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Desabafos da Mula

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos.

Desabafos da Mula

Livro Secreto II #11 Um Castigo Exemplar de Júlia Pinheiro

E o 11º livro do Livro Secreto já chegou e já está pronto para visitar outra casa. Foi uma caixinha de surpresas, confesso que me deixou de queixo caído. Adorei totalmente sem contar. Talvez tenha adorado porque estava com as expectativas bem lá em baixo, ou talvez tenha adorado porque o livro é mesmo bom, não sei, leiam e tirem as vossas conclusões, mas eu fiquei mesmo muito surpreendida com a escrita da Júlia Pinheiro, diria até que escolheu erradamente ao escolher a carreira de apresentadora/moderadora/whatever.

 

 

Um Castigo Exemplar de Júlia Pinheiro conta a história de como Amélia Novaes, uma menina burguesa filha de um juiz desembargador, casa com Henrique Bettancourt Vasconcelos, filho do visconde De Lara contra a família deste, uma vez que não era bem visto um elemento da aristocracia constituir família com a burguesia por estes últimos serem considerados inferiores socialmente. Amélia casou-se apaixonada mas Henrique nunca retribuiu e a família deste nunca a aceitou, e o facto de não engravidar não ajudou à união do casal sendo que ele acaba por ir para o estrangeiro durante vários anos com a suposta finalidade de expandir os seus negócios. Assim, Amélia vê-se abandonada durante vários anos achando que o marido estava numa viagem de negócios, até que descobre que era mentira, e que toda a sua vida foi uma farsa, descobrindo assim as verdadeiras intenções de Henrique ao casar-se consigo. Amélia decide assim delinear um plano de vingança, achando ela que estava a criar um castigo exemplar para ser recordado posteriormente, enquanto se foi deixando contaminar pelo ódio que a consumiu. Será que Henrique terá um castigo à sua medida? Como ficará Amélia nesta história de mentira?

 

Li um dia algures que não há nada pior que uma mulher despeitada, e Um Castigo Exemplar fala exatamente disso, do que é uma mulher capaz por amor e por ódio, dos limites da moral e do emocional, do que somos capazes de fazer quando nos ferem a alma e o corpo e nos traem. É fácil - ou para mim foi - colocarmo-nos no papel de Amélia mesmo quando esta tem atitudes moralmente condenáveis. É fácil porque lhe conhecemos a dor, sabemos pelo que passou, as humilhações que sofreu, no entanto ao criarmos um distanciamento percebemos facilmente que Amélia ultrapassa claramente os limites do chamado "bom senso" por agir sob efeito de um ódio incontrolável, apesar de a compreendermos é fácil julgá-la e condená-la.

 

Algo que temos de ter em atenção quando lemos este livro, é a época em que ele se insere. Nos dias que correm onde o divórcio é aceite e praticado esta história seria exacerbada, mas tendo em conta que falamos de uma época em que o divórcio era mal visto para a mulher, que falamos de uma altura em que era considerado normal o homem cometer adultério e que era esperado da mulher que o perdoasse, que aceitasse tudo e o recebesse em casa sem mas nem porquês, que esta história poderia ter sido a história real de muitas mulheres da época, de mulheres com garra e corajosas claro está. Amélia vai-nos mostrar que as mentalidades mudam quando também nós mudamos e que é preciso fazer diferente para que no futuro possa ser diferente, mas também nos ensina que é preciso sofrer as consequências no final. A história de Amélia mostra-nos também a evolução das pessoas face aos acontecimentos e no início encontramos uma Amélia frágil, inocente e submissa que não se sabe comportar em sociedade nem enfrentar a família de Henrique, sendo constantemente humilhada pela família deste, para se transformar numa mulher adulta que nada teme, capaz de gerir as emoções e de delinear um plano a longo prazo que engloba toda a família. É incrível como os factos nos moldam à sua medida.

 

O que mais me surpreendeu no livro, foi a escrita de Júlia Pinheiro, a forma de encadeamento da história. Gostei bastante da forma como está redigido, gostei da forma como ela nos mostra os acontecimentos e como nos transporta através das páginas em direção ao grande final. E o final é algo inesperado. Gostei da forma como foi capaz de me prender ao livro gerando uma curiosidade quase incontrolável pelo que vinha a seguir.

 

Podem concluir pela minha opinião que adorei o livro e o recomendo.

