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Desabafos da Mula

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos.

Desabafos da Mula

Uma (pequena) grande história de amor: Como o Mulo e a Mula se conheceram

Porque hoje falamos de histórias, de personagens e de livros, e porque vocês já me conhecem bastante bem, e no fundo já conhecem tanto sobre nós, parece-me oportuno contar-vos a nossa história, digna de publicação numa qualquer revista cor-de-rosa, de como tudo começou. Agora que falta menos de uma semana para o casamento e as emoções estão à flor da pele.

 

Têm uma cadeirinha? Então sentem-se que a história é grande!

 

Eu e o Mulo conhece-mo-nos há muitos anos atrás, na rede da época, nada social, chamada carinhosamente de mIRC - abreviatura de Internet Relay Chat Client. Tinha eu na altura 11 anos e ele 14 e encontra-mo-nos no canal - assim se chamava - do concelho. Torna-mo-nos imediatamente amigos, e desde então todas as sexta-feiras falávamos duas horas. Sim, porque a internet que eu tinha em casa ainda ocupava a rede telefónica e por isso eu só estava autorizada a conectar-me às sexta-feiras das 22h às 24h. Uma preciosidade, e eu ficava a semana toda à espera daquelas duas horas que passavam a voar. Ele, por sua vez, não tinha internet em casa, e acedia a partir de um cibercafé. 

 

Após para aí um ano de falarmos rotineiramente pelo mIRC, trocamos números de telemóvel e a partir de então falávamos praticamente todos os dias. Mas um dia o Mulo, literalmente, desapareceu. O telemóvel deixou de chamar, o nickname dele nunca mais surgiu no mIRC, nada. Esfumou-se totalmente sem qualquer aviso prévio ou notificação. Todos os dias eu tentava ligar-lhe mas nunca chamava  e surgia logo a mensagem "o número para o qual ligou, tem o telefone desligado". Comecei a esmorecer e deixei de ligar diariamente, e passei a tentar semanalmente, e depois mensalmente... Sempre a mesma mensagem. Nada se alterava.

 

Até então éramos bons amigos, apesar de não nos conhecermos pessoalmente, falávamos há mais de um ano com regularidade, eu sentia um carinho muito grande e obviamente que toda a insistência se devia a preocupação. Mas entretanto desisti... Sou chata, mas também tenho os meus limites.

 

Passados mais de dois anos, já eu tinha 14 anos e ele 17, numa ronda à minha lista telefónica voltei a olhar para o número de telemóvel dele. E fiquei com saudades, e pensei "porque não?"  e tentei mais uma vez. Na altura namorava com um rapaz bastante mais velho que eu, que não me tratava devidamente, mas pelo qual eu era doida e por isso não me conseguia libertar.

 

Inacreditavelmente o telemóvel tocou. Fiquei tão perplexa que desliguei logo. "Já se passou tanto tempo que o mais provável é ele nem se lembrar de mim", era só o que eu pensava. Mas pelo sim e pelo não mandei-lhe uma mensagem a perguntar se ele ainda se lembrava  quem eu era... E a resposta não tardou a chegar. 

 

Claro que se fosse nos dias que correm isto era impossível de acontecer, à velocidade com que os números de telemóvel são reutilizados e atribuídos a outra pessoa, o mais certo era ter dado a volta a Portugal e estar atribuído, entretanto, a algum idoso pervertido que se iria aproveitar da situação. Não, os tempos eram outros, não se falava ainda de reciclagem de números, até porque muita pouca gente tinha telemóvel na altura, e o número era dele, e ele lembrava-se de mim, e a partir dessa altura voltamos a falar regularmente. Pediu-me desculpa, explicou-me que deixara de poder frequentar o cibercafé e que na mesma altura partira o telemóvel, não tendo forma de me explicar o que  se tinha sucedido, mas que estava muito feliz por eu ter insistido, porque ele  não tinha o meu número de telemóvel para me poder ligar, agora que tinha um novo telemóvel. 

 

Sempre foi um grande amigo, esteve sempre lá quando eu precisei, e foi dos que mais me apoiou quando o outro gajo me trocou por uma gaja mais velha que eu, claro. Passei um bocado muito mau, deixei de querer ir às aulas, deixei de querer estar com os amigos e chorava de dia e de noite. Foram uns meses mesmo muito maus, mas ele esteve sempre lá, atrás de um telemóvel, atrás de um ecrã, mas sempre lá.

 

Um dia, já tinha eu 15 anos, o Mulo manda-me uma mensagem que eu nunca esqueci: "Estou muito chateado contigo." Assim, sem ais nem uis, nem mais explicação. Intrigada mandei de imediato a resposta: "Mas o que é que eu te fiz?" Ao qual ele acrescentou de imediato  "Sei que já conheceste bastantes pessoas pela net, já nos conhecemos há mais de 3 anos e nunca me quiseste conhecer." Era efectivamente verdade, já tinha conhecido pessoalmente um montão de gente do mIRC, e estranhamente entre nós nunca se tinha proporcionado, nunca tínhamos falado sobre isso, e ele não morava assim tão longe.

