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Desabafos da Mula

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos.

Desabafos da Mula

Desafio de escrita dos pássaros #5 Na fila para o purgatório

Relembrem-me por favor o motivo de eu ter participado nesta loucura? E expliquem-me lá que tema é este? Obrigada!

 

Hitler no céu queria tentar entrar.
Mas Deus não quis que ele entrasse!
Que apesar de ser bom a perdoar,
Não havia feito de bem que se registasse.

 

Então Hitler para o inferno espreitou,
Que esse já lho tinham garantido,
Mas Diabo com maus modos o desconsiderou!
"Aqui não entra tamanho pervertido!"

 

E a fila não andou. Por contrário... Aumentou!
E Hitler bufou, e todo o purgatório parou.

 

E o homem de bigodes esperou,
Impaciente, o Diabo, os olhos revirou,
E então Hitler percebeu que ainda demoraria,
A tal busca pela última moradia!

 

E eu que só queria subir,
Para nalgum canto quente ou frio me encostar. Para dormir.
Bufei desesperada, que não chegava a minha vez,
Blasfemei o purgatório com altivez!

 

"Diabo deixa entrar para o inferno este homem,
Que te serviu, e que à tua semelhança se fez!"
Mas o Diabo bateu-me com a porta ofendido,
Que "nunca fora tamanha, [a sua] malvadez!"

 

E a fila não andou. Por contrário... Aumentou!
E Hitler bufou, e todo o purgatório parou.

 

E eu reclamei, certamente desesperada,
Que já só queria uma, quente ou fria, fofa almofada.
"Por favor querido Diabo deixa entrar este bigodes,
Que te garanto que te vai matar as fomes!"

 

E curioso o Diabo pela porta do inferno espreitou, 
Com o seu risinho malvado de mim se aproximou.
"Que dizeis?" perguntou pensativo
E eis que lhe dou uma dica sussurrada ao ouvido. 

 

Os olhos do Diabo brilharam,
E o sorriso malvado no seu rosto reapareceu,
De espeto de porco na mão, bem fumegante,
Com Hitler assado, o inferno abasteceu!

 

E a fila finalmente andou. Rapidamente... Se esfumou!
E Hitler já não mais bufou, e todo o inferno o degustou.

 

Uma espécie de Review de alguém que não percebe nada disto: Joker

Fui ver o Joker. Ó MEU DEUS! Mas o que é isto?! O Joker é simplesmente incrível! Já li várias críticas, algumas bem cruéis para um filme tão incrível, mas também cada crítica já se sabe, vale o que vale - tal como a minha! -, porque depende sempre muito de uma experiência pessoal, das nossas expectativas e vivências. Quanto a mim, posso já adiantar-vos: adorei. Que baque na alma!

 

 

Joker não é um filme de super-heróis. Joker conta a história de Arthur Fleck, palhaço de profissão, excluído, de situação social e retrata os motivos para  Arthur Fleck se ter tornado no Joker, o louco vilão que combate contra o Batman em O Cavaleiro das Trevas.

 

Artur Fleck, aspirante a comediante, sofre de um problema neurológico que faz com que se ria em situações desapropriadas, e isso origina constantemente problemas e situações desagradáveis. É constantemente alvo de bullying e é despedido da empresa de palhaços onde trabalhava porque um amigo lhe arranjou uma arma para se proteger. É esta arma que transforma toda a história. Após ser mais uma vez humilhado em pleno metro, e ser novamente espancado sem qualquer piedade, mata os agressores com a arma que lhe ofereceram. O que poderia ser uma situação traumática para a maioria das pessoas, para Artur foi uma tábua de salvação. Fleck sentiu-se bem.

 

Este filme demonstra, de forma bruta, como a sociedade tem a capacidade de transformar um ser débil num monstro, pela forma como não o apoia e o humilha por ser diferente. Artur Fleck não era um homem mau, era um homem com sonhos que foi desde sempre excluído pela sociedade de forma macabra.