 

Quem é que daqui já leu este livro?

Livro Secreto II #10 O Talentoso Mr. Ripley de Patricia Highsmith [e o filme correspondente]

O décimo livro do desafio do livro secreto já veio e já seguiu para novas paragens. Desta vez tocou-me um livro cuja história nunca me suscitou curiosidade e cujo filme fui ignorando das várias vezes que foi passando na televisão. É que nem o facto de ser com o meu tão adorado Jude Law me fazia ter curiosidade no filme. Soubessem ainda o que eu odeio a estrutura dos livros da Sábado... É da Sábado e das Edições do Brasil, simplesmente odeio o grafismo e por muito bom que seja o livro fico sempre apreensiva por ler algo com tão fraca qualidade visual - que no caso da Sábado é mesmo por ter demasiado texto corrido, quase sem margens e quase sem espaçamento do texto... Meus ricos olhinhos.

 

Tinha tudo para correr bem esta leitura, não tinha? Ainda assim a Mula arrisca, a Mula petisca e a Mula lê e por vezes a magia acontece.

 

 

O Talentoso Mr. Ripley conta a história de como um grande burlão, altamente desinteressante socialmente falando, ascende à classe média-alta usurpando a identidade de outrem.  Mr. Ripley possui vários talentos, entre eles o de falsificar, ludibriar e enganar os outros. Possuidor de uma memória fantástica consegue ser várias pessoas diferentes memorizando sem dificuldade o que é que cada personagem viu, viveu ou sentiu, como se os seus vários "eus" não se tocassem e não vivessem a mesma experiência. Mr. Ripley vai entrar de mansinho numa família e vai tirar o máximo proveito dessa entrada.

 

Não seria de todo um livro que eu leria. Como indiquei, a verdade é que nem o filme me suscitou curiosidade mas no final acabei por gostar do livro. A primeira metade do mesmo é na minha opinião aborrecida. Não há emoção, não há suspense, não há artimanhas suficientes para me prenderem à leitura, mas quando o cerco a Mr. Ripley começa a apertar a verdade é que o livro se torna até viciante e queremos saber o que vai acontecer de seguida. Confesso que o final não me surpreendeu totalmente, até porque o próprio título do livro nos passa essa imagem, de alguém surpreendente, porque se é um talento... e mais não digo porque não quero ser spoiler.

 

Este é um livro que relata como as pessoas podem de um momento para o outro estragar a nossa vida sem darmos conta. Conta como as amizades erradas podem ser altamente perigosas e como o desejo de viver intensamente pode ser mais prejudicial que benéfico. É também um livro que retrata a inveja e que demonstra como a ausência de uma estrutura familiar estável e saudável pode despoletar acontecimentos horríveis anos mais tarde.

 

Posto isto posso dizer-vos que no final até gostei do livro. Não é de todo o meu estilo de livro, no entanto posso dizer que até me proporcionou bons momentos.

 

Terminado o livro, e umas horas depois - na realidade foram só 10 minutos - decidi ver o filme. Não é que tinha dado no AXN uns dias antes? Desilusão total! Bem sei que os filmes são baseados nos livros, que não são os livros mas... É mesmo necessário fazerem algo tão, mas tão diferente? Chegam a alterar as características das personagens e tanto que é importante da história se perde.

 

Dickie no livro é um tanto lunático mas não é mulherengo, no filme não pode ver um rabo de saias que mexa. Mas um playboy em Hollywood vende mais, compreendo. Dickie adorava pintar, no filme trocaram a pintura pela música. Porquê? É mais consensual? No livro Mr. Ripley era de um talento incrível, com uma capacidade de resposta e de improvisação quase sobrenatural, no filme não passa essa mensagem. Apesar de Ripley se apoderar da personagem de Dickie e de os dois passarem a ser a mesma pessoa a verdade é que no livro quase achamos que existem realmente duas pessoas distintas, porque ele assume os dois papéis de modo tão diferente que por momentos pode levar o leitor a acreditar no que acredita Ripley: que é Dickie. No filme, nada disto é transmitido, e para mim este era o grande talento do Mr. Ripley. No livro morrem duas pessoas, no filme morrem quatro. Que mãos largas... No livro não senti que alguma vez a Marge desconfiasse de Ripley, no filme ela acusa-o e tem a certeza absoluta da sua culpa.

