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Desabafos da Mula

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos.

Desabafos da Mula

Livro: O Filho de Thor de Juliet Marillier

Emprestaram-me O Filho de Thor e finalmente terminei de ler, este, que foi o primeiro livro que li de Juliet Marillier. Confesso que as minhas expectativas estavam bem lá no fundo: Primeiro porque não é, de todo, o meu estilo literário. Não sou fã de livros - nem de cinema - sobre guerreiros, sobre conquistas, sobre povos e afins. No entanto a pedido de uma colega, li este livro. E não é que fiquei surpreendida? Agradavelmente surpreendida?

 

 

O Filho de Thor conta a história de dois amigos de infância, Somerled e Eyvind, que fizeram um juramento de sangue que os vai unir para o resto da vida. No entanto estes dois amigos são muito diferentes: Somerled é inteligente, um jogador nato, frio, cruel e uma pessoa que não mede as consequências dos seus atos para alcançar os seus fins. Já Eyvind é um bom rapaz, sonhador, que tem como objetivo de vida ser um pele-de-lobo - um guerreiro - e seguir o chamamento de Thor - o Deus dos guerreiros. Somerled tem apenas um sonho, um objetivo, ser Rei. E a forma como vai prosseguir esse sonho é a verdadeira história deste livro e é o que colocará à prova a grande amizade e irmandade que une Somerled e Eyvind, porque após viajarem para as Ilhas Brilhantes, Eyvind vai perceber finalmente quem é Somerled e tudo o que acredita será posto em causa.

 

Ao contrário do que eu achava, este não é apenas um livro sobre guerreiros, sobre tribos e rituais. É um livro carregado de intrigas, de mistérios e segredos. É um livro que fala sobre as promessas acima de tudo, que fala sobre lealdade, sobre o que é certo ou errado, e acima de tudo que fala sobre amor. Tem claro - partes que eu dispensava - rituais mágicos, coisas impossíveis, muita fantasia, mas consegui ultrapassar estas questões devido à forma intrigante como é escrito.

 

Gostei de Juliet Marillier, ela sabe realmente cativar o leitor, no entanto, considero que esticou - pelo menos neste caso - demasiado o livro. As descrições são demasiado longas - vocês sabem que eu não sou fã de grandes descrições -, os pormenores são excessivos e a história é demasiado esticada no tempo, o que fez com que por vezes me sentisse um pouco aborrecida, porque há alturas de impasse que parece que lemos, lemos, lemos e a história não avança, e isso confesso, enervou-me um pouco. Mas a história é realmente fantástica, enternecedora, e que por vezes nos revolta. E eu gosto de livros que me abalem os sentimentos.

 

É realmente um bom livro. No final, na nota histórica da autora, percebemos que apesar de toda a magia, de toda a fantasia, a mesma se inspirou em factos reais, em ilhas reais em povos reais, ainda que depois lhe tenha dado a moldura que achou melhor. Ainda não decidi se irei ler a sequela - Máscara de Raposa - uma vez que a história não tem nada que ver com a inicial, mas a seu tempo decidirei.

 

Quem já leu O Filho de Thor?

Livro: Receitas de Amor para Mulheres Tristes de Héctor Abad Faciolince

Comprei este livro em promoção na FNAC sem ter grandes expectativas. A capa chamou-me a atenção, o título ainda mais, e ao desfolha-lo percebi que eram pequenas crónicas sobre a vida que nele constavam, como se de um livro-blog se tratasse. A grande vantagem nestes livros de pequenos contos, ou pequenas crónicas, é que se não gostarmos de uma podemos facilmente avançar para a seguinte.

 

 

Este livro de Receitas de Amor para Mulheres Tristes contem sábios conselhos mascarados de receitas, para que nós mulheres, algo complicadas, possamos ver a vida com outros olhos, quando assim é possível. Mas como diz o autor em algumas situações, não há receitas milagrosas para a cura da alma e nem sempre funcionam à primeira, por vezes é necessário insistir.

 

Os temas do livro são diversos, desde o simples feitio da mulher, à traição, passando pela depressão e pela maternidade, tudo um pouco é abordado em curtos e simples textos, que tantas vezes lembram a poesia. No fundo é uma coletânea de prosa poética, como prova este pequeno excerto que já aqui partilhei.

