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Desabafos da Mula

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos.

Desabafos da Mula

Legado covid-19?

Vamos mudar alguns comportamentos no futuro, sim?

 

"Até um relógio parado está certo duas vezes ao dia!"

 

 

Dizem que devemos retirar pontos positivos até das piores experiências e sou da opinião que efetivamente tudo nos permite ensinamentos e já que teremos que conviver com isto do covid-19 durante mais tempo do que o previsto, é importante retirar-mos alguns pontos positivos do dito. Algumas aprendizagens, que espero, sinceramente que permaneçam mais tempo que a pandemia e que não se esfumem com ela.

 

Quem me conhece sabe que sou uma pessoa social mas não extremamente social. Odeio chegar a uma casa, a uma festa, a um espaço cheio de gente e ter de cumprimentar pessoa por pessoa. Tendo a chegar a um sítio, levantar a mão e dizer "Olá a todos!" et voilà, sintam-se todos cumprimentados, porque uma coisa é ir a casa de uma amiga e cumprimentar a amiga, outra coisa é chegar a casa da amiga, ela ter a casa cheia e eu ter de ir dar 2 - DOIS! - beijos a cada pessoa e tantas vezes a pessoas que nem conhecemos, mas que a boa educação diz que não podemos ignorar. Quando vamos embora, novamente o mesmo processo... É demasiado beijo desperdiçado neste mundo. É demasiada troca de carinho trocado com desconhecidos, neste mundo. Isso não me agrada.

 

Claro que me faz confusão não poder esborrachar tantas pessoas e não puder visitar as pessoas de forma mais livre e circular por este mundo fora de forma livre mas... Se me podem fazer falta alguns beijos e abraços, a verdade é que não me fazem falta todos os beijos e abraços de que fomos privados desde a pandemia e por isso não tenho vergonha em admitir que o distanciamento social me torna mais confortável socialmente. Já não passo por mal-educada, por anti-social, neste momento sou apenas precavida e responsável.

 

Não sei quanto a vocês, mas, e pegando noutro exemplo, eu odiava ir à missa apenas por uma única razão: Por aquela parte em que tinha estranhos a quererem dar-me beijos - tantas vezes babados! - porque alguém um dia disse que era giro na missa porem estranhos a cumprimentarem-se. Desculpem, não concordo! Se eu já não gosto de falar com estranhos, imaginem beijar estranhos. E já nem vamos falar de meter a bota na cruz, na Páscoa! E não é pelo Covid! Já por diversas vezes o beijar da cruz foi desaconselhado e não percebo a necessidade de se continuar a perpetuar este tipo de comportamentos. Por isso sim, gostava que este tipo de questões sociais e religiosas fossem alteradas. É preciso alternativas? Tudo bem! Para a cruz? Que leve cada uma a sua ao peito e que beije cada uma a sua! Para a missa? Acho que os estranhos sobrevivem bem sem os beijos uns dos outros, já que dentro da igreja são todos irmãos mas cá fora estão a meter o pé à frente para o outro tropeçar. Não é este tipo de comportamentos que nos faz ter mais ou menos fé, que nos faz ser melhor ou piores pessoas, mas que nos pode fazer ser mais ou menos saudáveis.

 

Sei que vai da nossa cultura, que somos latinos e tudo mais mas... A nossa bolha é importante e devemos de poder decidir, sem sermos considerados mal-educação, quem perfura ou não a nossa bolha. Por isso sim, espero que isto do covid-19 desapareça rapidamente mas que com ele não se esfume de todo o distanciamento social.

7 meses de pandemia...

... E as pessoas ainda se estão a marimbar para ela. Assim não vamos a lado nenhum... Quer dizer vamos: para o lado do contágio!

 

Ontem fui a uma consulta no hospital. Como já é do conhecimento de todos - achava eu, agora acho que não! - temos de manter distanciamento social. Se a trenga da DGS diz em tom de crítica que nós temos o problema de confraternizar demasiado com a nossa família, eu cá digo que as pessoas adoram confraternizar com estranhos.

 

Não sou hipocondríaca, mas a verdade é que ir a um hospital em altura de pandemia é algo que não me alegra nem me deixa tranquila. Pertenço ao grupo de risco, se apanhar o dito não digo que me quine assim - sou de risco mas sou de gancho - mas a verdade é que tenho tudo para ficar bastante mal e o ideal é evitar essas brincadeiras. Onde é que eu ia? Ah sim, distanciamento social. Passaram-se mais de 7 meses desde o primeiro infetado em Portugal e as pessoas continuam sem saber o que é isso do distanciamento social, e é inevitável que me chateie com pessoas em todo o lado que vá. Ontem não foi exepção.

 

imagem retirada daqui

 

 

Estou sentada nos bancos da parte da sala de espera do hospital porque os corredores estavam simplesmente apinhados de gente. Os bancos da sala de espera têm a indicação de onde nos podemos sentar com um visto ou uma cruz, mediante a situação. Chega uma mulher e senta-se ao meu lado! Assim, cheia de lata, chega e simplesmente senta-se.

 

Mula: Desculpe, não se pode sentar aqui. - Digo educadamente.

Mulher: Não posso porquê? Estou ao lado do meu marido!

Mula: Mas está também ao meu lado e eu não vivo consigo e nem a conheço! Pode ir para outro lugar? - Digo já exaltada.

