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Desabafos da Mula

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos.

Desabafos da Mula

Pedaços de um blog em decadência #1

Acho que já vos tinha dito que em tempos tive um blog de poesia. Ele ainda está ativo mas há muito que não é alimentado, basicamente só um poema é que lhe traz visualizações, várias, provavelmente na altura dos Lusíadas e da Mensagem nas escolas.

 

Basicamente deixei de escrever poesia quando deixei de me sentir deprimida, se calhar nem era eu que escrevia se calhar era o socian... Mas uma coisa é certa, com ou sem socian, há alguns poemas que ainda hoje fico toda orgulhosa da minha pessoa e fico saudosa de já não escrever assim... Este é um deles (motivada pela professora de português da altura):

 

A mulher nos Lusíadas e na Mensagem

 

Pelo amor à mensagem de Pessoa,
Criou com amor e dedicação,
O nosso rei lutador,
Que conquistou a nossa nação!

 

Porém vingativa e cruel,
Contra seu filho se debateu,
Na escritura d’Os Lusíadas,
De seu filho se esqueceu!

 

D. Filipa abençoada,
Grandes filhos criou.
Na Mensagem de Pessoa,
O povo a idolatrou!

 

Porém Inês de Castro, coitada,
Que D. Pedro tanto amou,
Traída pelo destino,
D. Afonso a degolou.

 

Lembremos também aquelas mulheres devotas,
Que em Camões se impugnaram,
Que em Pessoa desesperaram,
E que seus filhos viram partir!

 

Mães, esposas, irmãs, noivas,
Não nos esqueçamos de todas aquelas que participaram,
Nas maiores obras que contaram,
Os grandes feitos do povo português!

Poema: Tentar

Eu já tentei, tento e continuarei a tentar...

Mas creio não dispor de mais forças para lutar!

E já sofri, sofro e continuarei a sofrer,

Até ao dia que me permitir deixar de te socorrer!

 

Eu já não sou eu...

Eu já não sou ninguém, efectivamente!

E continuas com força a cravar,

O punhal no meu coração dormente!

 

Dormente porque já não sente,

Dormente como meus olhos que  há muito já não vêem

O lascar de um sentimento que não existe,

De uma vida que deixará, também de existir!

 

Sim eu tentei, tento e continuarei a tentar...

Mas preciso que continuemos a tentar juntos.

Tenta tu também, por favor,

Para que o nosso amor não se junte, aos já defuntos!

Celebração dos 125 anos de Álvaro de Campos

visita_sr_engenheiro.jpg

 

No dia 15 de Outubro pelas 21h30, celebram-se os 125 anos de Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa, na Biblioteca Pública Municipal do Porto. Por isso, quem gostar e estiver pelo Porto, que aproveite. 

 

Partilho convosco o meu poema favorito de Álvaro de Campos, que é também o meu heterónimo preferido de Fernando Pessoa.

 

 

DATILOGRAFIA


Traço sozinho, no meu cubículo de engenheiro, o plano,
Firmo o projeto, aqui isolado,
Remoto até de quem eu sou.

 

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tic-tac estalado das máquinas de escrever.
Que náusea da vida!
Que abjeção esta regularidade!
Que sono este ser assim!

 

Outrora, quando fui outro, eram castelos e cavaleiros
(Ilustrações, talvez, de qualquer livro de infância),
Outrora, quando fui verdadeiro ao meu sonho,
Eram grandes paisagens do Norte, explícitas de neve,
Eram grandes palmares do Sul, opulentos de verdes.

 

Outrora.

 

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro.
O tic-tac estalado das máquinas de escrever.

 

Temos todos duas vidas:
A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,
E que continuamos sonhando, adultos num substrato de névoa;
A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,
Que é a prática, a útil,
Aquela em que acabam por nos meter num caixão.

 

Na outra não há caixões, nem mortes,
Há só ilustrações de infância:
Grandes livros coloridos, para ver mas não ler;
Grandes páginas de cores para recordar mais tarde.
Na outra somos nós,
Na outra vivemos;
Nesta morremos, que é o que viver quer dizer;
Neste momento, pela náusea, vivo na outra...

 

Mas ao lado, acompanhamento banalmente sinistro.
Ergue a voz o tic-tac estalado das máquinas de escrever.

 

in Poesias de Álvaro de Campos (1933)

 

Mentira*

Sorrir. Chorar.
Amar. Odiar.
Beijar. Sofrer.
Compreender. Não compreender.
Acreditar. Estupidez de acreditar.
Sofrer! Sofrer muito!

 

Tudo é efémero e constante. Inconstante!
Tudo é incertamente certo!
Verdade. Mentira.

 

A verdade da mentira é que ela é doce, sempre amargamente doce. Amada, desejada, esperada! Mas sempre amargamente doce. Vale mais a mentira que a verdade, toda a gente a adora, toda a gente a venera e espera. Espera sempre! Espera… até ao dia que a longa espera passe e a verdade a alcance!

