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Desabafos da Mula

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos.

Desabafos da Mula

Chegar

Chegar e sentir não pertencer, não ter lugar. Chegar e não sentir o lar, não ter motivo para permanecer. Chegar e não querer chegar. Não querer ser confrontada uma vez mais com a realidade de nada valer a pena, da inexistência de um motivo para ficar. Sentir a carência, a ausência e o silêncio do vazio.

 

Chegar e não ver mil e um motivos porque chegar. Chegar e querer partir. É mais fácil estar longe que perto. É mais fácil forçar o sorriso há muito ausente do que esconder as lágrimas da inevitabilidade, do confronto, da dor de voltar e tudo estar igual. Nada ter mudado. Nem eu.

 

Cheguei e tudo está igual. Tudo igual.

 

Cheguei e só quero partir, porque partir é mais fácil do que chegar. 

Silêncio...

 

Procuro-te no silêncio mas o silêncio apenas silêncio me devolve. Procuro-te na ausência, mas apenas o vazio encontro. O vazio das prateleiras cujas fotografias já não carrega. O vazio dos momentos que já não sei se alguma vez existiram. Procuro-te e não te encontro, apenas nas memórias, o que me leva acreditar que és apenas isso, uma memória, e talvez uma memória construída que nem nunca existiu realmente. Exististe algum dia sem ser em mim? Exististe algum dia sem ser nos meus ideais? Exististe para além da forma com que te construi e imaginei?

 

Pergunto ao silêncio na esperança de uma resposta. Nem ele sabe, nem ele responde. Silêncio. 

 

Procuro-te no silêncio do meu coração, ali existes mas não estás em silêncio, nem o meu coração está em silêncio. O batimento acelerado que dia após dia me turva os pensamentos e as emoções. Aqui é que deveria encontrar o silêncio e o vazio. Encontrar uma calmaria que ele desconhece. Talvez por isso aqui dentro seja só barulho. O meu coração desconhece o silêncio.

 

Como eu queria encontrar apenas o silêncio. Mas um silêncio tranquilizador, calmante e reconfortante. Não este silêncio que me destrói, qual bola de demolição.

 

Queria um silêncio que fosse silêncio. Mas só encontro este silêncio ensurdecedor. O silêncio que berra. O silêncio que corrói. Até que um dia só restará só isso mesmo, silêncio. Sem barulho, sem destruição. E aí já nada mais sobrará. Silêncio.

Quem conta um conto #21 Adeus

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- Adeus!

 

Disse batendo a porta sem olhar para trás, ignorando o facto de Maria sufocar com as suas próprias lágrimas. Maria sabia que as coisas não estavam como antes, que Luís já não a olhava como antes, nem a abraçava como antes, mas ainda assim e sem explicar o motivo, Maria foi apanhada desprevenida, não contava com o fim daquela relação que não sendo muito antiga, era suficientemente longa para ela acreditar que ficariam juntos para sempre, suficientemente longa para acreditar que o seu peito era a sua casa e que aqueles braços segurariam a família que imaginava que juntos iriam construir.

 

Conheciam-se há bastante tempo, apesar da relação ser recente. A vida apresentou-os sem intenção de os juntar, mas com as voltas das voltas que a vida dá, os seus caminhos cruzaram-se e apesar de terem vários fatores em contra, Luís fez-lhe garantir que poderiam ser felizes, que ele seria o seu porto seguro e que com ele, Maria nunca se sentiria só. Maria sentia-se enganada, traída, sentia que Luís lhe tinha mentido. Ela estava só, mais só do que nunca, ainda mais só do que quando Luís a resgatou dos despojos da anterior relação. Naquele momento Maria ficou confusa, não sabia se o amava ou se o odiava pela frieza, pelo desprendimento, pelas falsas expectativas que ao longo do tempo lhe criou.

