mais cedo, se é que esse dia não chegou já, hás-de sentir a tremenda desolação da vida a dois. Ele não te vê. De repente dás contigo convertida num ser invisível: qualquer coisa nos olhos dele te faz desaparecer. Para esta solidão em companhia não resulta fazer barulho, o pranto não produz efeito, nem o riso. É uma cruel surpresa uma mulher descobrir que vive com um cego surdo-mudo que, porém, vê, isso sim, o ecrã da televisão, vê o cotão nos cantos da casa, as marcas dos dedos em todos os vidros, ouve o toque do telefone, faz negócios em voz alta pelo bucal.

 

Para este mal agudo dizem algumas optimistas que existe uma solução na cozinha. E sugerem a seguinte receita capaz de alterar os ânimos:

 

Conseguir seis perdizes desossadas (perdiz tão bela que nos leva a dizer Por Deus!). Lavá-las bem, muito bem, e começar por temperá-las com sal e pimenta. Dourá-las em manteiga misturada com azeite; juntar-lhes depois uns punhados de ervas aromáticas e umas colheres de natas. Vão depois ao forno médio até estarem bem cozinhadas. Servem-se com puré e bem quentes.

 

As perdizes são tão difíceis de obter nos nossos pequenos mercados que poucas vezes as minhas papilas conseguiram experimentar este esconjuro de feitiço contra a indiferença. Substitui as perdizes por galinhas-da-índia anãs e vê se com esta aldrabice a coisa sai bem. Mas quando um marido começa a ficar cego, o melhor é começares tu a ligar apenas àqueles que te veem.

de Héctor Abad Faciolince 

 

Este exemplo demonstra bem o que vocês poderão encontrar ao longo destas 125 páginas. São no fundo 125 páginas cheias de amor, de fraqueza, de medos e desilusões, temperadas com uma pitada de humor, auto-estima e ternura. Eu gostei muito, e serão textos a reler.

 

Alguém já leu este livro?

Livro: Em Busca do Carneiro Selvagem de Haruki Murakami

E após um ano e três meses, finalmente terminei de ler o livro Em Busca do Carneiro Selvagem de Haruki Murakami. Nunca um livro me custou tanto a ler, mas como não sou de desistir, decidi que deste mês não passava. Mas decididamente Murakami não é para mim. É demasiado... Irreal, digamos assim. No entanto, tendo em conta o fantástico, o irreal, até está uma história interessante.

 

 

Em Busca do Carneiro Selvagem retrata a história de um jovem japonês que prestes a fazer 29 anos entra em decadência. A mulher pediu o divórcio, o trabalho não corre como esperado, e este sente-se apático. O primeiro momento de reviravolta na vida deste jovem é quando conhece uma rapariga com poderes especiais, devido às suas orelhas, tornando-se obsessivo com estas. E o segundo momento, é quando é abordado por um estranho homem, para procurar um carneiro específico tendo por base uma fotografia, tendo de viajar até uma aldeia recôndita no interior do Japão, sem saber se esse carneiro realmente existia.

 

É um livro fantástico - não fantástico de bom, mas da categoria do fantástico - onde os carneiros têm poderes especiais e entram dentro das pessoas comandando-as e onde raparigas com orelhas perfeitas conseguem prever o futuro. É um livro onde os mortos falam e onde nada é o que parece ser. É um livro mirabolante.

 

É no entanto, um livro de fácil leitura - bem sei que não parece, pelo tempo que o demorei a ler - no sentido que tem uma linguagem simples, clara e com bastantes diálogos. Acaba por ser maçador por ser um livro que se demora a desenrolar, e é demasiado descritivo. Demorei 1 ano e 3 meses para ler 100 páginas, mas a verdade é que li as restantes 260 numa semana, porque finalmente o livro ganhou um propósito, ganhou algum mistério que nos permite querer saber o que acontece depois. Até essas 100 páginas, era só a história de um homem divorciado obcecado pelas orelhas de uma rapariga... Mas ao longo de 100 páginas! É insano! Depois disso é um homem que se envolve numa série de mistérios em busca de um carneiro que poderá nunca ter existido e ser fruto da imaginação, já que normalmente ele só era visto em sonhos, mas que tem a sua vida ameaçada se não o encontrar. A partir deste ponto confesso que fiquei emaranhada na história e fiquei curiosa.

 

Gostei, realmente, das questões existenciais do personagem - que não tem nome, talvez por não saber quem é - que tem dificuldades relacionais com pessoas e animais. O personagem não consegue dar nome ao seu gato, porque acha que isso o determinaria demais, e há inclusive uma enorme confusão no que toca à rapariga das orelhas que ora ele chama de amiga, ora de namorada. A personagem é realmente muito confusa e esta busca do carneiro representa no fundo a sua descoberta pessoal, quem é, e o que representa no mundo. Retrata também as prioridades da vida, quando um pai prefere viver para a sua obsessão do que para o seu filho, por exemplo.

 

No entanto, o final não me satisfez, e acho que até nem o compreendi. Compreendi que efetivamente este livro representará uma metáfora e que o homem que outrora se encontrava perdido encontrou um rumo para a sua vida, passando por uma série de transformações que o ajudou a encontrar o propósito da sua vida, mas para um livro tão descritivo, senti que o final foi apressado.

 

Descobri no entanto que este livro faz parte de uma trilogia: A Trilogia do Rato, mas creio que a minha experiência com Murakami termina aqui. No entanto recomendo-o para quem gosta do estilo fantástico.

 

Já agora, se alguém leu este livro e percebeu bem o final, que mo explique se faz favor, que eu tenho umas quantas questões para fazer.

 

Boas leituras.