 

Verdade… Sofrida a verdade! Largas horas de sofrimento, tão certo e incerto a cada pensamento!

 

Que sei eu da verdade? Que sabes tu?
Verdade é apenas o indesejado! Tudo o que é indesejado é verdadeiro! Tudo o que é terrificamente mau é verdadeiro! Tudo o que faz sofrer é verdadeiro! Tudo o que faz doer é verdadeiro! E eu? O que sou eu? No que penso eu? Que digo eu?

 

Mentira…

 

*Texto antigo

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Este é um texto, que apesar de já ter sido escrito há vários anos, continua bastante actual, porque continuo a pensar exactamente da mesma maneira.

Creio que todos nós somos uma cambada de hipócritas que andamos a fingir, a fingir, a fingir. É comum ouvirmos: "- Diz-me a verdade, eu não gosto que me mintam!"

 

Não gosta que lhe mintam? Eu não gosto é que me façam mal, eu não gosto é de sofrer, e com a verdade sofre-se bem mais do que com a mentira. Porque na realidade as pessoas não querem a verdade, quando esta é dolorosa, ninguém a quer, o que as pessoas não gostam na mentira é de um dia poderem descobrir a verdade, porque se a verdade nunca for reposta, nunca haverá problema e a pessoa será feliz. Isto acontece, porque o ser humano é - saudavelmente, ou não - egoísta.

 

A verdade, quando dolorosa, implica mudanças, tomadas de atitude e sabemos que o ser humano é um bicho de hábitos, não gosta de mudar, não gosta de ser obrigado a tomar decisões, mas quando somos confrontados com questões que magoam somos obrigados a reagir. E ninguém gosta de reagir. Eu não gosto de reagir.

 

Agora, claro que ninguém gosta de ser enganado, mas o que não gostamos é da atitude que levou ao engano, que levou à mentira. Tudo o resto, só serve para amenizar o nosso sofrimento.

 

Convenhamos que, mentira só é mentira, se for descoberta e até lá podemos ser estúpidos mas vivemos felizes.

 

Ou tudo isto é verdade, ou sou apenas uma lunática a viver dentro de uma bolha.

 

See You*

O início...

new-beginning.jpg

Sempre gostei de escrever. No entanto, durante muitos anos, apenas conseguia escrever poesia, parecia que em prosa as palavras não fluíam...

 

Comecei a escrever poesia era eu ainda uma criança. Lembro-me que o meu primeiro poema foi escrito com a ajuda da minha professora, porque eu mal sabia escrever, e escrevi-o para mostrar à minha mãe o quanto ela era especial para mim. Tinha eu uns 6/7 anos, e o dia da mãe estava à porta. Fico feliz por saber que ela ainda o guarda religiosamente na gaveta do móvel do hall, juntamente com outros desenhos e prendinhas.

 

Depois, na adolescência, comecei a escrever para me libertar do sofrimento que as paixões me causavam. Parecia que a minha imaginação poética andava a par e passo com o meu sofrimento. Sempre em rima, parecia que era obrigatório um poema rimar, e aquele que não rimasse estava condenado à lixeira e era para lá que eles iam.

 

Escrevia em papel... riscava e reescrevia vezes sem conta, amarfanhava folhas e enchia o quarto de papel. Agora já não sei o que isso é. Com os dedos cravados nas teclas do computador, vou escrevendo e reescrevendo textos que me dão prazer. Sem poder regressar ao que se apaga, às vezes perdem-se ideias e perdem-se textos. Já no papel isto não acontecia, que eu nunca riscava de forma a não poder reler. É a evolução. Há quem diga que há vantagens, há quem diga que há desvantagens, eu admito a ambivalência.

 

 

 

Poema Anti-Fit

(Um poema para todos aqueles que vivem no limbo - entre a dieta a preguiça de a fazer)

 

Acordo todos as manhãs com a sensação que deveria ir correr,

Mas logo o sofá chama e a televisão se acende.

Fico com a sensação que tenho peso a perder,

Mas a preguiça que há em mim, logo me prende.

 

Todos os dias me deito com a vontade de diferente fazer,

E como o último bolo que no frigorífico esperou,

Mas lá fora o intenso calor, da promessa me faz esquecer,

E lá fico eu no local que sempre me encantou.

 

E assim seguem os meus dias cheios de promessas,

Promessas de um tipo de vida diferente,

Comer coisas esquisitas sem quaisquer pressas,

E ir ao ginásio assiduamente.

 

Mas esta Mula não foi feita para aguentar,

Dias sem conta de total privação,

Então há dias que lá me consigo adietar,

E outros que é uma total descontracção.

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos. Mais do que um blog, são pedaços de uma vida.