Mulher: Já lhe disse que estou ao lado do meu marido!

Mula: A senhora não tem olhinhos? - Digo enquanto me levanto para ir para outro lugar - Não sabe ver que aqui tem as indicações onde pode e onde não se pode sentar?  - Digo, inevitavelmente aos berros, o meu lado carneiro levou a melhor...

 

Levantei-me e fui para outro lugar longe da mulher. A mulher não era idosa, e o marido também não pelo que nem deveria de ser permitido acompanhamento, mas à parte de tudo esta gente não tem a mínima noção do perigo e do ridículo. Cinco minutos antes, tinha uma senhora se aproximado de mim para me perguntar onde tirava as senhas e lá andava eu feita tola a fugir da senhora sempre para trás e ela sempre a avançar para mim... 

 

Não posso negar, mais do que o vírus, chateia-me a ignorância! A ignorância e os seguranças que em vez de ficarem só na entrada deveriam de controlar estas pessoínhas nas salas de espera!

Balanço de uma Mula crente...

Ontem disse-vos que era crente... Hoje demonstro-vos como sou inocente.

 

Em Março quando vim para casa em teletrabalho pensei cá para com os meus botões - e acho até que o disse em voz alta a várias pessoas - "ah e tal isto finais de Abril, inícios de Maio já passou!" Chegamos a Maio e com ele a inevitabilidade da deceção. Depois pensei cá para com os meus botões - e acho que aí já não me arrisquei a dizer em voz alta - "vá, mais um mês... Em julho! Em julho o vírus foi à vidinha dele!" E chegou julho e passou o agosto, e chega setembro. E eu que tinha adiado uma viagem para Janeiro porque "obviamente em Janeiro já nem memória do vírus!" agora percebo que se calhar antes de 2022 não largamos as máscaras das fuças. Os números continuam a aumentar e o inverno está à porta e nem quero imaginar novamente o caos, porque um espirro pode ser covid, porque uma amigdalite pode ser covid, porque uma espinha entalada na garganta que dá tosse pode ser covid. No inverno tudo poderá ser covid e eu não estou preparada psicologicamente para esta montanha russa que novamente se aproxima.

 

Sei que o cansaço é geral... É só mais um desabafo entre mil mas... Estou farta!

 

Mas falemos de coisas animadas...

 

E a Festa do Avante, hein?

 

Screenshot_4.png

 

Ter gripe em altura de covid-19

 

A altura não é fácil, seja socialmente, seja ao nível da saúde, seja, até ao nível da saúde mental. Os dias não estão nada fáceis. O que era banal tornou-se um horror, um verdadeiro filme de terror e só aguenta quem se adapta. E não temos outro remédio, se não nos adaptarmos...

 

Eis que aconteceu o inevitável e aqui em casa a mãe ficou com gripe. O pânico. Sintomas? Iguais aos do covid-19. Gripe no verão? Quem tem gripe no verão? Só pode ser covid-19... Depois se pensar bem, eu já tive gripe no verão há uns anos, uma das piores que tive até agora, ninguém merece arder em febre com 30ºC lá fora...

 

Mas pronto, primeiro há que manter a calma. Ligar para a saúde 24, aguardar novos passos, ir ao hospital, fazer o teste e ir para casa em isolamento aguardar os resultados. Parece fácil, não é verdade? Ora vejamos então...

 

Primeiro. A saúde 24 continua a funcionar mal. Não enviaram nada para o hospital para onde a encaminharam. Felizmente o hospital atendeu-a na mesma mas ainda assim é inadmissível, ainda por cima numa altura em que a situação já estará supostamente tranquila. Imagino então há uns meses atrás...

 

Segundo. Acho incrível que os médicos assumam logo a partida que é covid-19 e se restrinjam a isso. Não a auscultaram, não lhe viram a garganta, nada de nada, partiram do pressuposto que a minha mãe estava infetada e agiram como tal. Receitaram-lhe apenas algo para a tosse e ben-u-ron no buch, e está a andar... próximo. As pessoas continuam a ter outras doenças, é incrível isso, mas é verdade.

 

Terceiro. Compreendo que a altura é complicada para toda as pessoas mas é necessário gerir expectativas de quem vai ficar fechada num quarto por tempo indeterminado. "Em 48h, talvez menos, tem os resultados" e passaram-se quase 96h, ligamos para vários serviços e ninguém nos sabia dar qualquer informação. Foi preciso continuarmos a ligar, a insistir, quase a implorar para alguém se mexer e finalmente divulgarem os resultados. É mau. É muito mau. Com o que já passou, já tinham criado uma plataforma onde as pessoas pudessem consultar as informações, não?

 

Quarto. O teste, deu finalmente e felizmente, negativo, após o sufoco de andar de máscara em casa a desinfetar tudo o que é áreas a cada novo toque, felizmente acalmou, mas a minha mãe continua doente, mas não a consultaram como deve de ser, pode ser gripe, pode ser outra virose qualquer, mas parece que agora o grave é apenas ter covid-19, tudo o resto não interessa...

 

... Mas continua a interessar, porque saúde é saúde! 

 

E isto vai acontecer mais vezes, porque somos humanos, e os humanos ficam doentes, só que agora já não se quer saber das doenças das pessoas, apenas se contamos para as estatísticas para o panorama nacional ou não!

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos. Mais do que um blog, são pedaços de uma vida.