 

Agora a sério, digam aqui à Mula com sinceridade: É mesmo necessário alterar tanto de uma história para vender? Ao menos as paisagens no filme são incríveis. Ao menos isso.

 

Resumindo e concluindo a Mula não queria ver o filme, nem queria ler o livro mas no final a Mula acabou a gostar do livro, e do início ao fim, a Mula não gostou do filme.

 

E desse lado: Quem já leu? Quem já viu o filme? Opiniões procuram-se.

Livro Secreto II #9 O Ladrão de Sombras de Marc Levy

Não, não me enganei a numerar o desafio... Infelizmente não tive tempo de ler o oitavo livro do desafio secreto, o Ferrugem Americana de Philipp Meyer e por isso esse seguiu direitinho para a próxima paragem. Chegou entretanto o novo livro do Livro Secreto, O Ladrão de Sombras de Marc Levy e esse sim, sendo um dos que mais queria ler desta remessa, agarrei-o e inevitavelmente me apaixonei.

 

 

O livro é pequenino, mas a história... Essa é enorme!

 

O Ladrão de Sombras conta a história na primeira pessoa, de um menino inadaptado que consegue roubar as sombras às pessoas.

 

Esse menino, mais pequeno que os miúdos da sua idade, muda de escola e com essa mudança começa todo o seu tormento. É gozado pelo rufião da turma e apaixona-se por Elizabeth de quem o rufião Marquèz gostava, o que não abonou a seu favor. Para além de ser gozado na escola e temer Marquèz o seu pai sai de casa para ir viver com outra mulher e isso deixa o menino ainda pior, sentindo-se de alguma forma culpado pelo que estava a acontecer. Este menino não tinha amigos e na escola a única pessoa com quem conversava era com um vigilante e é aí que nos apercebemos verdadeiramente do dom deste menino.

 

Este menino consegue ouvir as sombras, consegue compreender a dimensão do sofrimento das pessoas, e é isso que o torna tão especial, apesar de não o perceber na altura. Um dia, este menino pequeno que tinha medo de tudo ganha confiança ao roubar, sem saber como, a sombra de Marquèz. Se ao início isso o apavorou, com o tempo mudou-lhe o rumo da história. O pequeno menino deixou de ser pequeno e entretanto deixou de temer as pessoas, é por essa altura que conhece Luc, de quem jura ser amigo toda a vida. Essas sombras no entanto, não são meras sombras, são na realidade pedidos de ajuda, é através das sombras que o menino conhece as pessoas e é através delas que as consegue ajudar.

 

Entretanto o menino cresce, torna-se um homem e vamos percebendo ao longo da história que o seu passado o vai perseguir sempre, e que este vive para ajudar os outros mais do que se ajudar a si mesmo. Este menino, agora jovem, vive para os outros até que finalmente encontra o seu rumo.

 

Este é um pequeno livro cheio de amor, de ternura, de algum humor. É uma história que nos consegue amarfanhar o coração sem que nada o faça prever. É uma história que revela a imensidão das pessoas, as suas mazelas. O rufião Marquèz é mal amado em casa, o pobre vigilante perdeu a mãe no parto e foi maltratado pelo pai, o próprio pai do menino deixa de fazer parte da sua vida. Este livro comporta várias pequenas histórias que sendo literárias poderiam ser as dos nossos vizinhos do lado, poderiam ser as histórias da nossa infância. É uma história que revela o verdadeiro valor da amizade, das primeiras relações e do primeiro amor. É uma história que demonstra como por vezes podemos fazer mal a quem tanto queremos bem, por distração, ou quiçá por falta de empatia.

 

A escrita de Marc Levy é simples, essa eu já a conhecia do E se fosse verdade... apesar de não ter apreciado muito essa história devido aos clichés e machismos nela constantes. Este livro é muito mais simples, muito mais emocional, muito mais despido de artefactos de distrações de escrita. Este livro é apenas emoção. Senti tantas vezes empatia com o menino e com outras histórias que ele ia contando... Recordam-se deste episódio? Pois que o livro conta um muito semelhante, com à exceção de que eu não deixei de comer, nem morri. Como eu entendi aquele menino...

 

Há livros de que gostamos mas que não nos marcam. Há livros que nos enternecem mas que com o tempo se esquecem, e depois há aqueles livros que nos marcam, nos enternecem e que permanecerão agarrados à nossa alma: este é um desses livros.

