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Desabafos da Mula

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos.

Desabafos da Mula

Antes de vos contar tudo sobre a Viagem a Málaga...

...Um pequeno aparte sobre a minha vida.

Descobri o meu grande problema com os homens - ou comigo, vá -, mas não sei como o resolver. Solicita-se por isso préstimos gratuitos de psicoterapia**, a leitor psicólogo que me pretenda adotar como um caso pro bono para o currículo.

 

Vejam só como ficava bem no CV:

"Cura parcial da mente de uma Mula desregulada. Não foi possível cura total, porque já não tem solução possível".

 

 

Ah mas adiante, caros psicólogos da vossa Mula. Eis o problema:

Descobri que eu quero um homem na minha vida... Mas só me interesso por miúdos (e não estamos a falar de idades...,), e agora?

 

 

 

** Não me julguem, que a Mula está tesa como um birote, que isto das férias anima a alma, mas esvazia a carteira.

Aos poucos...

Aos poucos cada dia é mais fácil.

 

Cada dia que passa é menos uma lágrima derramada, menos desespero e agonia e aos poucos a normalidade instala-se. Não que queira cometer os mesmos erros mas tenho saído, tenho evitado estar em casa, aos fins de semana, para evitar cair na depressão da solidão. Aos fins de semana eu nunca estava em casa, estava sempre com ele e por isso os fins-de-semana são os dias mais dolorosos. Não estou a enfiar a cabeça na areia, não desta vez, não estou porque não há nada mais que eu possa fazer, e o que não tem solução, solucionado está. Por isso resta-me espairecer, distrair-me, curar-me. Sol e mar nunca fizeram mal a ninguém. A paz ajuda-me a colocar a cabeça no lugar, as conversas longas com os amigos ajudam-me a ter um dia menos cinzento, menos doloroso. Aos poucos junto os meus cacos.

 

Ainda há dias muito difíceis, dias em que me apetece largar tudo e recomeçar num outro qualquer lugar longe... Aliás recebi uma proposta para sair do país e não a coloquei totalmente de parte. Sei que não resolveria nada mas... Quem muda Deus ajuda, certo? Acho que preciso que Deus me ajude...

 

Saio essencialmente desta relação com a consciência que fiz tudo o que podia, tarde é certo, mas fiz tudo o que podia e até o que não devia - quando colocamos de lado o nosso amor próprio nunca é bom - para salvar um amor defunto. Chorei, implorei, desesperei. Não imploro mais. Nunca mais. Eu primeiro, tem de ser assim agora e sempre. Eu primeiro.

 

O moço quis decidir por mim. Diz que não é por ausência de sentimentos, mas que eu mereço que ele sentisse e fizesse mais. Que mereço alguém diferente, uma relação diferente. Tretas. Muitas tretas, e eu odeio que decidam por mim.

 

E aos poucos ganho a consciência de, porra, eu até sou uma mulher bonita, interessante e comunicativa. Alguém me irá aparecer e cativar. Não nas aplicações, que já as desinstalei... Não são definitivamente para mim e toda a gente acabou bloqueada. Mas alguém aparecerá para me arrebatar, não para me preencher, que não tenciono cometer o mesmo erro de me esvaziar por alguém, mas para me arrebatar e caminhar ao meu lado. Alguém que não queira decidir por mim.

 

Aos poucos...

 

Aos poucos reestruturo-me!

Amnésia seletiva

Às vezes acho que sofro de amnésia seletiva. Tenho tendência para apagar da memória tudo o que é mau e guardar num local quentinho do coração o que é muito bom. Os intermédios vão-se perdendo.

 

Eu que nunca me dei bem com o meu pai, tenho tendência desde a sua morte, a esquecer tudo aquilo que nos afastava e a reter o pouco que existia de bom entre nós. Às vezes dou por mim a pensar que fui demasiado cruel - quando não fui - por me esquecer do mau, de tudo o que me fez passar e sentir.

 

Não que seja mau relevar o que não interessa, mas às vezes também me tolda a visão e faz-me viver no passado, agarrada às memórias, que às vezes conseguem ser bem dolorosas.

