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Desabafos da Mula

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos.

Desabafos da Mula

Livro: Se Isto é um Homem do Primo Levi

Já sabem que sou sadomasoquista, e que apesar de entrar num sofrimento que só visto, gosto de ler sobre o Holocausto. Assim e por sugestão da Uva Passa comprei e li o Se Isto é um Homem do Primo Levi, químico e escritor judeu italiano que foi levado para Auschwitz com apenas 24 anos, na noite de 13 de Dezembro de 1943 onde permaneceu no campo de trabalho até 27 de Janeiro de 1945.

 

 

Como o próprio autor indica logo no início, este livro "não foi escrito com o objetivo de formular novas acusações; servirá talvez mais para fornecer documentos para um estudo sereno de alguns aspectos da alma humana." Este livro não pretende, por isso mesmo, ser apenas mais um que descreve as atrocidades que os alemães eram capazes de infligir aos judeus nos campos de concentração, ainda que seja impossível não os referir, quando eram uma constante e os verdadeiros responsáveis pelo que de resto o autor descreve.

 

Primo Levi, focou-se bastante no outro lado da clausura, do que era necessário fazer para se sobreviver, e o que acontecia realmente quando não se sobreviva e de como os presos lidavam com a inevitabilidade de pertencer àquele campo. É um livro que pretende chamar a atenção para os comportamentos do homem quando submetidos a condições de extrema violência e de extremas necessidades. É por isso um livro, que é quase um manual de sobrevivência, sobre como ele, o Primo Levi, conseguiu sobreviver quando muitos não tiveram a mesma sorte, destacando como fundamental: a língua - acha que sobreviveu por entender um pouco de alemão - e a desumanização, ou seja, quanto mais ele deixasse de se sentir homem e pessoa, mais hipóteses teria de sobreviver, reforçando ainda que acha que apenas sobreviveu porque foi capturado numa altura em que os alemães precisavam de muita mão de obra tendo reduzido significativamente os extremínios. Primo Levi, segundo a história do Holocausto é assim um dos homens que mais tempo aguentou, e sobreviveu, a Auschwitz, cujo tempo de sobrevivência médio rondavam os 3 meses.

 

Acho que o que mais me chocou foi a visão otimista de Levi. Se não chovia, ele sentia-se com sorte, se chovia, mas recebia mais uma ração de pão, era outro ponto positivo. No fundo ele tentava encontrar onde mais ninguém encontrava um ponto positivo, de certa forma para se conseguir agarrar e sobreviver. Há inclusive uma entrevista onde ele vai contra o que era dito sobre a alimentação do campo, indicando que não achava o pão e a sopa más, que achava era pouco. 

 

Assistimos neste livro, a toda a desconstrução de alguém que acaba por se abandonar como homem, e no final, quando os alemães abandonam o campo devido ao avanço dos Russos - deixando-os à sua sorte sem qualquer comida - de novo a construção deste e de outros elementos, enquanto homens. É por isso um livro que pretende apenas relatar, não de um ponto emotivo mas histórico, o que por lá se passava e acontecia. Não é por isso um livro que pretenda apelar às emoções, ainda que seja impossível não sentir dor e revolta perante as descrições lidas.

 

O livro é realmente muito bom, no entanto a tradução tornou o livro um pouco difícil de ler. Tem demasiados termos, falas e expressões em francês e alemão, que dificultaram a compreensão. Acho que mesmo que quisessem manter a estrutura original, que uma nota com a tradução faz alguma falta.

 

Este é mais do que um livro, é um relato de coragem. A coragem de um homem que passou mais de um ano num campo de concentração em trabalhos forçados, que conheceu muita gente capaz de tudo para sobreviver, e que em 1958, 13 anos depois, falou e escreveu sobre isso com uma frieza de quem apenas ouviu o que por lá se passava mas que não passou por, prova da desumanização que Levi relata como essencial à sobrevivência.

 

É descritivo e um tanto violento por isso não deve ser lido pelas pessoas mais impressionáveis, mas se tiverem oportunidade, leiam!

 

Boas Leituras!

Livro: O Filho de Thor de Juliet Marillier

Emprestaram-me O Filho de Thor e finalmente terminei de ler, este, que foi o primeiro livro que li de Juliet Marillier. Confesso que as minhas expectativas estavam bem lá no fundo: Primeiro porque não é, de todo, o meu estilo literário. Não sou fã de livros - nem de cinema - sobre guerreiros, sobre conquistas, sobre povos e afins. No entanto a pedido de uma colega, li este livro. E não é que fiquei surpreendida? Agradavelmente surpreendida?

 

 

O Filho de Thor conta a história de dois amigos de infância, Somerled e Eyvind, que fizeram um juramento de sangue que os vai unir para o resto da vida. No entanto estes dois amigos são muito diferentes: Somerled é inteligente, um jogador nato, frio, cruel e uma pessoa que não mede as consequências dos seus atos para alcançar os seus fins. Já Eyvind é um bom rapaz, sonhador, que tem como objetivo de vida ser um pele-de-lobo - um guerreiro - e seguir o chamamento de Thor - o Deus dos guerreiros. Somerled tem apenas um sonho, um objetivo, ser Rei. E a forma como vai prosseguir esse sonho é a verdadeira história deste livro e é o que colocará à prova a grande amizade e irmandade que une Somerled e Eyvind, porque após viajarem para as Ilhas Brilhantes, Eyvind vai perceber finalmente quem é Somerled e tudo o que acredita será posto em causa.