 

Não há muito que eu possa dizer sobre este livro, apenas que gostei muito, que me revi tantas vezes, e que outras tantas olhei em volta para perceber se aquele texto teria sido escrito para mim, sem eu saber. Este não é um livro para ler, é para irmos lendo. Uma receita de cada vez para que as mesmas não se misturem na nossa cabeça e se emaranhem. 

 

Partilho uma das receitas convosco, para vos aguçar o apetite:

 

Mais tarde ou mais cedo, se é que esse dia não chegou já, hás-de sentir a tremenda desolação da vida a dois. Ele não te vê. De repente dás contigo convertida num ser invisível: qualquer coisa nos olhos dele te faz desaparecer. Para esta solidão em companhia não resulta fazer barulho, o pranto não produz efeito, nem o riso. É uma cruel surpresa uma mulher descobrir que vive com um cego surdo-mudo que, porém, vê, isso sim, o ecrã da televisão, vê o cotão nos cantos da casa, as marcas dos dedos em todos os vidros, ouve o toque do telefone, faz negócios em voz alta pelo bucal.

 

Para este mal agudo dizem algumas optimistas que existe uma solução na cozinha. E sugerem a seguinte receita capaz de alterar os ânimos:

 

Conseguir seis perdizes desossadas (perdiz tão bela que nos leva a dizer Por Deus!). Lavá-las bem, muito bem, e começar por temperá-las com sal e pimenta. Dourá-las em manteiga misturada com azeite; juntar-lhes depois uns punhados de ervas aromáticas e umas colheres de natas. Vão depois ao forno médio até estarem bem cozinhadas. Servem-se com puré e bem quentes.

 

As perdizes são tão difíceis de obter nos nossos pequenos mercados que poucas vezes as minhas papilas conseguiram experimentar este esconjuro de feitiço contra a indiferença. Substitui as perdizes por galinhas-da-índia anãs e vê se com esta aldrabice a coisa sai bem. Mas quando um marido começa a ficar cego, o melhor é começares tu a ligar apenas àqueles que te veem.

de Héctor Abad Faciolince 

 

Este exemplo demonstra bem o que vocês poderão encontrar ao longo destas 125 páginas. São no fundo 125 páginas cheias de amor, de fraqueza, de medos e desilusões, temperadas com uma pitada de humor, auto-estima e ternura. Eu gostei muito, e serão textos a reler.

 

Alguém já leu este livro?

Lançamento Viagem ao Mundo dos Gatos

Pois é, o Clube de Gatos do Sapo prepara-se para lançar o seu segundo livro intitulado Viagem ao Mundo dos Gatos, para ajudar mais patudos que diariamente aguardam um novo lar nas Associações Tico & Teco e Projecto Amor Animal. 

 

Querem ajudar?

 

Apareçam no dia 4 de Junho pelas 17 horas no Animal Fest'17 no Parque Verde do Loures Shopping e comprem-nos um livro com várias histórias dos gatos do Clube e ajudem-nos a ajudar. Se não puderem comparecer, ajudem-nos a divulgar.

 

Obrigada!

 

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Livro Secreto II #4 As Terças com Morrie de Mitch Albom

São livros como este que me fazem lembrar porque me inscrevi no Livro Secreto pela segunda vez. São livros como este que eu nunca leria se não me tivesse inscrito. São livros como este que me fazem chorar... Não o conhecia. Mas acho que nunca o esquecerei.

 

 

As Terças com Morrie não é um livro de ficção e deveria de ser de leitura obrigatória.

 

Este livro é um relato de um Sociólogo e professor, Morrie Schwartz, que sofre de Esclerose Lateral Amiotrófica (E.L.A.) que reencontra um antigo aluno, 20 anos depois, Mitch Albom - o autor -, reunindo-se com este todas as terças-feiras, para falar sobre a morte, sobre a vida, sobre tudo, ao passo que ajuda Mitch a encontrar-se como pessoa. Mais do que um relato de morte é uma fonte de descoberta psicossocial.

 

Este é um daqueles livros que começamos a ler com um nó na garganta e quando terminamos já é impossível segurar as lágrimas, porque apesar de conhecemos o final desde o princípio, é impossível evitar. Estava realmente a precisar de um livro assim depois de ter lido Murakami.