 

Ao reler a publicação sobre o fim da minha relação - obrigada Sapinho, desde já, pelo destaque - fiquei com a sensação de que transmiti que correu mais mal que bem e isso não é verdade. Houve uma altura em que estivemos muito bem, pela minha optica pelo menos, não sei se perguntando ao moço ele concorda, mas acho que sim, e dou por mim a relembrar os tempos em que ele aparecia por 5 minutos num dia em que não havia tempo para mais... Ou quando vinha com o carro dele seguindo o meu até eu chegar a casa segura. Lembro-me bem de cada bilhetinho que me deixava de manhã a desejar-me um bom dia e de quando me levava sempre atrás, mesmo quando saía com os amigos. Claramente ele gostava da minha presença e fazia questão de passar o seu tempo livre a meu lado. Com o tempo isso perdeu-se. Essencialmente porque eu tanto reclamava que precisava do meu espaço e do meu tempo. Tanto reclamei que ele mo deu, mesmo quando eu já não o queria. Fomos nos afastando... Aos poucos. Quando dei por isso... Já não havia muito mais a fazer. Tentei lutar, tentei-lhe demonstrar que estava seguro do meu lado. Que estava bem, que me fazia feliz... Mas acho que nunca acreditou realmente e relembrava-me constantemente tudo o que de mau lhe tinha feito, e dito, apesar de querer que essas palavras e atitudes ficassem lá atrás... No passado. Mas ele foi sempre trazendo para o presente. Isso nunca é bom sinal.

 

Colocando tudo em perspectiva sei que abdiquei de muito para podermos seguir juntos e acho que isso ele nunca valorizou realmente... Talvez como eu, lá atrás, no passado, não tenha valorizado inteiramente tudo o que de bem ele me fazia.

 

Dizem que quando uma relação não resulta é sempre culpa das duas partes e disso não tenho dúvidas: remamos os dois para que este barco não andasse, primeiro eu, depois ele, e quando se rema sozinho o barco não sai do lugar e só anda às voltas sem terra à vista.

 

Quando penso na vida - agora tenho bastante tempo para isso - consigo apontar as falhas de cada remada, mas nas memórias do dia-a-dia, naquelas inconscientes e incontroláveis, só me lembro do bem, do amor que tanto tentámos construir apesar de falharmos. 

Sobre o karma

É inegável que ele existe... Mesmo que o neguemos.

 

Como já perceberam eu e o moço terminamos.

 

2 anos, 2 meses e 13 dias. 

 

2 anos, 2 meses e 13 dias deitados ao lixo. Pensei que finalmente tinha encontrado o meu companheiro para a vida. Ainda não. Perdi tempo? Não digo que perdi porque vivemos momentos fantásticos que me fizeram perceber o que quero de uma relação, mas a verdade é que também vivemos momentos muito maus, mesmo muito maus que também me fizeram ver o que NÃO quero de uma relação. Muitos deles por minha própria culpa - sim, polícias da ortografia, eu sei que estou a usar um pleonasmo! - e uma vez mais o karma não perdoou.

 

O primeiro ano, que deveria de ser o melhor, não foi bom. Tenho noção de que foi demasiado precipitado e que eu não estava preparada para ter uma relação. Gostava dele, mas não tanto quanto ele gostava de mim e os meus traumas, os meus demónios não me deixaram ser plena, não me deixaram entregar, e quem tanto anda de pé atrás acaba a tropeçar. Tropecei e caí. Terminei tudo em Fevereiro de 2020 quando ele queria ir viver comigo. Sim, eu fui essa cabra. Entretanto com uma pandemia a correr lá fora, isolada do mundo, de tudo e de todos entrei obrigatoriamente em introspeção, coisa que deveria de ter feito voluntariamente a seguir ao divórcio mas que acabei por fugir. Enfiar a cabeça na areia nunca é solução, mas foi a solução que na altura me pareceu mais confortável e conveniente. Fui camuflando a dor e as mazelas com um novo amor e acabei por arrastar o moço para as minhas merdas e a verdade é que quando assim é, tem tudo para correr mal. Correu bastante mal. Acabei por magoar quem mais gostava e quem tanto me poderia - e queria - fazer feliz. Da meditação forçada pelo covid, acabei a perceber - tarde... - o que queria realmente para a minha vida e que gostava mais do moço do que realmente achava. Corri atrás. Em Junho de 2020 voltamos a namorar, mas nada mais foi igual.