 

Ao contrário do que eu achava, este não é apenas um livro sobre guerreiros, sobre tribos e rituais. É um livro carregado de intrigas, de mistérios e segredos. É um livro que fala sobre as promessas acima de tudo, que fala sobre lealdade, sobre o que é certo ou errado, e acima de tudo que fala sobre amor. Tem claro - partes que eu dispensava - rituais mágicos, coisas impossíveis, muita fantasia, mas consegui ultrapassar estas questões devido à forma intrigante como é escrito.

 

Gostei de Juliet Marillier, ela sabe realmente cativar o leitor, no entanto, considero que esticou - pelo menos neste caso - demasiado o livro. As descrições são demasiado longas - vocês sabem que eu não sou fã de grandes descrições -, os pormenores são excessivos e a história é demasiado esticada no tempo, o que fez com que por vezes me sentisse um pouco aborrecida, porque há alturas de impasse que parece que lemos, lemos, lemos e a história não avança, e isso confesso, enervou-me um pouco. Mas a história é realmente fantástica, enternecedora, e que por vezes nos revolta. E eu gosto de livros que me abalem os sentimentos.

 

É realmente um bom livro. No final, na nota histórica da autora, percebemos que apesar de toda a magia, de toda a fantasia, a mesma se inspirou em factos reais, em ilhas reais em povos reais, ainda que depois lhe tenha dado a moldura que achou melhor. Ainda não decidi se irei ler a sequela - Máscara de Raposa - uma vez que a história não tem nada que ver com a inicial, mas a seu tempo decidirei.

 

Quem já leu O Filho de Thor?

Livro: Receitas de Amor para Mulheres Tristes de Héctor Abad Faciolince

Comprei este livro em promoção na FNAC sem ter grandes expectativas. A capa chamou-me a atenção, o título ainda mais, e ao desfolha-lo percebi que eram pequenas crónicas sobre a vida que nele constavam, como se de um livro-blog se tratasse. A grande vantagem nestes livros de pequenos contos, ou pequenas crónicas, é que se não gostarmos de uma podemos facilmente avançar para a seguinte.

 

 

Este livro de Receitas de Amor para Mulheres Tristes contem sábios conselhos mascarados de receitas, para que nós mulheres, algo complicadas, possamos ver a vida com outros olhos, quando assim é possível. Mas como diz o autor em algumas situações, não há receitas milagrosas para a cura da alma e nem sempre funcionam à primeira, por vezes é necessário insistir.

 

Os temas do livro são diversos, desde o simples feitio da mulher, à traição, passando pela depressão e pela maternidade, tudo um pouco é abordado em curtos e simples textos, que tantas vezes lembram a poesia. No fundo é uma coletânea de prosa poética, como prova este pequeno excerto que já aqui partilhei.

 

Não há muito que eu possa dizer sobre este livro, apenas que gostei muito, que me revi tantas vezes, e que outras tantas olhei em volta para perceber se aquele texto teria sido escrito para mim, sem eu saber. Este não é um livro para ler, é para irmos lendo. Uma receita de cada vez para que as mesmas não se misturem na nossa cabeça e se emaranhem. 

 

Partilho uma das receitas convosco, para vos aguçar o apetite:

 

Mais tarde ou mais cedo, se é que esse dia não chegou já, hás-de sentir a tremenda desolação da vida a dois. Ele não te vê. De repente dás contigo convertida num ser invisível: qualquer coisa nos olhos dele te faz desaparecer. Para esta solidão em companhia não resulta fazer barulho, o pranto não produz efeito, nem o riso. É uma cruel surpresa uma mulher descobrir que vive com um cego surdo-mudo que, porém, vê, isso sim, o ecrã da televisão, vê o cotão nos cantos da casa, as marcas dos dedos em todos os vidros, ouve o toque do telefone, faz negócios em voz alta pelo bucal.

 

Para este mal agudo dizem algumas optimistas que existe uma solução na cozinha. E sugerem a seguinte receita capaz de alterar os ânimos:

 

Conseguir seis perdizes desossadas (perdiz tão bela que nos leva a dizer Por Deus!). Lavá-las bem, muito bem, e começar por temperá-las com sal e pimenta. Dourá-las em manteiga misturada com azeite; juntar-lhes depois uns punhados de ervas aromáticas e umas colheres de natas. Vão depois ao forno médio até estarem bem cozinhadas. Servem-se com puré e bem quentes.

 

As perdizes são tão difíceis de obter nos nossos pequenos mercados que poucas vezes as minhas papilas conseguiram experimentar este esconjuro de feitiço contra a indiferença. Substitui as perdizes por galinhas-da-índia anãs e vê se com esta aldrabice a coisa sai bem. Mas quando um marido começa a ficar cego, o melhor é começares tu a ligar apenas àqueles que te veem.

de Héctor Abad Faciolince 

 

Este exemplo demonstra bem o que vocês poderão encontrar ao longo destas 125 páginas. São no fundo 125 páginas cheias de amor, de fraqueza, de medos e desilusões, temperadas com uma pitada de humor, auto-estima e ternura. Eu gostei muito, e serão textos a reler.

 

Alguém já leu este livro?

Livro: Em Busca do Carneiro Selvagem de Haruki Murakami

E após um ano e três meses, finalmente terminei de ler o livro Em Busca do Carneiro Selvagem de Haruki Murakami. Nunca um livro me custou tanto a ler, mas como não sou de desistir, decidi que deste mês não passava. Mas decididamente Murakami não é para mim. É demasiado... Irreal, digamos assim. No entanto, tendo em conta o fantástico, o irreal, até está uma história interessante.

