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Desabafos da Mula

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos.

Desabafos da Mula

Livro Secreto 2ª Edição: Balanço

Feliz com o resultado da primeira edição do livro secreto avancei para a segunda edição sem olhar para trás. Com o dobro dos participantes, com o dobro dos livros e o mesmo prazo, esta segunda edição tem sido tão rica como a primeira.

 

 

Para esta iniciativa enviei os tão belos Olhos de Ana Marta de Alice Vieira e pelo que tenho lido, a crítica tem sido boa, contrariamente ao livro de Paulo Coelho que enviei na primeira edição.

 

Dos 28 livros que andam a circular, 8 já me passaram pelas mãos. E pela ordem de chegada por aqui passaram: O Velho e o Mar, Os Fidalgos da Casa Mourisca, O Diário Oculto de Nora Rute, As Terças com Morrie, Os BichosEm Teu Ventre, O Código D'Avintes, Ferrugem Americana e agora recebi o Ladrão de Sombras do Marc Levy.

 

Destes 8 livros recebidos e enviados, apenas dois não foram lidos, que como podem adivinhar foram Os Fidalgos da Casa Mourisca de Júlio Dinis e o Ferrugem Americana de Philipp Meyer, os dois pelo mesmo motivo: Falta de tempo. Se o primeiro não o li porque foi quando comecei a trabalhar e tinha a minha vida toda em pantanas, o segundo estava com outra leitura em mãos que não consegui terminar, entretanto o livro chegou o prazo terminou e só depois me lembrei que não o tinha lido. A verdade é que serem livros que não nos entusiasmam à partida também não ajudam a que nos apressemos. O mesmo já não vai acontecer com o Ladrão de Sombras, porque é um livro que quero muito ler já há bastante tempo.

 

Como podem ver dos 21 livros lidos este ano, 7 foram desta iniciativa pelo que podem facilmente depreender que é um desafio que nos faz poupar alguns euros em livros e "obrigar-nos" a ler livros que de outra forma não leríamos e tantas vezes nos surpreendermos.

 

Destes 8 livros recebidos, o meu grande destaque vai para As Terças com Morrie que foi dos livros mais belos que já li destes dois desafios. Uma mensagem forte, uma leitura sobre a morte e sobre a vida que nos põe a pensar no que vale realmente a pena. O que menos gostei talvez tenha sido o Em Teu Ventre de José Luís Peixoto.

 

Dos que ainda não recebi estou muito curiosa - e super ansiosa - com o Um Homem Chamado Ove de Fredrik Bakman e com A Outra Metade de Mim de Affinity Konar que seriam livros que eu compraria, que me chamaram à atenção desde o desvendar da listagem. E confesso... Estou com muito medo do Homens Imprudentemente Poéticos de Valter Hugo Mãe. É daqueles livros que sempre quis ler, mas já me alertaram que não é de leitura fácil e então é daqueles livros que não sei porquê quero muito gostar mas não sei se isso vai acontecer. Teremos que aguardar a sua chegada não é verdade?

 

Os benefícios do desafio continuam a ser os mesmos: Ler muito e livros que à partida pouco nos diriam. Os malefícios também se mantêm: a obrigatoriedade de ler em tão pouco tempo, e a obrigatoriedade de ter de ir aos CTT todos os meses entregar um novo livro. Mas é tão bom receber mensalmente um livro novo na caixa de correio que tudo isso se anula.

 

Boas leituras.

Livro Secreto II #7 O Código D'Avintes

E o sétimo livro do Desafio do Livro Secreto foi O Código D'Avintes de Alice Vieira, José Jorge Letria, Luísa Beltrão, José Fanha, Mário Zambujal, Rosa Lobato de Faria e João Aguiar. Este livro escrito a sete mãos, onde cada autor tenta colocar em apuros o autor seguinte, é um livro muito divertido e cómico. Uma leitura leve para animar a alma da depressão do final do verão.