 

Ele que me dava a lua se eu pedisse, não dava nem um carinho inesperado. Compreendi. Aceitei. Rezei para que se voltasse a entregar, para que voltasse a ser o moço que eu conhecia e pelo qual me tinha apaixonado. Os meses foram passando, e se houve alturas em que achei que as coisas estavam a melhorar, a verdade é que noutras, tinha clara noção de que estavam a piorar para um caminho sem volta. Terminamos e recomeçamos vezes sem conta, mas em Junho deste ano tornou-se definitivo.

 

Se uma parte de mim estava sempre à espera - em agonia - que esse dia chegasse, uma outra parte de mim foi apanhada totalmente desprevenida. Queria tanto que desse certo, sentia-me a correr contra o relógio, mas pelos vistos há um ano atrás já tinha sido tarde demais, e o relógio já estava avariado há muito tempo... Eu é que me recusava a achar que não.

 

Desencontramo-nos. Acabei por engolir a dor que lhe causei e mais alguma que fomos acrescentando. O karma, ai o karma... Deveria de ter sido mais compreensivo o karma...

 

E é assim a vida...

 

O que tem de ser... é. O que não tem de ser, não é. 

 

Pelos vistos não tinha de ser...

Sobre emoções e sentimentos

 

Semana passada tive uma formação de motivação pessoal e profissional. Falou-se de emoções, de sentimentos, de motivações e frustrações. No final da formação foi-nos pedido que ligássemos a alguém que fosse importante para nós e que disséssemos a essa pessoa o quanto era importante e o quanto a amávamos. Muita gente se recusou. Outros tantos receberam o "agradecimento" de o que é que precisas? Aconteceu alguma coisa? Já bebeste a esta hora da manhã?

 

Fiquei a pensar nisto ao longo do dia - acho que a formação cumpriu o seu propósito.

 

É incrível como nos consegue ser tão difícil dizer a alguém o quanto gostamos e o quanto nos é importante quando nos deveria de ser tão fácil. E é ainda mais incrível a nossa falta de à-vontade para ouvirmos e para recebermos essas emoções esse carinho em forma de som. Diz muito sobre a nossa cultura.

 

Sentir-nos-emos tão desconfortáveis porquê? Ficamos vulneráveis? Sentimo-nos ridículos? Se não dizemos que gostamos das nossas pessoas, em vida, vamos dizer quando? Qual a importância que isso representa na nossa vida? Que seríamos de nós sem pessoas que gostassem de nós...? Gostar de alguém, seja mãe, pai, amigos, companheiros é algo natural, certo? Ou deveria de ser...

 

Fiquei a pensar no meu caso. Não sou pessoa de me exprimir demasiado e não me é tão fácil assim dizer que gosto de alguém - a menos que seja por escrito -, no entanto tento, no meu dia-a-dia através de outras ações demonstrar que gosto e de que são importantes para mim, mas fiquei a pensar se isso passará, se é suficiente, se fica percetível do quanto as pessoas de quem gosto são importantes para mim...

 

E vocês? Exprimem-se com facilidade ou partilham das mesmas dificuldades?

Quem conta um conto #20 Aquelas paredes

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Entrou pela casa que não era sua, na calada da noite. Tremia de ansiedade, o estômago revolto lembrava-lhe que a última vez que ali tinha estado sentira que seria a última. E ali estava ela, como que dando um passo atrás na esperança de ainda conseguir recuperar o que naquelas quatro paredes se perdera, algures, sem que tenha percebido como ou porquê. 

 

Como não percebera?