 

 

Em Busca do Carneiro Selvagem retrata a história de um jovem japonês que prestes a fazer 29 anos entra em decadência. A mulher pediu o divórcio, o trabalho não corre como esperado, e este sente-se apático. O primeiro momento de reviravolta na vida deste jovem é quando conhece uma rapariga com poderes especiais, devido às suas orelhas, tornando-se obsessivo com estas. E o segundo momento, é quando é abordado por um estranho homem, para procurar um carneiro específico tendo por base uma fotografia, tendo de viajar até uma aldeia recôndita no interior do Japão, sem saber se esse carneiro realmente existia.

 

É um livro fantástico - não fantástico de bom, mas da categoria do fantástico - onde os carneiros têm poderes especiais e entram dentro das pessoas comandando-as e onde raparigas com orelhas perfeitas conseguem prever o futuro. É um livro onde os mortos falam e onde nada é o que parece ser. É um livro mirabolante.

 

É no entanto, um livro de fácil leitura - bem sei que não parece, pelo tempo que o demorei a ler - no sentido que tem uma linguagem simples, clara e com bastantes diálogos. Acaba por ser maçador por ser um livro que se demora a desenrolar, e é demasiado descritivo. Demorei 1 ano e 3 meses para ler 100 páginas, mas a verdade é que li as restantes 260 numa semana, porque finalmente o livro ganhou um propósito, ganhou algum mistério que nos permite querer saber o que acontece depois. Até essas 100 páginas, era só a história de um homem divorciado obcecado pelas orelhas de uma rapariga... Mas ao longo de 100 páginas! É insano! Depois disso é um homem que se envolve numa série de mistérios em busca de um carneiro que poderá nunca ter existido e ser fruto da imaginação, já que normalmente ele só era visto em sonhos, mas que tem a sua vida ameaçada se não o encontrar. A partir deste ponto confesso que fiquei emaranhada na história e fiquei curiosa.

 

Gostei, realmente, das questões existenciais do personagem - que não tem nome, talvez por não saber quem é - que tem dificuldades relacionais com pessoas e animais. O personagem não consegue dar nome ao seu gato, porque acha que isso o determinaria demais, e há inclusive uma enorme confusão no que toca à rapariga das orelhas que ora ele chama de amiga, ora de namorada. A personagem é realmente muito confusa e esta busca do carneiro representa no fundo a sua descoberta pessoal, quem é, e o que representa no mundo. Retrata também as prioridades da vida, quando um pai prefere viver para a sua obsessão do que para o seu filho, por exemplo.

 

No entanto, o final não me satisfez, e acho que até nem o compreendi. Compreendi que efetivamente este livro representará uma metáfora e que o homem que outrora se encontrava perdido encontrou um rumo para a sua vida, passando por uma série de transformações que o ajudou a encontrar o propósito da sua vida, mas para um livro tão descritivo, senti que o final foi apressado.

 

Descobri no entanto que este livro faz parte de uma trilogia: A Trilogia do Rato, mas creio que a minha experiência com Murakami termina aqui. No entanto recomendo-o para quem gosta do estilo fantástico.

 

Já agora, se alguém leu este livro e percebeu bem o final, que mo explique se faz favor, que eu tenho umas quantas questões para fazer.

 

Boas leituras.

Livro: Canção de Embalar de Auschwitz de Mario Escobar

Desde que pus os meus olhos castanhos em cima do livro de Mário Escobar que nunca mais descansei. E agora que já o comprei e que entretanto já o li, não consigo descansar porque não consigo aceitar a história. Custa-me a aceitar as atrocidades que o ser humano é capaz de infligir a outros sem qualquer razão, sem qualquer motivo. Custa-me a aceitar que a história assim tenha sido. Mas assim é...

 

Finalmente li a Canção de Embalar de Auschwitz de Mario Escobar e desde então que tenho uma ferida aberta no peito.

 

 

A Canção de Embalar de Auschwitz é um livro baseado em factos verídicos e conta a história de Helene Hannemann, enfermeira e ariana alemã que casa com Johann, um cigano violinista, e que com ele tem cinco filhos, dois dos quais gémeos. A história começa quando em 1943 as SS batem à porta desta família para levar Johann e os cinco filhos de Helene para o campo de concentração de Auschwitz II - Birkenau, considerado o pior campo de concentração do Holocausto. Helene como era ariana e alemã não foi intimada, mas seguiu para o campo de concentração voluntariamente para acompanhar a sua família.

 

Após a viagem horrível de comboio até Birkenau, Helene e os seus filhos são separados de Johann que vai para outro campo de trabalho. Sozinha com os seus cinco filhos, Helene é maltratada como qualquer outro elemento do campo, no entanto e após se voluntariar para ser enfermeira no Hospital de Birkenau, as suas condições melhoram um pouco mais, conseguindo ajudar também as mulheres e crianças que a rodeavam.

 

Tudo muda com a chegada do Doutor Mengele a Birkenau para dirigir o hospital do campo. A personalidade forte de Helene fez com que o Doutor Mengele a convidasse a gerir uma creche em Birkenau e isso fez com que as condições de vida dela e dos seus filhos mudasse consideravelmente e inclusive conseguisse um visto para ver o seu marido. Com a abertura da Creche, Helene conseguiu salvar muitas crianças da morte e conseguiu criar alguma esperança, uma vez que naquele espaço as crianças tinham acesso à alimentação e acesso à educação que de outra forma não lhes era possível. Helene via em Doutor Mengele alguma humanidade, ainda que lhe intrigasse as razões e o seu olhar estranho. Até que descobre os verdadeiros motivos da creche: O Doutor Mengele precisava de crianças fortes e saudáveis, essencialmente dos gémeos, para as suas horríveis experiências.