 

Eu não tinha muita liberdade, normalmente quando conhecia as pessoas - rapazes e raparigas - elas vinham ter comigo à escola ou assim, porque moravam relativamente perto de mim, mas o Mulo morava mais longe e era mais complicado eu conseguir-me deslocar até à cidade dele, ou ele à minha. No entanto tive a oportunidade ideal: Tinha o meu bilhete de identidade a caducar - sim, isto foi no tempo da Maria Cachucha e ainda não existia o CC -  e então precisava de ir à terra dele tirar fotografias para poder tirar o dito - que na minha terrinha não tínhamos estas modernices. Assim foi, marquei com ele depois das aulas na paragem de autocarro, levei CINCO amigos comigo - não fosse o diabo tecê-las - e lá o conheci. Ainda hoje tenho as fotos que tirei no dia que o conheci. Toda eu acne e cabelos no ar, calças com gancho pelos joelhos e... E só usei um top decente de rapariga porque tinha de ficar bonita nas fotografias - dentro do possível, que não havia milagres - toda eu berrava "afastem-se rapazes, que eu estou farta de vocês". Dizerem que eu era Maria-rapaz era serem simpáticos comigo... Dizerem que eu era rapariga era também um pouco insultuoso para a espécie. Era portanto, qualquer coisa no intermédio, mas claramente tinha o meu encanto.

 

Desde essa altura se percebeu que éramos muito diferentes, ele estava num embaraço que só visto, em todo o tempo que estivemos juntos ele quase não abriu a boca - tão diferente atrás de um computador... - eu totalmente o seu oposto, não me calei um só momento - preenchendo cada silêncio com o som da minha voz. Quando nos despedimos, voltei a encontrar-me com os meus amigos e fiquei com a sensação de que o encontro tinha corrido muito mal, que ele não tinha gostado minimamente de mim. E só isso explicava tamanho silêncio. Mas estranhamente, no dia seguinte perguntou quando me poderia voltar a ver. Ora, como precisava de ir buscar as fotografias - não... as fotografias também não saíam na hora! Irra que vocês fazem-me senti velha - pedi novamente aos pais dinheiro para o autocarro e lá fui eu toda pimpona buscar as fotografias. O Mulo pagou-me o lanche e estava bastante mais espevitado do que da última vez, e também bastante mais intimidador - já que não parava de olhar para mim e isso me deixava muito desconfortável.

 

Quando cheguei a casa nesse dia, reparei que pela primeira vez em muito tempo, eu já não pensava no outro. Pela primeira vez em muito tempo eu andava feliz da vida, já sorria e cantarolava como antigamente. Só que o Mulo voltou a desaparecer... Deixou de aparecer no mIRC novamente e não me respondia às mensagens. Lá fiquei novamente em sobressalto... Iria dentro de cinco dias  num furo da tarde, tirar o bilhete de identidade, tinha mais uma oportunidade para estar com ele e ele não me dizia nada... Pensei "brincamos?" Ao fim de dois ou três dias, lá quebrou o silêncio. E pois que me manda uma mensagem toda confusa a dizer que sabia que eu gostava do outro, que sabia que não tinha nenhuma chance comigo, e que por isso era melhor nos afastarmos e coisas assim do género. Não compreendi nada, a minha inocência não me permitia perceber o que ele estava a tentar dizer e o meu pensamento foi: "pronto, não gostou mesmo nada de mim, está para aqui a arranjar desculpas para deixar de falar comigo, quando podia simplesmente dizer-me isso mesmo em vez de andar às voltas!" E foi isso mesmo que lhe disse, em dezenas de mensagens altamente irritada! Até que ele disse que não compreendia o porquê, mas que não conseguia deixar de pensar em mim... Que achava que estava a começar a gostar de mim e aí coisa complicou-se. Eu tinha acabado aquela relação há muito pouco tempo, estava muito magoada - apesar de ter apenas 15 anos, eu já vivia as coisas de forma demasiado adulta, e hoje tenho o afastamento necessário para compreender que efectivamente não eram coisas de criança, porque ainda são coisas que me magoam - e a verdade é que não estava disposta a passar novamente por tudo, até porque mal nos conhecíamos e não me queria estar a precipitar até para ninguém sair magoado, até porque eu gostava dele, mas achava eu que não gostava dele dessa maneira. Uns dias depois fui tirar o BI e fui então ter com ele, passamos o dia todo juntos, e as coisas acabaram por acontecer bastante naturalmente e quando nos beijamos eu percebi que o que eu sentia por ele não era apenas amizade. É verdade que ainda estava magoada, que o que eu sentia pelo outro era muito mais forte, mas senti que deveria dar uma chance ao Mulo, e parece que fiz bem, porque já lá vão 13 anos.