 

Morrie é uma força da natureza que mesmo às portas da morte consegue sorrir e agradecer a vida que tem e teve. Morrie é um bem disposto e um positivista nato. Positivista, Mula? Mas ele achava que ia conseguir curar-se? Claro que não... Morrie sabia que não tinha cura mas a forma como assumiu essa inevitabilidade é realmente incrível. Nunca se vitimizou - dizia que só se permitia vitimizar um pouco de manhã quando acordava e sabia que já não podia dançar ou correr - mas que era o máximo que se permita.

 

De página para página, de terça-feira para terça-feira, acompanhamos a evolução da doença de Morrie e é impossível ficarmos indiferentes. Ele diz uma frase a meio do livro que me ressoou especialmente: "Toda a gente sabe que vai morrer, mas ninguém acredita nisso." e a verdade é que o nosso medo de morrer indica isso mesmo. Ninguém quer morrer, ninguém aceita que é esse efetivamente o nosso fim, mas a verdade é que é inevitável, e tocou-me especialmente quando Morrie diz a Mitch que apenas quer morrer em paz, e que não faria nada para mudar o seu destino, indicando que já viveu, que aproveitou o que conseguiu e que aceitou que o seu fim chegou.

 

Parece um livro muito triste - e efetivamente é - mas Morrie tinha um sentido de humor estupendo, e o facto de ver sempre o outro lado, dá ao livro um toque melancólico, de esperança e de paz. Ainda que me tenha tocado numa ferida que evito tocar. Quem me conhece sabe que não lido nada bem com a morte, com a ideia de morte, e por isso é inevitável que este livro me faça sofrer. E fez-me sofrer. Fez-me questionar tanta coisa...

 

A forma como o livro está escrito é importante para o leitor. Não é apenas um relato, monocórdico de um doente em estado terminal O livro é feito de diálogos, de constantes questionamentos sobre a vida, que nos pôe a pensar.

 

Uma das minhas passagens preferidas:

 

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E sem dúvida, que se Deus existir, exagera realmente na dor criada a tantas e tantas gentes!...

 

Boas Leituras!

Livro: Em Busca do Carneiro Selvagem de Haruki Murakami

E após um ano e três meses, finalmente terminei de ler o livro Em Busca do Carneiro Selvagem de Haruki Murakami. Nunca um livro me custou tanto a ler, mas como não sou de desistir, decidi que deste mês não passava. Mas decididamente Murakami não é para mim. É demasiado... Irreal, digamos assim. No entanto, tendo em conta o fantástico, o irreal, até está uma história interessante.

 

 

Em Busca do Carneiro Selvagem retrata a história de um jovem japonês que prestes a fazer 29 anos entra em decadência. A mulher pediu o divórcio, o trabalho não corre como esperado, e este sente-se apático. O primeiro momento de reviravolta na vida deste jovem é quando conhece uma rapariga com poderes especiais, devido às suas orelhas, tornando-se obsessivo com estas. E o segundo momento, é quando é abordado por um estranho homem, para procurar um carneiro específico tendo por base uma fotografia, tendo de viajar até uma aldeia recôndita no interior do Japão, sem saber se esse carneiro realmente existia.

 

É um livro fantástico - não fantástico de bom, mas da categoria do fantástico - onde os carneiros têm poderes especiais e entram dentro das pessoas comandando-as e onde raparigas com orelhas perfeitas conseguem prever o futuro. É um livro onde os mortos falam e onde nada é o que parece ser. É um livro mirabolante.

 

É no entanto, um livro de fácil leitura - bem sei que não parece, pelo tempo que o demorei a ler - no sentido que tem uma linguagem simples, clara e com bastantes diálogos. Acaba por ser maçador por ser um livro que se demora a desenrolar, e é demasiado descritivo. Demorei 1 ano e 3 meses para ler 100 páginas, mas a verdade é que li as restantes 260 numa semana, porque finalmente o livro ganhou um propósito, ganhou algum mistério que nos permite querer saber o que acontece depois. Até essas 100 páginas, era só a história de um homem divorciado obcecado pelas orelhas de uma rapariga... Mas ao longo de 100 páginas! É insano! Depois disso é um homem que se envolve numa série de mistérios em busca de um carneiro que poderá nunca ter existido e ser fruto da imaginação, já que normalmente ele só era visto em sonhos, mas que tem a sua vida ameaçada se não o encontrar. A partir deste ponto confesso que fiquei emaranhada na história e fiquei curiosa.