 

 

Tudo começa com um assassinato incomum cuja arma do crime é uma broa de Avintes. E quem é que é assassinado? Um elemento da R.A.I.V.A. - Resistência Activa contra Imbecis, Vândalos e outros Atrasados - por um membro da Conclave dos Cavaleiros Teutónicos da Nova Ordem que quer dominar o mundo e para tal necessita de uma mensagem que está dividida em três manuscritos com uma receita de batatas recheadas que pertenceu outrora a Maria Madalena.

 

Numa das operações da Conclave, o professor Isaías Pires - membro da R.A.I.V.A. - é raptado, drogado e consegue sair de si e ver mundo ao mesmo tempo que fala uma língua que ninguém entende e que julgam ser aramaico - falada na Palestina no tempo de Cristo.

 

Como podem ver é um livro com uma história doida, e se acrescentarmos à trama uma loira que é burra mas não tanto quanto aparenta ser com um apetite sexual voraz e diz "prontus", um anjo Gabriel que se vem a descobrir não ser tão anjo assim, e uma padeira de Avintes percebemos que a história tem tudo para nos arrancar umas boas gargalhadas à medida que as páginas avançam.

 

Podemos facilmente perceber que o livro é uma paródia ao O Código Da Vinci, e reconheci ainda paródias a outros livros sendo que o podemos classificar como uma verdadeira salada russa - portuguesa, aliás, e de Avintes - onde parece que cada capítulo inicia uma outra história tão diferente da anterior mas que no final todas as peças acabam por encaixar - umas mais que outras claro.

 

Nota-se claramente as sete mãos ao longo do livro e há por isso capítulos mais interessantes que outros, capítulos mais engraçados e outros bem mais aborrecidos. Há aqui claramente autores que brincam com as palavras com um humor natural e nota-se que outros não se sentem tão confortáveis com este estilo, isto acaba por desintegrar um pouco a história e até mesmo baralhar as ideias. Isso faz também com que a uma certa altura o livro se torne um pouco confuso.

 

Algo que senti muito no livro foi o estereotipo mulher ao longo dos diferentes capítulos. Apesar de não se saber que capítulo pertence a quem - ainda que quem conheça bem os autores acredito que seja capaz de adivinhar - percebe-se perfeitamente quando toca à descrição das ações da ninfomaníaca quem é que é homem e quem é que é mulher, e isso confesso chocou-me um pouco pela negativa.

 

Mas no geral foram uns momentos bem passados com este livro, e apesar de não ser um livro marcante lê-se muito bem e muito rapidamente porque é uma escrita que flui - na maioria dos capítulos - e por isso recomendo a leitura.

 

Quem é que já leu esta pérola desta terra à beira Douro plantada?

 

Boas leituras.

Livro Secreto II #6 Em teu ventre de José Luís Peixoto

Terminei de ler o Em Teu Ventre de José Luís Peixoto e não sei que vos diga acerca deste livro secreto, sinceramente... Foi o primeiro livro que li deste autor, e apesar de ter alguma curiosidade - muito devido ao mediatismo -, não tinha grande opinião do autor , por já ter folheado alguns outros livros e me ter assustado - talvez isso também não tenha ajudado. Não vos quero com isto dizer que o livro é mau, também não senti que o fosse, acho que é apenas um daqueles casos em que "o problema não és tu, sou eu!" porque tantas opiniões boas sobre este livro só podem querer dizer que eu é que estou errada.

 

 

Em Teu Ventre retrata as aparições de Fátima de um ponto de vista social. Não pretende ser um estudo ou uma opinião acerca da veracidade/falsidade dos factos, mas sim retratar a sociedade da época, e a forma como as pessoas reagiram à notícia do aparecimento da Nossa Senhora a Lúcia, Jacinta e Francisco, numa época de grande pobreza e necessidade do povo português. Retrata também as relações entre mães e filhas da época e de como as crianças naquela altura não eram crianças mas sim adultos em ponto pequeno.