 

Luís bateu a porta e sentiu-se aliviado. Tirou dos ombros o peso que aquela relação lhe criava. Há muito que não era feliz, ainda que não soubesse justificar o motivo, já que Maria foi em tempos aquilo que ele sempre tinha desejado. Teria Maria mudado? Sim, Maria mudou bastante ao longo do tempo, mas para melhor, garantiu-lhe Luís, mas ainda assim o peso da rotina tirou-lhe o brilho e o encanto com que a olhava. Sentia-se preso, sentia que a sua vida já não lhe pertencia, mas sim à relação que não queria ter. Luís nunca tinha querido compromissos, enganou-se achando que com Maria poderia ser feliz mas percebeu com o tempo que a sua liberdade era o que mais o fazia feliz. Luís não era livre com Maria? Era. Mas não o suficiente. Queria mais.

 

Com o tempo Maria foi superando a dor, aos poucos as lágrimas secaram, as amigas permanentemente em contacto tiravam-na de casa, da escuridão em que se queria esconder e substituíram as lágrimas salgadas pelos sorrisos doces.

 

Por sua vez, Luís começou a sentir-se sozinho. Relembrou o motivo de ter querido Maria na sua vida, lembrou-se de como Maria preenchia o vazio do silêncio e o vazio da sua enorme cama. Lembrou-se do seu sorriso contagiante e do olhar grande e expressivo que sempre a denunciava. Lembrou-se porque a Maria era diferente e do motivo que o fez passar um ano a seu lado.

 

Quis voltar a tentar.

 

Convidou-a para sair. Maria não respondeu. Bateu à sua porta, queria falar-lhe, contar-lhe de como se sentia... Maria abriu e viu-o despedaçado, sentiu as lágrimas a querem correr pela sua face, queria abraça-lo, beijá-lo pedir-lhe que nunca mais a abandonasse. Mas depois lembrou-se de tudo o que passou com o abandono, com a porta que se fechou e que não a amparou. Queria dizer-lhe que ainda o amava, mas apenas lhe saiu:

 

- Adeus!

 

E bateu a porta atrás de si,  ignorando o facto de Luís sufocar com as suas próprias lágrimas de dor.

Dá valor ao teu prémio

Dá valor ao teu prémio. Quando lutas, quando suas, quando choras, essencialmente quando choras, dá valor ao teu prémio! Não o encostes a um canto, só porque está conquistado, não percas por ele o interesse, só porque já é teu. Dá valor ao teu prémio.

 

Dá valor ao teu prémio. Quando te esforças, quando tanto o sonhas, quando vais à guerra e no corpo sofres as chagas, essencialmente quando vais à guerra e ficas com chagas. Dá valor ao teu prémio. Não o desvalorizes só porque podes baixar as armas. Dá valor ao teu prémio.

 

Lutaste, choraste, sofreste com as tuas chagas. Não percas por ele o encanto só porque agora te é simples e já não te faz sofrer. Aproveita o teu prémio.

 

É teu. 

Pequena história de desamor

Ele queria o que toda a gente quer, quando se ama. Ela queria algo diferente. Ele dizia o que toda a gente diz, quando ama. Ela ria. Dizia coisas diferentes.

 

Um dia ele virou costas e partiu. 

 

Ela ainda tentou dizer aquilo que toda a gente diz, quando se ama. Mas ele já não ouviu. Ela ainda tentou fazer aquilo que toda a gente faz, quando amam. Mas ele já não sentiu.

 

Um dia ele virou costas e partiu. 

Quem conta um conto #20 Aquelas paredes

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Entrou pela casa que não era sua, na calada da noite. Tremia de ansiedade, o estômago revolto lembrava-lhe que a última vez que ali tinha estado sentira que seria a última. E ali estava ela, como que dando um passo atrás na esperança de ainda conseguir recuperar o que naquelas quatro paredes se perdera, algures, sem que tenha percebido como ou porquê. 

 

Como não percebera?

 

Ainda sentia o seu cheiro no ar, e as memórias da última noite ali naquele espaço ainda estavam muito presentes. Mas as suas coisas já não estavam como as deixara. As suas coisas que outrora enchiam prateleiras e davam o toque feminino àquelas paredes estavam agora em sacos, devidamente arrumados num canto da casa, como se nada daqueles objetos tivessem feito realmente parte daquelas paredes, um dia. Achou, um dia, que aquelas paredes também eram um pouco suas, mas percebeu que nunca foram realmente. Queria encher novamente a casa de cor, de paixão, de amor, mas apenas ouvia silêncio. Queria sentir o calor que outrora sentiu, mas o frio ar, gelou-lhe os pensamentos, as sensações, os ossos. Aquela terrível sensação de perda... Queria chorar. Queria chorar mas sabia que não deveria, para não estragar a forma como se queria mostrar. Queria esperar firme e forte, apesar de estar mais assustada que uma criança pequena na casa fantasma. Engoliu cada lágrima, sentiu cada uma como uma facada bem firme na alma, no coração. Achou que aquele amor um dia prometido lhe pertencera um dia, hoje já não tinha essa certeza.

