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Desabafos da Mula

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos.

Desabafos da Mula

Dá valor ao teu prémio

Dá valor ao teu prémio. Quando lutas, quando suas, quando choras, essencialmente quando choras, dá valor ao teu prémio! Não o encostes a um canto, só porque está conquistado, não percas por ele o interesse, só porque já é teu. Dá valor ao teu prémio.

 

Dá valor ao teu prémio. Quando te esforças, quando tanto o sonhas, quando vais à guerra e no corpo sofres as chagas, essencialmente quando vais à guerra e ficas com chagas. Dá valor ao teu prémio. Não o desvalorizes só porque podes baixar as armas. Dá valor ao teu prémio.

 

Lutaste, choraste, sofreste com as tuas chagas. Não percas por ele o encanto só porque agora te é simples e já não te faz sofrer. Aproveita o teu prémio.

 

É teu. 

Pequena história de desamor

Ele queria o que toda a gente quer, quando se ama. Ela queria algo diferente. Ele dizia o que toda a gente diz, quando ama. Ela ria. Dizia coisas diferentes.

 

Um dia ele virou costas e partiu. 

 

Ela ainda tentou dizer aquilo que toda a gente diz, quando se ama. Mas ele já não ouviu. Ela ainda tentou fazer aquilo que toda a gente faz, quando amam. Mas ele já não sentiu.

 

Um dia ele virou costas e partiu. 

Quem conta um conto #20 Aquelas paredes

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Entrou pela casa que não era sua, na calada da noite. Tremia de ansiedade, o estômago revolto lembrava-lhe que a última vez que ali tinha estado sentira que seria a última. E ali estava ela, como que dando um passo atrás na esperança de ainda conseguir recuperar o que naquelas quatro paredes se perdera, algures, sem que tenha percebido como ou porquê. 

 

Como não percebera?

 

Ainda sentia o seu cheiro no ar, e as memórias da última noite ali naquele espaço ainda estavam muito presentes. Mas as suas coisas já não estavam como as deixara. As suas coisas que outrora enchiam prateleiras e davam o toque feminino àquelas paredes estavam agora em sacos, devidamente arrumados num canto da casa, como se nada daqueles objetos tivessem feito realmente parte daquelas paredes, um dia. Achou, um dia, que aquelas paredes também eram um pouco suas, mas percebeu que nunca foram realmente. Queria encher novamente a casa de cor, de paixão, de amor, mas apenas ouvia silêncio. Queria sentir o calor que outrora sentiu, mas o frio ar, gelou-lhe os pensamentos, as sensações, os ossos. Aquela terrível sensação de perda... Queria chorar. Queria chorar mas sabia que não deveria, para não estragar a forma como se queria mostrar. Queria esperar firme e forte, apesar de estar mais assustada que uma criança pequena na casa fantasma. Engoliu cada lágrima, sentiu cada uma como uma facada bem firme na alma, no coração. Achou que aquele amor um dia prometido lhe pertencera um dia, hoje já não tinha essa certeza.

 

No silêncio das paredes, conseguiu ouvi-los lá longe, muito baixinho. As brincadeiras toscas, os risos de meninos, as apalpadelas surpresas, os beijos inesperados, os abraços sofridos. Aquelas paredes tinham testemunhado tudo. Promessas, surpresas e brincadeiras, mas também sofrimento, mentiras e lágrimas. Olhou mais uma vez e conseguiu até mesmo vê-los a correr pela casa. Quem os via sempre dizia: Não se comportam com a idade que têm.

 

Mas hoje já não corriam, deambulavam afastados. Quem os visse não diriam que eram os mesmos meninos de outrora. Cúmplices. Matreiros. Quem os visse hoje já não veria como antigamente brilhavam os seus olhos.

 

O brilho perdido... 

 

Entrou pela casa que não era sua, na calada da noite sem saber o que esperava encontrar. Sabia que já nada poderia encontrar, apenas vazio. Mas reconheceu, assim que ouviu a chave a rodar a porta, com ele do outro lado, a entrar naquela que era a sua casa, a força que pretendia e precisava para quem sabe a chama daquelas paredes voltar a encontrar.