 

Gostei, realmente, das questões existenciais do personagem - que não tem nome, talvez por não saber quem é - que tem dificuldades relacionais com pessoas e animais. O personagem não consegue dar nome ao seu gato, porque acha que isso o determinaria demais, e há inclusive uma enorme confusão no que toca à rapariga das orelhas que ora ele chama de amiga, ora de namorada. A personagem é realmente muito confusa e esta busca do carneiro representa no fundo a sua descoberta pessoal, quem é, e o que representa no mundo. Retrata também as prioridades da vida, quando um pai prefere viver para a sua obsessão do que para o seu filho, por exemplo.

 

No entanto, o final não me satisfez, e acho que até nem o compreendi. Compreendi que efetivamente este livro representará uma metáfora e que o homem que outrora se encontrava perdido encontrou um rumo para a sua vida, passando por uma série de transformações que o ajudou a encontrar o propósito da sua vida, mas para um livro tão descritivo, senti que o final foi apressado.

 

Descobri no entanto que este livro faz parte de uma trilogia: A Trilogia do Rato, mas creio que a minha experiência com Murakami termina aqui. No entanto recomendo-o para quem gosta do estilo fantástico.

 

Já agora, se alguém leu este livro e percebeu bem o final, que mo explique se faz favor, que eu tenho umas quantas questões para fazer.

 

Boas leituras.

Livro: Canção de Embalar de Auschwitz de Mario Escobar

Desde que pus os meus olhos castanhos em cima do livro de Mário Escobar que nunca mais descansei. E agora que já o comprei e que entretanto já o li, não consigo descansar porque não consigo aceitar a história. Custa-me a aceitar as atrocidades que o ser humano é capaz de infligir a outros sem qualquer razão, sem qualquer motivo. Custa-me a aceitar que a história assim tenha sido. Mas assim é...

 

Finalmente li a Canção de Embalar de Auschwitz de Mario Escobar e desde então que tenho uma ferida aberta no peito.

 

 

A Canção de Embalar de Auschwitz é um livro baseado em factos verídicos e conta a história de Helene Hannemann, enfermeira e ariana alemã que casa com Johann, um cigano violinista, e que com ele tem cinco filhos, dois dos quais gémeos. A história começa quando em 1943 as SS batem à porta desta família para levar Johann e os cinco filhos de Helene para o campo de concentração de Auschwitz II - Birkenau, considerado o pior campo de concentração do Holocausto. Helene como era ariana e alemã não foi intimada, mas seguiu para o campo de concentração voluntariamente para acompanhar a sua família.

 

Após a viagem horrível de comboio até Birkenau, Helene e os seus filhos são separados de Johann que vai para outro campo de trabalho. Sozinha com os seus cinco filhos, Helene é maltratada como qualquer outro elemento do campo, no entanto e após se voluntariar para ser enfermeira no Hospital de Birkenau, as suas condições melhoram um pouco mais, conseguindo ajudar também as mulheres e crianças que a rodeavam.

 

Tudo muda com a chegada do Doutor Mengele a Birkenau para dirigir o hospital do campo. A personalidade forte de Helene fez com que o Doutor Mengele a convidasse a gerir uma creche em Birkenau e isso fez com que as condições de vida dela e dos seus filhos mudasse consideravelmente e inclusive conseguisse um visto para ver o seu marido. Com a abertura da Creche, Helene conseguiu salvar muitas crianças da morte e conseguiu criar alguma esperança, uma vez que naquele espaço as crianças tinham acesso à alimentação e acesso à educação que de outra forma não lhes era possível. Helene via em Doutor Mengele alguma humanidade, ainda que lhe intrigasse as razões e o seu olhar estranho. Até que descobre os verdadeiros motivos da creche: O Doutor Mengele precisava de crianças fortes e saudáveis, essencialmente dos gémeos, para as suas horríveis experiências.

 

Não vos sei dizer se gostei ou não do livro. Como dizer que se gosta de um livro onde a barbárie impera? Como dizer que se gosta de um livro que nos faz sofrer e nos faz chorar e nos faz odiar os humanos? Não vos posso dizer que gostei do livro, mas posso dizer-vos que o devorei, que me amarfanhei toda e que o senti de uma ponta à outra como se fosse uma faca que se me cravasse no coração.

