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Desabafos da Mula

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos.

Desabafos da Mula

Livro Secreto II #4 As Terças com Morrie de Mitch Albom

São livros como este que me fazem lembrar porque me inscrevi no Livro Secreto pela segunda vez. São livros como este que eu nunca leria se não me tivesse inscrito. São livros como este que me fazem chorar... Não o conhecia. Mas acho que nunca o esquecerei.

 

 

As Terças com Morrie não é um livro de ficção e deveria de ser de leitura obrigatória.

 

Este livro é um relato de um Sociólogo e professor, Morrie Schwartz, que sofre de Esclerose Lateral Amiotrófica (E.L.A.) que reencontra um antigo aluno, 20 anos depois, Mitch Albom - o autor -, reunindo-se com este todas as terças-feiras, para falar sobre a morte, sobre a vida, sobre tudo, ao passo que ajuda Mitch a encontrar-se como pessoa. Mais do que um relato de morte é uma fonte de descoberta psicossocial.

 

Este é um daqueles livros que começamos a ler com um nó na garganta e quando terminamos já é impossível segurar as lágrimas, porque apesar de conhecemos o final desde o princípio, é impossível evitar. Estava realmente a precisar de um livro assim depois de ter lido Murakami.

 

Morrie é uma força da natureza que mesmo às portas da morte consegue sorrir e agradecer a vida que tem e teve. Morrie é um bem disposto e um positivista nato. Positivista, Mula? Mas ele achava que ia conseguir curar-se? Claro que não... Morrie sabia que não tinha cura mas a forma como assumiu essa inevitabilidade é realmente incrível. Nunca se vitimizou - dizia que só se permitia vitimizar um pouco de manhã quando acordava e sabia que já não podia dançar ou correr - mas que era o máximo que se permita.

 

De página para página, de terça-feira para terça-feira, acompanhamos a evolução da doença de Morrie e é impossível ficarmos indiferentes. Ele diz uma frase a meio do livro que me ressoou especialmente: "Toda a gente sabe que vai morrer, mas ninguém acredita nisso." e a verdade é que o nosso medo de morrer indica isso mesmo. Ninguém quer morrer, ninguém aceita que é esse efetivamente o nosso fim, mas a verdade é que é inevitável, e tocou-me especialmente quando Morrie diz a Mitch que apenas quer morrer em paz, e que não faria nada para mudar o seu destino, indicando que já viveu, que aproveitou o que conseguiu e que aceitou que o seu fim chegou.

 

Parece um livro muito triste - e efetivamente é - mas Morrie tinha um sentido de humor estupendo, e o facto de ver sempre o outro lado, dá ao livro um toque melancólico, de esperança e de paz. Ainda que me tenha tocado numa ferida que evito tocar. Quem me conhece sabe que não lido nada bem com a morte, com a ideia de morte, e por isso é inevitável que este livro me faça sofrer. E fez-me sofrer. Fez-me questionar tanta coisa...

 

A forma como o livro está escrito é importante para o leitor. Não é apenas um relato, monocórdico de um doente em estado terminal O livro é feito de diálogos, de constantes questionamentos sobre a vida, que nos pôe a pensar.

 

Uma das minhas passagens preferidas:

 

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E sem dúvida, que se Deus existir, exagera realmente na dor criada a tantas e tantas gentes!...

 

Boas Leituras!

Livro Secreto II #3 O Diário Oculto de Nora Rute de Mário Zambujal

O segundo livro do Livro Secreto não o consegui ler. Passou-me pelas mãos Os Fidalgos da Casa Mourisca de Júlio Dinis na pior altura possível e entre tanto cansaço e falta de tempo, partiu da mesma forma que chegou. Mas entretanto, recebi o terceiro livro do desafio: O Diário Oculto de Nora Rute de Mário Zambujal e entretanto já o terminei de ler.

 

 

O Diário Oculto de Nora Rute é como o próprio nome indica, um diário. Ao longo de um ano - de 30 de Dezembro 1968 até 31 de Dezembro de 1969 - Nora Rute, uma jovem de 22 anos de classe média-alta, dá a conhecer algumas das situações políticas que se vivem naquela época em Portugal, onde a ditadura ainda imperava, à medida que nos conta a sua relação com os pais, com as suas amigas e com os homens. Da reação à minissaia, à reeleição do partido União Nacional já sem Salazar, O Diário Oculto de Nora Rute dá-nos conta de algumas reações sociais ao longo de vários acontecimentos. No fundo este livro é um relato social do que aconteceu no ano 69 pelos olhos de uma jovem da época rebelde, bastante à frente para o seu tempo, tendo em conta que a família a que pertencia era bastante conservadora.

