Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Desabafos da Mula

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos.

Desabafos da Mula

Mimalhices e gatices

O meu Simba nunca foi um gato muito mimalho. Nunca gostou de colo, não gostava de mimos em excesso e sempre fugia quando chegávamos a casa. Pegar-lhe era simplesmente impossível. Todos os dias era necessário um período de adaptação à nossa presença em casa porque mal chegávamos ele fugia de nós. Nunca entendemos o motivo, veio muito pequenino cá para casa, cabia na nossa mão, e não era vadio. Não acreditamos que tenha sido maltratado ou algo do género. É só a personalidade dele. Cada gato com a sua, não é verdade?

 

Já a Kika sempre foi mais dada, adora pessoas, apesar de também não ser fã de excesso de mimo, sempre tomou a iniciativa de o pedir quando assim o entendia. A Kika continua igual. Ele não.

 

O comportamento do meu pimpolho mudou com a pandemia.

 

Passamos mais tempo em casa, passamos temporadas inteiras sem sair de casa. Apegou-se bastante, parece-me. Agora é vê-lo sempre atrás de nós, a pedir mimo e até vem para o nosso colo, quando ele quer e assim o decide, ele manda, mas já é mais fácil pegar-lhe, mesmo quando ele não quer. Corto-lhe finamente as unhas com alguma facilidade e está um gato muito meloso, atualmente.

 

Isto deixa-me a pensar no que acontecerá quando voltarmos a trabalhar fora de casa, quando a casa voltar a estar vazia novamente durante o dia, durante horas. Nós facilmente nos adaptaremos à nova rotina, e eles? O que pensarão quando voltarmos e nos afastarmos? Sentir-se-ão abandonados? 

 

Há muitas coisas que eles não compreendem... Mas sentem mais do que imaginamos.

 

E os vossos animais? Como acham que reagirão os vossos animais?

Os animais têm pesadelos?

Sempre percebi que os animais também sonham. Sempre convivi com cães - e mais recentemente com gatos - e sempre me apercebi de sonos por vezes agitados que me levaram sempre a acreditar que os animais, tal como nós, também sonham.

 

O meu Mimo sonhava, sonhava muito. Era normal vê-lo a mexer as patas enquanto dormia, como se estivesse a dar grandes corridas e era comum vê-lo também a mexer a boca como se tivesse, durante a sua aventura, caçado algo suculento. O meu mimo dormia profundamente. Quando o via agitado nos sonhos, era habitual colocar-lhe uma mão sobre a barriga para o tranquilizar e ele rapidamente acalmava os movimentos. Era um momento muito nosso.

 

Mas adiante.

 

Ontem à noite enquanto lia junto à lareira, como tem sido habitual durante o meu atual isolamento profilático, o Simba dormia profundamente no sofá. Sei quando dorme profundamente porque respira muito profundamente, chega por vezes a ressonar, às vezes até me assusta. De repente assustei-me. O gato mexeu-se num impulso, deu um pulo no sofá e do nada bufou assustado. Parou, meio atordoado, começou a olhar em volta um pouco confuso. A Kika que estava comigo junto à lareira levantou-se também e ficou sentada a olhar para ele em alerta, sem ter percebido o que efetivamente se passava.

 

1606098729820.jpgSimba, o rei pouco espaçoso!

(e é assim que esta criatura de 8kg dorme habitualmente...)

 

 

1606098666774.jpg

Kika, a princesinha pouco friorenta

(Sempre colada a toda e qualquer fonte de calor)

 

Esta situação levou-me a acreditar que os animais também têm pesadelos, que não dão apenas longos passeios pela selva em busca de presas suculentas, mas que também encontram, quiçá, predadores pelo caminho. 

 

Levantei-me, fui ao sofá, afaguei-lhe o pelo com ternura, ele piscou lentamente em sinal de agradecimento, lambeu-se e como se nada tivesse acontecido, voltou a deitar-se e novamente adormeceu. Vendo que o irmão estava tranquilo, a Kika também voltou a enroscar-se junto aos meus pés, e voltou a adormecer.

 

Às vezes pergunto-me se são eles que são tão humanos ou se nós é que somos tão animais. Vejo neles tanto de nós...

 

E os vossos animais também demonstram ter pesadelos?

