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Desabafos da Mula

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos.

Desabafos da Mula

Desafio de escrita dos pássaros #14 Deixa-me contar-te...

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Deixa-me contar-te ao ouvido uma história.

 

Não uma história bonita, não uma história de encantar. Uma história só. Deixa-me contar-te ao ouvido a história da minha vida, a história dos meus sentimentos. Dos meus sentimentos por ti. Dos meus sentimentos por ti e talvez até dos sentimentos por nós, um nós que não existe mas já existiu outrora. Ou existe e sempre existirá?

 

Deixa-me contar-te uma história sobre sensações e ambições. Uma história sem final feliz, mas com esperança. Uma história só. Deixa-me contar-te ao ouvido a história dos meus desejos e das minhas vontades. Dos meus desejos de te fazer feliz, e talvez de ser feliz também. Uma história sobre uma felicidade que já existiu, mas não existe mais. Ou existe e sempre existirá?

 

Deixa-me contar-te uma história sobre príncipes e princesas. Sobre cavalos e cavaleiros em países longínquos e austeros. Uma história onde não há vencedores nem vencidos. Uma história onde não vences tu, nem eu. Onde perdemos os dois, ou até talvez uma onde somos os dois vencedores. Podemos ser os dois vencedores?

 

Deixa-me contar-te...

 

Não...

 

Espera!

 

Não nasci para contar, nasci para viver. Rasga todas os papéis das histórias que te escrevi, dá-me a mão e vamos simplesmente viver.

 

Não... Não nasci para contar... Nasci para sentir, para cheirar, para correr e para cair, talvez até um pouco para sofrer...

 

Mas não... Não nasci para contar...

Desafio de escrita dos pássaros #13 Um novo final

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Ai se eu pudesse reescrever o final de um filme...! Reescreveria o final do filme que é a minha vida e colocar-lhe-ia mais cor, mais som, mais sabor. Porque é tudo o que poderia mudar. É tudo o que quereria mudar. E borraria tudo, e voltaria a reescrever, porque é exatamente isso que fazemos todos os dias: tentamos reescrever com novas linhas, um futuro mais feliz, ou pelo menos, menos infeliz.

 

Se eu pudesse reescrever o final do meu filme, da minha vida, colocaria muitos mais personagens, porque quero terminar-me com o maior número de pessoas à minha volta. O número nunca seria suficiente, porque gosto de barulho, de pessoas boas e mesa farta. Muitos risos e abraços. Muitas bochechas do rosto doridas. Um final com muitos mais sorrisos que lágrimas.

 

Se eu pudesse reescrever o final do meu filme... Nunca colocaria a minha personagem a olhar para trás. Nunca a faria arrepender de nada ou de lamentar alguma coisa. Reescreveria um final vitorioso e orgulhoso de tudo o que construiu. Terminaria triunfante.

 

Se eu pudesse reescrever o final do meu filme... Mesmo não sabendo como efetivamente acaba, reescreveria-o como uma comédia, romântica de preferência e nada dramática. Porque para dramático já bastaram os meios, e alguns fins. E colocaria uma música bem divertida, bem mesmo no final, uma música que nunca mais terminasse, porque gostaria que o filme da minha vida continuasse... e continuasse... e continuasse!

 

Se eu pudesse reescrever o final do meu filme, daria abertura para todas as sequelas que me pudessem apetecer criar. Pelo menos enquanto me permitir ser feliz.

Desafio de escrita dos pássaros #12 Aqueles pássaros não se calam

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Tudo começou com um casamento...

De uma Mula que já se descasou.

E foi assim que diferentes gentes,

Num só chat se juntou!

 

E desde aí que não se calam,

Piu, piu, piu, é todo o dia assim.

E centenas de mensagens trocam,

Mesmo em dias assim-a-assim.

 

Nunca estão sozinhos, os pássaros,

Nem na alegria, nem na tristeza,

Porque existe sempre alguém no grupo,

Com palavras de delicadeza.

 

Também temos humores diversos,

Com estes pássaros é uma animação,

Apesar da Mula não ler metade,

Porque quando os pássaros falam...

É na hora do patrão!

 

São todos diferentes estes pássaros,

E tantos outros que já avoaram,

Mas aqueles que resistiram

No chat nunca mais se calaram!

 

Piu, piu, piu! Piu, piu, piu!

É todo o dia assim!

Feito de gentes com blogs com gente dentro,

Que carinhosamente o Sapo Blogs uniu!

 

Desafio de escrita dos pássaros #11 Hachi por um dia

O difícil no tema desta semana foi decidir que animal de estimação iria escolher para integrar a sua visão. Estive mesmo para escolher um dos gatos, mas não sei se iria ter uma grande visão já que mais de metade do dia, eles estão de olhos fechados... A dormir! Assim escolhi o Hachi, vamos lá.