Textos vagos # Quero

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Eu não quero ser indiferente. Ser tão banal cuja presença ou ausência seja igual. Eu quero marcar, eu quero fazer diferença. Eu quero que me notes a ausência. Que sintas a minha falta. Não só do meu corpo, dos meus beijos, mas da minha presença. Quero que sintas falta das minhas histéricas gargalhadas e das minhas perguntas parvas. Quero acima de tudo que sintas falta da minha necessidade de abraços e da necessidade de me sentir amada. Quero que sintas falta do meu calor ao deitar e da minha luta noturna com os lençóis. Não quero passar despercebida. Não quero que te seja indiferente estar só ou acompanhado. Podes desejar estar só e prometo que te permito espaços e momentos de solidão, mas quero, quando voltares, que sintas felicidade por me veres novamente, por me abraçares novamente, por me ouvires novamente. Quero que sintas falta do peso do meu corpo sobre o teu peito, quando estás só.

 

Prometeste amar-me e proteger-me. Juraste-me que eras diferente que não me deixarias cair. Deste-me a tua palavra, disseste-me que podia confiar. Falhaste-me. Eu falhei-te, primeiro, mas tu falhaste-me. E por isso eu quero compensar-te, e quero que tu me compenses. Que nos compensemos os dois. Do tempo perdido, das palavras tortas trocadas, dos corações magoados, das facas afiadas lançadas. Lançamos os dois. Magoamos os dois. Quero esquecer o passado e construir um futuro. Mas quero construir um futuro sólido, com bons alicerces, e não construir no ar, com a premissa do "porque não?!". Quero, "porque sim", porque importo e sou importante. Quero um futuro com esperança. 

 

Quero deixar de ter medo. Quero acima de tudo ter paz, e encontrar o meu lar. Não uma casa, tijolos e paredes, mas um coração tranquilo onde possa chamar lar, assentar as trouxas e saber que cheguei, que a partir de agora caminhamos juntos, esteja a calçada como estiver, em bom ou em mau estado. Quero caminhar contigo, ter medo do mundo, contigo, e não ter medo de ti, ou de mim, ou do nosso futuro. Quero recuperar as promessas lá atrás do passado. Quero que se transformem em promessas do futuro.

 

Quero... Quero... Quero tanta coisa e tanto que não consigo expressar... Mas se pudesse resumir todos os meus desejos diria: Quero que a minha casa definitiva seja o teu coração, porque só quando amamos muito é que sabemos que chegamos. E eu quero simplesmente chegar.

Quem diria...

... que eu iria ser como as outras, sofrer como as outras, duvidar do futuro incerto, como as outras, olhar para trás e arrepender-me, como as outras. Quem diria que eu iria ser como as outras. Como as outras, como as pessoas normais que erram e se arrependem. Pessoas que se sentem, essas outras. Que já foram únicas e que agora são apenas outras. Quem diria que eu iria ser como as outras.

 

Quem diria que eu iria ser como as outras, como aquelas outras pessoas normais que duvidam e têm medo ao descobrir que ao não estar claro o futuro quiçá traçado, que poderá ser partida do diabo e transformar em inferno o que era calmo. Quem diria que eu iria ser como as outras.

 

Quem diria que poderiam brincar com a minha alma, com o meu corpo e sentimentos como brincaram com as almas, corpos e sentimentos, das outras.  Aquelas outras que enxovalhei e gozei de tão inocentes que são por acreditarem. Eu também acreditei. Quem diria que eu iria ser como as outras.

 

Quem diria que eu, tão objetiva e com uma mente tão clara iria ver nada, parede no fim da linha, bater com o comboio no terminal por não ter caminho traçado nem freio carregado e preparado. Quem diria que iria bater com a cabeça como as outras, com a mesma intensidade e desvelo com que as outras bateram.

 

Quem diria que eu não seria diferente e iria sentir solidão. Quem diria que eu seria tão fraca ao ponto de me afogar no meu próprio não. Quem diria que eu seria só mais uma entre outras e tantas e demasiadas... outras!

 

Quem diria!

 

Quem conta um conto #19 Cartas Soltas VII

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Pedi-te para te ires embora. Tu foste. Tão obediente, tu foste! Revolto-me por te teres ido. Mesmo a meu pedido. Talvez não fosse bem o que eu queria e te pedi, talvez apenas por uma má escolha de palavras assim ficamos. Longe.