 

Ó Mula, mas então tu agora gostas de livros de fantasia?

 

Ah meus fofuxos da Mula, este é muito mais que um simples livro de fantasia! É um livro de puro amor... Puro amor!

 

Já não me lembro a quem pertence este livro, mas queria agradecer à pessoa por o ter colocado a circular! Muito obrigada mesmo!

 

Boas leituras!

Livro Secreto 2ª Edição: Balanço

Feliz com o resultado da primeira edição do livro secreto avancei para a segunda edição sem olhar para trás. Com o dobro dos participantes, com o dobro dos livros e o mesmo prazo, esta segunda edição tem sido tão rica como a primeira.

 

 

Para esta iniciativa enviei os tão belos Olhos de Ana Marta de Alice Vieira e pelo que tenho lido, a crítica tem sido boa, contrariamente ao livro de Paulo Coelho que enviei na primeira edição.

 

Dos 28 livros que andam a circular, 8 já me passaram pelas mãos. E pela ordem de chegada por aqui passaram: O Velho e o Mar, Os Fidalgos da Casa Mourisca, O Diário Oculto de Nora Rute, As Terças com Morrie, Os BichosEm Teu Ventre, O Código D'Avintes, Ferrugem Americana e agora recebi o Ladrão de Sombras do Marc Levy.

 

Destes 8 livros recebidos e enviados, apenas dois não foram lidos, que como podem adivinhar foram Os Fidalgos da Casa Mourisca de Júlio Dinis e o Ferrugem Americana de Philipp Meyer, os dois pelo mesmo motivo: Falta de tempo. Se o primeiro não o li porque foi quando comecei a trabalhar e tinha a minha vida toda em pantanas, o segundo estava com outra leitura em mãos que não consegui terminar, entretanto o livro chegou o prazo terminou e só depois me lembrei que não o tinha lido. A verdade é que serem livros que não nos entusiasmam à partida também não ajudam a que nos apressemos. O mesmo já não vai acontecer com o Ladrão de Sombras, porque é um livro que quero muito ler já há bastante tempo.

 

Como podem ver dos 21 livros lidos este ano, 7 foram desta iniciativa pelo que podem facilmente depreender que é um desafio que nos faz poupar alguns euros em livros e "obrigar-nos" a ler livros que de outra forma não leríamos e tantas vezes nos surpreendermos.

 

Destes 8 livros recebidos, o meu grande destaque vai para As Terças com Morrie que foi dos livros mais belos que já li destes dois desafios. Uma mensagem forte, uma leitura sobre a morte e sobre a vida que nos põe a pensar no que vale realmente a pena. O que menos gostei talvez tenha sido o Em Teu Ventre de José Luís Peixoto.

 

Dos que ainda não recebi estou muito curiosa - e super ansiosa - com o Um Homem Chamado Ove de Fredrik Bakman e com A Outra Metade de Mim de Affinity Konar que seriam livros que eu compraria, que me chamaram à atenção desde o desvendar da listagem. E confesso... Estou com muito medo do Homens Imprudentemente Poéticos de Valter Hugo Mãe. É daqueles livros que sempre quis ler, mas já me alertaram que não é de leitura fácil e então é daqueles livros que não sei porquê quero muito gostar mas não sei se isso vai acontecer. Teremos que aguardar a sua chegada não é verdade?

 

Os benefícios do desafio continuam a ser os mesmos: Ler muito e livros que à partida pouco nos diriam. Os malefícios também se mantêm: a obrigatoriedade de ler em tão pouco tempo, e a obrigatoriedade de ter de ir aos CTT todos os meses entregar um novo livro. Mas é tão bom receber mensalmente um livro novo na caixa de correio que tudo isso se anula.

 

Boas leituras.

Livro Secreto II #7 O Código D'Avintes

E o sétimo livro do Desafio do Livro Secreto foi O Código D'Avintes de Alice Vieira, José Jorge Letria, Luísa Beltrão, José Fanha, Mário Zambujal, Rosa Lobato de Faria e João Aguiar. Este livro escrito a sete mãos, onde cada autor tenta colocar em apuros o autor seguinte, é um livro muito divertido e cómico. Uma leitura leve para animar a alma da depressão do final do verão.

