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Desabafos da Mula

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos.

Desabafos da Mula

Lembram-se...

... Desta publicação

 

Pois muito bem, o senhor continua a vir cá à loja, mas já não me pede nada. Encontrou um local para comer todos os dias e diz já não precisar. Então, vem só cá todos os dias cumprimentar-me e contar-me algumas histórias sobre si e sobre o que tem feito. Dizem os meus colegas, que nas minhas férias, veio cá à loja quase todos os dias perguntar por mim. No fundo só precisa de um pouco de atenção, e isso sim, dou com todo o gosto. 

 

E porque nunca estamos bem com a vida que temos... Há na mesma uma coisa que me desagrada imenso nestas visitas: É que apesar de já lhe ter dito o meu nome muitas vezes... Insiste em chamar-me Tatiana...

 

[Não que eu tenha alguma coisa contra o nome... Mas gosto mais do meu... ]

"Se lhes dou a mão, eles ficam-me com o braço..."

"... e ao fundo eu vou também!" Cantam assim os Deolinda!

 

A verdade é que uma pessoa tenta ajudar, tenta fazer o bem e depois as pessoas abusam e podem até prejudicar-nos, ainda que inconscientemente - espero eu, que seja inconsciente.

 

Em tempos veio um sem-abrigo aqui à loja perguntar-nos se tínhamos cobertores em casa, que já não precisássemos e que lhos pudéssemos dar. Acrescentando também que estava receptivo a receber roupa que já não nos servisse ou que já não usássemos. Disse-lhe que iria ver, mas que provavelmente não teria nada mas que iria ver. Entretanto, e após o senhor dizer que estava com fome, peguei 1€ da minha carteira e dei-lho para que ele pudesse ir comer qualquer coisa.

 

Desde então, não me desampara a loja... literalmente.

 

Em tempos, veio cá, eu não estava. Perguntou por mim aos meus colegas e eles disseram que eu estava de folga. Pediu-lhes se eles não lhe poderiam dar uma ajuda, e se não lhe poderiam dar uma das camisolas que nós vendemos, porque estava a precisar de roupa. Disseram-lhe, obviamente, que somos funcionários e que não podemos dar nada da loja a ninguém, ao que o senhor prontamente responde: "Pronto está bem, mas eu depois venho cá, que a menina ajuda-me!" ora, os meus colegas conhecem-me bem, mas vamos supor que eu trabalhava há pouco tempo... O que é que eles iriam pensar? Que eu andava a dar produtos da loja? Que andava a roubar?Oh céus... uma pessoa quer ajudar, e depois é isto.

 

Agora vem duas e três vezes por semana aqui à loja pedir-me dinheiro... Às vezes ajudo, até porque sei que precisa. Mas outras não posso ajudar e digo-lhe que não... Mas creio que ganhei uma pedra no meu sapato e que não há nada que eu possa fazer. Em tempos, veio cá também pedir se ele podia utilizar a morada da loja para dar na segurança social - como se morasse cá - para pedir o rendimento social de inserção. Obvio que isso não é possível... É que por mais que eu goste de ajudar, a verdade é que eu estou longe de o poder fazer com a frequência que me é solicitada. Depois, também porque é contra os meus princípios, porque sou contra ajudar com dinheiro, até porque o senhor é alcoólico e nunca sei se o dinheiro é realmente para comer. Então ultimamente vivo sempre em constante dilema: Continuo a ajudar quando posso? Ou deixo completamente de o ajudar, para impedir futuros abusos?

 

Pois não sei... E é isto...

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos. Mais do que um blog, são pedaços de uma vida.