 

Gostei bastante de ler este livro, permitiu-me ter uma visão geral sobre aquela época que para tantos foi sofrida, de um outro lado. Nora Rute bebia, Nora Rute saía de casa com as amigas, Nora Rute foi para França com um suposto namorado, durante a revolução estudantil francesa. Nora Rute, foi por isso uma jovem - diria até - normal apesar de viver numa época de ditadura e o seu pai ser Salazarista. Senti no entanto, que o livro é não mais que um enumerar de acontecimentos, em vez de explorar cada um deles. Senti que o autor poderia ter aprofundado muito mais cada assunto.

 

É um livro pequeno, que em condições normais é lido numa ou duas horas. É um livro ligeiro, por vezes divertido, bom para uma tarde descontraída. O que eu gostei bastante do livro foi da forma da escrita. Faz lembrar um blog. É contado na primeira pessoa, as passagens são curtas, fala da forma que Norta Rute vê o mundo e a sua vida, um pouco como nós fazemos com isto dos blogs e por isso foi um livro que me cativou.

 

Não é um livro marcante, mas foi um bom livro para ler depois d'A Gorda - já que é um livro mais pesado - e ainda por cima com toda esta alteração na minha vida foi um bom livro para relaxar.

 

Está pronto para seguir viagem para uma nova casa.

 

Boas Leituras!

Livro Secreto II #1 O Velho e o Mar de Ernest Hemingway

E o primeiro livro da segunda edição do Livro Secreto já foi lido e já seguiu viagem para a sua nova casa. Espero que este velhinho seja recebido devidamente, uma vez que precisa de descansar, que foi uma viagem e peras.

 

Reli com muito prazer O Velho e o Mar do Nobel da Literatura de 54, Ernest Hemingway, que já tinha lido há muitos anos, quando era miúda. A vantagem é que foi como se o lesse pela primeira vez, tendo em conta que já não me lembrava de nada da história.

 

 

O livro O Velho e o Mar conta a história de um velho pescador, que pescava com um jovem rapaz, cuja companhia apreciava bastante. O velho ensinava muito ao jovem pescador, uma vez que era muito experiente, no entanto, estava há muitos meses sem conseguir pescar e os pais do jovem ordenaram que deixasse o velho e fosse pescar noutras embarcações mais bem sucedidas e o velho acaba a sair para o mar sozinho. Aí percebe a falta que o rapaz lhe faz, por muito que gostasse da sua companhia, só nesta altura é que percebe o que é a solidão e como não gostava dela. Sozinho no mar o velho pesca, com a sua pequena embarcação um peixe muito grande, e passa vários dias e noites a tentar cansá-lo para o matar e o levar para a aldeia. Durante essa pesca, essa luta o velho passou por muitas provações chegando ao ponto de duvidar de si próprio se conseguia ou não levar aquele peixe, muito maior que a sua pequena embarcação, para a vila. Será que o velho vai conseguir?

 

Ao longo do texto vamos percebendo que o velho se identifica com o grande peixe, o peixe luta, o velho luta; o peixe resiste apesar de magoado, o velho resiste apesar de cansado e magoado. No fundo o velho vê no peixe o seu próprio reflexo e desenvolve com o mesmo uma certa relação de empatia e carinho, no entanto, precisa do peixe para sobreviver.

 

Este pequeno livro é uma metáfora para a vida, porque nem sempre as coisas correm como desejamos, mas ainda assim é preciso ir atrás é preciso lutar e desistir nem sempre é uma opção, essencialmente quando disso depende a nossa vida. Este pequeno livro relata sobre a sobrevivência humana e sobre as capacidades que nós temos escondidas e que nem imaginamos. Relata também sobre a inevitabilidade. Há um episódio onde um pássaro pousa na pequena embarcação do velho e este tenta falar-lhe dos seus predadores mas desiste: se por um lado o pássaro não iria perceber nada, por outro, logo logo ele iria perceber quando os enfrentasse. Mas o pessimismo de Hemingway está sempre presente nas suas obras e nesta, apesar de passar uma mensagem de esperança e de luta, não é exceção.