 

Joker não é um filme de super-heróis, aqui ninguém voa nem há tecnologia extremamente avançada para a luta do bem contra o mal. Joker é um drama, de um homem que tenta ser feliz, que tenta encontrar um motivo para sorrir, pois como a sua mãe lhe dizia "She always tells me to smile and put on a happy face. She says I was put here to spread joy and laughter." Mas Fleck não tinha grandes motivos para sorrir, mas sentia que era essa a sua obrigação, o seu propósito. 

 

É um filme brilhante, que cativa, que nos amolece a alma e o coração, que nos comove. Assisti com um grande nó na garganta do início ao fim.

 

Aconselho vivamente.

 

Quem já viu? Opiniões? 

Humor britânico

Tenho alma de gorda. Não há hipótese. Tenho e sempre terei alma de gorda.

 

Fui buscar um gelado de cone de máquina, lá no evento, que é gratis, e já que a comida não era boa ao menos enchia-se a pança com geladinho bom e bolachinhas crocantes que o senhor punha no gelado. Peço um gelado e quando ele me entrega só o gelado sem topping estranhei, porque sei que podemos por toppings. Perguntei se podia pôr e disse que sim. Pedi - obviamente - chocolate e o senhor põe a apenas uma gota - literalmente uma pequena gota -  e entrega-me o gelado. Não estão bem a ver a minha cara de desiludida, qual criança a quem entregam um brinquedo sem graça. 

 

Atrevida pergunto: Are you telling me that i'm fat? - E faço uma cara triste!

 

Toda a gente se riu, se riu muito. Depois eu é que não tive grande vontade de rir. 

 

O senhor pede-me o gelado de volta, deita fora e entrega-me um gelado gigante cheio de bolachas, toppping, tudo e mais alguma coisa. 4 pessoas comeram daquele gelado e mesmo assim tivemos que deitar o resto fora porque era impossível de comer. Para além de que me sujei toda porque o dito começou a derreter!

 

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Aprendizagem desta viagem a Londres: Não desafiar os ingleses... Eles sabem brincar! À maneira deles... Mas sabem brincar!

Desgastada

Já não posso dizer que estou cansada, que já passei esse nível. Estou mesmo desgastada!

 

Fui a mais um triatlo promovido pela empresa e desde então as horas de sono devidas à cama têm-se acumulado. Calma malta a Mula não vos está a mentir, ludibriar, nem está doida da cabeça. A Mula foi a um triatlo, mas não fez o triatlo, não sei se me entendem. A Mula foi lá a Londres, fez 5 km em quase 50 minutos e saiu de lá com uma medalha satisfeita como se tivesse corrido 40km em 30 minutos, mas a Mula foi lá só caminhar, tirar fotografias, conversar e beber. Podia dizer que também lá foi comer, mas comida não é propriamente coisa que eles sirvam lá. [Ai gente, que fominha passei, não vos conto... Que fominha passei!]

 

Felizmente, e sendo Londres este ano tive muita sorte. O ano passado fiz os 5km debaixo de chuva intensa, numa grande parte do percurso. Cheguei a Londres constipada e saí de lá com uma gripe, basicamente. Este ano não. Este ano apesar de cinzenta - e lá seria Londres, se estivesse soalheira? - a chuva deu tréguas e o percurso fez-se muito bem. Por isso ainda demorei mais tempo este ano que o ano passado, que quis absorver bem toda aquela paisagem, todo aquele paraíso. Pesquisem por Dorney Lake, e vão perceber ao que me refiro.  

 

Foram 3 dias intensos. Pouca cama, muito álcool, muita festa... E também muito frio e pouco que comer - já vos disse que passei muita fome? - no último dia e após ter ido passear para o centro de Londres, cheguei ao aeroporto de rastos.  Só queria a minha cama... Mas a TAP fez questão de me pregar uma partida. Praticamente à hora que deveria de estar a aterrar aqui no Porto estava a levantar lá em Londres... 40 minutos depois da hora a que supostamente estaria a levantar, ainda não tinha nenhuma informação do voo. Se existia, se não existia... Nada! Cheguei a casa já passava das 2:00 da manhã, para acordar às 7:00, porque já tinha um compromisso que não consegui adiar.