 

Não achei a visão nova, contrariamente ao que é difundido na contracapa do livro, mas também não a achei totalmente desinteressante. Fala da necessidade que o povo português tem - ainda hoje é assim - de se juntar todo em busca de uma espécie de justiça social, fala da importância que a igreja tinha naquela época e da influência do padre da terra. Fala de fé, de esperança e de estupidez. No livro é retratado o que muitas pessoas queriam perguntar a nossa senhora, e se uns queriam perguntar se o filho ia sobreviver à guerra - fé e esperança - muitas pessoas queriam perguntar se a Nossa Senhora usava botins e também pastava ovelhas - estupidez. Mas no fundo, o que queriam era conceber - e acho que ainda hoje acontece - uma imagem de Nossa Senhora à luz da imagem dos homens, com qualidades e defeitos, porque - para quem acredita, pois claro - só isso poderia justificar não ouvir determinadas preces e não conceder determinados "desejos".

 

A base da história é realmente interessante, a forma de desenvolvimento da mesma não gostei. É demasiado poética -e olhem que eu gosto de poesia -, é para mim demasiado enrolada ao ponto de se tornar confusa: Há vários narradores e nem sempre é claro quem é quem. Para mim tornou-se tanta vez uma salada de fruta quem dizia o quê, mas a verdade é que também pouco importava para a relevância da história porque percebemos na mesma onde se quer chegar, mas estes diferentes narradores originam histórias paralelas que interrompem a história base e isso eu não gostei. Senti tantas vezes que estava a ler por ele, que o autor escrevia, escrevia e não dizia nada. Acho uma escrita demasiado folheada, mas no entanto isso torna a leitura do livro fácil, leve, e é para mim um livro que entretém... Só que não surpreendeu, não me prendeu ou envolveu.

 

Definitivamente o problema sou eu não ele, não sou fã deste tipo de livros. Procuro nos livros algo mais do que palavras bonitas e sinto que este nada me acrescentou. Não me parece que vá voltar a ler José Luis Peixoto.

 

Quem já leu? Qual a vossa opinião?

[Vá, sejam meiguinhos a atirar as pedras, que elas às vezes também aleijam]

Livro Secreto II #5 Bichos de Miguel Torga

E o quinto livro do desafio do Livro Secreto edição II já seguiu viagem para novas paragens. Terminei assim de ler os Bichos de Miguel Torga. Já conhecia um ou outro conto, graças às aulas de português algures na escola preparatória - ou será secundária? - mas nunca tinha lido os restantes contos. Confesso que não sou a maior fã de contos, mas gosto de bichos, por isso...

 

 

O livro Bichos não é um romance, são sim vários contos de vários animais distintos, mais propriamente 14 contos, com 14 bichos tão diferentes entre si, tão semelhantes ao bicho homem, sendo o homem tão semelhantes aos bichos...Ou serão realmente humanos? Confesso que várias vezes deixei de perceber se falávamos do animal ou do humano que tantas vezes se confundem.

 

É um livro de leitura fluida, que se lê facilmente numa tarde mas que preferencialmente se deve ir lendo e apreciando aos poucos. É um livro com ensinamentos disfarçados, com histórias incríveis de animais incríveis, mas nem sempre bem sucedidos. Nem sempre com finais felizes, aliás quase nunca com finais felizes, porque a verdade é que a vida prossegue e não é uma fábula e este pequeno livro ensina-nos isso mesmo.

 

O meu conto favorito, como não poderia deixar de ser é o do Mago, que conta a história de um gato que queria ser livre mas acabou preso numa casa que apesar de desdenhar dos mimos gostava dos mesmos, ainda que isso tenha originado ter perdido o respeito e a amizade dos outros gatos. No fundo como as pessoas que constituem família e acabam no conforto do seu lar perdendo as ligações com outras pessoas extra-família.

 

A história que mais me entristeceu, foi a da humana Madalena, que foi rejeitada pelo namorado e que abortou como um animal selvagem no meio do nada, sem ajuda, sem amigos, sem ninguém, como um animal solitário. Temos também a história do Tenório, um galo adorado que no final virou refeição, tal como nós na vida real, que quando deixamos de servir deixamos de importar realmente.