 

Não vos sei dizer se gostei ou não do livro. Como dizer que se gosta de um livro onde a barbárie impera? Como dizer que se gosta de um livro que nos faz sofrer e nos faz chorar e nos faz odiar os humanos? Não vos posso dizer que gostei do livro, mas posso dizer-vos que o devorei, que me amarfanhei toda e que o senti de uma ponta à outra como se fosse uma faca que se me cravasse no coração.

 

Não vos sei dizer porque leio estes livros, não vos sei dizer o que me atrai nestes livros, mas a verdade é que é uma temática que me suscita a ler mais, desde o primeiro livro que li sobre o Terceiro Reich: O Diário de Anne Frank. Desde então sempre me interessei por livros sobre a II Guerra Mundial, por documentários e pelos filmes que retratam a época. No entanto, não vos posso mentir, a cada livro que leio, a cada filme que vejo, a cada documentário que assisto, uma pequena parte de mim morre.

 

Helene via alguma humanidade em Mengele, eu, já conhecendo histórias deste sujeito, já imaginava o propósito da creche, mas ainda assim tenho consciência que de uma forma ou de outra aquelas crianças iriam morrer - aliás normalmente nos campos de judeus as crianças nem chegavam a viver no campo, eram logo encaminhadas para as câmaras de gás assim que chegavam - por isso tenho consciência que a existência daquela creche - ainda que com um propósito errado - permitiu a muitas crianças que ali cresceram, serem um pouco mais felizes. A creche tinha baloiços, tinham projetores de cinema com filmes infantis, papeis, canetas, ...

 

Confesso que é a primeira vez que leio sobre os campos de ciganos.

 

Sempre que se fala do Holocausto, fala-se quase sempre nos judeus, e os homossexuais e os ciganos acabam por viver um pouco na sombra dos judeus. No entanto estima-se que dos mais de 22 mil ciganos que entraram em Birkenau, apenas poucos mais de 3000 tenham sobrevivido. São números assustadores. Ainda assim, e confrontando o que já li sobre os campos de concentração de judeus e os dos ciganos, os ciganos eram - dentro do que era possível ser - mais bem tratados que os judeus, não me pareceram tão controlados quanto os judeus eram. Não me recordo de os judeus poderem "passear" pelo campo, e aqui os ciganos podiam efetivamente fazê-lo, podiam visitar outras barracas, e não eram submetidos a trabalhos forçados.

 

Algo que me choca bastante nestes relatos - e que já tinha constatado n'Os Sete Últimos Meses de Anne Frank - é a capacidade de pessoas conseguirem fazer mal a seus semelhantes. Acho que mais do que as SS e os Nazis exterminarem pessoas, choca-me a agressividade dos Kapos, que eram prisioneiros que em troca de alguns privilégios ficavam encarregues de vigiar e maltratar outros prisioneiros do campo. Assusta-me a capacidade cruel dos humanos.

 

Se forem como eu e se se interessarem por esta temática, leiam este livro, caso contrário, não o façam, porque se por um lado passa uma mensagem de esperança, por outro lado mostra algumas das atrocidades dos estudos do Doutor Mengele, mostra muitas das atrocidades que muitas mulheres e crianças foram sujeitas e é um livro que nos esgota a alma... É bastante descritivo e violento

 

A minha ficou esgotada...

 

Boas Leituras!

Livro: A Gorda de Isabela Figueiredo

Custou mas consegui terminar. Nunca um livro tão bom e tão pequeno me custou tanto a ler, não por falta de motivação, mas por falta de energia e um sono extremo que me tem atacado à noite. Neste fim-de-semana alargado foi uma boa altura para colocar as leituras em dia e finalmente terminei A Gorda de Isabela Figueiredo.

 

 

 

 

A Gorda, conta a história de Maria Luísa, branca, nascida em Lourenço Marques - atual Maputo - que na época dos retornados, vem com a sua família para Portugal onde recomeçam do zero, com tudo o que conseguem trazer de Moçambique. Maria Luísa é uma mulher de tudo ou nada, é uma mulher dedicada, estudiosa, empenhada e culta, só que gorda. E toda a sua vida é domada pelo seu peso. Na escola foi gozada por estar acima de peso, no início da vida adulta perde o homem que ama devido à vergonha que ele tem dela, por causa dos amigos gozarem com ele por ela ser gorda, e já em adulta Maria Luísa sofre o estigma do peso porque não quer acabar como o seu pai, também ele pesado que morre devido ao excesso de peso. Apesar de tudo, e de todo o sofrimento que viveu, Maria Luísa não é uma vítima. Maria Luísa é uma lutadora, uma mulher esforçada que não se dobra pela opinião pública, mas a obsessão que possui pelo homem que sempre amou vai ditar-lhe, de certa forma o futuro.

 

O que mais gostei neste livro, foi a forma diferente como é contado. Maria Luísa parte das divisões da casa em que vive para contar a sua história e o seu relacionamento com a casa, com a família e a amigos, e por isso a história não é contada do passado para o presente, mas sim com constantes vai-vens de passado-presente que se vão misturando capítulo após capítulo. É por isso mesmo um relato, não um livro de mistério. O livro fala-nos da vida, fala-nos de cultura, de sentimentos, de ambições e acima de tudo de desejos.