 

Gostei bastante do livro, é uma leitura ligeira, com alguns termos que me obrigaram a ir ao dicionário averiguar, mas que nos permite tirar tantos ensinamentos para a vida. Foi bom reler.

 

E quem é que já leu O Velho e o Mar?

 

Boas leituras

O Adultério regressou ao lugar que lhe pertence

O meu livro da primeira edição do livro secreto regressou ao seu cantinho na estante com um sabor agridoce.

 

Acho que a lição número um que retiro desta primeira edição, desta fantástica troca de livros, é a de que somos todas tão diferentes que é complicado um livro agradar a todas, e um livro que para mim estava cheio de significados, significou muito pouco a muitos dos seus leitores. Bem sei que poucas o leram - poucas, porque éramos todas meninas, sim? - e algumas das que leram não gostaram, acho que isso se nota pela quantidade de linhas e rabiscos que acolheu. No entanto, e se isso inicialmente me estava a doer na alma - por saber que não estavam a gostar - a verdade é que com o tempo aprendi a aceitar, até porque me passaram também livros pelas mãos que me vi e desejei para os conseguir ler, e alguns confesso, li quase na diagonal para saber como acabavam. Lição número um: O nosso livro especial pode não despertar a atenção do outro. Deal with it!

 

Poderia ter ficado com uma má experiência do desafio, é um facto. Mas isso não aconteceu.

 

Conheci tantos livros que desconhecia e com os quais me encantei. Li pela primeira vez Zafón que se tornou no meu escritor favorito, conheci Sándor Marái com umas velas que me falaram ao coração que de outra forma não teria tido contacto, falei de uma forma única e quase desconcertante com uma Contadora de Filmes. Foram tantos e tão diferentes livros que me transportam para a lição número dois: Não podemos julgar o livro pela capa. E quem diria que um livro com uma capa tão feia podia ser tão bom! Ó Mula, e já não sabias disso? Não! Não compro livros com capas feias, é um ponto assente na minha escolha literária e um motivo de seleção tão válido quanto qualquer outro.

 

O meu livro da primeira edição do desafio secreto foi o Adultério do Paulo Coelho, o que me leva para a lição número três: Paulo Coelho está a anos luz de reunir consensos. Desde adolescente que adoro Paulo Coelho, comecei com o Brida, passei pelo Verónika Decide Morrer, abalei-me com os 11 Minutos - o meu favorito, mas que não o possuo - e terminei com o Adultério.

 

 

E porquê o Adultério, Mula? Em que é que andas a pensar?

 

Em nada. Só que o livro mostra-nos que às vezes canalizamos as nossas energias, a nossa tristeza e apatia pela vida da forma errada, às vezes achamos que a nossa felicidade está onde efetivamente não está. Eu já tive depressão, passei por períodos muito negros e também eu já procurei a felicidade onde afinal ela não existia, acabando por me magoar mais, a ser ainda mais infeliz e a fazer os que estavam à minha volta miseráveis. Creio que muitas das vezes as nossas ações afetam mais os outros que a nós mesmos, e consegui ler neste livro isso mesmo e por isso o quis partilhar. É efetivamente um livro que fala de adultério, de traição, de mentira e de um jogo perigoso de sedução, mas é acima de tudo um livro que acompanha a auto-descoberta da personagem principal que apesar de ter a vida perfeita aos olhos dos outros, efetivamente ela não a sentia como tal.

 

E porque sou teimosa, na segunda edição do livro secreto enviei um novo livro que pretende mostrar a evolução de uma nova personagem, através de mistérios e algumas traquinices, mas desta vez da mais consensual Alice Vieira, tenho cá para mim que é impossível não se gostar deste livro, mas isso só com o seguimento do desafio irei perceber se tenho ou não razão, e no final, daqui a dois anos, se ainda cá estivermos todos pois claro, cá estarei para vos falar desse pequeno livro cheio de sentimentos e acontecimentos.

 

Boas Leituras!

Livro Secreto #11 A contadora de filmes de Hernan Rivera Letelier

O primeiro livro de 2017 é também o último livro do Livro Secreto - 1ª Edição. E digo-vos, do fundo do meu coração, este desafio não poderia ter terminado da melhor maneira. Mas que livro belíssimo! Tão pequeno, tão profundo, tão triste, tão belo de tão triste. Com apenas 80 páginas, A Contadora de Filmes de Hernan Rivera Letelier foi lido de um só fôlego, como os livros pequenos merecem que sejam lidos!

