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Desabafos da Mula

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos.

Desabafos da Mula

Desafios de uma recém divorciada #1 As pessoas

 

É inegável, e só quem passa por esta situação é que compreende: As pessoas que conhecemos são o nosso maior desafio. Contar às pessoas a nossa nova situação. Até porque a cada pessoa que contamos é reviver tudo vezes e vezes sem conta. Passar por aqueles olhares de surpresa, de desgosto, de desilusão é simplesmente horrível. E depois de refeito o choque inicial, a inevitável questão a que ninguém resiste e à qual não tenho resposta:

 

Porquê?

 

Era tão mais fácil dizer simplesmente "fui encornada", "ele deixou-me", "ele, isto ou ele aquilo" mas não. "Ele" nada. Neste caso "Eu". E é complicado explicar aos outros que um dia acordamos e percebemos que estamos tão diferentes, que tudo aquilo que nos era até então suficiente deixou de ser. Quase ninguém entende isto. Foi sempre assim e servia, mas deixou de servir. Como explicar isto? Como explicar que foi algo que aconteceu quase repentino, sem aviso, sem qualquer tipo de sirene ou alerta?

 

Claro que ninguém acorda de um dia para o outro e tudo muda de repente, do nada, sem qualquer razão ou motivo. Claro que há motivos, claro que há culpados - os dois - porque não soubemos cuidar desta relação como a mesma merecia. A cada desavença é criada uma cicatriz, e quando não se cuidam dessas cicatrizes há uma altura em que tudo dói, tudo é dor e sofrimento. E quando chega a esse ponto olhamos à volta e só vemos defeitos, as coisas boas, os momentos bons, as boas memórias são ofuscadas por tudo o que aconteceu de mau, por tudo o que correu mal, por todas as discussões... Digamos que faltou uma boa pomada para curar as cicatrizes criadas e o corpo ficou de tal forma danificado que precisávamos de um corpo novo.

 

Mas claro que nem sempre isto é fácil de explicar, essencialmente quando as pessoas estão à espera de algo mais, de uma situação, de violência, de traição, de tudo e mais alguma coisa. Por isso sim, lidar com as pessoas foi sem dúvida o mais difícil. Foi inevitável ser olhada como se fosse um alien. E como tal dividi a tarefa com a minha mãe. [Obrigada mãe pela paciência.] Contei aos amigos, a minha mãe tratou da família. Mas o pior está por vir, com o jantar de Natal à porta, o bombardeamento de perguntas vai ser inevitável. Confesso que a minha vontade é barricar-me em casa e acordar talvez daqui a um ano ou dois, quando a poeira já tiver assentado.

 

Mas como vos dizia, a reação das pessoas é por vezes realmente complicada e se me surpreendi pela positiva com muita gente, surpreendi-me pela negativa com muitas outras pessoas. Cheguei inclusive a sentir uma certa ofensa pessoal por eu estar a passar por isso. Eu é que estou em sofrimento mas os outros é que se ofendem. Pessoas que quase me acusaram de ser mentirosa por não ter tornado público que as coisas estavam mal e de repente atirar com esta pedra, como se da vida delas se tratasse,  como se eu devesse alguma coisa a alguém, como se eu tivesse uma espécie de obrigação para com os outros por me ter casado, por ter algum dia falado bem da minha vida e do meu casamento. Passa a ser tudo mentira pelo facto de agora já não ser uma realidade. Mas claro que, e apesar de lidar muito mal, pela irritação claro, com este tipo de reações a verdade é que é arrepiante lidar com alguns olhares de desilusão... E com comentários do estilo "vocês pareciam tão felizes..." e fomos, se não provavelmente não teria durado tanto tempo; "foi um casamento tão bonito..." dizem... Foi, foi sim. E não me arrependo nem por um minuto de ter casado, porque as coisas têm um sentido e uma lógica... Só tenho pena de não ter conseguido perceber a tempo que o casamento precisava de cola, antes de ter caído ao chão e se desfeito em mil pedaços.

 

As pessoas no fundo têm uma extensão da minha reação... Não sabem como, nem porquê... Pois nem eu!

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Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos. Mais do que um blog, são pedaços de uma vida.