 

Gostei muito d'A Gorda, talvez porque me tenha identificado tanto com ela. Também eu já ouvi "não devias usar isso porque és gorda e não te fica bem" também eu ouço constantemente "Não comas tanto, deves ter mais cuidado." como se do meu peso dependesse toda a minha vida. Nunca fui gorda na infância - até bem pelo contrário - mas como a Maria Luísa desenvolvi os seios demasiado cedo e isso era motivo de vergonha e de comentários mais desagradáveis por parte das raparigas e mais assanhados por parte dos rapazes, isso deixava-me desconfortável. Também eu já fui deixada por um rapaz por causa dos amigos dele não me aceitaram, não pelo meu peso, mas pela minha idade, e ele, tal como com a Maria Luísa, só queria estar comigo se fosse às escondidas. Era bem capaz de passar por mim e fazer de conta que não me conhecia e no momento a seguir estava a ligar-me a pedir desculpa. Nunca compreendi. Nunca pactuei com estes julgamentos sociais, e tal como a Maria Luísa, na verdade nunca quis saber. Ainda hoje, apesar de estar longe de ser magra, a verdade é que não quero saber o que os outros pensam sobre isso. Uso saias curtas se me apetecer, uso vestidos, decotes, tudo o que tenho direito - e me sirva, está claro - dentro da decência e do bom gosto - ainda que seja sempre relativo.

 

A Gorda, podia ser qualquer um de nós, porque A Gorda conta muito mais que a história de uma mulher gorda. A Gorda podia ser A Estrábica, A Magra, A Míope, A Gorda podia ser qualquer um, porque este é um livro que não fala do excesso de peso, mas sim de rótulos, e de como os rótulos podem condicionar de uma maneira ou de outra a relação que cada um estabelece com as pessoas, e a forma como cada um se relaciona - melhor ou pior - com os rótulos que tem.

 

Foi um livro que gostei muito, quer pela forma crua como é escrito, quer pela empatia fácil que se cria com as personagens, quer pela escrita simples e coloquial. Maria Luísa fala connosco e transporta-nos para o seu mundo e por isso acho que é um livro que é muito fácil gostar.

 

Ao ler a história da autora, da Isabela Figueiredo, fiquei ainda com a ideia de que poderá ser uma espécie de autobiografia, devido às semelhanças entre Isabela e Maria Luísa. As duas nasceram em Lourenço Marques e as duas retornaram nos anos 70. As duas são professoras, têm um blog, e ambas sofreram com o excesso de peso e com o amor renegado. Por isso, de certa forma, ao ler a história de Maria Luísa senti que estava a ler a história verdadeira de Isabela Figueiredo o que me permitiu amar ainda mais este livro.

 

Digo-vos só mais uma coisa: Leiam!

Livro: As Desaparecidas de Megan Miranda

Comprei este livro por impulso. Nunca tinha ouvido falar dele nem da autora, mas algo nele me chamou a atenção, quer o título, quer a capa, e a sinopse então fez o restante. Mas que escolha tão acertada, já tinha saudades desta ânsia, desta vontade de conhecer mais e mais da história.

 

As Desaparecidas não sendo um livro difícil de ler, é um livro que exige alguma atenção por ser escrito de maneira totalmente diferente do habitual: É escrito de trás para a frente. Do presente para o passado. E por isso ao lermos, vamos conhecendo pormenores da trama que não compreendemos e que naquele momento até não nos faz sentido, mas que depois, com o conhecimento do que aconteceu no dia anterior, e no dia antes, e no dia antes do antes do antes, vamos percebendo cada peça do puzzle. Por isso é um livro que não deve ser lido com grandes pausas pelo meio sob pena de não compreenderem alguns pormenores.

 

Uma das coisas que mais amei neste livro é o facto de existir pouca palha irrelevante. É habitual muitos autores escreverem sobre coisas que não são relevantes para a história, mas aqui n'As Desaparecidas, tudo tem um sentido, não há páginas mortas, tudo suscita curiosidade e por isso é um livro que se lê num ápice.

 

 

As Desaparecidas é uma história contada na primeira pessoa, pela Nicolette, que abandonou Cooley Ridge aos 18 anos após a sua melhor amiga, Corinne, desaparecer sem deixar rasto, envolvendo todos os seus amigos e namorado no seu desaparecimento. Todos são suspeitos. Todos mentiram. Todos escondem um segredo. Todos se encobrem uns aos outros para se encobrirem a si próprios. Um único álibi: Annaleise, uma rapariga bastante mais nova que assiste a algumas situações do grupo. Dez anos se passaram e Corinne nunca foi descoberta. Todos os intervenientes prosseguiram com a sua vida, ainda que em sofrimento e terrivelmente marcados, porque há situações que nunca se ultrapassam. No entanto todas as dívidas com o passado têm de ser pagas. A falta de dinheiro obriga Nicolette a regressar a casa, a Cooley Ridge, para tentar vender a casa de família, só que voltar à sua terra Natal implica voltar a reviver tudo novamente, como se não se passasse nem um único dia desde que Corinne desapareceu. Entretanto, e 10 anos depois, por volta da mesma altura, um novo desaparecimento, desta vez de Annaleise que estranhamente e inexplicavelmente está ligada a Corinne e isso faz com que todos os segredos do grupo comecem a vir a cima, e começa a luta contra o tempo para esconderem novamente aquilo que tentaram esconder 10 anos antes. Para confundir ainda mais Nicolette, o seu pai, cada vez mais confuso e demente, diz ter visto a Corinne. Será que Corinne está viva? O que aconteceu há 10 anos atrás? E Annaleise? Estão os dois crimes relacionados? Leiam que não se vão arrepender.