 

 

Tudo começa com um assassinato incomum cuja arma do crime é uma broa de Avintes. E quem é que é assassinado? Um elemento da R.A.I.V.A. - Resistência Activa contra Imbecis, Vândalos e outros Atrasados - por um membro da Conclave dos Cavaleiros Teutónicos da Nova Ordem que quer dominar o mundo e para tal necessita de uma mensagem que está dividida em três manuscritos com uma receita de batatas recheadas que pertenceu outrora a Maria Madalena.

 

Numa das operações da Conclave, o professor Isaías Pires - membro da R.A.I.V.A. - é raptado, drogado e consegue sair de si e ver mundo ao mesmo tempo que fala uma língua que ninguém entende e que julgam ser aramaico - falada na Palestina no tempo de Cristo.

 

Como podem ver é um livro com uma história doida, e se acrescentarmos à trama uma loira que é burra mas não tanto quanto aparenta ser com um apetite sexual voraz e diz "prontus", um anjo Gabriel que se vem a descobrir não ser tão anjo assim, e uma padeira de Avintes percebemos que a história tem tudo para nos arrancar umas boas gargalhadas à medida que as páginas avançam.

 

Podemos facilmente perceber que o livro é uma paródia ao O Código Da Vinci, e reconheci ainda paródias a outros livros sendo que o podemos classificar como uma verdadeira salada russa - portuguesa, aliás, e de Avintes - onde parece que cada capítulo inicia uma outra história tão diferente da anterior mas que no final todas as peças acabam por encaixar - umas mais que outras claro.

 

Nota-se claramente as sete mãos ao longo do livro e há por isso capítulos mais interessantes que outros, capítulos mais engraçados e outros bem mais aborrecidos. Há aqui claramente autores que brincam com as palavras com um humor natural e nota-se que outros não se sentem tão confortáveis com este estilo, isto acaba por desintegrar um pouco a história e até mesmo baralhar as ideias. Isso faz também com que a uma certa altura o livro se torne um pouco confuso.

 

Algo que senti muito no livro foi o estereotipo mulher ao longo dos diferentes capítulos. Apesar de não se saber que capítulo pertence a quem - ainda que quem conheça bem os autores acredito que seja capaz de adivinhar - percebe-se perfeitamente quando toca à descrição das ações da ninfomaníaca quem é que é homem e quem é que é mulher, e isso confesso chocou-me um pouco pela negativa.

 

Mas no geral foram uns momentos bem passados com este livro, e apesar de não ser um livro marcante lê-se muito bem e muito rapidamente porque é uma escrita que flui - na maioria dos capítulos - e por isso recomendo a leitura.

 

Quem é que já leu esta pérola desta terra à beira Douro plantada?

 

Boas leituras.

Livro Secreto II #6 Em teu ventre de José Luís Peixoto

Terminei de ler o Em Teu Ventre de José Luís Peixoto e não sei que vos diga acerca deste livro secreto, sinceramente... Foi o primeiro livro que li deste autor, e apesar de ter alguma curiosidade - muito devido ao mediatismo -, não tinha grande opinião do autor , por já ter folheado alguns outros livros e me ter assustado - talvez isso também não tenha ajudado. Não vos quero com isto dizer que o livro é mau, também não senti que o fosse, acho que é apenas um daqueles casos em que "o problema não és tu, sou eu!" porque tantas opiniões boas sobre este livro só podem querer dizer que eu é que estou errada.

 

 

Em Teu Ventre retrata as aparições de Fátima de um ponto de vista social. Não pretende ser um estudo ou uma opinião acerca da veracidade/falsidade dos factos, mas sim retratar a sociedade da época, e a forma como as pessoas reagiram à notícia do aparecimento da Nossa Senhora a Lúcia, Jacinta e Francisco, numa época de grande pobreza e necessidade do povo português. Retrata também as relações entre mães e filhas da época e de como as crianças naquela altura não eram crianças mas sim adultos em ponto pequeno.

 

Não achei a visão nova, contrariamente ao que é difundido na contracapa do livro, mas também não a achei totalmente desinteressante. Fala da necessidade que o povo português tem - ainda hoje é assim - de se juntar todo em busca de uma espécie de justiça social, fala da importância que a igreja tinha naquela época e da influência do padre da terra. Fala de fé, de esperança e de estupidez. No livro é retratado o que muitas pessoas queriam perguntar a nossa senhora, e se uns queriam perguntar se o filho ia sobreviver à guerra - fé e esperança - muitas pessoas queriam perguntar se a Nossa Senhora usava botins e também pastava ovelhas - estupidez. Mas no fundo, o que queriam era conceber - e acho que ainda hoje acontece - uma imagem de Nossa Senhora à luz da imagem dos homens, com qualidades e defeitos, porque - para quem acredita, pois claro - só isso poderia justificar não ouvir determinadas preces e não conceder determinados "desejos".