 

No silêncio das paredes, conseguiu ouvi-los lá longe, muito baixinho. As brincadeiras toscas, os risos de meninos, as apalpadelas surpresas, os beijos inesperados, os abraços sofridos. Aquelas paredes tinham testemunhado tudo. Promessas, surpresas e brincadeiras, mas também sofrimento, mentiras e lágrimas. Olhou mais uma vez e conseguiu até mesmo vê-los a correr pela casa. Quem os via sempre dizia: Não se comportam com a idade que têm.

 

Mas hoje já não corriam, deambulavam afastados. Quem os visse não diriam que eram os mesmos meninos de outrora. Cúmplices. Matreiros. Quem os visse hoje já não veria como antigamente brilhavam os seus olhos.

 

O brilho perdido... 

 

Entrou pela casa que não era sua, na calada da noite sem saber o que esperava encontrar. Sabia que já nada poderia encontrar, apenas vazio. Mas reconheceu, assim que ouviu a chave a rodar a porta, com ele do outro lado, a entrar naquela que era a sua casa, a força que pretendia e precisava para quem sabe a chama daquelas paredes voltar a encontrar.

Textos vagos # Quero

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Eu não quero ser indiferente. Ser tão banal cuja presença ou ausência seja igual. Eu quero marcar, eu quero fazer diferença. Eu quero que me notes a ausência. Que sintas a minha falta. Não só do meu corpo, dos meus beijos, mas da minha presença. Quero que sintas falta das minhas histéricas gargalhadas e das minhas perguntas parvas. Quero acima de tudo que sintas falta da minha necessidade de abraços e da necessidade de me sentir amada. Quero que sintas falta do meu calor ao deitar e da minha luta noturna com os lençóis. Não quero passar despercebida. Não quero que te seja indiferente estar só ou acompanhado. Podes desejar estar só e prometo que te permito espaços e momentos de solidão, mas quero, quando voltares, que sintas felicidade por me veres novamente, por me abraçares novamente, por me ouvires novamente. Quero que sintas falta do peso do meu corpo sobre o teu peito, quando estás só.

 

Prometeste amar-me e proteger-me. Juraste-me que eras diferente que não me deixarias cair. Deste-me a tua palavra, disseste-me que podia confiar. Falhaste-me. Eu falhei-te, primeiro, mas tu falhaste-me. E por isso eu quero compensar-te, e quero que tu me compenses. Que nos compensemos os dois. Do tempo perdido, das palavras tortas trocadas, dos corações magoados, das facas afiadas lançadas. Lançamos os dois. Magoamos os dois. Quero esquecer o passado e construir um futuro. Mas quero construir um futuro sólido, com bons alicerces, e não construir no ar, com a premissa do "porque não?!". Quero, "porque sim", porque importo e sou importante. Quero um futuro com esperança. 

 

Quero deixar de ter medo. Quero acima de tudo ter paz, e encontrar o meu lar. Não uma casa, tijolos e paredes, mas um coração tranquilo onde possa chamar lar, assentar as trouxas e saber que cheguei, que a partir de agora caminhamos juntos, esteja a calçada como estiver, em bom ou em mau estado. Quero caminhar contigo, ter medo do mundo, contigo, e não ter medo de ti, ou de mim, ou do nosso futuro. Quero recuperar as promessas lá atrás do passado. Quero que se transformem em promessas do futuro.

 

Quero... Quero... Quero tanta coisa e tanto que não consigo expressar... Mas se pudesse resumir todos os meus desejos diria: Quero que a minha casa definitiva seja o teu coração, porque só quando amamos muito é que sabemos que chegamos. E eu quero simplesmente chegar.