Livro: Canção de Embalar de Auschwitz de Mario Escobar

Desde que pus os meus olhos castanhos em cima do livro de Mário Escobar que nunca mais descansei. E agora que já o comprei e que entretanto já o li, não consigo descansar porque não consigo aceitar a história. Custa-me a aceitar as atrocidades que o ser humano é capaz de infligir a outros sem qualquer razão, sem qualquer motivo. Custa-me a aceitar que a história assim tenha sido. Mas assim é...

 

Finalmente li a Canção de Embalar de Auschwitz de Mario Escobar e desde então que tenho uma ferida aberta no peito.

 

 

A Canção de Embalar de Auschwitz é um livro baseado em factos verídicos e conta a história de Helene Hannemann, enfermeira e ariana alemã que casa com Johann, um cigano violinista, e que com ele tem cinco filhos, dois dos quais gémeos. A história começa quando em 1943 as SS batem à porta desta família para levar Johann e os cinco filhos de Helene para o campo de concentração de Auschwitz II - Birkenau, considerado o pior campo de concentração do Holocausto. Helene como era ariana e alemã não foi intimada, mas seguiu para o campo de concentração voluntariamente para acompanhar a sua família.

 

Após a viagem horrível de comboio até Birkenau, Helene e os seus filhos são separados de Johann que vai para outro campo de trabalho. Sozinha com os seus cinco filhos, Helene é maltratada como qualquer outro elemento do campo, no entanto e após se voluntariar para ser enfermeira no Hospital de Birkenau, as suas condições melhoram um pouco mais, conseguindo ajudar também as mulheres e crianças que a rodeavam.

 

Tudo muda com a chegada do Doutor Mengele a Birkenau para dirigir o hospital do campo. A personalidade forte de Helene fez com que o Doutor Mengele a convidasse a gerir uma creche em Birkenau e isso fez com que as condições de vida dela e dos seus filhos mudasse consideravelmente e inclusive conseguisse um visto para ver o seu marido. Com a abertura da Creche, Helene conseguiu salvar muitas crianças da morte e conseguiu criar alguma esperança, uma vez que naquele espaço as crianças tinham acesso à alimentação e acesso à educação que de outra forma não lhes era possível. Helene via em Doutor Mengele alguma humanidade, ainda que lhe intrigasse as razões e o seu olhar estranho. Até que descobre os verdadeiros motivos da creche: O Doutor Mengele precisava de crianças fortes e saudáveis, essencialmente dos gémeos, para as suas horríveis experiências.

 

Não vos sei dizer se gostei ou não do livro. Como dizer que se gosta de um livro onde a barbárie impera? Como dizer que se gosta de um livro que nos faz sofrer e nos faz chorar e nos faz odiar os humanos? Não vos posso dizer que gostei do livro, mas posso dizer-vos que o devorei, que me amarfanhei toda e que o senti de uma ponta à outra como se fosse uma faca que se me cravasse no coração.

 

Não vos sei dizer porque leio estes livros, não vos sei dizer o que me atrai nestes livros, mas a verdade é que é uma temática que me suscita a ler mais, desde o primeiro livro que li sobre o Terceiro Reich: O Diário de Anne Frank. Desde então sempre me interessei por livros sobre a II Guerra Mundial, por documentários e pelos filmes que retratam a época. No entanto, não vos posso mentir, a cada livro que leio, a cada filme que vejo, a cada documentário que assisto, uma pequena parte de mim morre.

 

Helene via alguma humanidade em Mengele, eu, já conhecendo histórias deste sujeito, já imaginava o propósito da creche, mas ainda assim tenho consciência que de uma forma ou de outra aquelas crianças iriam morrer - aliás normalmente nos campos de judeus as crianças nem chegavam a viver no campo, eram logo encaminhadas para as câmaras de gás assim que chegavam - por isso tenho consciência que a existência daquela creche - ainda que com um propósito errado - permitiu a muitas crianças que ali cresceram, serem um pouco mais felizes. A creche tinha baloiços, tinham projetores de cinema com filmes infantis, papeis, canetas, ...

 

Confesso que é a primeira vez que leio sobre os campos de ciganos.

 

Sempre que se fala do Holocausto, fala-se quase sempre nos judeus, e os homossexuais e os ciganos acabam por viver um pouco na sombra dos judeus. No entanto estima-se que dos mais de 22 mil ciganos que entraram em Birkenau, apenas poucos mais de 3000 tenham sobrevivido. São números assustadores. Ainda assim, e confrontando o que já li sobre os campos de concentração de judeus e os dos ciganos, os ciganos eram - dentro do que era possível ser - mais bem tratados que os judeus, não me pareceram tão controlados quanto os judeus eram. Não me recordo de os judeus poderem "passear" pelo campo, e aqui os ciganos podiam efetivamente fazê-lo, podiam visitar outras barracas, e não eram submetidos a trabalhos forçados.

 

Algo que me choca bastante nestes relatos - e que já tinha constatado n'Os Sete Últimos Meses de Anne Frank - é a capacidade de pessoas conseguirem fazer mal a seus semelhantes. Acho que mais do que as SS e os Nazis exterminarem pessoas, choca-me a agressividade dos Kapos, que eram prisioneiros que em troca de alguns privilégios ficavam encarregues de vigiar e maltratar outros prisioneiros do campo. Assusta-me a capacidade cruel dos humanos.

 

Se forem como eu e se se interessarem por esta temática, leiam este livro, caso contrário, não o façam, porque se por um lado passa uma mensagem de esperança, por outro lado mostra algumas das atrocidades dos estudos do Doutor Mengele, mostra muitas das atrocidades que muitas mulheres e crianças foram sujeitas e é um livro que nos esgota a alma... É bastante descritivo e violento

 

A minha ficou esgotada...

 

Boas Leituras!

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos. Mais do que um blog, são pedaços de uma vida.