 

Quis-me aproximar. Tu afastaste-me. Depois tu: Quiseste-te aproximar, afastei-te. Desencontrados. Desencontrados por uma má escolha de palavras e talvez de ações. Sim, também de ações. Sabemos nós lá o que fizemos e dissemos, dissemos e fizemos até o que não queríamos, como garantir a validade de ações?

 

Já fizeste amor com desespero por temeres ser a última vez? Eu já, meu amor, eu já. E por isso tanto te evitei, porque não queria que fosse a última vez, não queria o vazio de poder ser a última vez. Não a última vez contigo! E um dia foi a última e eu não sabia. Distraí-me por um segundo e não guardei na minha memória a última vez. O teu último beijo, a última vez que me tocaste com amor, com paixão, com tesão. Sim, ainda me tocas amor, ainda te sinto, mas já não és tu. A última vez ficou lá atrás, no passado, o presente já não és tu. E não me consigo recordar da última vez.

 

Não me recordo quando foi o teu último beijo apaixonado, meu amor. Tanto te pedi que te fosses e te afastasses que te foste e te afastaste mesmo sem que eu percebesse, e contigo os teus beijos apaixonados e o teu toque quente, e a vontade de me fazeres feliz. Eu sei que tu me querias fazer feliz, meu amor. E mesmo assim te afastei. E tu obediente te afastaste. E contigo a minha oportunidade de ser feliz.

 

Não consegui ser feliz, meu amor, davas-me tudo e eu tinha tudo, mas não consegui ser feliz. Talvez agora se o presente não fizesse mais parte do passado que do futuro... Eu pudesse ser feliz. Lá atrás não consegui, não estava preparada. Acredita meu amor, também é preciso ter coragem para sermos felizes, e eu não sou a pessoa mais corajosa do mundo. Talvez agora fosse, talvez agora enchesse o peito de ar e me atirasse sem olhar. Mas tu foste embora. E contigo levaste a minha esperança.

 

Tu eras a minha esperança, meu amor, contigo aprendi a ser melhor, a desejar mais, a querer ser mais. E agora que te foste, meu amor, sinto-me pior, sinto que sou menos e tenho menos. Menos amor, essencialmente daquele que é próprio, menos vontade de correr e rebolar na areia porque não te tenho para rebolares comigo, porque tu foste obediente e te foste embora. Quem vou tentar dominar com os meus pequenos pés e tentar atirar ao chão apesar de sempre perder? Foste-te embora, meu amor, e contigo a vontade de tentar.

 

De tentar ser feliz, de tentar encontrar o meu caminho, de tentar simplesmente abrir muitas portas, com as poucas chaves que tenho. Lembro-me agora que já não tenho uma única chave... Levaste-as todas contigo, meu amor...

 

E agora...?

 

E agora que já não estás comigo já não sei se alguma vez exististe. Talvez eu te tenha inventado na minha cabeça e no meu coração... Talvez por isso tenhas sido tão perfeito, e talvez por isso nunca tenha acreditado em ti, porque a perfeição só existe na imaginação...

 

Acho que nunca exististe meu amor, e por isso escrevo-te esta carta que nunca lerás e que até talvez ela nunca tenha existido a não ser no meu coração.

Quem conta um conto #18 Cartas Soltas VI

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Se fosse tão fácil olhar nos teus olhos e dizer-te o que sinto, como me é fácil escrever um conto. Se fosse possível as palavras descreverem a imensidão dos meus sentimentos, das minhas dores, dos meus medos, como me é fácil sentir, como se fosse fácil sentir, só por si só. Se fosse, tu saberias o que sinto sem que eu precisasse de escrever, ou dizer. Sentirias só, pelo cheiro da minha pele, pelo tom os meus olhos, pela forma como molho os lábios quando te vejo, antecipando o beijo que poderás dar, mas que nem sempre dás. Na minha mente e expectativa sempre dás. Sempre me agarras e beijas, essencialmente quando menos espero. Na minha mente e expectativa. Mas nem sempre dás.

 

Se fosse fácil sentir e demonstrar, não precisaria de te dizer que quando te vais da cama cedo que me deito na tua almofada para sentir um pouco mais o teu cheiro, para te sentir um pouco mais e mais perto, durante mais tempo. Porque na tua almofada não é apenas o teu cheiro, e o teu cheiro não é apenas o teu cheiro, é também um pouco de ti. Gostava de ter um pouco de ti, por mais tempo.