 

Não vos sei dizer porque leio estes livros, não vos sei dizer o que me atrai nestes livros, mas a verdade é que é uma temática que me suscita a ler mais, desde o primeiro livro que li sobre o Terceiro Reich: O Diário de Anne Frank. Desde então sempre me interessei por livros sobre a II Guerra Mundial, por documentários e pelos filmes que retratam a época. No entanto, não vos posso mentir, a cada livro que leio, a cada filme que vejo, a cada documentário que assisto, uma pequena parte de mim morre.

 

Helene via alguma humanidade em Mengele, eu, já conhecendo histórias deste sujeito, já imaginava o propósito da creche, mas ainda assim tenho consciência que de uma forma ou de outra aquelas crianças iriam morrer - aliás normalmente nos campos de judeus as crianças nem chegavam a viver no campo, eram logo encaminhadas para as câmaras de gás assim que chegavam - por isso tenho consciência que a existência daquela creche - ainda que com um propósito errado - permitiu a muitas crianças que ali cresceram, serem um pouco mais felizes. A creche tinha baloiços, tinham projetores de cinema com filmes infantis, papeis, canetas, ...

 

Confesso que é a primeira vez que leio sobre os campos de ciganos.

 

Sempre que se fala do Holocausto, fala-se quase sempre nos judeus, e os homossexuais e os ciganos acabam por viver um pouco na sombra dos judeus. No entanto estima-se que dos mais de 22 mil ciganos que entraram em Birkenau, apenas poucos mais de 3000 tenham sobrevivido. São números assustadores. Ainda assim, e confrontando o que já li sobre os campos de concentração de judeus e os dos ciganos, os ciganos eram - dentro do que era possível ser - mais bem tratados que os judeus, não me pareceram tão controlados quanto os judeus eram. Não me recordo de os judeus poderem "passear" pelo campo, e aqui os ciganos podiam efetivamente fazê-lo, podiam visitar outras barracas, e não eram submetidos a trabalhos forçados.

 

Algo que me choca bastante nestes relatos - e que já tinha constatado n'Os Sete Últimos Meses de Anne Frank - é a capacidade de pessoas conseguirem fazer mal a seus semelhantes. Acho que mais do que as SS e os Nazis exterminarem pessoas, choca-me a agressividade dos Kapos, que eram prisioneiros que em troca de alguns privilégios ficavam encarregues de vigiar e maltratar outros prisioneiros do campo. Assusta-me a capacidade cruel dos humanos.

 

Se forem como eu e se se interessarem por esta temática, leiam este livro, caso contrário, não o façam, porque se por um lado passa uma mensagem de esperança, por outro lado mostra algumas das atrocidades dos estudos do Doutor Mengele, mostra muitas das atrocidades que muitas mulheres e crianças foram sujeitas e é um livro que nos esgota a alma... É bastante descritivo e violento

 

A minha ficou esgotada...

 

Boas Leituras!

Livro Secreto II #3 O Diário Oculto de Nora Rute de Mário Zambujal

O segundo livro do Livro Secreto não o consegui ler. Passou-me pelas mãos Os Fidalgos da Casa Mourisca de Júlio Dinis na pior altura possível e entre tanto cansaço e falta de tempo, partiu da mesma forma que chegou. Mas entretanto, recebi o terceiro livro do desafio: O Diário Oculto de Nora Rute de Mário Zambujal e entretanto já o terminei de ler.

 

 

O Diário Oculto de Nora Rute é como o próprio nome indica, um diário. Ao longo de um ano - de 30 de Dezembro 1968 até 31 de Dezembro de 1969 - Nora Rute, uma jovem de 22 anos de classe média-alta, dá a conhecer algumas das situações políticas que se vivem naquela época em Portugal, onde a ditadura ainda imperava, à medida que nos conta a sua relação com os pais, com as suas amigas e com os homens. Da reação à minissaia, à reeleição do partido União Nacional já sem Salazar, O Diário Oculto de Nora Rute dá-nos conta de algumas reações sociais ao longo de vários acontecimentos. No fundo este livro é um relato social do que aconteceu no ano 69 pelos olhos de uma jovem da época rebelde, bastante à frente para o seu tempo, tendo em conta que a família a que pertencia era bastante conservadora.

 

Gostei bastante de ler este livro, permitiu-me ter uma visão geral sobre aquela época que para tantos foi sofrida, de um outro lado. Nora Rute bebia, Nora Rute saía de casa com as amigas, Nora Rute foi para França com um suposto namorado, durante a revolução estudantil francesa. Nora Rute, foi por isso uma jovem - diria até - normal apesar de viver numa época de ditadura e o seu pai ser Salazarista. Senti no entanto, que o livro é não mais que um enumerar de acontecimentos, em vez de explorar cada um deles. Senti que o autor poderia ter aprofundado muito mais cada assunto.