 

Ainda sentia o seu cheiro no ar, e as memórias da última noite ali naquele espaço ainda estavam muito presentes. Mas as suas coisas já não estavam como as deixara. As suas coisas que outrora enchiam prateleiras e davam o toque feminino àquelas paredes estavam agora em sacos, devidamente arrumados num canto da casa, como se nada daqueles objetos tivessem feito realmente parte daquelas paredes, um dia. Achou, um dia, que aquelas paredes também eram um pouco suas, mas percebeu que nunca foram realmente. Queria encher novamente a casa de cor, de paixão, de amor, mas apenas ouvia silêncio. Queria sentir o calor que outrora sentiu, mas o frio ar, gelou-lhe os pensamentos, as sensações, os ossos. Aquela terrível sensação de perda... Queria chorar. Queria chorar mas sabia que não deveria, para não estragar a forma como se queria mostrar. Queria esperar firme e forte, apesar de estar mais assustada que uma criança pequena na casa fantasma. Engoliu cada lágrima, sentiu cada uma como uma facada bem firme na alma, no coração. Achou que aquele amor um dia prometido lhe pertencera um dia, hoje já não tinha essa certeza.

 

No silêncio das paredes, conseguiu ouvi-los lá longe, muito baixinho. As brincadeiras toscas, os risos de meninos, as apalpadelas surpresas, os beijos inesperados, os abraços sofridos. Aquelas paredes tinham testemunhado tudo. Promessas, surpresas e brincadeiras, mas também sofrimento, mentiras e lágrimas. Olhou mais uma vez e conseguiu até mesmo vê-los a correr pela casa. Quem os via sempre dizia: Não se comportam com a idade que têm.

 

Mas hoje já não corriam, deambulavam afastados. Quem os visse não diriam que eram os mesmos meninos de outrora. Cúmplices. Matreiros. Quem os visse hoje já não veria como antigamente brilhavam os seus olhos.

 

O brilho perdido... 

 

Entrou pela casa que não era sua, na calada da noite sem saber o que esperava encontrar. Sabia que já nada poderia encontrar, apenas vazio. Mas reconheceu, assim que ouviu a chave a rodar a porta, com ele do outro lado, a entrar naquela que era a sua casa, a força que pretendia e precisava para quem sabe a chama daquelas paredes voltar a encontrar.

Do amor...

Hoje é um dia especial, casa-se uma pessoa muito importante para mim: a minha prima, que mais que uma prima é uma irmã para mim, apesar de viver longe, tão longe aqui da Mula. Por isso hoje não é só a noiva que está nervosa, a madrinha também, porque a madrinha - ou seja, eu - vai discursar sobre o amor....

 

E que sabe esta madrinha sobre o amor?... Ó tão pouco... Tão pouco...

 

 

Provavelmente quando vocês lerem este texto, eles já estarão casados e eu já estarei tranquila e parcialmente derretida devido às temperaturas elevadíssimas deste local nesta altura do ano, o que no fundo é bom, para ir destilando o álcool que vou bebendo, mas nada de somersby ou capirinhas, prometo, prefiro Gin cujas calorias desconheço e prefiro continuar a desconhecer porque olhos que não vêm, ancas que não sentem, não é verdade? E não serão também as ancas as responsáveis pelos amores dos outros? Vá, não entrarei por aí...

 

Ontem dizia-vos que o amor está acima de todas as coisas, brincando com as coisas a que o amor está acima, mas hoje digo-vos mesmo: que o amor está mesmo acima de todas as coisas, porque este dois que se casam hoje são o que eu chamo de um casal improvável e estão neste momento em total união de felicidade em que o filhote de ambos pode assistir.

 

Farei um discurso ensaiado mas sentido neste casório e pretendo falar ao coração das pessoas, porque a verdade é que casar é fácil, difícil é manter um casamento. Difícil é aguentar todas as provações e discussões que se interpõe tantas vezes entre o casal. Difícil é não querer desistir quando as dificuldades são mais que muitas. Não sou ninguém nesta vida para querer dar alguma espécie de lição ou conselho, mas fala-vos alguém que já passou por muito e que está junta há mais de 14 anos, por isso acho que posso dar algumas.... Dicas, digamos.

 

Às vezes perguntam-me se acredito no amor eterno, nos contos de fadas e eu não sei responder, porque acreditar num casamento para a vida - e esses conheço alguns - não significa que exista amor a vida toda. Mas gosto de acreditar que sim, que é possível amar a mesma pessoa a vida inteira sem cansar, sem aborrecer, sem desvanecer, mas também sou da opinião que se esse amor falhar não devem ser as convenções sociais a manter um casal junto, por isso o melhor voto que eu posso dar a alguém que se case é:

 

Que seja eterno enquanto durar, como dizia Vinicius de Moraes, e se tivermos a sorte que dure a vida inteira, felicidade a nossa!