 

Se fosse fácil sentir tu sentirias e nem eu teria medo, nem tu terias medo e sentiríamos só, o momento. Se fosse fácil sentir, seria fácil viver. E se fosse fácil viver não me espetarias, meu amor, tantas facas no peito que me matam lentamente dia após dia, hora após hora. Se fosse fácil viver e se fosse fácil sentir não precisaria de te deixar cartas pela casa com uma brecha do que me vai no coração, na alma. Nem eu sei. Nem eu sei o que me vai no coração e na alma, porque não é fácil sentir. Não é fácil amar-te e odiar-te do mesmo lado do coração. Não é fácil querer-te perto e querer-te longe, do mesmo lado do coração. Não é fácil sentir porque os sentimentos são difusos, e baralham-se na confusão dos dias. E como é difícil sentir, também é difícil escrever. Não é difícil escrever sobre os dias, sobre os sonhos e desejos, mas é difícil escrever sobre o que sinto porque nem eu sei o que sinto.

 

Sinto tudo e não sinto nada. Superficialmente nada sinto. Não me toca na pele, parece que não me toca no coração e parece impossível tocar na alma, mas se olhares de mais perto, meu amor, verás que tocou na pele, rasgou o coração e desfez a alma em pedaços mil impossíveis de juntar.

 

Sentir amor por ti é desfragmentar-me. É despedaçar-me em pedacinhos ainda mais pequeninos. E mesmo assim não te toco como te queria tocar, não te beijo como queria beijar, não te demonstro que te amo como gostaria de demonstrar. Mas... se conseguir, meu amor, tu ficas? Ficas comigo? Não te vais?

 

Perguntei-te mas já não me ouviste. Bateste a porta e já não te vi, e com a porta fechou-se também este envelope com esta carta que agora queimo à lareira enquanto guardo em mim esta dor cuja dimensão eu desconheço - porque é difícil sentir! - causada pela tua partida.

 

Quem sabe seja até um dia... 

 

Era uma vez...

Nem sempre é fácil colocar por palavras o que nos vais na alma. Nem sempre é fácil explicar o que sentimos porque tantas vezes nem nós realmente compreendemos. Não é fácil sentir, e por mais anos que viva acho que nunca irei compreender-me totalmente. Mas aceito-me assim! Acredito piamente que no meio da turbilhão de emoções que não compreendemos, importante é descobrir formas de extravasar, sejam elas exageradas ou não, sejam elas espelho inequívoco do que sentimos ou não, e a minha forma de tentar expor os meus pensamentos difusos é através de palavras, quase nunca em prosa, porque a prosa requer muito mais conhecimento de nós, requer muito mais maturidade emocional que a que tenho. Resta-me escrever em verso. Nestas alturas, resta-me escrever em verso. Restam-me as metáforas, as analogias, as rimas, tantas vezes confusas como só eu consigo ser.

 

 

Era uma vez...

 

Era uma vez um menino,

De olhar meigo, sorriso de criança,

Que fez apaixonar uma menina,

E dar-lhe à vida uma nova esperança.

 

Foram felizes um dia!

Ouviam-se as gargalhadas à beira mar.

E entre promessas e beijos,

Ali perceberam o que era amar.

 

Mas a maré um dia mudou, 

E pela tempestade a menina foi apanhada.

Rebolou no mar, os joelhos esmurrou,

Pra bem longe da costa, a menina foi levada!

 

E era uma vez uma menina, 

Que assustada pela vida, da felicidade fugiu.

Que de alma ferida, o seu coração não ouviu!

Perdeu o tino, a menina!

 

E aí a menina se apercebeu

Que por tudo o que é e fez, o menino perdeu,

Deixando apenas a lembrança,

Dos dias felizes, da cómoda segurança...

 

Quando a tempestade acalmou,

A menina, o menino tentou encontrar,

Mas de vestígios de quem amou,

Apenas vazio, no seu lugar!

 

Mas a menina, não desistiu. Procurou,

Por entre mato, destroços e dor,

Aquela chama de quem verdadeiramente amou,

Que não se apaga assim, quando é amor!

 

Dizem que aos lugares felizes não devemos voltar,

Que apenas encontramos vazio e indiferença,

Mas enquanto uma ténue e fraca chama brilhar,

Vale a pena, manter a fiel crença!