 

 

A Contadora de Filmes, conta a história de uma família muito pobre de mineiros, amantes de cinema que por não poderem pagar as idas ao cinema de todos, encontra na filha, única mulher e a mais nova de 5 irmãos, Maria Margarita a forma de todos poderem conhecer de fundo os filmes do cinema. Maria Margarita via os filmes e depois contava-os e interpretava-os de forma excecional, assim todos os seus familiares, essencialmente o pai, poderiam conhecer a tão desejada história. A forma como Maria Margarita contava os filmes era tão excecional que muitas das gentes da mina preferiam ir ouvir os filmes contados por ela do que conhecerem o filme original no grande ecrã, no cinema. Assim começaram a cobrar as entradas para a contadora de filmes da mina e depois Maria Margarita começou inclusive a contar os filmes ao domicílio, que era onde ganhava melhor. Só que um dia tudo muda, e quando tudo muda uma avalanche de mau agoiro sobrevoa Maria Margarita e sua família e nada volta a ser o que era.

 

Nunca falei com um livro anteriormente. Maria das Palavras possibilitou que pela primeira vez falasse com um livro, obrigada Maria!

 

Este é um livro pequenino, que começa de forma singela, simples e até romantizada de uma pobre família que é feliz dentro da sua infelicidade, mas que com o avançar das páginas se torna avassalador. A contadora de filmes é um livro que fala se sonhos, de esperanças, da coragem e força que é preciso para se ser feliz na miséria, e acima de tudo, mostra como é possível ser-se feliz quando tudo na vida corre mal. Neste caso o cinema, e as histórias que dele advinham era o escape da miséria de Maria Margarita, e todos nós precisamos de um escape para o nosso sofrimento, o meu por exemplo, é este blog e a fotografia. Fala também de como os acontecimentos na vida pode alterar de forma tão drástica a forma como se vê o mundo, como se vê as gentes, e como nos vemos a nós mesmos.

 

Muito poderia falar sobre o livro, só que acabaria a contar demais, e eu quero que vocês leiam este livro, é daqueles que vale bem a pena, eu li-o numa hora, numa hora e meia e acho que é impossível não gostarem.

 

Termino com um pequeno excerto, um dos meus favoritos:

 

Por essa altura, descobri que toda a gente gosta que lhe contem histórias. As pessoas querem sair por um momento da realidade e viver os mundos da ficcção dos filmes, dos folhetins radiofónicos, dos romances. Até gostam que lhes contem mentiras, se as mentiras forem bem contadas*. Daí o êxito dos vigaristas hábeis no falar.

 

* Até já falei disso aqui.

 

Por isso, leiam leiam que não se vão arrepender.

 

Boas Leituras!

Livro Secreto 1ª Edição: Balanço Final

Corria o ano de 2015, era inverno, estava frio, os fusíveis da MJ deram curto circuito e desse fusco-fusco, surgiu o desafio de leitura denominado por Livro Secreto, que fez 13 pessoas lerem um livro por mês, ao longo de 2016. Choquem-se, há livros e livros, e nós, participantes, igualmente com um, provavelmente vários, fusíveis a menos, participamos para ler livros que não escolhemos, que não desejamos, e até em algumas situações, de que não gostamos. De doidos!

 

No entanto, se nunca tivesse participado, e lido livros que não escolhi, que não desejei e que não gostei, também não teria, provavelmente, descoberto Zafón, sendo A Sombra do Vento, o meu livro favorito de todo o desafio, e um dos melhores livros que li desde sempre. Desde aí seguiram-se os restantes livros da saga, e a parte ingrata é que os tenho todos menos... A sombra do vento - falta-me este cromo para coleção! Este é sem dúvida o grande ponto positivo do desafio, porque conheci livros que de outra forma não conheceria, e deixei-me surpreender por livros pelos quais não depositava qualquer expectativa, como foi o caso d'O Navegador Solitário, uma das grandes boas surpresas do desafio. Claro que, a parte chata é quando não há esta surpresa e acabamos a ler livros que não nos dizem nada, como foi o caso d'O novíssimo testamento, que sendo engraçado e coiso e tal, não me despertou nem captou a minha atenção, tendo-o lido com batotas, saltitando páginas e mais páginas porque até fiquei com curiosidade de saber o final. Este é o grande ponto negativo do desafio, é o não gostar e o tentarmos ler ainda assim. No entanto, em 11 livros recebidos - falta-me receber o último - só não consegui ler dois livros: o Cloud Atlas por ter vindo em má altura, e a Tragédia da Rua das Flores, que por uma questão de ginástica visual, devido à fraca qualidade dos livros das edições dos Livros do Brasil me fazia enjoar nas viagens de comboio, e o pouco tempo que passei em casa não me foi suficiente para levar avante a leitura. 9/11 livros lidos. Que bem.