Quem diria...

... que eu iria ser como as outras, sofrer como as outras, duvidar do futuro incerto, como as outras, olhar para trás e arrepender-me, como as outras. Quem diria que eu iria ser como as outras. Como as outras, como as pessoas normais que erram e se arrependem. Pessoas que se sentem, essas outras. Que já foram únicas e que agora são apenas outras. Quem diria que eu iria ser como as outras.

 

Quem diria que eu iria ser como as outras, como aquelas outras pessoas normais que duvidam e têm medo ao descobrir que ao não estar claro o futuro quiçá traçado, que poderá ser partida do diabo e transformar em inferno o que era calmo. Quem diria que eu iria ser como as outras.

 

Quem diria que poderiam brincar com a minha alma, com o meu corpo e sentimentos como brincaram com as almas, corpos e sentimentos, das outras.  Aquelas outras que enxovalhei e gozei de tão inocentes que são por acreditarem. Eu também acreditei. Quem diria que eu iria ser como as outras.

 

Quem diria que eu, tão objetiva e com uma mente tão clara iria ver nada, parede no fim da linha, bater com o comboio no terminal por não ter caminho traçado nem freio carregado e preparado. Quem diria que iria bater com a cabeça como as outras, com a mesma intensidade e desvelo com que as outras bateram.

 

Quem diria que eu não seria diferente e iria sentir solidão. Quem diria que eu seria tão fraca ao ponto de me afogar no meu próprio não. Quem diria que eu seria só mais uma entre outras e tantas e demasiadas... outras!

 

Quem diria!

 

Quem conta um conto #19 Cartas Soltas VII

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Pedi-te para te ires embora. Tu foste. Tão obediente, tu foste! Revolto-me por te teres ido. Mesmo a meu pedido. Talvez não fosse bem o que eu queria e te pedi, talvez apenas por uma má escolha de palavras assim ficamos. Longe.

 

Quis-me aproximar. Tu afastaste-me. Depois tu: Quiseste-te aproximar, afastei-te. Desencontrados. Desencontrados por uma má escolha de palavras e talvez de ações. Sim, também de ações. Sabemos nós lá o que fizemos e dissemos, dissemos e fizemos até o que não queríamos, como garantir a validade de ações?

 

Já fizeste amor com desespero por temeres ser a última vez? Eu já, meu amor, eu já. E por isso tanto te evitei, porque não queria que fosse a última vez, não queria o vazio de poder ser a última vez. Não a última vez contigo! E um dia foi a última e eu não sabia. Distraí-me por um segundo e não guardei na minha memória a última vez. O teu último beijo, a última vez que me tocaste com amor, com paixão, com tesão. Sim, ainda me tocas amor, ainda te sinto, mas já não és tu. A última vez ficou lá atrás, no passado, o presente já não és tu. E não me consigo recordar da última vez.

 

Não me recordo quando foi o teu último beijo apaixonado, meu amor. Tanto te pedi que te fosses e te afastasses que te foste e te afastaste mesmo sem que eu percebesse, e contigo os teus beijos apaixonados e o teu toque quente, e a vontade de me fazeres feliz. Eu sei que tu me querias fazer feliz, meu amor. E mesmo assim te afastei. E tu obediente te afastaste. E contigo a minha oportunidade de ser feliz.

 

Não consegui ser feliz, meu amor, davas-me tudo e eu tinha tudo, mas não consegui ser feliz. Talvez agora se o presente não fizesse mais parte do passado que do futuro... Eu pudesse ser feliz. Lá atrás não consegui, não estava preparada. Acredita meu amor, também é preciso ter coragem para sermos felizes, e eu não sou a pessoa mais corajosa do mundo. Talvez agora fosse, talvez agora enchesse o peito de ar e me atirasse sem olhar. Mas tu foste embora. E contigo levaste a minha esperança.

 

Tu eras a minha esperança, meu amor, contigo aprendi a ser melhor, a desejar mais, a querer ser mais. E agora que te foste, meu amor, sinto-me pior, sinto que sou menos e tenho menos. Menos amor, essencialmente daquele que é próprio, menos vontade de correr e rebolar na areia porque não te tenho para rebolares comigo, porque tu foste obediente e te foste embora. Quem vou tentar dominar com os meus pequenos pés e tentar atirar ao chão apesar de sempre perder? Foste-te embora, meu amor, e contigo a vontade de tentar.

