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Desabafos da Mula

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos.

Desabafos da Mula

O uso correto da máscara

#sóquenão

 

Não é por falta de informação que usamos mal a máscara, que na volta ainda nos desprotege mais do que protege, mas não é sobre isto o meu desabafo.

 

É fácil criticar os mais velhos porque as usam no queixo, porque passam a vida lá com as mãos, porque não tapam o nariz ou porque quase tapam os olhos, mas a verdade é que não é fácil de a usar. Por aquilo ser um objeto difícil? Não, não é algo com grande ciência, apesar de ter os seus quês, mas a verdade é que é algo que nos é estranho. E por isso dou tantas vezes por mim a fazer o que é incorreto: a tocar na máscara vezes sem conta para a endireitar ou para tentar respirar, dou comigo com a máscara no queixo enquanto espero cá fora para entrar, e dou comigo a desviar a máscara para tratar de comichões. TUDO O QUE NÃO SE PODE FAZER. Mas eu faço, e não é algo propriamente consciente. Claro que desinfeto as mãos sempre que posso e tudo mais mas não deixa de ser errado.

 

Por isso, se é difícil para mim que tenho apenas 32 anos de vida sem máscaras, imagino para os idosos que têm 70 ou 80 anos de vida sem máscaras.

 

Não me é natural e sinceramente também não sei se é coisa que me consiga habituar, porque se eu já não respiro a 100% sem máscara, imaginem com aquela coisa a tapar-me as narinas e a aquecer-me o ar. Era menina para agradecer isto no inverno... Sou menina para deixar de sair de casa no verão só para não ter de a usar que está visto que no meu caso usar máscara ainda me desprotege mais do que protege, que eu não mexo tantas vezes na cara quando estou sem máscara...

Pela metade? Por inteiro... Sempre!

Não sei viver pela metade, não sei sentir pela metade, e como tal... Não sei sofrer pela metade. Sou um todo, e como um todo, entrego-me por inteiro. Por isso custa-me, quando confio, quando acredito que alguém pode vir para ficar, custa-me que a pessoa se vá com a mesma facilidade com que se... Chegou! [E agora tinha aqui alta possibilidade de fazer um trocadilho badalhoco, mas é para verem como não estou no mood.]

 

Custa-me tanto dar-me a conhecer, custa-me tanto confiar e depois puff.  No fundo é só para me lembrar, uma espécie de reforço de memória, do motivo porque que não devo dar confiança... Toda uma carapaça que se perde para quê? Para nada... A vida adora dar-me razão. Às vezes não gosto de a ter. Sou mais feliz rodeada de pouca gente, mas que me sabe segurar, do que muita mas das que me largam, logo eu que tenho vertigens.

 

O que mais me revolta é que a vida deveria de nos tornar imunes, mas a cada queda tem-se tornado mais difícil de levantar.  Gostava de ser como o Mr. Seagel - e outros seus semelhantes - que após o knock-out surge em si uma espécie de red bull mágico que o faz encontrar forças negras e inexplicáveis que lhe permite rejuvenescer das cinzas, qual fénix do kungfu, e dar a golpada final que o torna herói. Eu cá a cada pancada fico mais parecida com a galinha que o meu cão quase depenou semana passada, do que com uma fénix brilhante e esbelta.

 

Finjo-me de forte. Sou aquela que olham e pensam que está sempre tudo bem... Por fora o Stalone depois da reviravolta, por dentro a galinha depenada que o meu cão tentou apanhar. Mas é para eu aprender. Tenho de aprender a ser metade...

Estações, caminhos e paralelos

 

Eu só queria voar, encontrar bom poiso e do ninho cuidar. No verão colher flores ao pôr-do-sol, girassóis, como eu gosto, para me fazer lembrar sempre onde está a luz. No inverno ouvir o som da chuva a bater nas vidraças, o vento e os trovões que me fazem sempre encolher como criança. Talvez também uma manta nas pernas e um bom livro enquanto a madeira crepitaria um pouco mais ao fundo.

 

No outono, queria apenas olhar pela janela e ver as folhas castanhas e secas caírem, para meu deleite, enquanto esperaria o chá arrefecer. E na primavera ver florir as árvores de fruto, colher alguns talvez para comer pela manhã, frescos, sumarentos. Condizentes com a minha alegria e gratidão por uma vida feliz.

 

Mas é chuva o ano todo, trovões e ventos fortes. Sou tantas vezes levada por uma corrente que não desejo, e caio tantas vezes um poço que não vejo. E quando me tento levantar e puxar-me por aquela corrente brilhante que ali se estende perante mim, cujos meus olhos brilham e o meu coração acelera... É uma corrente solta, sem apoio ou gancho no topo do poço. E lá estou eu de novo em águas lamacentas, sem girassóis, sem o chá quente, a manta nas pernas ou os frutos acabados de colher.

 

Não é possível que seja tão azarenta. Não. É mesmo burrice. Nunca fui boa a ler mapas, e mesmo os GPS's não me vieram ajudar a escolher caminhos estáveis e de bom piso para correr. Sempre o piso em paralelo com o musgo húmido e até talvez óleo derramado. Joelhos no chão. Sempre de joelhos esfolados e calças rasgadas. Sempre a cair nas mesmas armadilhas. Teria até pena se não fosse culpada. Teimosa que só eu para dar as mesmas marradas sempre na mesma parede, ou em paredes diferentes mas com o mesmo tipo de estuque.