 

Por isso sim, o amor deve mesmo estar acima de todas as coisas, de todas as convenções, de todas as ideias pré-construídas. E hoje eu brindo a eles, e brindo convosco ao amor!

 

Viva o amor!

E eu o Mulo somos diferentes...

... com pontos de vista muito diferentes sobre a vida, sobre o mundo.

 

Ele gosta de cidade, eu prefiro o mar.

 

Eu adoro romances, ele prefere os técnicos.

 

Ele coloca a competência acima da simpatia, eu considero que falta de simpatia - de um sorriso -  é por si só falta de competência.

 

Eu adoro o barulho, ele prefere o silêncio.

 

Ele não acredita que as pessoas podem mudar, eu acredito que qualquer abalo pode transformar uma pessoa.

 

Eu sou do lado dos funcionários, ele é do lado dos patrões - ainda que seja igualmente funcionário.

 

Eu prefiro massa e ele arroz.

 

Ele anda sempre atrasado, eu odeio esperar.

 

Eu sou curiosa, ele raramente faz perguntas.

 

Ele é dos números, e eu sou das letras.

 

Eu sou das que fala muito, e ele é do grupo dos calados.

 

São muitas as coisas que nos separam, o próprio estilo musical é diferente, a forma de ouvir as pessoas é diferente, a forma de amar é também diferente. No entanto, "muito mais é o que nos une, que aquilo que nos separa" e felizmente Rui Veloso é um ponto em comum.

 

E faz hoje 13 anos que nos juntamos, num pedido de namoro que nunca existiu, resultado de uma declaração tosca e de um abraço e um beijo que até agora não esqueço.

 

Treze anos assim, que só poderia resultar em casamento!... E amanhã é dia de celebrar este amor!

 

Até já que vou só ali casar e já volto!

Sobre a morte... Sobre o amor...

Sempre pensei que tinha medo de morrer. Não na adolescência, que aí desejei morrer algumas vezes e essa ideia não me assustava, de todo. Mas vivi uma grande parte da minha vida com medo de morrer. Não pelo medo de sofrer, mas pelo medo de simplesmente deixar de existir.

 

Lembro-me bem, quando aos 6 anos de idade, engoli pela primeira vez uma pastilha elástica, e que por isso, estava convicta que tinha apenas umas horas de vida. Não chorei, não contei à minha mãe nem ao meu pai. Estava no entanto apavorada. Sentia, apesar de tenra idade, que iria perder tanta coisa, coisas de adultos, que ainda não sabia o que eram, mas cuja curiosidade me assaltava constantemente. Lembro-me de dizer à minha mãe, muito triste, que não queria brincar mais e que queria ir dormir. "Mas tu já não dormes a sesta..." disse-me ela. Pois não... mas naquele momento eu queria ir dormir para aquele tormento passar rápido. Lembro-me de tentar dormir e de não conseguir, de pensar que esta coisa da pastilha elástica se colar à garganta e nos sufocar que era demorado para caramba, e eu estava quase era a morrer de desespero por nada acontecer... Depois, lembro-me que me esqueci que ia morrer, quando o meu pai chegou nesse dia a casa com um brick game. É bom ser criança, os problemas valem o que valem...!

 

Depois passei a ter medo de velocidades e de tudo o que era radical... Fico sempre com a sensação que algo vai correr mal e me vou espatifar toda... Descubro assim, quase aos 28 anos, que não tenho afinal medo de morrer. Tenho sim, medo de sofrer, e medo que as pessoas e animais que me rodeiam morram, porque isso me faz sofrer. Descubro por isso que o meu medo da velocidade, dos desportos malucos, não vem do medo de morrer, mas do medo de me espatifar toda mas ainda assim sobreviver, e ficar entravada para todo o sempre. Ou então estar acompanhada por quem amo e a outra pessoa não sobreviver. "Sofre quem cá fica" foi sempre o que ouvi dizer.

 

Paulo Coelho diz num dos seus livros, não importa agora para o caso qual, que queremos viver para sempre para convivermos mais um dia com a pessoa que amamos, e eu concordo totalmente. Quando mais pessoas não nos restarem, então só nos resta aguardar que esse bicho de negro e de capuz nos leve... e imagino, que a ideia de morte nos deixe de apavorar.