 

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Ora bolas já acordei e nem sinal delas! Vou até ao jardim. Ora bolas que não se levantam, que preguiçosas, será que já sabem que já é um novo dia? Não, não vou ladrar, não as quero acordar. Vou só deitar-me aqui à porta que assim elas têm que passar por cima de mim para saírem, e eu adoro!

 

Estou a ouvir! Estou a ouvir! Ai estou tão feliz, mas tão feliz!

 

Não descem? Hmm... Vou latir um pouco, se calhar esqueceram-se que eu estou aqui. Tenho fome! Vá lá, quero festas! E comida, também quero comida, mas quero festas. E morder, ai como eu adoro morder.

 

Uma já saiu, que bom, já vou ter com quem brincar!!!

 

Hei? Onde vais? Brinca comigo! Não vais ficar? Se não ficas também não vou contigo lá baixo, vais ver. És-me indiferente, não gosto de ti, nem te obedeço quando me chamas, é mesmo para veres como não gosto de ti, gosto mais da outra! A outra vem brincar comigo.

 

Mas c'um raio que a outra também não desce!

 

[passadas duas horas]

 

Estou a ouvir, estou a ouvir!!! Esta sim, vai brincar comigo!!! Isso festinha boa! Vou só morder um bocadinho porque eu gosto, e enchê-la de pêlo para que todo o dia se lembre de mim. Oops! Se calhar exagerei, ela está a ralhar e a sacudir-se toda.

 

Hei! Como assim? Vais carregada! Também já vais embora? Também não gosto de ti! Também não te acompanho lá em baixo! Nem se chamares, és-me indiferente, não quero saber! Gosto mais da outra e vou aguardar que a outra chegue. Também não deve faltar muito para a outra chegar.

 

Bem, ainda falta um pouco, vou procurar qualquer coisa para eu brincar. Olha! Chinelos! Como eu adoro chinelos! E vasos! É isso, vou roer este vaso até que não reste nenhum pedacinho!

 

Já destruí tudo o que pude, diverti-me, fiz buracos no jardim, arranquei a salsa... Não há mais nada para eu fazer e elas continuam sem aparecer... Estou triste, vou dormir um bocadinho.

 

Elas não vêm... vou ficar aqui sozinho para sempre!

 

[7 horas depois]

 

Ufa! Chegaram! Vou fingir-me de indiferente e não lhes vou ligar nenhuma. Nem as vou buscar à porta...

 

[-Hachi!?]

 

Quem quero eu enganar? Eu adoro-as, a minha cauda também já me denunciou: Um, dois, três aqui vou eu com toda a minha energia!!!!!

Desafio de escrita dos pássaros #10 Já chegamos? Já chegamos?

Mais uma semana, mais uma voltinha, mais um tema louco, e já sabem, quando a Mula não sabe muito bem como dar a volta ao texto... Vem poesia na certa. Parece que na poesia tudo faz sentido... Ou então não e só faz sentido na cabeça da Mula. Digam de vossa justiça.

 

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Já chegamos? Já chegamos?

Mas o carro teima em acelerar.

Já chegamos? Já chegamos?

Mas o mundo teima em não abrandar.

Já chegamos? Já chegamos?

Mas o tempo teima em não parar.

 

Temos pressa de chegar.

Muita.

E queremos o relógio abrandar.

Tantas vezes.

E não percebemos, dizemos nós, o motivo,

De não darmos pelo tempo passar.

 

Já chegamos? Já chegamos?

Para. Deixa-me respirar.

Deixemos de ter pressa, de correr.

Aproveitemos cada brisa que nos acolhe,

Esqueçamos o tic-tac que nos persegue,

Aproveitemos o tempo para realmente viver!

 

Viver é aproveitar, é verdadeiramente estar,

É ouvir em volta, é verdadeiramente escutar,

É sentir cada cheiro, é saborear,

Viver é o contrário de apressar.

Já não queremos chegar. Não assim tão rápido.

 

Desafio de escrita dos pássaros #9 A viagem

Imagem retirada daqui

 

 

Sentada na sala fumava tranquilamente. Fechei os olhos e deixei-me dormir. O corpo aos poucos amoleceu no cadeirão.

 

Acordo de repente.

 

Onde é que eu estou?

 

Olhei em volta e não vi ninguém. Apenas areia e mar. Voltei a olhar em volta, continuei a não ver ninguém. De repente o pânico: Nua? Como assim nua? Como é que eu vim aqui parar? Onde é que eu estou? Recompus-me. Não estava frio e não havia ninguém. Por que não aproveitar a liberdade? Fiquei tranquila, deixei-me relaxar.

 

Senti fome. Olhei em volta e vi umas árvores de fruto lá ao fundo. Fui de mansinho, pé ante pé, com cautela. Comi mangas, muitas mangas. Quem diria que algum dia iria ter assim o meu fruto favorito tão à minha disposição?

 

Deixei-me repousar no areal, sentir o calor do sol a queimar-me a pele. Banhei-me no mar que era morno. Senti-me feliz. Verdadeiramente feliz. Podia finalmente dizer que estava no paraíso.