 

É um livro pequeno, que em condições normais é lido numa ou duas horas. É um livro ligeiro, por vezes divertido, bom para uma tarde descontraída. O que eu gostei bastante do livro foi da forma da escrita. Faz lembrar um blog. É contado na primeira pessoa, as passagens são curtas, fala da forma que Norta Rute vê o mundo e a sua vida, um pouco como nós fazemos com isto dos blogs e por isso foi um livro que me cativou.

 

Não é um livro marcante, mas foi um bom livro para ler depois d'A Gorda - já que é um livro mais pesado - e ainda por cima com toda esta alteração na minha vida foi um bom livro para relaxar.

 

Está pronto para seguir viagem para uma nova casa.

 

Boas Leituras!

Livro: A Gorda de Isabela Figueiredo

Custou mas consegui terminar. Nunca um livro tão bom e tão pequeno me custou tanto a ler, não por falta de motivação, mas por falta de energia e um sono extremo que me tem atacado à noite. Neste fim-de-semana alargado foi uma boa altura para colocar as leituras em dia e finalmente terminei A Gorda de Isabela Figueiredo.

 

 

 

 

A Gorda, conta a história de Maria Luísa, branca, nascida em Lourenço Marques - atual Maputo - que na época dos retornados, vem com a sua família para Portugal onde recomeçam do zero, com tudo o que conseguem trazer de Moçambique. Maria Luísa é uma mulher de tudo ou nada, é uma mulher dedicada, estudiosa, empenhada e culta, só que gorda. E toda a sua vida é domada pelo seu peso. Na escola foi gozada por estar acima de peso, no início da vida adulta perde o homem que ama devido à vergonha que ele tem dela, por causa dos amigos gozarem com ele por ela ser gorda, e já em adulta Maria Luísa sofre o estigma do peso porque não quer acabar como o seu pai, também ele pesado que morre devido ao excesso de peso. Apesar de tudo, e de todo o sofrimento que viveu, Maria Luísa não é uma vítima. Maria Luísa é uma lutadora, uma mulher esforçada que não se dobra pela opinião pública, mas a obsessão que possui pelo homem que sempre amou vai ditar-lhe, de certa forma o futuro.

 

O que mais gostei neste livro, foi a forma diferente como é contado. Maria Luísa parte das divisões da casa em que vive para contar a sua história e o seu relacionamento com a casa, com a família e a amigos, e por isso a história não é contada do passado para o presente, mas sim com constantes vai-vens de passado-presente que se vão misturando capítulo após capítulo. É por isso mesmo um relato, não um livro de mistério. O livro fala-nos da vida, fala-nos de cultura, de sentimentos, de ambições e acima de tudo de desejos.

 

Gostei muito d'A Gorda, talvez porque me tenha identificado tanto com ela. Também eu já ouvi "não devias usar isso porque és gorda e não te fica bem" também eu ouço constantemente "Não comas tanto, deves ter mais cuidado." como se do meu peso dependesse toda a minha vida. Nunca fui gorda na infância - até bem pelo contrário - mas como a Maria Luísa desenvolvi os seios demasiado cedo e isso era motivo de vergonha e de comentários mais desagradáveis por parte das raparigas e mais assanhados por parte dos rapazes, isso deixava-me desconfortável. Também eu já fui deixada por um rapaz por causa dos amigos dele não me aceitaram, não pelo meu peso, mas pela minha idade, e ele, tal como com a Maria Luísa, só queria estar comigo se fosse às escondidas. Era bem capaz de passar por mim e fazer de conta que não me conhecia e no momento a seguir estava a ligar-me a pedir desculpa. Nunca compreendi. Nunca pactuei com estes julgamentos sociais, e tal como a Maria Luísa, na verdade nunca quis saber. Ainda hoje, apesar de estar longe de ser magra, a verdade é que não quero saber o que os outros pensam sobre isso. Uso saias curtas se me apetecer, uso vestidos, decotes, tudo o que tenho direito - e me sirva, está claro - dentro da decência e do bom gosto - ainda que seja sempre relativo.