 

No final do livro percebemos que não são meros contos ao acaso e conhecemos finalmente a sua ligação, por isso toca tudo a ler direitinho e nada de saltar contos.

 

É um bom livro para quem tem pouco tempo para ler, curto, bonito, com histórias simples mas não simplistas.

 

Boas leituras!

Livro Secreto II #4 As Terças com Morrie de Mitch Albom

São livros como este que me fazem lembrar porque me inscrevi no Livro Secreto pela segunda vez. São livros como este que eu nunca leria se não me tivesse inscrito. São livros como este que me fazem chorar... Não o conhecia. Mas acho que nunca o esquecerei.

 

 

As Terças com Morrie não é um livro de ficção e deveria de ser de leitura obrigatória.

 

Este livro é um relato de um Sociólogo e professor, Morrie Schwartz, que sofre de Esclerose Lateral Amiotrófica (E.L.A.) que reencontra um antigo aluno, 20 anos depois, Mitch Albom - o autor -, reunindo-se com este todas as terças-feiras, para falar sobre a morte, sobre a vida, sobre tudo, ao passo que ajuda Mitch a encontrar-se como pessoa. Mais do que um relato de morte é uma fonte de descoberta psicossocial.

 

Este é um daqueles livros que começamos a ler com um nó na garganta e quando terminamos já é impossível segurar as lágrimas, porque apesar de conhecemos o final desde o princípio, é impossível evitar. Estava realmente a precisar de um livro assim depois de ter lido Murakami.

 

Morrie é uma força da natureza que mesmo às portas da morte consegue sorrir e agradecer a vida que tem e teve. Morrie é um bem disposto e um positivista nato. Positivista, Mula? Mas ele achava que ia conseguir curar-se? Claro que não... Morrie sabia que não tinha cura mas a forma como assumiu essa inevitabilidade é realmente incrível. Nunca se vitimizou - dizia que só se permitia vitimizar um pouco de manhã quando acordava e sabia que já não podia dançar ou correr - mas que era o máximo que se permita.

 

De página para página, de terça-feira para terça-feira, acompanhamos a evolução da doença de Morrie e é impossível ficarmos indiferentes. Ele diz uma frase a meio do livro que me ressoou especialmente: "Toda a gente sabe que vai morrer, mas ninguém acredita nisso." e a verdade é que o nosso medo de morrer indica isso mesmo. Ninguém quer morrer, ninguém aceita que é esse efetivamente o nosso fim, mas a verdade é que é inevitável, e tocou-me especialmente quando Morrie diz a Mitch que apenas quer morrer em paz, e que não faria nada para mudar o seu destino, indicando que já viveu, que aproveitou o que conseguiu e que aceitou que o seu fim chegou.

 

Parece um livro muito triste - e efetivamente é - mas Morrie tinha um sentido de humor estupendo, e o facto de ver sempre o outro lado, dá ao livro um toque melancólico, de esperança e de paz. Ainda que me tenha tocado numa ferida que evito tocar. Quem me conhece sabe que não lido nada bem com a morte, com a ideia de morte, e por isso é inevitável que este livro me faça sofrer. E fez-me sofrer. Fez-me questionar tanta coisa...

 

A forma como o livro está escrito é importante para o leitor. Não é apenas um relato, monocórdico de um doente em estado terminal O livro é feito de diálogos, de constantes questionamentos sobre a vida, que nos pôe a pensar.

 

Uma das minhas passagens preferidas:

 

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E sem dúvida, que se Deus existir, exagera realmente na dor criada a tantas e tantas gentes!...

 

Boas Leituras!

Livro Secreto II #3 O Diário Oculto de Nora Rute de Mário Zambujal

O segundo livro do Livro Secreto não o consegui ler. Passou-me pelas mãos Os Fidalgos da Casa Mourisca de Júlio Dinis na pior altura possível e entre tanto cansaço e falta de tempo, partiu da mesma forma que chegou. Mas entretanto, recebi o terceiro livro do desafio: O Diário Oculto de Nora Rute de Mário Zambujal e entretanto já o terminei de ler.