 

O livro que ainda tenho comigo e que conto enviar no decorrer desta semana é A Pérola, a tão preciosa pérola com excertos tão simples e belos como este: "Não é bom desejar uma coisa demasiadamente. Pode afastar a sorte. Deve-se desejar só o bastante." que de tão simples e bela nos faz querer mais.

 

Sem dúvida que é uma experiência a repetir, essencialmente agora que fiquei desempregada e tenho mais tempo para ler e menos dinheiro para comprar livros, e apesar de ter custos associados, que os envios não são gratuitos, nunca gastei mais do que 2€ para enviar um livro, com envelope incluído, por isso creio que o custo face ao benefício é mais do que reduzido.

 

O livro que enviei para o livro secreto foi o Adultério de Paulo Coelho.

 

 

Trouxe por isso, para o desafio um autor pouco apreciado pelo grupo, sendo por isso um dos livros que recebeu maior número de críticas negativas, no entanto, é sem dúvida um autor que eu aprecio bastante e por isso não me arrependo de ter sido o livro enviado, porque me fazia sentido naquela altura, no entanto o próximo será diferente, bastante diferente, e espero por isso que seja do agrado.

 

Irei fazer parte da segunda edição do livro secreto. Se se quiserem juntar a nós enviem mail para: eagoraseila@sapo.pt mas atenção que as participações são limitadas!

 

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Livro Secreto #10 A Pérola de John Steinbeck

Há livros, que por serem tão pequeninos foram escritos para serem lidos de uma só vez, sob pena de se perder a essência das palavras que neles contêm. Assim é A Pérola de John Steinbeck. 

 

 

A pérola é mais do que uma simples história de Kino, sua mulher e seu filho. A pérola é uma parábola, que pretende transmitir uma moral acerca dos nossos valores e do dinheiro, de como o dinheiro move o mundo e as pessoas.

 

Este pequeno livro de Steinbeck, conta assim a história de uma família de índios mexicanos que viviam de modo simples, desprovidos de bens até o filho, Coyotito, ter sido mordido por um escorpião e precisar urgentemente de cuidados médicos. Nesta história, os médicos são tidos como racistas e oportunistas e quando o médico da cidade percebe que Kino e sua esposa não tinham dinheiro para lhe pagar, disse não estar disponível para ver o seu filho. Assim Kino foi tentar pescar uma pérola para conseguir pagar a consulta e assim salvar o seu filho. Kino encontra uma pérola, mas não era uma pérola qualquer, Kino julgou ter encontrado a Pérola do Mundo de tão grande que era, e toda a gente dizia nunca ter visto uma pérola assim, que eles estavam ricos. Assim o médico já apareceu na cabana onde moravam para ver Coyotito. Kino começou a ver o seu futuro na pérola, o que poderia vir a ter e o futuro que poderia proporcionar a Coyotito. 

 

No entanto, a pérola em vez de atrair felicidade só lhes trouxe problemas, porque várias pessoas começaram a perseguir Kino para lhe roubar a pérola, e apesar da mulher lhe pedir para deitar a pérola fora, que só atraía mau agoiro Kino não a escutava, uma vez que achava que naquela pérola é que estava o seu futuro.

 

No entanto a pérola, da mesma maneira que trouxe os sonhos de Kino, também os levou com ela. 

 

Este pequeno livro contém uma história muito bonita. Esta história fala do perigo das ambições, do perigo de sair da nossa bolha de conforto e desejar ir mais além. No entanto não consigo concordar com a perspetiva que nos é dada, apesar do seu fim, uma vez que é devido a se sair da zona de conforto que permitiu ao mundo evoluir, seja na educação, seja na saúde, seja nas condições de vida. Se ninguém tivesse saído da sua zona de conforto e não ambicionasse mais e melhor, ainda estaríamos a viver junto às árvores, com peles de animais mortos a tapar o corpo e a falar como macacos, no entanto compreendo o que a história pretende transmitir, porque efetivamente pode acontecer que quem tudo quer, tudo perde, mas acho que não podemos efetivamente viver com esse medo, com essa angústia, mas é preciso efetivamente compreender e balancear se o que desejamos de diferente na nossa vida nos poderá fazer mais ou menos felizes. Kino não parou para pensar no que tinha, e se isso que tinha lhe era suficiente. Kino ficou cego com o que poderia ter, ainda que o que desejasse era o melhor para si e para a sua família. Esta história demonstra como os sonhos dos que têm tão pouco, são tão simples. Um dos sonhos de Kino era que seu filho Coyotito pudesse estudar, conhecer o mundo e ensinar-lhes o mundo.