 

A base da história é realmente interessante, a forma de desenvolvimento da mesma não gostei. É demasiado poética -e olhem que eu gosto de poesia -, é para mim demasiado enrolada ao ponto de se tornar confusa: Há vários narradores e nem sempre é claro quem é quem. Para mim tornou-se tanta vez uma salada de fruta quem dizia o quê, mas a verdade é que também pouco importava para a relevância da história porque percebemos na mesma onde se quer chegar, mas estes diferentes narradores originam histórias paralelas que interrompem a história base e isso eu não gostei. Senti tantas vezes que estava a ler por ele, que o autor escrevia, escrevia e não dizia nada. Acho uma escrita demasiado folheada, mas no entanto isso torna a leitura do livro fácil, leve, e é para mim um livro que entretém... Só que não surpreendeu, não me prendeu ou envolveu.

 

Definitivamente o problema sou eu não ele, não sou fã deste tipo de livros. Procuro nos livros algo mais do que palavras bonitas e sinto que este nada me acrescentou. Não me parece que vá voltar a ler José Luis Peixoto.

 

Quem já leu? Qual a vossa opinião?

[Vá, sejam meiguinhos a atirar as pedras, que elas às vezes também aleijam]

Livro Secreto II #5 Bichos de Miguel Torga

E o quinto livro do desafio do Livro Secreto edição II já seguiu viagem para novas paragens. Terminei assim de ler os Bichos de Miguel Torga. Já conhecia um ou outro conto, graças às aulas de português algures na escola preparatória - ou será secundária? - mas nunca tinha lido os restantes contos. Confesso que não sou a maior fã de contos, mas gosto de bichos, por isso...

 

 

O livro Bichos não é um romance, são sim vários contos de vários animais distintos, mais propriamente 14 contos, com 14 bichos tão diferentes entre si, tão semelhantes ao bicho homem, sendo o homem tão semelhantes aos bichos...Ou serão realmente humanos? Confesso que várias vezes deixei de perceber se falávamos do animal ou do humano que tantas vezes se confundem.

 

É um livro de leitura fluida, que se lê facilmente numa tarde mas que preferencialmente se deve ir lendo e apreciando aos poucos. É um livro com ensinamentos disfarçados, com histórias incríveis de animais incríveis, mas nem sempre bem sucedidos. Nem sempre com finais felizes, aliás quase nunca com finais felizes, porque a verdade é que a vida prossegue e não é uma fábula e este pequeno livro ensina-nos isso mesmo.

 

O meu conto favorito, como não poderia deixar de ser é o do Mago, que conta a história de um gato que queria ser livre mas acabou preso numa casa que apesar de desdenhar dos mimos gostava dos mesmos, ainda que isso tenha originado ter perdido o respeito e a amizade dos outros gatos. No fundo como as pessoas que constituem família e acabam no conforto do seu lar perdendo as ligações com outras pessoas extra-família.

 

A história que mais me entristeceu, foi a da humana Madalena, que foi rejeitada pelo namorado e que abortou como um animal selvagem no meio do nada, sem ajuda, sem amigos, sem ninguém, como um animal solitário. Temos também a história do Tenório, um galo adorado que no final virou refeição, tal como nós na vida real, que quando deixamos de servir deixamos de importar realmente.

 

No final do livro percebemos que não são meros contos ao acaso e conhecemos finalmente a sua ligação, por isso toca tudo a ler direitinho e nada de saltar contos.

 

É um bom livro para quem tem pouco tempo para ler, curto, bonito, com histórias simples mas não simplistas.

 

Boas leituras!

Livro Secreto II #4 As Terças com Morrie de Mitch Albom

São livros como este que me fazem lembrar porque me inscrevi no Livro Secreto pela segunda vez. São livros como este que eu nunca leria se não me tivesse inscrito. São livros como este que me fazem chorar... Não o conhecia. Mas acho que nunca o esquecerei.