Hachi - O Raro!*

Dizem que quem sai aos seus... Não é de Genebra degenera e dizem também que os animais tendem a ser parecidos com os seus donos. Começo a acreditar nisso.

 

Eu odeio jantar sozinha. Se ao almoço praticamente toda a vida almocei sozinha, ao jantar sempre o fiz acompanhada e se estou sozinha em casa acabo sempre a comer uns cereais com leite - sim é cereais com leite e não leite com cereais que ter umas coisas a boiar no leite não tem piada nenhuma - e vou comer para o sofá ou até mesmo para a cama, depende do cansaço. Não gosto, pronto.

 

Parece-me que o Hachi sai a mim em alguns pontos...

 

IMG_20200108_235830.jpg

 

No que toca às refeições,  o Hachi tem dois comportamentos bizarros. Primeiro: Só come à noite, esteja sozinho ou acompanhado, de dia ele não come. Bebe muito, mas comer nada. Por isso aquela coisa de comer 2 ou 3 refeições ao longo do dia, não acontece e até podemos deixar os cereais à descrição na taça,  que chegamos à noite e aposto que se os contar não faltará nem um. Segundo: Não come sozinho. Para comer temos de estar com ele cá fora, e aí come tranquilamente - ainda que desconfiado sempre a olhar a ver se ali continuamos junto a ele - mas se nós formos para dentro de casa ele afasta-se da taça e não toca na comida. Por isso, se nós estivermos com ele cá fora às 20h é às 20h que ele come, se só chegarmos a casa às 23h é às 23h que ele come. E se estivermos o dia todo fora de casa, de manhã os cereais estão todos na taça. Antigamente só comia na presença da minha mãe, atualmente e felizmente, também já come comigo.

 

Já tive imensos cães e nunca tal me aconteceu, e até já tive uma serrinha - uma serra da estrela, mas eu chamava-lhe serrinha - que no verão, com o calor, era um inferno para comer, mas ia comendo, pouquinho mas ia. Quando o Hachi chegou, o facto de só comer à noite, achamos que era pelo mesmo motivo, como foi no verão pensamos que tinha que ver com o calor do dia, mas entretanto o inverno chegou e o estranho habito se mantém.

 

No que toca a não comer sozinho... Posso pensar que não gosta de estar sozinho, mas claramente durante o dia ele está ocupado a pintar a manta, que as coisas estão sempre fora do sítio com ele, mas no que toca às refeições... Tem realmente este comportamento estranho e receio que um dia que eu e a minha mãe estejamos fora, de férias, que ele não coma com a pessoa que o venha ver...

 

Vocês que estão desse lado com animais, algum comportamento semelhante? Dicas? Sugestões?

 

 

__________________

* Ao estilo dos antigos reis. Já que é o rei da casa.

Uma espécie de curta do dia #36

Eu que julgava ter um cão... Afinal tenho uma ovelha, e está na época da tosquia. Estou a considerar mudar o nome do Hachi para Tufos.

 

IMG_20191110_000541.jpg

Sim isto é um balde cheio de pelo de cão!

 

Passamos tempos difícieis aqui no curral. O Hachi está a mudar a pelagem de bebé para adulto e não está fácil, como podem ver. 

 

Alguém com alguma sugestão para acelerar esta queda do pelo? Pentear só, revelou-se insuficiente, o pelo já é arrancado à mão e mesmo assim ele esvoaça aqui por casa... É pelo que nunca mais acaba...

Um curral cheio de vida

E o curral da Mula, físico e virtual, está cada vez mais cheio de amor. Mais rico em vida e em pelos. Essencialmente em pelos. Ó roupa: rolos autocolantes a quanto obrigas!

 

Há quase duas semanas que abrimos portas a um novo membro, que cresceu muito, demasiado para o que estavam à espera e que por isso precisou de ser acolhido num novo lar. Abençoados aqueles que abrem as portas para acolher novos membros, essencialmente os de quatro patas.

 

Assim, já conhecem o Simba e a Kika e hoje apresento-vos o Hachi!