 

Além desta lição de moral, A Pérola conta-nos também de como os povos indígenas vêm a cidade, de como são diferentes e por isso as pessoas da cidades os assustam. Fala também da união de um povo, para o bem e para o mal, fala de como a sabedoria popular na cura de certas doenças pode ser válida, fala de tanto em tão poucas páginas que souberam a pouco. Fala da coragem de regressar de onde se partiu às escondidas.

 

Fala de tanto, e soube a tão pouco!

 

Gostei! Acho que deveria de ser um livro de leitura obrigatória, no entanto considero que deva ser lido com espírito crítico e não resignado uma vez que defendo totalmente o oposto do que é defendido no livro. Venha o próximo!

 

Boas Leituras!

Livro Secreto #9 A Luz de Stephen King

Terminei finalmente, depois de tantos acontecimentos que me afastaram da leitura, o livro de Stephen King, A Luz. Foi estranho ler este livro. Foi o primeiro livro que li depois de ter visto o filme, normalmente acontece o contrário, e então não consegui imaginar de modo diferente a história, apesar de existirem elementos que se afastaram do filme, como a personagem Wendy, que no livro é descrita como sendo bonita e loira, e no filme de Kubrick, Wendy está muito longe de ser loira, e ainda mais longe de ser bonita. No entanto, porque vi o filme, não me consegui dissociar das personagens que já conhecia, e por isso foi como rever o filme, e não consegui fazer parte da história como normalmente acontece. Vamos então falar sobre A Luz, para quem não conhece.

 

 

A Luz conta a história de Jack Torrence, alcóolico em abstinência, que após ficar desempregado por agredir um aluno, aceita, sem escolha por questões financeiras, trabalhar como zelador de inverno, para o Hotel Overlook nas montanhas do Colorado, que encerra no inverno devido a ficar em total isolamento com os nevões de Novembro a Março. Assim muda-se com a sua esposa Wendy e com o seu filho de 5 anos Danny, para o Hotel com o propósito de cuidar do mesmo e de terminar um livro que há muito se encontra parado por bloqueio de Jack. Mas o que poderia ser um trabalho tranquilo complica-se e esta família corre o risco de terminar como terminou a família de Grady, o anterior zelador do Overlook, que devido ao excessivo isolamento, sofreu de síndrome da cabana, e assassinou a mulher e as suas duas filhas, suicidando-se de seguida. O problema é que o filho Danny tem uma sensibilidade sobrenatural - uma forte luz interior - e o Overlook esconde imensos segredos que prometem atormentar a criança e toda a sua família, que quanto mais descobrem sobre o passado do hotel melhor percebem que devem sair dali o mais rapidamente possível. Será que vão conseguir? O que esconde afinal o Overlook? Pois, terão de ler para descobrir.

 

O livro está classificado como sendo um drama e um livro de terror fantástico. É efetivamente um livro de terror, ainda que nunca me tenha assustado uma única vez, talvez por já conhecer bem a história, mas as descrições são muito visuais, mórbidas e cruas, é um livro violento do ponto de vista visual, no entanto considero que o filme aterroriza muito mais do que o livro, ou não fosse um filme de Stanley Kubrick, uma vez que o filme assusta pela sequência de imagens mais do que pela história em si. O livro explora outras questões que o filme não explora, e compreendi muito melhor a história. O que eu achava que era um caso de esquizofrenia afinal é de possessão, e muitas questões que nunca consegui explicar no filme, ficaram mais claras. 

 

O que eu gostei mais no livro é a forma como nos é contado. Tem diferentes narradores, e nunca percebemos quem narra afinal, mas a verdade é que isso também não importa e compreendemos sempre o conteúdo, é como se nos tivesse a falar, a contar a sua história com a devida entoação, com questões retóricas, pequenos apontamentos e pensamentos que nos ajuda a sintonizar.