 

 

As Terças com Morrie não é um livro de ficção e deveria de ser de leitura obrigatória.

 

Este livro é um relato de um Sociólogo e professor, Morrie Schwartz, que sofre de Esclerose Lateral Amiotrófica (E.L.A.) que reencontra um antigo aluno, 20 anos depois, Mitch Albom - o autor -, reunindo-se com este todas as terças-feiras, para falar sobre a morte, sobre a vida, sobre tudo, ao passo que ajuda Mitch a encontrar-se como pessoa. Mais do que um relato de morte é uma fonte de descoberta psicossocial.

 

Este é um daqueles livros que começamos a ler com um nó na garganta e quando terminamos já é impossível segurar as lágrimas, porque apesar de conhecemos o final desde o princípio, é impossível evitar. Estava realmente a precisar de um livro assim depois de ter lido Murakami.

 

Morrie é uma força da natureza que mesmo às portas da morte consegue sorrir e agradecer a vida que tem e teve. Morrie é um bem disposto e um positivista nato. Positivista, Mula? Mas ele achava que ia conseguir curar-se? Claro que não... Morrie sabia que não tinha cura mas a forma como assumiu essa inevitabilidade é realmente incrível. Nunca se vitimizou - dizia que só se permitia vitimizar um pouco de manhã quando acordava e sabia que já não podia dançar ou correr - mas que era o máximo que se permita.

 

De página para página, de terça-feira para terça-feira, acompanhamos a evolução da doença de Morrie e é impossível ficarmos indiferentes. Ele diz uma frase a meio do livro que me ressoou especialmente: "Toda a gente sabe que vai morrer, mas ninguém acredita nisso." e a verdade é que o nosso medo de morrer indica isso mesmo. Ninguém quer morrer, ninguém aceita que é esse efetivamente o nosso fim, mas a verdade é que é inevitável, e tocou-me especialmente quando Morrie diz a Mitch que apenas quer morrer em paz, e que não faria nada para mudar o seu destino, indicando que já viveu, que aproveitou o que conseguiu e que aceitou que o seu fim chegou.

 

Parece um livro muito triste - e efetivamente é - mas Morrie tinha um sentido de humor estupendo, e o facto de ver sempre o outro lado, dá ao livro um toque melancólico, de esperança e de paz. Ainda que me tenha tocado numa ferida que evito tocar. Quem me conhece sabe que não lido nada bem com a morte, com a ideia de morte, e por isso é inevitável que este livro me faça sofrer. E fez-me sofrer. Fez-me questionar tanta coisa...

 

A forma como o livro está escrito é importante para o leitor. Não é apenas um relato, monocórdico de um doente em estado terminal O livro é feito de diálogos, de constantes questionamentos sobre a vida, que nos pôe a pensar.

 

Uma das minhas passagens preferidas:

 

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E sem dúvida, que se Deus existir, exagera realmente na dor criada a tantas e tantas gentes!...

 

Boas Leituras!

Livro Secreto II #3 O Diário Oculto de Nora Rute de Mário Zambujal

O segundo livro do Livro Secreto não o consegui ler. Passou-me pelas mãos Os Fidalgos da Casa Mourisca de Júlio Dinis na pior altura possível e entre tanto cansaço e falta de tempo, partiu da mesma forma que chegou. Mas entretanto, recebi o terceiro livro do desafio: O Diário Oculto de Nora Rute de Mário Zambujal e entretanto já o terminei de ler.

 

 

O Diário Oculto de Nora Rute é como o próprio nome indica, um diário. Ao longo de um ano - de 30 de Dezembro 1968 até 31 de Dezembro de 1969 - Nora Rute, uma jovem de 22 anos de classe média-alta, dá a conhecer algumas das situações políticas que se vivem naquela época em Portugal, onde a ditadura ainda imperava, à medida que nos conta a sua relação com os pais, com as suas amigas e com os homens. Da reação à minissaia, à reeleição do partido União Nacional já sem Salazar, O Diário Oculto de Nora Rute dá-nos conta de algumas reações sociais ao longo de vários acontecimentos. No fundo este livro é um relato social do que aconteceu no ano 69 pelos olhos de uma jovem da época rebelde, bastante à frente para o seu tempo, tendo em conta que a família a que pertencia era bastante conservadora.