 

O livro é marcante, é emocionante, é daqueles que se gruda a nós e não largamos até terminar. É daqueles livros que dentro do sofrimento, dentro das mentiras e dos segredos nos permite refletir sobre questões muito importantes, como a possibilidade de se amar e se odiar a mesma pessoa, na mesma proporção e como incrivelmente com o tempo tendemos a ver apenas as coisas boas daqueles que amamos e que irremediavelmente já não estão connosco. É um livro que também reflete acerca das pessoas tóxicas e do que os outros nos conseguem obrigar a fazer, sem obrigar efetivamente. É um livro que fala de ganância. É um livro que mostra como num crime, todos podem ser culpados por diferentes razões, porque podem efetivamente existir diversas razões e motivações, não há inocentes e como é difícil acreditar por vezes naqueles que amamos quando as evidências parecem ser claras, ainda que na realidade sejam turvas.

 

Gostei mesmo muito do livro, passa provavelmente diretamente para o meu Top10, e adorei ter um final totalmente diferente do que eu imaginava, e no fundo um final pouco habitual nos livros.

 

É um thriller mas não mete medo, leiam é realmente fantástico.

 

Boas Leituras!

Livro: Viver depois de ti de Jojo Moyes

E na semana passada terminei de ler o livro Viver Depois de Ti da Jojo Moyes. Eu vi o filme, e como o filme me soube tão a pouco, saí da sala de cinema com a certeza e com a necessidade de ler o livro, eu queria saber mais, eu queria mais, mais e mais. E apesar de não ler o livro com a magia de descobrir o final, a verdade é que infantilmente li-o com a esperança de que o livro tivesse um final diferente, um final feliz diferente. Mas não. Mas é tão mais que o filme, que vale muito a pena lê-lo.

 

 

Certamente quem não viu o filme e vê esta capa, que imagina que estas folhas contam uma história de amor, ao estilo Cinderela, mas deixem-me que vos elucide: Esta história está longe de ser uma história de amor, e ainda mais longe de um conto de fadas. 

 

Após um acidente, Will Traynor tem uma lesão na espinal medula que o atira para uma cadeira de rodas sem hipótese de recuperação. Uma vez que Will apenas tem mobilidade na cabeça e nalguns dedos de uma mão, a mãe, contrata Louisa Clark, conhecida por Lou que acaba de ficar desempregada, para fazer companhia ao filho e ajudá-lo nas necessidades básicas, como a alimentação. No início, Will é mordaz, é arrogante, e maltrata Louisa, no entanto com o tempo, e devido à persistência de Lou - que precisa muito do emprego - acaba por aceitá-la na sua vida e os dois desenvolvem uma boa amizade. Will acha que Lou está a desperdiçar a sua vida naquela aldeia e convence-a a apostar em si e no seu futuro, mas esta não o leva muito a sério. No entanto tudo muda quando Lou descobre os verdadeiros planos de Will e faz de tudo para que este mude de opinião, mostrando-lhe que há muita coisa que ele ainda pode fazer para se divertir, só que Lou acaba por se envolver demais. O que será que Will quer fazer? Será que Lou conseguirá fazer Will mudar de opinião? Não sabem? Então têm de ler.

 

O livro é muito mais, dá muito mais conta da situação que Lou vivia com os pais e com o namorado. O livro aprofunda muito mais o facto de ela nunca ter sido levada a sério, que vai muito além das roupas que vestia, ela apenas não era a filha favorita, a que valia o esforço. Isso revoltou-me muito enquanto lia. Quando vi o filme parece que vi apenas a situação do Will, acho que o filme só focou o Will, mas o livro foca muito mais a visão dela, o sofrimento dela, os problemas dela e por isso gostei muito de aprofundar esta história.

 

Este é um livro que fala sobre um tema muito triste, como já falei aqui, e polémico, essencialmente polémico: A Eutanásia. Até que ponto devem estas pessoas serem obrigadas a sobreviver agarradas eternamente a uma cadeira ou a uma cama, totalmente dependentes de outros, sem terem tão pouco a autonomia de comerem sozinhos. Will e a família eram ricos, tinham comodidades que muitas outras pessoas na mesma situação não possuem, nomeadamente a cadeira de transporte, o computador e afins. No fundo, obrigar alguém a viver agarrado a estas condições, ou falta delas, é, na minha opinião, um ato de egoísmo, porque creio que seja mais para os outros, os que cá ficam, não sofrerem, como se o sofrimento daquele que vive a situação, não valesse nada.

 

É um livro que fala da densidade das relações familiares, de como os casamentos se forçam apenas devido às circunstâncias e como isso pode influenciar a visão dos outros perante as situações, deixando as pessoas com sentimentos duais relativamente a um filho, a uma situação.

 

Este é um livro que leva às lágrimas os mais sensíveis, a mim levou-me às lágrimas e aos soluços apesar de conhecer a história...

 

Este é um livro para todos aqueles que têm esperança e amor, e para todos aqueles que gostam de ver o copo meio cheio, em vez do meio vazio, porque Lou vai sempre tentar mostrar o outro lado apesar do cenário ser negro. E no fundo, no fundo, até tem um final feliz... E se é verdade que Lousia mudou a vida de Will, também é inegável que Will mudou a vida dela, estamos por isso, perante um crescimento mútuo de dois jovens tão diferentes e que num outro contexto nunca se conheceriam.