 

Se não conhecesse a história provavelmente teria sido um livro que me teria tirado o sono e captado a minha atenção desde a primeira até à última página, assim foi mais difícil, ainda assim Stephen King tem uma escrita cativante, simples sem ser simplista e uma capacidade fantástica para nos transportar para ambientes desconfortáveis, colocando-nos paralelismos entre o horror e a vida real. Questões familiares relevantes são tratadas neste livro, como o passado de violência a que Jack sofreu em pequeno, bem como a relação complicada que Wendy tem com a mãe. Todas estas questões revelam-se bastante importantes para a história, e é nelas que o livro é muito mais importante do que o filme, já que o filme se resume muito mais à história em si e não às suas motivações.

 

Para quem é fã do género, este livro é sem dúvida uma boa sugestão.

 

Boas Leituras.

Livro Secreto #8 O Novíssimo Testamento de Mário Lúcio Sousa

E o oitavo livro do Livro Secreto está lido. Faltam apenas ler quatro livros: A Contadora de Filmes de Hernan Rivera Letelier; A Luz de Stephen king, A Tragédia da Rua das Flores de Eça de Queirós e A Pérola de John Steinbeck. E em breve chegar-me-à um novo e como estou ansiosa que me chegue A Luz!

 

 

O Novíssimo Testamento de Mário Lúcio Sousa passa-se na freguesia do Lém em Cabo Verde e conta a história de uma velha beata, virgem e de vida exemplar para a igreja, que no seu leito de morte, pede às netas - emprestadas - que lhe chamem um fotógrafo em vez de um médico, que em toda a sua vida nunca tinha sido fotografada e gostava de se perpetuar para além da morte através dessa fotografia, já que não tinha filhos, nem outros elementos familiares. Assim as netas - a Maria e a outra Maria - chamam o fotógrafo, só que o improvável acontece: Assim que o flash se vislumbra a velha desaparece, e após a revelação da fotografia reconhecem na velha as feições de Jesus Cristo. Crê-se assim que Jesus ressuscitou na fotografia da velha e não houve ninguém no mundo que não A quisesse ver e admirar. A vila do Lém recebe assim vários povos de todo o mundo - crentes e céticos - para atestar que Jesus tinha regressado ao mundo dos vivos para dar novas palavras aos seus seguidores. No entanto, e como a história não poderia ser outra, que o Homem é o mesmo. Novamente Jesus tem de enfrentar as reprovações do povo, os preconceitos, e foi novamente vaiado, aprisionado e humilhado em praça pública.

 

Confesso, este livro não me cativou. Acho a história engraçada, a forma como é contada é completamente diferente do habitual, assemelhando-se a uma fábula, no entanto é tão irreal que não me convenceu. Não consigo ter uma imagem dos acontecimentos. Jesus falava através de um outro corpo e voz, de uma habitante da freguesia do Lém mas... Era apenas uma fotografia... Como é que uma fotografia é na realidade a personagem principal? Não consegui visualizar a história, e isso para mim é terrível. Tem a seu favor o tom sarcástico e cómico com que é escrito, e a critica social que é feita mas acho o livro demasiado descritivo e tonto. No entanto tem uma história curiosa, de uma Jesus que não quer ser feita à imagem de Deus, mas sim à imagem dos Homens, e quer experimentar tudo o que não experimentou enquanto comum mortal: explorar os prazeres da carne e da vida, como beber, sexo, ... E isso atrai obviamente desconfiança por parte do povo que deixa de A proteger para A querer encurralar, fazendo-lhe questões às quais Jesus não quer responder, fazendo depoimentos com histórias alucinadas sobre A sua pessoa, ou antes... fotografia.

 

No entanto a crítica social que é feita é mais que boa: A vontade que o homem tem de ver tudo, quer acredite quer não, a forma como as pessoas julgam os outros, os preconceitos, a forma como o povo reage à noção de liberdade, e como essa é na realidade indesejada. A forma como um povo tão pobre tem de se reorganizar para receber pessoas vindas de todo o mundo aumentando assim ainda mais a fome e as necessidades da ilha. É também feita uma grande crítica à mulher, porque Jesus é homem e não deveria de reencarnar numa mulher por ser considerado à luz dos homens um ser inferior.

 

É um livro curioso com uma história engraçada, mas que do meu ponto de vista não consegue cativar o leitor. No entanto se procuram um livro bastante diferente do habitual, com uma história louca, então este pode ser uma boa leitura.