 

1567041361311.jpg

 

O Hachi tem 6 meses, 30 kg de pura gostosura e é do mais amoroso que há! Muito inteligente, obedece-me desde o primeiro dia, mas teimoso q.b. - acho que está na casa certa, tendo em conta que é uma casa de casmurros. Tem energia para dar e vender e bebe tanta ou mais água que um camelo - nem sei onde armazena tanta água! A cereja no topo do bolo é que não é fã nem de cães nem de gatos. E descobrimos que os nossos gatos também não são nada fãs de cães, ou pelo menos não são fãs do Hachi. Adivinham-se dias curiosos.

 

A reação do Hachi aos gatos - que os viu apenas por uma portinhola lá longe, muito longe... - foi de curiosidade, senti ali uma certa vontade de os cheirar de perto, quiçá dar-lhes umas mordidas de amor. A reação dos gatos ao Hachi foi de puro pânico. A Kika congelou, a cauda do Simba engordou, e sempre que o Hachi lá fora ladra, os gatos parece que se preparam para a terceira guerra mundial. E pronto é isto!

 

Estamos todos bem. Uma casa com animais é uma casa feliz! Por isso estamos todos bem.

Kika e Simba

A Kika e o Simba não poderiam ser mais diferentes... Ela é atrevida e uma vendida, mal vê um estranho vai logo cumprimentá-lo. Ele fugidio e se vê alguém desaparece por horas. Ela é esguia, ágil e meiga. Ele gorducho e pachorrento, gosta pouco de ser pegado e de mimos. Ela consegue andar por cima de móveis sem ser notada. Ele derruba tudo por onde passa. Ela adora locais quentes. Ele prefere os frescos. Sim, eles são mesmo muito diferentes.

 

Capturar.JPG

 

Mas a diferença que mais me diverte neles é que ela quando fica fechada em algum lugar, ele fica desesperado atrás dela, sempre a miar, e facilmente percebemos onde ela está porque ele fica ali a rondar às voltas até a "libertar-mos". Já quando é ele que fica trancado... Ela não está nem aí. Deita-se descansada e se lhe perguntar-mos por ele ainda olha para nós como que a dizer "deixem-no estar, que eu assim durmo descansada!" Até nos pode ver à procura dele, ou a ouvi-lo miar, que incrivelmente não quer saber.

 

Os vossos patudos também têm assim estas marotices uns com os outros?

Raposas em Valongo

 

Em Fevereiro o Mulo disse que viu três raposas junto ao prédio. Como nunca mais se viram nem há no Google qualquer referência à existência de raposas em Valongo - e como sabem, o que não existe no Google não existe na realidade - assumi que poderiam ter sido cães confundidos com raposas. Até porque era de noite e foi nas traseiras do prédio onde não há iluminação. Entretanto nunca mais pensei nisso... Até segunda feira à noite.

 

Estava eu descansada a tentar dormir quando um chinfrim me desperta. Ouço gatos a bufar, um outro animal a guinchar e abro de imediato a janela. O meu primeiro pensamento foi de que alguém estaria a tentar dar cabo dos gatos aqui da zona - que são dezenas deles e há uma ninhada recente. Já preparada para insultar e chamar a polícia abro a janela do quarto aflita e eis que não quero acreditar no que vejo: Uma raposa!

 

Uma raposa e dois gatos à volta. Vejo a raposa a tentar atacar os gatos e vejo os gatos a bufarem à bicha, por isso não percebi quem começou a provocação. Entretanto numa gritaria desmedida desaparecem por entre a vegetação, a mesma vegetação onde costumam estar os mais recentes bebés. Entretanto um terceiro gato corre em direção à vegetação e depois... Silêncio! Vejo a raposa afastar-se e não me pareceu ter caçado alguma coisa. 

 

Supostamente as raposas comem ratos, coelhos, galinhas e fruta. Não há referência de as raposas comerem gatos, mas digamos que um gato bebé não difere muito de um rato ou de um coelho e não se sabe defender por isso não descarto esta hipótese.

 

Na terça-feira à noite novamente gritaria. Abro de imediato as janelas e ei-la novamente a rondar. Não a vejo com gatos mas onde ela estava não tinha iluminação suficiente para perceber. Vejo apenas uma gata, ao longe, a tentar perceber o que se passava  curiosa. Depois, novamente silêncio e volto a ver a raposa afastar-se e desta vez parecia levar alguma coisa com ela...

 

Só me apetecia chorar, só de pensar que poderia ser um dos bebés... 