 

 

O Diário Oculto de Nora Rute é como o próprio nome indica, um diário. Ao longo de um ano - de 30 de Dezembro 1968 até 31 de Dezembro de 1969 - Nora Rute, uma jovem de 22 anos de classe média-alta, dá a conhecer algumas das situações políticas que se vivem naquela época em Portugal, onde a ditadura ainda imperava, à medida que nos conta a sua relação com os pais, com as suas amigas e com os homens. Da reação à minissaia, à reeleição do partido União Nacional já sem Salazar, O Diário Oculto de Nora Rute dá-nos conta de algumas reações sociais ao longo de vários acontecimentos. No fundo este livro é um relato social do que aconteceu no ano 69 pelos olhos de uma jovem da época rebelde, bastante à frente para o seu tempo, tendo em conta que a família a que pertencia era bastante conservadora.

 

Gostei bastante de ler este livro, permitiu-me ter uma visão geral sobre aquela época que para tantos foi sofrida, de um outro lado. Nora Rute bebia, Nora Rute saía de casa com as amigas, Nora Rute foi para França com um suposto namorado, durante a revolução estudantil francesa. Nora Rute, foi por isso uma jovem - diria até - normal apesar de viver numa época de ditadura e o seu pai ser Salazarista. Senti no entanto, que o livro é não mais que um enumerar de acontecimentos, em vez de explorar cada um deles. Senti que o autor poderia ter aprofundado muito mais cada assunto.

 

É um livro pequeno, que em condições normais é lido numa ou duas horas. É um livro ligeiro, por vezes divertido, bom para uma tarde descontraída. O que eu gostei bastante do livro foi da forma da escrita. Faz lembrar um blog. É contado na primeira pessoa, as passagens são curtas, fala da forma que Norta Rute vê o mundo e a sua vida, um pouco como nós fazemos com isto dos blogs e por isso foi um livro que me cativou.

 

Não é um livro marcante, mas foi um bom livro para ler depois d'A Gorda - já que é um livro mais pesado - e ainda por cima com toda esta alteração na minha vida foi um bom livro para relaxar.

 

Está pronto para seguir viagem para uma nova casa.

 

Boas Leituras!

Livro Secreto II #1 O Velho e o Mar de Ernest Hemingway

E o primeiro livro da segunda edição do Livro Secreto já foi lido e já seguiu viagem para a sua nova casa. Espero que este velhinho seja recebido devidamente, uma vez que precisa de descansar, que foi uma viagem e peras.

 

Reli com muito prazer O Velho e o Mar do Nobel da Literatura de 54, Ernest Hemingway, que já tinha lido há muitos anos, quando era miúda. A vantagem é que foi como se o lesse pela primeira vez, tendo em conta que já não me lembrava de nada da história.

 

 

O livro O Velho e o Mar conta a história de um velho pescador, que pescava com um jovem rapaz, cuja companhia apreciava bastante. O velho ensinava muito ao jovem pescador, uma vez que era muito experiente, no entanto, estava há muitos meses sem conseguir pescar e os pais do jovem ordenaram que deixasse o velho e fosse pescar noutras embarcações mais bem sucedidas e o velho acaba a sair para o mar sozinho. Aí percebe a falta que o rapaz lhe faz, por muito que gostasse da sua companhia, só nesta altura é que percebe o que é a solidão e como não gostava dela. Sozinho no mar o velho pesca, com a sua pequena embarcação um peixe muito grande, e passa vários dias e noites a tentar cansá-lo para o matar e o levar para a aldeia. Durante essa pesca, essa luta o velho passou por muitas provações chegando ao ponto de duvidar de si próprio se conseguia ou não levar aquele peixe, muito maior que a sua pequena embarcação, para a vila. Será que o velho vai conseguir?