 

A Gorda, podia ser qualquer um de nós, porque A Gorda conta muito mais que a história de uma mulher gorda. A Gorda podia ser A Estrábica, A Magra, A Míope, A Gorda podia ser qualquer um, porque este é um livro que não fala do excesso de peso, mas sim de rótulos, e de como os rótulos podem condicionar de uma maneira ou de outra a relação que cada um estabelece com as pessoas, e a forma como cada um se relaciona - melhor ou pior - com os rótulos que tem.

 

Foi um livro que gostei muito, quer pela forma crua como é escrito, quer pela empatia fácil que se cria com as personagens, quer pela escrita simples e coloquial. Maria Luísa fala connosco e transporta-nos para o seu mundo e por isso acho que é um livro que é muito fácil gostar.

 

Ao ler a história da autora, da Isabela Figueiredo, fiquei ainda com a ideia de que poderá ser uma espécie de autobiografia, devido às semelhanças entre Isabela e Maria Luísa. As duas nasceram em Lourenço Marques e as duas retornaram nos anos 70. As duas são professoras, têm um blog, e ambas sofreram com o excesso de peso e com o amor renegado. Por isso, de certa forma, ao ler a história de Maria Luísa senti que estava a ler a história verdadeira de Isabela Figueiredo o que me permitiu amar ainda mais este livro.

 

Digo-vos só mais uma coisa: Leiam!

Livro Secreto II #1 O Velho e o Mar de Ernest Hemingway

E o primeiro livro da segunda edição do Livro Secreto já foi lido e já seguiu viagem para a sua nova casa. Espero que este velhinho seja recebido devidamente, uma vez que precisa de descansar, que foi uma viagem e peras.

 

Reli com muito prazer O Velho e o Mar do Nobel da Literatura de 54, Ernest Hemingway, que já tinha lido há muitos anos, quando era miúda. A vantagem é que foi como se o lesse pela primeira vez, tendo em conta que já não me lembrava de nada da história.

 

 

O livro O Velho e o Mar conta a história de um velho pescador, que pescava com um jovem rapaz, cuja companhia apreciava bastante. O velho ensinava muito ao jovem pescador, uma vez que era muito experiente, no entanto, estava há muitos meses sem conseguir pescar e os pais do jovem ordenaram que deixasse o velho e fosse pescar noutras embarcações mais bem sucedidas e o velho acaba a sair para o mar sozinho. Aí percebe a falta que o rapaz lhe faz, por muito que gostasse da sua companhia, só nesta altura é que percebe o que é a solidão e como não gostava dela. Sozinho no mar o velho pesca, com a sua pequena embarcação um peixe muito grande, e passa vários dias e noites a tentar cansá-lo para o matar e o levar para a aldeia. Durante essa pesca, essa luta o velho passou por muitas provações chegando ao ponto de duvidar de si próprio se conseguia ou não levar aquele peixe, muito maior que a sua pequena embarcação, para a vila. Será que o velho vai conseguir?

 

Ao longo do texto vamos percebendo que o velho se identifica com o grande peixe, o peixe luta, o velho luta; o peixe resiste apesar de magoado, o velho resiste apesar de cansado e magoado. No fundo o velho vê no peixe o seu próprio reflexo e desenvolve com o mesmo uma certa relação de empatia e carinho, no entanto, precisa do peixe para sobreviver.

 

Este pequeno livro é uma metáfora para a vida, porque nem sempre as coisas correm como desejamos, mas ainda assim é preciso ir atrás é preciso lutar e desistir nem sempre é uma opção, essencialmente quando disso depende a nossa vida. Este pequeno livro relata sobre a sobrevivência humana e sobre as capacidades que nós temos escondidas e que nem imaginamos. Relata também sobre a inevitabilidade. Há um episódio onde um pássaro pousa na pequena embarcação do velho e este tenta falar-lhe dos seus predadores mas desiste: se por um lado o pássaro não iria perceber nada, por outro, logo logo ele iria perceber quando os enfrentasse. Mas o pessimismo de Hemingway está sempre presente nas suas obras e nesta, apesar de passar uma mensagem de esperança e de luta, não é exceção.

 

Gostei bastante do livro, é uma leitura ligeira, com alguns termos que me obrigaram a ir ao dicionário averiguar, mas que nos permite tirar tantos ensinamentos para a vida. Foi bom reler.

 

E quem é que já leu O Velho e o Mar?

 

Boas leituras

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos. Mais do que um blog, são pedaços de uma vida.