 

Boas Leituras. 

Livro Secreto #7 As velas ardem até ao fim de Sándor Márai

E terminei de ler o sétimo livro do Livro Secreto de um autor que nunca tinha ouvido falar. Shame on me!

 

As velas ardem até ao fim de Sándor Márai é um livro pequeno de rápida leitura, facilmente leem numa tarde. Alguém já leu? Leiam, que verão que não se arrependerão.

 

 

Este livro é uma espécie de carta, quase um monólogo, sobre a amizade. Todo o livro é referente a uma conversa, a uma só conversa, entre o General Henrik e o seu amigo Konrád, que fugiu para os Trópicos, de um dia para o outro há 41 anos atrás, voltando agora velho à Hungria para resolver a sua situação com o amigo de outrora. Há um segredo que os une e que os separou, e o General, magoado e traído quer respostas a perguntas que se foram formulando ao longo desses 41 anos. O General é um homem magoado que nunca conseguiu ultrapassar o sucedido, que viveu para questionar Konrád, porque sabia que este um dia iria voltar. Qual será o segredo que os une? Como sobrevive uma amizade a 41 anos de mágoas? Leiam... E logo perceberão.

 

É um livro profundo, as palavras ligeiras que o compõe faz parecer um livro básico mas está longe de ser verdade. É um livro que é mais que uma história, é um livro carregado de significados, muito para lá da história. Apesar do segredo ser expectável, porque existem pistas que tornam o segredo óbvio logo no início do livro, isso não altera o interesse porque o que importa para o General Henrik não é perceber o que aconteceu e o porquê de ter acontecido, porque com o tempo aprendeu a relativizar as coisas e os sentimentos, ficando apenas uma grande agonia no coração. É um livro onde o personagem pretende desmontar os seus sentimentos enquanto busca um perdão, se isso for possível. Acho que é um livro que facilmente qualquer um de nós compreenderá e onde qualquer pessoa facilmente cria empatia com o personagem principal que monopoliza toda a conversa, porque todos nós já fomos traídos, todos nós - acredito eu - já sofremos devido a alguém que amamos. Basicamente é um livro onde o personagem principal pretende cortar o cordão umbilical com algo, para que depois possa seguir em frente e finalmente viver... Ou morrer!

 

O livro explora vários conceitos de amizade, ao ponto de questionar se a amizade verdadeira existe realmente, ao ponto de ser altruísta e não egoísta. Ou se por contrário somos amigos de quem nos convém, devido a um egoísmo inconsciente, na medida em que esperamos sempre algo em troca, nem que seja a própria amizade, o próprio amor, da outra parte. O autor defende que a verdadeira amizade não deve nunca esperar algo em troca, e que considera isso inatingível e por isso que amizade nesse conceito total e verdadeiro não existe.

 

Acima de tudo é um livro que mostra que nem sempre são as palavras que respondem a perguntas, que às vezes são os silêncios e a linguagem corporal que dão as melhores e mais verdadeiras respostas porque como o General indica:  

 

O que vale a resposta que uma pessoa dá com palavras e não com a realidade da sua vida?... Vale pouco (...) São poucas as pessoas cujas palavras correspondem por completo à realidade das suas vidas. Talvez seja esse o fenómeno mais raro da vida.

 

- Que é que queres deste homem? – pergunta a ama.

- A verdade – disse o general.
- Conheces bem a verdade.
- Não conheço… É mesmo a verdade que não conheço.
- Mas conheces a realidade – disse a ama numa voz aguda, ofensiva.
- A realidade não é a verdade – retorquiu o general. – A realidade é apenas um pormenor.
 
É um livro com um fim... que sabe a pouco. Que dá vontade de abanar a personagem - Konrád -, apontar-lhe o dedo e obrigá-lo a justificar-se. Isto porque no fundo tenho um lado sadomaso, um lado que não se importa de sofrer se fizer com que os outros que me magoaram sofram também um bocadinho. Sou das que gosta de escarafunchar, das que gosta de tentar perceber tudo e mais alguma coisa, os porquês e os entretantos. Sim, eu viveria como o General, 41 anos à procura de respostas, mas no final mesmo que já as soubesse de cor, exigiria que os outros as pronunciassem só para que sofressem também um bocadinho.
 
 
Agora a sério... Leiam As velas ardem até ao fim. Porque como verão... As velas ardem mesmo até ao fim!
Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos. Mais do que um blog, são pedaços de uma vida.