 

Ao longo do texto vamos percebendo que o velho se identifica com o grande peixe, o peixe luta, o velho luta; o peixe resiste apesar de magoado, o velho resiste apesar de cansado e magoado. No fundo o velho vê no peixe o seu próprio reflexo e desenvolve com o mesmo uma certa relação de empatia e carinho, no entanto, precisa do peixe para sobreviver.

 

Este pequeno livro é uma metáfora para a vida, porque nem sempre as coisas correm como desejamos, mas ainda assim é preciso ir atrás é preciso lutar e desistir nem sempre é uma opção, essencialmente quando disso depende a nossa vida. Este pequeno livro relata sobre a sobrevivência humana e sobre as capacidades que nós temos escondidas e que nem imaginamos. Relata também sobre a inevitabilidade. Há um episódio onde um pássaro pousa na pequena embarcação do velho e este tenta falar-lhe dos seus predadores mas desiste: se por um lado o pássaro não iria perceber nada, por outro, logo logo ele iria perceber quando os enfrentasse. Mas o pessimismo de Hemingway está sempre presente nas suas obras e nesta, apesar de passar uma mensagem de esperança e de luta, não é exceção.

 

Gostei bastante do livro, é uma leitura ligeira, com alguns termos que me obrigaram a ir ao dicionário averiguar, mas que nos permite tirar tantos ensinamentos para a vida. Foi bom reler.

 

E quem é que já leu O Velho e o Mar?

 

Boas leituras

O Adultério regressou ao lugar que lhe pertence

O meu livro da primeira edição do livro secreto regressou ao seu cantinho na estante com um sabor agridoce.

 

Acho que a lição número um que retiro desta primeira edição, desta fantástica troca de livros, é a de que somos todas tão diferentes que é complicado um livro agradar a todas, e um livro que para mim estava cheio de significados, significou muito pouco a muitos dos seus leitores. Bem sei que poucas o leram - poucas, porque éramos todas meninas, sim? - e algumas das que leram não gostaram, acho que isso se nota pela quantidade de linhas e rabiscos que acolheu. No entanto, e se isso inicialmente me estava a doer na alma - por saber que não estavam a gostar - a verdade é que com o tempo aprendi a aceitar, até porque me passaram também livros pelas mãos que me vi e desejei para os conseguir ler, e alguns confesso, li quase na diagonal para saber como acabavam. Lição número um: O nosso livro especial pode não despertar a atenção do outro. Deal with it!

 

Poderia ter ficado com uma má experiência do desafio, é um facto. Mas isso não aconteceu.

 

Conheci tantos livros que desconhecia e com os quais me encantei. Li pela primeira vez Zafón que se tornou no meu escritor favorito, conheci Sándor Marái com umas velas que me falaram ao coração que de outra forma não teria tido contacto, falei de uma forma única e quase desconcertante com uma Contadora de Filmes. Foram tantos e tão diferentes livros que me transportam para a lição número dois: Não podemos julgar o livro pela capa. E quem diria que um livro com uma capa tão feia podia ser tão bom! Ó Mula, e já não sabias disso? Não! Não compro livros com capas feias, é um ponto assente na minha escolha literária e um motivo de seleção tão válido quanto qualquer outro.

 

O meu livro da primeira edição do desafio secreto foi o Adultério do Paulo Coelho, o que me leva para a lição número três: Paulo Coelho está a anos luz de reunir consensos. Desde adolescente que adoro Paulo Coelho, comecei com o Brida, passei pelo Verónika Decide Morrer, abalei-me com os 11 Minutos - o meu favorito, mas que não o possuo - e terminei com o Adultério.

 

 

E porquê o Adultério, Mula? Em que é que andas a pensar?