 

Gostei bastante de ler este livro, permitiu-me ter uma visão geral sobre aquela época que para tantos foi sofrida, de um outro lado. Nora Rute bebia, Nora Rute saía de casa com as amigas, Nora Rute foi para França com um suposto namorado, durante a revolução estudantil francesa. Nora Rute, foi por isso uma jovem - diria até - normal apesar de viver numa época de ditadura e o seu pai ser Salazarista. Senti no entanto, que o livro é não mais que um enumerar de acontecimentos, em vez de explorar cada um deles. Senti que o autor poderia ter aprofundado muito mais cada assunto.

 

É um livro pequeno, que em condições normais é lido numa ou duas horas. É um livro ligeiro, por vezes divertido, bom para uma tarde descontraída. O que eu gostei bastante do livro foi da forma da escrita. Faz lembrar um blog. É contado na primeira pessoa, as passagens são curtas, fala da forma que Norta Rute vê o mundo e a sua vida, um pouco como nós fazemos com isto dos blogs e por isso foi um livro que me cativou.

 

Não é um livro marcante, mas foi um bom livro para ler depois d'A Gorda - já que é um livro mais pesado - e ainda por cima com toda esta alteração na minha vida foi um bom livro para relaxar.

 

Está pronto para seguir viagem para uma nova casa.

 

Boas Leituras!

Livro Secreto II #1 O Velho e o Mar de Ernest Hemingway

E o primeiro livro da segunda edição do Livro Secreto já foi lido e já seguiu viagem para a sua nova casa. Espero que este velhinho seja recebido devidamente, uma vez que precisa de descansar, que foi uma viagem e peras.

 

Reli com muito prazer O Velho e o Mar do Nobel da Literatura de 54, Ernest Hemingway, que já tinha lido há muitos anos, quando era miúda. A vantagem é que foi como se o lesse pela primeira vez, tendo em conta que já não me lembrava de nada da história.

 

 

O livro O Velho e o Mar conta a história de um velho pescador, que pescava com um jovem rapaz, cuja companhia apreciava bastante. O velho ensinava muito ao jovem pescador, uma vez que era muito experiente, no entanto, estava há muitos meses sem conseguir pescar e os pais do jovem ordenaram que deixasse o velho e fosse pescar noutras embarcações mais bem sucedidas e o velho acaba a sair para o mar sozinho. Aí percebe a falta que o rapaz lhe faz, por muito que gostasse da sua companhia, só nesta altura é que percebe o que é a solidão e como não gostava dela. Sozinho no mar o velho pesca, com a sua pequena embarcação um peixe muito grande, e passa vários dias e noites a tentar cansá-lo para o matar e o levar para a aldeia. Durante essa pesca, essa luta o velho passou por muitas provações chegando ao ponto de duvidar de si próprio se conseguia ou não levar aquele peixe, muito maior que a sua pequena embarcação, para a vila. Será que o velho vai conseguir?

 

Ao longo do texto vamos percebendo que o velho se identifica com o grande peixe, o peixe luta, o velho luta; o peixe resiste apesar de magoado, o velho resiste apesar de cansado e magoado. No fundo o velho vê no peixe o seu próprio reflexo e desenvolve com o mesmo uma certa relação de empatia e carinho, no entanto, precisa do peixe para sobreviver.

 

Este pequeno livro é uma metáfora para a vida, porque nem sempre as coisas correm como desejamos, mas ainda assim é preciso ir atrás é preciso lutar e desistir nem sempre é uma opção, essencialmente quando disso depende a nossa vida. Este pequeno livro relata sobre a sobrevivência humana e sobre as capacidades que nós temos escondidas e que nem imaginamos. Relata também sobre a inevitabilidade. Há um episódio onde um pássaro pousa na pequena embarcação do velho e este tenta falar-lhe dos seus predadores mas desiste: se por um lado o pássaro não iria perceber nada, por outro, logo logo ele iria perceber quando os enfrentasse. Mas o pessimismo de Hemingway está sempre presente nas suas obras e nesta, apesar de passar uma mensagem de esperança e de luta, não é exceção.

 

Gostei bastante do livro, é uma leitura ligeira, com alguns termos que me obrigaram a ir ao dicionário averiguar, mas que nos permite tirar tantos ensinamentos para a vida. Foi bom reler.

 

E quem é que já leu O Velho e o Mar?

 

Boas leituras

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos. Mais do que um blog, são pedaços de uma vida.