 

Seria por isso mais fácil viver sem amor? Sem essa glândula, sem sentimentos? Não diria que seria mais fácil, diria que se isso não implicasse a perda de respeito pelo outro, que a vida seria menos penosa. As pessoas, os animais, as plantas... morriam, enterravam-se e ponto final. Sem dor, sem lágrimas, sem pesares. Se o amor fosse uma glândula, cada pessoa poderia escolher como queria viver: com o coração, ou com a cabeça. Eu escolheria a cabeça! Sempre vivi com o coração e isso não me tem trazido grandes alegrias. Vejo, no entanto cabras e cabrões sem sentimentos nem coração a pavonearem-se emproados.  Escondem o que sentem? Pois é possível, mas no fundo convivo com a ideia que não, que são mesmo assim.

 

Perder-se-ia o encanto de viver? Perder-se-ia pois, mas se calhar existiriam outras coisas, outros encantos. Não haveria casamentos - não que isso implique o amor... - mas também não existiriam divórcios - porque o que não existe nunca acaba. As relações de amizade basear-se-iam na confiança, na lealdade e no respeito, basear-se-iam na moral, não no amor.

 

Acho que assim seria mais fácil viver... e morrer!

Quem conta um conto... #10 Pequeno conto de amor...

Felizes.pt pediu à Mula para falar sobre o Dia dos Namorados na Viuvez... pois a Mula sabe muito pouco sobre isso, e então decidiu escrever um conto que poderá ilustrar dicas e até mesmo uma opinião, sem ser em forma de opinião... Espero que gostem.

 

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José acordou atordoado, e até meio agoniado sem saber porquê. Levantou-se, vestiu-se e foi ao café de sempre, tomar o pequeno-almoço de sempre, na mesma mesa e lugar de sempre. Fora sempre assim desde que Ana o deixara naquela tarde de Verão. Desde então o olhar de José ficara vazio e distante, companheiro do seu sorriso menos caloroso, menos feliz.

 

**

 

Não existia um único dia que José não recordasse Ana. As recordações preenchiam-lhe o coração, faziam-no sorrir, ainda que com alguma amargura. Sentia saudades. Saudades dela, do que outrora foram, dos momentos que passaram juntos. Recordava essencialmente as últimas férias que tinham passado. Lembrava-se do desejo que Ana tinha de ir aos Açores e do quão feliz ela ficou quando ele a surpreendeu com as viagens de avião, a boca de Ana era pequena demais para conseguir sorrir o suficiente que o seu coração sentia. Foram verdadeiramente felizes nos Açores, nessas últimas férias que passaram juntos. Depois Ana deixou-o... Sem aviso prévio, sem que nada o fizesse prever e José nunca mais fora o mesmo.

 

José recorda bem esse dia e essas recordações fazem-no chorar... queria ao menos ter-se despedido, queria ao menos ter sido preparado, mas Ana preferiu não o fazer. Sempre respeitou a sua decisão, ainda que nunca a tivesse compreendido realmente. José recorda bem esse fatídico dia, que chegou a casa e Ana não estava lá, sentada no sofá como sempre à sua espera. Lembra-se bem do toque do telefone às 18h daquele dia. Lembra-se bem do seu coração ter parado, sentindo que algo não estava bem, estranhando a ausência da sua amada.

 

José foi ao hospital, mas já era tarde demais. Ana já tinha partido, o cancro que ocultara de todos, de si, dos seus filhos, tinha-a levado e José sentiu-se tão estúpido, tão perdido. José odiou até um bocadinho Ana naquele dia, porque não compreendia o seu egoísmo, não compreendia como tinha sido ela capaz de lhe ter ocultado a sua doença. "Ana sofria de cancro do pâncreas, e lutava contra ele já há 6 meses..." explicou a José, a médica que desde essa altura a acompanhava. Recorda bem as palavras da médica a explicar-lhe que Ana nunca quis contar à família porque não queria que a olhassem de modo diferente. Não queria que a olhassem com medo, com pena, e recusara a quimioterapia, para não se denunciar. "No entanto fizemos tudo o que estava ao nosso alcance Sr. José".