 

Este é um livro para todos. Leiam, não se vão arrepender!

Livro: O Labirinto dos Espíritos de Carlos Ruiz Zafón

Toda esta febre começou em Maio do ano passado, quando através do Livro Secreto me chegou a casa A Sombra do Vento de um autor que nunca tinha lido mas do qual já tinha ouvido falar muito bem. Não me apaixonei logo nas primeiras páginas pela história, mas por volta da página 40 ou 50 a paixão deu-se e só consegui parar de ler 8 dias depois quando a última página foi alcançada. Não podia obviamente parar por aqui e assim que possível li O Jogo do Anjo e o Prisioneiro do Céu. Adorei todos, ainda que O Jogo do Anjo seja o que menos me faz sentido, de toda a saga, e provavelmente o que mais trabalho deu a Zafón ligar, n'O Labirinto dos Espíritos, já que foi, na minha opinião um imbróglio demasiado exagerado, ainda que a história seja bastante interessante.

 

Dizem que estes quatro livros podem ser lidos por qualquer ordem, porque como o próprio indica neste último livro: "Uma história não tem princípio nem fim, só portas de entrada." no entanto, ainda que possa conceber que A Sombra do Vento e O Jogo do Anjo possam trocar de ordem, não consigo conceber que se leia o terceiro e o quarto por outra ordem que não esta. Acho que os demais iriam perder o encanto e a surpresa.

 

Mas adiante, que não quero falar-vos da saga em si, mas do livro que encerra toda a saga.

 

Concluí finalmente O Labirinto dos Espíritos e posso vos dizer que ainda estou meia abananada com toda a história. Vou tentar falar do livro sem me alargar nem ser spoiler.

 

 

 

O Labirinto dos Espíritos é o livro que promete unir as histórias dos outros livros da saga, é por isso o livro que conta a história do início ao fim - sem contar efetivamente o fim - da família Sempere. É o livro que conta essencialmente a curta história da Isabella Sempere, mãe de Daniel Sempere, que conhecemos n'O Jogo do Anjo e cujo passado começamos a compreender n'O Prisioneiro do Céu. No entanto, e apesar de ser um livro de encerramento, é um livro com histórias únicas e novas aventuras, com introdução de novas personagens tão ou mais emocionantes que as já conhecidas, como é o caso de Alícia Gris, uma jovem e enigmática de humor peculiar com o objetivo de desvendar toda a trama. No fundo, é pelas mãos de Alícia que conhecemos o passado da família de Daniel, e é por ela que se faz justiça.

 

Este é o livro mais sangrento e macabro dos quatro. É um livro bastante visual e por várias vezes me deu náuseas devido às descrições das torturas a que alguns personagens foram sujeitos. É um livro que nos permite pensar até que ponto devemos levar uma vingança, até que ponto vale a pena e até onde pode ir a maldade humana. É só um livro! dirão alguns. Não é só um livro a partir do momento em que o cenário é o pós-guerra em Espanha, sob o regime político ditatorial de Franco. Aquela história pode não ter efetivamente acontecido, mas muitas outras histórias efetivamente aconteceram, e é isso que me choca, é isso que me comove, saber que tanta gente sofreu nas mãos dos supostos polícias do regime que nada mais eram que assassinos protegidos e promovidos pelo governo.

 

O livro é brutal, não no sentido do choque - ainda que também - mas pela forma como é construído. É um livro complexo, com múltiplas histórias a ocorrer ao mesmo tempo, com imensos personagens ao ponto de por vezes pensar "mas quem é este?", mas logo Zafón nos esclarecia. Zafón tem noção que é um livro denso e por isso se vai repetindo para nos refrescar a memória, se outra forma poderia ser complicado perceber quem era aquela gente toda.

 

Sem dúvida que foi um trabalho excecional de Zafón pegar nos outros três livros e ligá-los a este último  - por isso se seguiram a saga faz todo o sentido que o leiam. Há, no entanto, e aqui esclareço-vos já, que há pontas que não foram enlaçadas e que se perderam na história e que isso me desgostou um pouco, houveram coisas que não compreendi, e que só por isso gostava de um dia encontrar Zafón na rua e perguntar-lhe sobre essas pontas, o que aconteceu, o que significaram. Sou Mula teimosa, agarro-me a pormenores e dificilmente me esqueço.

 

Lembram-se da história das conchas na casa de banho, no filme O Demolidor com o Stallone e com a Sandra Bullock? Pois quem viu certamente recorda que existiam três conchas que o Stallone, vindo do passado, não sabia usar na casa de banho e toda a gente se ria dele. Fiquei irritada quando o filme terminou e nunca foi explicado o que eram e para que serviam as conchas e aqui não é diferente. Spoiler Alert: A grande pergunta que se impõe, uma das que mais fiz ao longo dos livros: Mas quem raio era o homem de branco, de mão dada com a Cristina? Mas esse homem alguma vez existiu? E à Cristina, o que é que lhe aconteceu realmente? E porquê tanta violência com o Valls? É verdade que ele era o vilão dos vilões, mas quem lhe fez o que fez... Fiquei sem compreender muito bem porquê. Então e... Alguém me explica por que é que quando o Fermin reencontra Alícia está zangado com ela? Não era suposto ter ficado feliz?