 

Uma ou duas horas mais tarde novamente chinfrim. Não é uma, mas duas raposas! Ora  tendo em conta que são animais solitários acredito que o chinfrim poderia dever-se a uma luta, entre elas, pelo território...

 

E é assim que descubro que sofro de uma espécie de racismo animal: Só desejo que a caça que ela tinha na boca fosse um pássaro, um rato ou o que fosse... Tudo menos um gato!

 

Não deixa de ser estranho morar tão próximo de um centro urbano e existir raposas... Foi um misto de sentimentos, quando vi. Medo. Eu chego a casa tarde do ginásio e estaciono na rua onde elas andam... Raiva. Que não venham para atacar os gatos! Surpresa. Como assim raposas em Valongo? Admiração. Não é todos os dias que se vê um animal selvagem no seu habitat.

 

Não sei, por isso, se me agrada a ideia de ter raposas aqui tão perto...

 

Mas já agora  alguém que me explique como se eu fosse muito burra: como é que há raposas tão perto de um centro de cidade? 

Há porcos... e porcos!

A publicação de hoje da Psicogata mais gata do sapo, fez-me recordar uma situação que aconteceu em tempos num supermercado por todos nós conhecido.

 

Normalmente compro a carne nos talhos de rua, a carne é de longe mais saborosa, mas era fim-de-semana e lá tive de comprar umas costeletas para o jantar no dito supermercado. Ao aproximar-me da vitrine vi que havia dois tipos de costeletas com preços diferentes apesar de me parecerem - a olho, que não percebo nada de carne - iguais. Facilmente optaria pelas mais baratas, mas decidi perguntar qual era a diferença entre as duas peças, e eis que a menina de forma bastante dramática e emotiva me explica, mais ou menos por estas palavras:

 

Menina: Estas, mais baratas, são de porcos que coitados não têm se quer espaço para respirarem, alguns nem chegam a tocar com as pequenas patinhas no chão de tantos porcos que existem no espaço... sabe?... É horrível menina! [Por esta altura já eu estava com cara de aterrorizada e já tinha perdido toda e qualquer vontade de comprar as ditas costeletas] As condições em que vivem são mesmo miseráveis... Mas estas - apontava para as mais caras - estas não! Estas são de porcos felizes, são de porcos criados ao ar livre, com espaço. Está a ver menina? Aqueles porcos nos prados verdes, com espaço. Muito melhor!

 

Do ponto de vista moral eu deveria querer comer o porco triste, deveria promover a morte dos porcos infelizes que efetivamente aquilo não é vida para ninguém, nem mesmo para um porco. Deveria do ponto de vista moral não querer comer um porco feliz, que poderia ter sido poupado à morte, já que era feliz... Mas não consegui, com aquele cenário de verdadeiro horror, tive de levar as costeletas do porco feliz. Acho que a infelicidade, ainda que seja dos porcos, nos atormenta de tal maneira que queremos apenas coisas felizes, como se isso significasse que com isso vamos ser também um pouco mais felizes.

 

Claro que, sei que não há propriamente porcos felizes, tal como a Psicogata referiu no texto das vacas felizes, há outras condições que não lhes são proporcionadas e por isso não podem ser felizes, não porque não tenham essa capacidade, mas porque vivem e são alimentados e engordados com um único propósito: serem comidos pelo bicho Homem, que é apenas um animal como outro qualquer e que precisa de outros animais para se alimentar. Isso não me choca: assim são os mamíferos, assim acontece na savana, na selva ou no mar. Por isso não compreendo os puristas do vegetarianismo.

 

Certo é que a criação abusiva de animais para alimentação existe, que os animais vivem em condições deploráveis, mas isso não advém apenas da nossa necessidade de comer animais, mas sim da falta de regulamentação dos sectores. Da mesma forma que existe regulamentação para espaços com humanos - as creches, os lares, exigem um certo número de m² por indivíduo - o mesmo podia, e devia acontecer com os animais: Não há espaço, não há condições de criação e então o negócio não poderia avançar. Mas já se sabe que isso mexe em demasiadas políticas que não interessam a ninguém, mas aí já levantam outras questões que não de: "Ai que horror as pessoas comem animais!"

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos. Mais do que um blog, são pedaços de uma vida.