 

De tentar ser feliz, de tentar encontrar o meu caminho, de tentar simplesmente abrir muitas portas, com as poucas chaves que tenho. Lembro-me agora que já não tenho uma única chave... Levaste-as todas contigo, meu amor...

 

E agora...?

 

E agora que já não estás comigo já não sei se alguma vez exististe. Talvez eu te tenha inventado na minha cabeça e no meu coração... Talvez por isso tenhas sido tão perfeito, e talvez por isso nunca tenha acreditado em ti, porque a perfeição só existe na imaginação...

 

Acho que nunca exististe meu amor, e por isso escrevo-te esta carta que nunca lerás e que até talvez ela nunca tenha existido a não ser no meu coração.

Quem conta um conto #18 Cartas Soltas VI

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Se fosse tão fácil olhar nos teus olhos e dizer-te o que sinto, como me é fácil escrever um conto. Se fosse possível as palavras descreverem a imensidão dos meus sentimentos, das minhas dores, dos meus medos, como me é fácil sentir, como se fosse fácil sentir, só por si só. Se fosse, tu saberias o que sinto sem que eu precisasse de escrever, ou dizer. Sentirias só, pelo cheiro da minha pele, pelo tom os meus olhos, pela forma como molho os lábios quando te vejo, antecipando o beijo que poderás dar, mas que nem sempre dás. Na minha mente e expectativa sempre dás. Sempre me agarras e beijas, essencialmente quando menos espero. Na minha mente e expectativa. Mas nem sempre dás.

 

Se fosse fácil sentir e demonstrar, não precisaria de te dizer que quando te vais da cama cedo que me deito na tua almofada para sentir um pouco mais o teu cheiro, para te sentir um pouco mais e mais perto, durante mais tempo. Porque na tua almofada não é apenas o teu cheiro, e o teu cheiro não é apenas o teu cheiro, é também um pouco de ti. Gostava de ter um pouco de ti, por mais tempo.

 

Se fosse fácil sentir tu sentirias e nem eu teria medo, nem tu terias medo e sentiríamos só, o momento. Se fosse fácil sentir, seria fácil viver. E se fosse fácil viver não me espetarias, meu amor, tantas facas no peito que me matam lentamente dia após dia, hora após hora. Se fosse fácil viver e se fosse fácil sentir não precisaria de te deixar cartas pela casa com uma brecha do que me vai no coração, na alma. Nem eu sei. Nem eu sei o que me vai no coração e na alma, porque não é fácil sentir. Não é fácil amar-te e odiar-te do mesmo lado do coração. Não é fácil querer-te perto e querer-te longe, do mesmo lado do coração. Não é fácil sentir porque os sentimentos são difusos, e baralham-se na confusão dos dias. E como é difícil sentir, também é difícil escrever. Não é difícil escrever sobre os dias, sobre os sonhos e desejos, mas é difícil escrever sobre o que sinto porque nem eu sei o que sinto.

 

Sinto tudo e não sinto nada. Superficialmente nada sinto. Não me toca na pele, parece que não me toca no coração e parece impossível tocar na alma, mas se olhares de mais perto, meu amor, verás que tocou na pele, rasgou o coração e desfez a alma em pedaços mil impossíveis de juntar.

 

Sentir amor por ti é desfragmentar-me. É despedaçar-me em pedacinhos ainda mais pequeninos. E mesmo assim não te toco como te queria tocar, não te beijo como queria beijar, não te demonstro que te amo como gostaria de demonstrar. Mas... se conseguir, meu amor, tu ficas? Ficas comigo? Não te vais?

 

Perguntei-te mas já não me ouviste. Bateste a porta e já não te vi, e com a porta fechou-se também este envelope com esta carta que agora queimo à lareira enquanto guardo em mim esta dor cuja dimensão eu desconheço - porque é difícil sentir! - causada pela tua partida.

 

Quem sabe seja até um dia... 

 

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos. Mais do que um blog, são pedaços de uma vida.