 

Todos os meus outros namorados - sim confesso que fui um pouco precoce nesta coisa dos namoricos e tive alguns antes do Mulo, apesar de ser tão nova - tinham surgido de paixões fulminantes de alguém que eu conhecia e imediatamente me encantava, ou que já me encantava antes de conhecer... Com o Mulo descobri que as relações não se começam apenas quando há purpurinas e borboletas à primeira vista, como eu achava que sim, que podem ser construídas tendo por base a amizade, o amor e a confiança. Fomos nos conhecendo, verdadeiramente, já enquanto namorados, e por acaso - mas só por acaso - resultou muito bem. Tivemos as nossas chatices, acabamos duas ou três vezes, mas o máximo de tempo que estivemos separados foi de uma semana. Cinco anos depois, tinha eu 20 anos e ele 23, saí de casa e fomos viver juntos, e agora 13 anos depois, vamos casar-nos.

 

Quando olho para trás e me lembro do medo de me precipitar, não tenho dúvidas: Sim precipitei-me, assim como me precipitei quando fomos morar juntos - nem eu nem ele tínhamos um trabalho seguro,  e decidimos ir morar juntos por impulso no meio de uma discussão, e eu por orgulho depois não voltei atrás - mas... Sabem que mais? Ainda bem que me precipitei, porque se pudesse voltar atrás, precipitar-me-ia de novo, vezes e vezes sem conta, porque não há ninguém neste mundo que me faça tão feliz como o Mulo me faz!

As lágrimas e a Mula

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Chorar faz bem... alivia tantas tensões! Chorar é uma verdadeira descarga eléctrica, e por isso sou defensora de que se deve deixar chorar e sou contra frases ao estilo "oh vá lá não chores"; "tristezas não pagam dívidas", "agora, não adianta chorar..." e frases deste género. Porque estar triste e sofrer faz parte da nossa condição humana, faz parte da vida.

 

Só que eu não sei lidar com as lágrimas dos outros... 

 

Sou uma pessoa meiga, mas não sou muito carinhosa. Não sou das que abraça os amigos, não sou das que está sempre agarrada e aos beijinhos, e que toca na cara e faz carinho. Não sou assim, assim como não me sinto à vontade quando as pessoas o fazem comigo. Não lido bem com muitos abraços apertados, beijinhos e festinhas. Não que não as agradeça, não que até não me possam fazer sentir bem, acarinhada... Só não me sinto à vontade! 

 

Deste modo, quando alguém chora à minha frente, fico sem saber o que fazer: agarro/não agarro; continuo a falar/calo-me; digo chavões para alegrar a pessoa/sou sincera. No fundo, sou uma boa amiga, mas tenho um péssimo ombro, porque apesar de achar que todos devem chorar e que chorar faz bem à alma, desejo secretamente que a pessoa não chore, num ato de egoísmo, porque eu não sei o que fazer com aquilo, até porque na maior parte das vezes implica quebra do meu espaço, de entrar numa realidade que me é desconfortável.

 

Confesso que esta relação que tenho com o corpo e com o meu espaço pessoal, mudou muito com o Mulo, com ele, sou diferente, com ele sou das que agarra e esborracha, mas não sou assim com mais ninguém. Não dou beijinhos e digo que amo às pessoas de quem gosto. Mas ainda assim acho que essas pessoas sabem que as amo e as respeito, e que as quero, à minha maneira. Na minha maneira especial e tosca de querer e de amar.

 

Por ser assim, também não choro à frente dos outros - a não ser quando não dá para ser de outra maneira. Não sou das que liga para desabafar. Eu não desabafo, e às vezes quebro. Choro muito, muitas das vezes isolada no quarto às escuras, mas não ligo - e acho que nunca liguei - a pedir ajuda. Prefiro antes afundar-me no chocolate e nas natas. E não sou assim por orgulho, não para não pensarem que afinal eu também tenho os meus momentos maus, mas porque se eu não consigo suportar as lágrimas dos outros, porque haveriam os outros de suportar as minhas? Prefiro semanas depois dizer o que se passou, e que já passou e que já não há motivos para tristeza... e as pessoas ficam sempre assim:

 

"Então e não disseste nada porquê?"

 

Pois... Assim sou eu, que não sei ser de outra maneira.

Curral da Má Língua #5 Odiar o próximo

E após quase dois meses de pausa da Má Língua (oficialmente) aqui no curral, hoje regressamos com um tema lançado pela Vânia Garcia.

 

Querem uma sugestão?

 

Aproveitem e insultem bem as pessoas que odeiam... Este curral é um lugar seguro, tão bom como estar deitado num divã em associação livre. Vamos destilar veneno e expulsar a raiva? 'Bora lá...

 

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Aprochegem-se aqui à orelhinha - nada inha - da Mula, e digam-me com todo o vosso coração, o que gostariam de dizer a alguém que odeiam/que vos irrita/que vos consome a alma/que simplesmente vos tira do sério. Digam tudo aquilo que gostariam de lhes dizer olhos nos olhos.

 

Estão a ver a caixinha dos comentários? Façam de conta, que está lá uma fotografia dessa pessoa...

 

E que comece o enxovalho em... 3... 2... 1!

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos. Mais do que um blog, são pedaços de uma vida.