 

Ana nunca deixara de sorrir, nunca houve um só momento de desconfiança. José nunca lhe vira uma única lágrima, nunca a vira abatida, nunca a vira em sofrimento. Lentamente deixou de a odiar, e o ódio deu lugar a um orgulho desmesurável: Ana tinha sofrido 6 meses sozinha, em silêncio e nunca existiu um único dia que não tivesse cuidado de José. Quando José se viu sozinho, de um dia para o outro, percebeu que teria de continuar a história de modo mais solitário. Os filhos ainda lhe propuseram que se mudasse para uma das casas deles, mas José não quis. Saberia que Ana desaprovaria que ele desistisse da sua independência e passasse a viver sob outro tecto que não fosse o seu. E José também não queria deixar a casa que outrora fora cheia de gargalhadas ruidosas de Ana, e carregada do seu perfume com travo a alfazema. Com o tempo fora criando novas rotinas e encontrara novas formas de ocupar o tempo. As refeições foram uma das rotinas que se alteraram. Era-lhe menos penoso sentar-se à mesa de um café ou restaurante, em vez de se sentar à mesa que outrora Ana também se tinha sentado, com os seus deliciosos cozinhados. Mas aos poucos, José foi compreendendo que a ideia não era esquecer Ana, mas aprender a viver com a ausência física desta, mas com a sua presença constante em pensamento. Já cozinhava, já se sentava à mesa para jantar, para almoçar... Só o pequeno-almoço ainda era tomado fora de casa, porque era a altura do dia que mais lhe custava. Era de manhã, quando acordava, que se lembrava que Ana já não o acompanhava, essencialmente quando essas manhas eram precedidas de sonhos fantásticos a dois.

 

**

 

"O mesmo de sempre, Sr. José?" pergunta a menina do café. "O mesmo de sempre, menina!" Só que desta vez, sorriu mais que o habitual. Ver o café redecorado de vermelho e corações pendurados fê-lo sorrir.

 

- Que dia é hoje, menina? - pergunta desconfiado.

- Hoje é dia 14 de Fevereiro, Sr. José... - Diz, a menina com algum receio de o entristecer.

- Hoje é portanto, o que vocês jovens chamam de o Dia dos Namorados... não é? - reforça.

- É sim... para quem tem namorado. Para quem não tem é só mais um dia Sr. José. - Diz-lhe piscando-lhe o olho.

 

José recorda que Ana sempre o atormentava com o dia dos namorados, que ele nunca recordava. Sempre fora péssimo com datas, e achava que a mimava diariamente sem qualquer necessidade de a mimar em algum dia especial. No entanto, Ana, desde a juventude muito romântica, sempre reclamara que queria algo especial neste dia e José nada mais que fazia, se não levar Ana a jantar fora, por insistência desta. 

 

Decidiu que este ano iria ser diferente, decidiu este ano festejar o dia dos namorados com a sua iniciativa, como forma de homenagear a mulher que tanto amava. Fez um jantar especial. José aprendera a cozinhar à pouco tempo com as suas noras e filhos e já lhe elogiavam os cozinhados. Convidou assim, os seus filhos, a jantar em sua casa, estes ajudaram-no a encher a casa de corações, para deleite dos netos, e jantaram animadamente à luz das velas, com uma bela música clássica em fundo. Viram depois um dos filmes preferidos do casal. José percebeu assim que "namorada" é só um título para alguém que se ama, que este dia, não é nada mais que uma ode ao amor, e como a sua eterna namorada não o poderia acompanhar fisicamente, passou a noite com quem verdadeiramente amava: a sua família. Os filhos, para o surpreenderem, trocaram presentes. Um presente especial fizeram cair as lágrimas de José. José iria voltar aos Açores e reviver os locais onde outrora fora feliz. José, que agora sentira capaz de viver sozinho, aceitando a ausência da sua amada.

 

Partiu assim no dia seguinte para os Açores, sem viagem de volta. Arranjou uma casa pequena, onde decidiu recomeçar a sua nova vida, onde se sentia mais perto das suas recordações. Ali, José foi feliz!

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos. Mais do que um blog, são pedaços de uma vida.