 

Seguiram-se mais uns quantos dias a acordar às 7:00 e as horas de sono em falta a acumularam-se completamente. Houveram noites que me deitei e não me lembro se quer de me cobrir. Juro-vos que estive na eminência de adormecer umas quantas vezes no trabalho e nem os vários cafés me arrebitaram e me devolveram a alma. Sexta-feira continuavam a dizer-me que eu estava mesmo a precisar de dormir que estava com péssima cara - e ela já não é muito boa estando eu normal, por isso agora imaginem...!

 

Se é por uma boa causa? É pois claro que é, e eu adoro e se para o ano ainda cá estiver a trabalhar podem crer que contam novamente com a minha presença mas...

 

... Contem também que eu na semana a seguir esteja de férias!

 

Mas porquê tudo isto?

 

Basicamente para vos pedir desculpa porque vocês continuam aqui a passar sem falhar, e dia após dia comentam as tonterías que a vossa Mula vos escreve e não têm recebido retorno. Mas já sabem. Até pode ser um mês depois, mas a vossa Mula responde! Obrigada por estarem desse lado à espera desta vossa Zombie Mule!

Desafio de escrita dos pássaros #4 Beatriz disse que não. E agora?

Imagem retirada daqui.

 

Ele era tudo o que ela queria. Inteligente, carinhoso, bonito, apaixonante. Mas ele não era dela. Mas ainda assim ela suspirou por ele durante anos. Ou seriam dias? Ou apenas horas? Beatriz não sabe, com ele perdia completamente a noção do tempo. Beatriz amou-o em silêncio. Em silêncio achava ela, que os seus olhos gritavam, esbugalhados. Beatriz delineou em sonhos toda uma vida com ele, em silêncio. Em silêncio achava ela, que seu corpo sempre a denunciava. Beatriz amava-o e desejava-o como nunca julgou possível. Beatriz perdeu até o amor por si, para ter ainda mais espaço no seu coração para o amar, para o desejar, para o pensar e delinear.

Beatriz amava Dinis! Mas Dinis não era de Beatriz.

 

Dinis gostava de Beatriz... .

Gostava da forma como ela o olhava e o fazia sentir importante. Gostava da forma terna como ela o cuidava quando mais ninguém o fazia. Gostava até da forma ardente com que ela o desejava quando ele carinhosamente lhe atirava algumas migalhas, como um breve olhar ou uma palavra mais gentil. Beatriz fazia Dinis sentir-se único. Não. Dinis não gostava de Beatriz, mas gostava da forma como ela o fazia sentir. Heráldico. Importante. Especial. Ele que fora sempre desejado por muitas mas especial para ninguém.

 

Dinis não queria nada verdadeiro com Beatriz, só o suficiente para a manter interessada. Para a manter agarrada. Beatriz era a sua droga. E Dinis era a droga de Beatriz. Ela fazia-o sentir-se vivo. Dizia-lhe: "Um dia vou ter tempo para ti!". Mas nunca tinha. "Espera por mim que eu vou" Mas raramente aparecia. Mas Beatriz, tonta e sonhadora, agarrava cada migalha como se de um pão se tratasse; cada palavra como se de um livro inteiro fosse e cada olhar como uma esperança que logo se desvanecia, porque logo logo Dinis afastava Beatriz.

 

Sempre que Beatriz se afastava, Dinis dava-lhe um pouco mais da sua atenção, mais uma migalha da sua espécie de coração e Beatriz que se arredava, logo voltava. E aí voltava à dependência, aos sonhos, à imaginação dolorosa com a certeza da ausência. Dinis não queria Beatriz, mas Dinis também não queria não ter Beatriz.

 

E um dia abandonaram-no a mulher e os filhos e Dinis sozinho no mundo ficou, restando-lhe a única que verdadeiramente o amou e que ao lado dele sempre esteve.

 

"Fica comigo!"