 

Penso às vezes que poderia mudar de campo, ver outras flores, ouvir até outro idioma, ir com a minha mochila carregada de aprendizagens à descoberta e acima de tudo em busca do meu ninho, do meu poiso feliz. Mas depois lembro-me que recomecei jornadas vezes sem conta e nem por isso reescrevi um final diferente. Mudar o campo não é mudar-me e por isso os joelhos que não saram ficarão sempre esmurrados. Crostas por cima de crostas.

 

E eu só queria estações felizes, caminhos planos e quiçá alguns paralelos que também são importantes...

 

Em vez disso, a primavera é apenas a pior estação do ano que me põe doente, o verão é apenas a estação do ano que me altera as tensões e me deixa sem energia, o outono é apenas deprimente... E nem falemos no inverno, já que é nele que vivo sempre.

Coisas que acontecem por cá...#11

Ou por lá... vá!

O ano passado em Londres no triatlo organizado pela minha empresa aconteceu-me esta conversa surreal.

 

Um moço, pelos vistos Austríaco (se não estou em erro), vem ter comigo e queria falar... Pelos vistos tivemos um problema linguístico.

 

Moço: Hello! Do you speak english?
    Mula: Yes, a little bit!
    Moço: Oh... I don't... Basically don't!...

 

E isto podia ser uma anedota? Podia... Mas basicamente não foi!...

 

E não mentiu! Porque ele tentou continuar a falar, por gestos e tudo mais, e eu não entendi nadinha do que estava a dizer... Entendi de onde era, que acompanhava um amigo, que não trabalhava para a empresa e não entendi mais nada. Como bem educada que sou, limitei-me a sorrir, o moço percebeu que eu não o entendia e cada um foi à sua vida. 

 

Fim.

 

E por que é que me lembrei disto agora?

 

Pois não sei...

Sei que não tenho de que me queixar...

Mas estou pelos cabelos!

 

Sei que sou uma privilegiada. Que tenho casa com jardim, espaço exterior, uma mãe que me ajuda em tudo, um cão e dois gatos mimalhos. Não tenho filhos a berrar enquanto tento trabalhar... Sei que há milhões de pessoas em pior estado. O dinheiro que tenho não é muito, atualmente, porque duas em lay-off não é fácil, mas a verdade é que dá para os gastos e é o que verdadeiramente importa. Não passo fome, não vivo enclausurada num T0 sem varanda e tenho luz, água e até Netflix. Mas estou pelos cabelos com a quarentena que de quarentena tem muito pouco, porque uma quarentena são 40 dias, e eu já conto com 55 dias em casa.

 

Não me leiam em tom de reclamação, mas em tom de desabafo. Uma espécie de grito... Que não consigo gritar realmente... Estranhamente não consigo gritar em plenos pulmões. Nunca consegui. Resta-me a escrita!

 

Há dias um tanto desesperados, que a alma se amarfanha, o coração acelera e só me apetece pegar no carro e desaparecer. Ir para um lugar remoto, pequeno, que dê para ver gente, falar com gente, nadar, ir tomar café a algum pequeno café sossegado. Viajar de carro por horas e ouvir a minha música em decibéis não suportados pelas minhas novas colunas e sentir o vento que entra na janela despentear-me a cabeleira. Há algum lugar assim para onde eu possa ir e desaparecer?

 

O meu lado consciente diz-me que não tenho de que me queixar. O meu lado emocional berra que não aguenta mais.

 

Paro e penso, e nem assim, com o meu estado desesperado concordo com o fim da quarentena "obrigatória". Não é um capricho, não é uma medida do governo porque sim. É uma medida que nos protege - pelo menos a saúde, apesar de nos desproteger a carteira - que nos faz crer estarmos mais seguros, apesar de sinceramente não estarmos realmente seguros em lado nenhum porque precisamos de comer e a comida não aparece limpa e desinfetada nos armários por obra de magia. 

 

Mas um outro lado meu quer que acabe, um lado meu quer desesperadamente voltar ao normal... Mas tenho medo, porque sei que quando sair vou descobrir que o normal já não existe... E aí... aí é que a minha alma vai berrar, mas uma vez mais sem sair qualquer som... Sou bastante adaptativa, mas acho que o que vamos viver de ora em diante será sobrenatural... Será demasiado. Tenho medo de não ser capaz...

Blogs: Porque quantos mais melhor

 Tenho o prazer de vos apresentar mais um blog apadrinhado pela Mula.

 

Numa altura em que rir é o melhor remédio, 1001 Maneiras de Fazer Bacalhau com Natas (e outras Histórias!) promete arrancar algumas gargalhadas e por isso a Mula acredita que não poderia ter vindo em melhor altura. Se gargalhadas  não vos arrancar, leiam na mesma porque o segundo melhor remédio é ler, e tenho a certeza que vai pelo menos arrancar-vos um sorriso.

 

Este novo blog que acabou de se instalar na blogosfera do sapo promete não ser muito sério, promete ser incoerente e carregado de parvoíces, tal e qual como a Mula gosta, por isso não poderia deixar de criar uma imagem à sua medida. Espero que gostem.

 

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Boas leituras, e como diz o meu tão querido José da Xã: A gente lê-se por aí!

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos. Mais do que um blog, são pedaços de uma vida.