 

Em nada. Só que o livro mostra-nos que às vezes canalizamos as nossas energias, a nossa tristeza e apatia pela vida da forma errada, às vezes achamos que a nossa felicidade está onde efetivamente não está. Eu já tive depressão, passei por períodos muito negros e também eu já procurei a felicidade onde afinal ela não existia, acabando por me magoar mais, a ser ainda mais infeliz e a fazer os que estavam à minha volta miseráveis. Creio que muitas das vezes as nossas ações afetam mais os outros que a nós mesmos, e consegui ler neste livro isso mesmo e por isso o quis partilhar. É efetivamente um livro que fala de adultério, de traição, de mentira e de um jogo perigoso de sedução, mas é acima de tudo um livro que acompanha a auto-descoberta da personagem principal que apesar de ter a vida perfeita aos olhos dos outros, efetivamente ela não a sentia como tal.

 

E porque sou teimosa, na segunda edição do livro secreto enviei um novo livro que pretende mostrar a evolução de uma nova personagem, através de mistérios e algumas traquinices, mas desta vez da mais consensual Alice Vieira, tenho cá para mim que é impossível não se gostar deste livro, mas isso só com o seguimento do desafio irei perceber se tenho ou não razão, e no final, daqui a dois anos, se ainda cá estivermos todos pois claro, cá estarei para vos falar desse pequeno livro cheio de sentimentos e acontecimentos.

 

Boas Leituras!

Livro Secreto #11 A contadora de filmes de Hernan Rivera Letelier

O primeiro livro de 2017 é também o último livro do Livro Secreto - 1ª Edição. E digo-vos, do fundo do meu coração, este desafio não poderia ter terminado da melhor maneira. Mas que livro belíssimo! Tão pequeno, tão profundo, tão triste, tão belo de tão triste. Com apenas 80 páginas, A Contadora de Filmes de Hernan Rivera Letelier foi lido de um só fôlego, como os livros pequenos merecem que sejam lidos!

 

 

A Contadora de Filmes, conta a história de uma família muito pobre de mineiros, amantes de cinema que por não poderem pagar as idas ao cinema de todos, encontra na filha, única mulher e a mais nova de 5 irmãos, Maria Margarita a forma de todos poderem conhecer de fundo os filmes do cinema. Maria Margarita via os filmes e depois contava-os e interpretava-os de forma excecional, assim todos os seus familiares, essencialmente o pai, poderiam conhecer a tão desejada história. A forma como Maria Margarita contava os filmes era tão excecional que muitas das gentes da mina preferiam ir ouvir os filmes contados por ela do que conhecerem o filme original no grande ecrã, no cinema. Assim começaram a cobrar as entradas para a contadora de filmes da mina e depois Maria Margarita começou inclusive a contar os filmes ao domicílio, que era onde ganhava melhor. Só que um dia tudo muda, e quando tudo muda uma avalanche de mau agoiro sobrevoa Maria Margarita e sua família e nada volta a ser o que era.

 

Nunca falei com um livro anteriormente. Maria das Palavras possibilitou que pela primeira vez falasse com um livro, obrigada Maria!

 

Este é um livro pequenino, que começa de forma singela, simples e até romantizada de uma pobre família que é feliz dentro da sua infelicidade, mas que com o avançar das páginas se torna avassalador. A contadora de filmes é um livro que fala se sonhos, de esperanças, da coragem e força que é preciso para se ser feliz na miséria, e acima de tudo, mostra como é possível ser-se feliz quando tudo na vida corre mal. Neste caso o cinema, e as histórias que dele advinham era o escape da miséria de Maria Margarita, e todos nós precisamos de um escape para o nosso sofrimento, o meu por exemplo, é este blog e a fotografia. Fala também de como os acontecimentos na vida pode alterar de forma tão drástica a forma como se vê o mundo, como se vê as gentes, e como nos vemos a nós mesmos.

 

Muito poderia falar sobre o livro, só que acabaria a contar demais, e eu quero que vocês leiam este livro, é daqueles que vale bem a pena, eu li-o numa hora, numa hora e meia e acho que é impossível não gostarem.