 

E assim Beatriz teve o mundo aos seus pés e ouviu o que sempre sonhou, o que toda a vida esperou. E ele fez planos, e ele fez promessas, e ele... Agora ele... Agora ele era dela. Aquilo que ela sempre sonhou, tudo o que sempre desejou. Mas Beatriz sabia o que isso também significava: O papel de mulher não era melhor que o papel que ela já ocupava. 

 

E então Beatriz disse que não. E agora?

 

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Podem ler este, e outros textos do Desafio de Escrita dos Pássaros, aqui.

Desafio de escrita dos pássaros #3 Viver marca, encontrar-se dói

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Olhou para dentro de si e percebeu que tudo mudou,
Percebeu que a menina de outrora,
Doce, submissa e acolhedora,
Olhou para dentro de si e a si renunciou!

 

Marcou-a sentir que a alma de si fugia,
Que de si escapou e a si já não voltou.
Porque apesar de ser já gritante a sintomatologia,
Foi preciso cair ao chão. A menina se arranhou.

 

Deixou de querer brincar, a menina,
Renunciou às casinhas e aos brinquedos,
Renunciou à estabilidade e aos segredos,
"Deixou de ser séria, a menina!"

 

Então arrumou a sua casa e o seu coração,
Bateu a porta com dor mas sem exasperação,
Saiu sem caminho convenientemente delineado,
Buscou, a menina, com esperança o seu verdadeiro fado.

Tudo deixou para trás em busca do desconhecido,
Como se a vida por si só não fosse aventura suficiente,
E durante esse caminho enegrecido,
Foi colando as peças de si, resiliente.

 

E assim a menina que se perdeu,
E que certamente errou mais do que acertou,
Se foi encontrando por entre caminhos encalhados,
E abriu finalmente os olhos, outrora vendados.

 

E continuou a chorar e continuou a sorrir,
Que vida que se preze também tem muros a ruir.
E agora com a alma aconchegada, finalmente entendeu...
Essa menina que se olha no espelho e se perdeu... Afinal, era eu!

 

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Podem ler este, e outros textos do Desafio de Escrita dos Pássaros, aqui.

Nem pareço eu...

 

No ginásio, inscrevi-me na semana passada para uma aula demoníaca que promete oferecer, após trabalho árduo, um bumbum digno de se olhar, e quiçá umas pernas a condizer. Não gosto propriamente de sofrer, mas gostava de ter um rabito mais rijo e umas pernas mais torneadas, então digamos que acho que vale o esforço e inscrevi-me uma vez mais na aula.

 

Antes de ir para o ginásio tive de fazer umas coisas e digamos que não tinha grande espaço de manobra. Passo ainda por casa para me trocar, porque estando numa altura do mês pouco facilitadora de mudanças de roupa em público, considerei mais confortável e chego ao ginásio em cima da hora, para a aula. Vou ao cacifo pousar as malas e constato que perdi o aloquete. Desesperada procuro o aloquete, mas zero notícias do dito. Atrasada corro para entrada do ginásio e peço para ir apenas ao carro deixar as minhas tralhas - porque o meu ginásio só permite entrar uma vez - vou lá a correr - "ao menos já faço o aquecimento" pensei - entro novamente no ginásio e constato que a aula já começou, não tenho água, não tenho caneleiras necessárias, disponíveis - pesos, para pôr nas pernas, para quem não frequenta o ginásio - para além de ter de percorrer toda a aula para ir buscar discos/pesos para o início da aula.

 

Numa outra vida, teria simplesmente saído do ginásio, perceber que aquilo era um sinal de que eu deveria era de ir para casa... Mas não, nesta outra vida eu fui, apesar de invadir uma aula que já tinha começado, e ter estado desde o princípio com sede e ter zero mililitros de água, para além de ter passado pela vergonha de ser a única aluna sem caneleiras nos tornozelos, passei por fraca e preguiçosa e ainda enfrentei  os olhares curiosos por ter uma garrafa vazia, e uma chave do carro por ali espalhadas no tapete.

 

As coisas que nós fazemos por amor ao corpo. Jesus, credo, canhoto!

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos. Mais do que um blog, são pedaços de uma vida.