 

Apesar de todas as dúvidas com que fiquei, e ter vontade de fazer como a Hazel d'A Culpa é das Estrelas e ir a Espanha fazer umas perguntinhas a Zafón, a verdade é que foi sem dúvida um livro que valeu a pena carregar de um lado para o outro, que valeu a pena as quase tendinites e torcicolos na cama. É um livro carregado de mistérios, de entroncamentos sem fim, como diz a outra e rivaliza diretamente com A Sombra do Vento, ainda que este último ocupe um lugar mais especial no coração. Assim disse adeus a Daniel e pisquei o olho a Fermín, desejando-lhes toda a felicidade do mundo para lá das letras. São personagens que sem dúvida vão deixar saudades!

 

 

P.S. para quem já leu: Sou só eu a achar, ou esta família tem péssima imaginação para dar nomes aos filhos? E aquele capítulo final, hein? Menos 100 páginas e o livro estaria perfeito, não concordam?

Livro: O Prisioneiro do Céu de Carlos Ruiz Zafón

Depois de me ter apaixonado pel'A Sombra do Vento - um dos melhores livros alguma vez lido - e de ter devorado O Jogo do Anjo, chegou a vez d'O Prisioneiro do Céu, numa altura em que O Labirinto dos Espíritos já está na mesinha de centro a bater pé enquanto me pergunta, nada baixinho, se vou demorar muito até o devorar com todas as unhas e dentes que me for possível. Está quase, digo-lhe eu. Esta semana é a hora! Me aguarde, Labirinto, me aguarde!

 

 

Disseram-me para não ter grandes expectativas face a este livro. Então eu peguei nele de mansinho e desconfiada... Mas se n'A Sombra do Vento demorei umas 40 páginas até me emaranhar, e se n'O Jogo do Anjo só lá para meio do livro é que me captou verdadeiramente a atenção, este, curiosamente, considerado por muitos um dos piores livros da saga - não confirmo nem desminto - captou-me a atenção desde a primeira página. Talvez por saudades do Fermín e do Daniel, porque, realmente, o livro é bastante diferente dos dois primeiros. Mas, e apesar da história ligeira, pouco mórbida e surpreendente, gostei bastante, talvez por o ter lido numa altura em que sei que há mais páginas à minha espera, que é só um até amanhã. Confesso que se achasse que este era o último livro da saga me teria enervado um pouquinho com o fim, que me saberia muito a pouco, mas imagino que O Labirinto dos Espíritos, tenha as respostas para as perguntas que tenho acerca do Fermín, do Daniel, do Valls e do David Martim! Mas bem, para quem não leu ainda, vamos ao que interessa.

 

O Prisioneiro do Céu conta a história de como Fermín chegou até Daniel e de como a história de amizade entre estes dois foi pouco aleatória, apesar do que nos leva a crer no primeiro livro. Numa altura em que Fermín está prestes a casar-se com Bernarda, está na hora de enfrentar alguns demónios uma vez que a sua identidade não existe, e é necessária para os papéis do registo. Assim, Fermín decide contar toda a sua história a Daniel que o ouve com atenção e o decide ajudar a encontrar nova identidade. O Prisioneiro do Céu é um livro que une a saga, é um livro que une Fermín e Daniel - d'A Sombra do Vento - a Martim e Isabella - d'O Jogo do Anjo. Com pouco suspense, passamos a conhecer melhor Daniel, pela narração de Fermín. É um livro que do ponto de vista descritivo da realidade da época, nos revolta, uma vez que uma parte da história nos é contada na altura da Guerra Civil Espanhola, onde nos é relatado muitas das atrocidades que ocorriam nas catacumbas do governo, também chamadas de prisões, onde criminosos e inocentes - provavelmente mais inocentes que criminosos - permaneciam para cumprir penas que ninguém compreendia em condições abaixo de miseráveis.

 

O Prisioneiro do Céu é, do meu ponto de vista obviamente, um livro que atiça o ódio nos leitores apaixonados por Sempere e Filhos. Quando criamos empatia com um personagem, não queremos que nada lhes aconteça e neste livro vemos como a história de Daniel foi reescrita por quem não devia e é impossível não ficarmos revoltados com isso.

 

Aviso à navegação: O próximo parágrafo contém spoilers d'O Jogo do Anjo

 

Este livro vem desmentir algumas premissas d'O Jogo do Anjo. Quem leu sabe que o autor nos deu a entender do sobrenatural associado a Martim e a Corelli, quem leu sabe que Corelli representava a figura do diabo e que Martim jurava a pés juntos que ele existia. Pois que n'O Prisioneiro do Céu percebemos que afinal não é bem assim, e confesso que fiquei com vontade de reler todo O Jogo do Anjo para encontrar erros, e a verdade é que mesmo sem ler, fiquei com algumas dúvidas da suposta inexistência de Corelli tendo em conta a morte da Cristina, que de certa forma, atestava a sua existência. Aliás, não compreendo como Cristina nunca tenha sido referida n'O Prisioneiro do Céu, uma vez que o verdadeiro final dela, ficou meio em aberto no outro livro. Propositado? Falha? Encontrarei as respostas n'O Labirinto dos Espíritos? Vou aguardar para ver.

 

A verdade é que adorei este livro apesar de ser diferente dos seus "irmãos", não o achei uma perda de tempo, bem pelo contrário, e foi bom reencontrar o desbocado Fermín e o jovem Daniel. Fico-me só a perguntar, onde andará Caráx...  Às vezes, acho que me esqueço que eles não existem realmente...

 

Estou muito ansiosa pelo início d'O Labirinto dos Espíritos!

 

Boas leituras!

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos. Mais do que um blog, são pedaços de uma vida.