 

Termino com um pequeno excerto, um dos meus favoritos:

 

Por essa altura, descobri que toda a gente gosta que lhe contem histórias. As pessoas querem sair por um momento da realidade e viver os mundos da ficcção dos filmes, dos folhetins radiofónicos, dos romances. Até gostam que lhes contem mentiras, se as mentiras forem bem contadas*. Daí o êxito dos vigaristas hábeis no falar.

 

* Até já falei disso aqui.

 

Por isso, leiam leiam que não se vão arrepender.

 

Boas Leituras!

Livro Secreto 1ª Edição: Balanço Final

Corria o ano de 2015, era inverno, estava frio, os fusíveis da MJ deram curto circuito e desse fusco-fusco, surgiu o desafio de leitura denominado por Livro Secreto, que fez 13 pessoas lerem um livro por mês, ao longo de 2016. Choquem-se, há livros e livros, e nós, participantes, igualmente com um, provavelmente vários, fusíveis a menos, participamos para ler livros que não escolhemos, que não desejamos, e até em algumas situações, de que não gostamos. De doidos!

 

No entanto, se nunca tivesse participado, e lido livros que não escolhi, que não desejei e que não gostei, também não teria, provavelmente, descoberto Zafón, sendo A Sombra do Vento, o meu livro favorito de todo o desafio, e um dos melhores livros que li desde sempre. Desde aí seguiram-se os restantes livros da saga, e a parte ingrata é que os tenho todos menos... A sombra do vento - falta-me este cromo para coleção! Este é sem dúvida o grande ponto positivo do desafio, porque conheci livros que de outra forma não conheceria, e deixei-me surpreender por livros pelos quais não depositava qualquer expectativa, como foi o caso d'O Navegador Solitário, uma das grandes boas surpresas do desafio. Claro que, a parte chata é quando não há esta surpresa e acabamos a ler livros que não nos dizem nada, como foi o caso d'O novíssimo testamento, que sendo engraçado e coiso e tal, não me despertou nem captou a minha atenção, tendo-o lido com batotas, saltitando páginas e mais páginas porque até fiquei com curiosidade de saber o final. Este é o grande ponto negativo do desafio, é o não gostar e o tentarmos ler ainda assim. No entanto, em 11 livros recebidos - falta-me receber o último - só não consegui ler dois livros: o Cloud Atlas por ter vindo em má altura, e a Tragédia da Rua das Flores, que por uma questão de ginástica visual, devido à fraca qualidade dos livros das edições dos Livros do Brasil me fazia enjoar nas viagens de comboio, e o pouco tempo que passei em casa não me foi suficiente para levar avante a leitura. 9/11 livros lidos. Que bem.

 

O livro que ainda tenho comigo e que conto enviar no decorrer desta semana é A Pérola, a tão preciosa pérola com excertos tão simples e belos como este: "Não é bom desejar uma coisa demasiadamente. Pode afastar a sorte. Deve-se desejar só o bastante." que de tão simples e bela nos faz querer mais.

 

Sem dúvida que é uma experiência a repetir, essencialmente agora que fiquei desempregada e tenho mais tempo para ler e menos dinheiro para comprar livros, e apesar de ter custos associados, que os envios não são gratuitos, nunca gastei mais do que 2€ para enviar um livro, com envelope incluído, por isso creio que o custo face ao benefício é mais do que reduzido.

 

O livro que enviei para o livro secreto foi o Adultério de Paulo Coelho.

 

 

Trouxe por isso, para o desafio um autor pouco apreciado pelo grupo, sendo por isso um dos livros que recebeu maior número de críticas negativas, no entanto, é sem dúvida um autor que eu aprecio bastante e por isso não me arrependo de ter sido o livro enviado, porque me fazia sentido naquela altura, no entanto o próximo será diferente, bastante diferente, e espero por isso que seja do agrado.

 

Irei fazer parte da segunda edição do livro secreto. Se se quiserem juntar a nós enviem mail para: eagoraseila@sapo.pt mas atenção que as participações são limitadas!

 

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Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos. Mais do que um blog, são pedaços de uma vida.