 

E assim a menina reencontrou a esperança,

E o coração do menino tentou reanimar,

E para sabermos como termina a história,

Em nós, os meninos de outrora teremos de encontrar!

 

Quem conta um conto #17 Cartas Soltas V

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Penso e repenso! Quero!  Não quero! Acendo um cigarro a seguir ao outro, o nervosismo impera. Quero mas não posso. Mais um cigarro. Coração a bater a mil. A ansiedade toma conta de mim. Quero tanto... E o meu cérebro amolece, e já não sabe distinguir o que quer do que não quer, o que pode, do que não pode. Ainda dizem que é o cérebro que comanda o coração! Não é, no meu caso não é...

 

Passam-se dias... E dias são muitas horas e muitas horas são demasiados minutos... Demasiados minutos sem ti. Mas eu preciso! Penso e repenso. Quero!  Não quero!  E um maço já foi.

 

Sinto tanta falta... Mas também sinto que preciso de estar assim só. Sem ti. Comigo. Sinto falta de estar comigo. Gosto de estar contigo, mas gosto ainda mais de estar comigo. Preciso de estar comigo. Amo-te. Mas amo-me mais. Preciso de me amar a mim, assim, com tempo. Gosto de me deliciar no tempo. 

 

Gosto do barulho, mas é o silêncio que mais me cativa. Gosto de sol mas é a sombra que me convence. Gosto de cores vivas mas são os neutros com que mais me identifico. Gosto de calor mas é do frio que mais sinto falta, quando me faz falta. Assim como tu. Gosto de ti mas é de mim que mais sinto falta quando estou contigo. Porque não conseguimos estar juntos? Eu e tu? Os dois? Acendo mais um cigarro e não consigo pensar. Continuo sem conseguir pensar, está demasiado barulho! 

 

Parem os carros, os relógios e o ensurdecedor ranger da madeira! Parem as luzes e fechem as janelas! Deixem-me no escuro e em silêncio! Preciso de me ouvir, e mesmo assim não me oiço! A voz que quer gritar e que cresce aqui dentro simplesmente nada diz. Estará afónica? Atónita? Ou simplesmente parva? Berra! Queres berrar, eu sei que queres. Berra!

 

Mas nada diz...

 

Diz apenas que gosta de ti... e de mim... Dos dois. Mas que gosta mais de mim e que não pode ter os dois ao mesmo tempo...

 

Repete isto até ao expoente da loucura...

 

Até que mais um maço se esfumou... e continuo sem saber: Quero ou não quero?

 

Um dia talvez conseguir-me-às compreender e perdoar! Até eu, talvez um dia me consiga compreender e perdoar.  Talvez um dia.

 

Até lá...

 

Desculpa!

Desafio de escrita dos pássaros #14 Deixa-me contar-te...

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Deixa-me contar-te ao ouvido uma história.

 

Não uma história bonita, não uma história de encantar. Uma história só. Deixa-me contar-te ao ouvido a história da minha vida, a história dos meus sentimentos. Dos meus sentimentos por ti. Dos meus sentimentos por ti e talvez até dos sentimentos por nós, um nós que não existe mas já existiu outrora. Ou existe e sempre existirá?

 

Deixa-me contar-te uma história sobre sensações e ambições. Uma história sem final feliz, mas com esperança. Uma história só. Deixa-me contar-te ao ouvido a história dos meus desejos e das minhas vontades. Dos meus desejos de te fazer feliz, e talvez de ser feliz também. Uma história sobre uma felicidade que já existiu, mas não existe mais. Ou existe e sempre existirá?

 

Deixa-me contar-te uma história sobre príncipes e princesas. Sobre cavalos e cavaleiros em países longínquos e austeros. Uma história onde não há vencedores nem vencidos. Uma história onde não vences tu, nem eu. Onde perdemos os dois, ou até talvez uma onde somos os dois vencedores. Podemos ser os dois vencedores?

 

Deixa-me contar-te...

 

Não...

 

Espera!

 

Não nasci para contar, nasci para viver. Rasga todas os papéis das histórias que te escrevi, dá-me a mão e vamos simplesmente viver.

 

Não... Não nasci para contar... Nasci para sentir, para cheirar, para correr e para cair, talvez até um pouco para sofrer...

 

Mas não... Não nasci para contar...

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos. Mais do que um blog, são pedaços de uma vida.