 

Aos poucos, à medida que fui reconhecendo o território, o medo deu lugar à paz, à calmaria, mas logo a ansiedade voltou. E depois o pânico e novamente os nervos à flor da pele, a irritação.

 

Tenho de sair daqui! Preciso de sair daqui!

 

Encontrei um barquinho de madeira encalhado na areia. A raiva, o temor, a angústia... Tudo serviu de motor para conseguir ganhar forças e colocar o barquinho no mar. Desesperada, irritada,  amedrontada, tentei com o remo chegar a algum lugar mas apenas naveguei em círculos. Caí ao mar, deixei-me ir e senti-me a desvanecer.

 

No cadeirão enquanto dormitava entre uma baforada e outra no cigarro, coloquei mais uma pastilha na boca. Regressei tranquilamente à ilha. Estou sã e salva, novamente deitada no areal com o sol a torrar-me o corpo.

Desafio de escrita dos pássaros # A Vingança

Amor Proibido

O público decidu, e ficou decido. Os pássaros iriam ter um tema às pressas, sem contar. Este foi o tema escolhido pelo OSapo para atrapalhar a passarada.

 

 

Quero-te!

 
"Não posso ficar!"
 
Mas fica só mais um pouco, depois vais. Cobre-me só mais um pouco com os teus beijos, agarra-me mais um momento com as tuas mãos. Deixa-me fechar os olhos e imaginar que és meu só durante mais um bocadinho.
 
 
"Sabes que não posso ficar..."
 
Não vás já. Não me deixes já. Não estou preparado para ficar já assim sem ti e voltares para ela.

 
"Sabias desde o princípio que seria assim!"
 
Não fales do princípio. Não agora. No princípio é sempre diferente, mais consciente, mais coerente. No princípio era só cabeça, adrenalina, objetividade. Agora é corpo, é coração. É saudade. Fica comigo esta noite!
 
 
"Sabes que é proibido!"
 
Sabes que gosto do que não posso ter. Mas, sim é proibido, sei que o teu corpo nunca será meu, totalmente só meu. Apesar do teu coração não ter outro dono. Quero ser também o dono do teu corpo...
 
 
"Sabes que nunca poderás ser..."
 
E sei que por isso nunca serás feliz. Ao lado dela não és tu, não poderás nunca ser tu, sabes que só te expressas livremente comigo, sabes que só és verdadeiramente tu, comigo. Sabes que não serás feliz com mais ninguém... Ou pelo menos não com ela. Deixa-a. Fica comigo...
 
 
"Sabes que é impossível..."
 
Não é impossível... É apenas cobardia. E nem é por medo dela... Mas sim da sociedade. Advogado, pai de filhos e gay... O que dirão do advogado, casado com filhos e gay? Um dia vais-te cansar de seres infeliz... Impossível é que isso dure para sempre. Fica comigo, agora!
 
 
"Sabes que te amo..."
 
Não é suficiente para seres feliz, e já não é suficiente para eu ser feliz...
 
 
"Um dia eu luto por nós..."
 
Quando esse dia chegar já eu estarei cansado de amar um cobarde... Deixa-me lutar a teu lado. Eu protejo-te!
 
 
 
*
Deu-me um beijo e saiu. Fiquei com a certeza que foi o último. Sim, foi o último. Não viveu, não lutou, não foi feliz. Viveu apenas, na memória, o amor que o seu coração deixou, mas que a sociedade nunca aprovou. 
 

Desafio de escrita dos pássaros #8 Querida pequena Mula...

Uma pequena carta para a pequena criança que fui

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Querida pequena Mula,

 

Escrevo-te do futuro. O mundo não terminou no ano 2000 como vais acreditar e temos agora 31 anos e muitos cabelos brancos. Lê com calma e atenção, um dia agradecer-me-às.

 

Para. Aproveita. Não tenhas pressa de crescer! Sei que não é fácil estares sempre a ouvir ordens de toda a gente mas... Confia em mim: Vai ser o período da tua vida que menos problemas terás, depois disso é sempre a subir, uma verdadeira montanha russa. Como podes acreditar avidamente que crescer irá resolver todos os teus problemas? Tu não tens problemas...! Sei que não és a criança mais feliz deste mundo, mas te garanto, quando cresceres essa coisa da felicidade não vai melhorar propriamente e vais aprender como ela é relativa. Por isso aproveita o agora, inspira fundo, sente o vento das árvores, suja-te toda na lama, atira pedrinhas para o infinito, esquece as discussões dos teus pais - elas não são, nem nunca serão um problema teu - e brinca muito! Que saudades das grandes moradias das barbies que fazíamos com a mobília da sala!

 

Aproveita todos os minutos que tens com os teus animais de estimação. Ainda não sabes mas... Eles não vão durar para sempre. Vão, claramente, durar para sempre no teu coração, mas não na tua vida. Não te minto, vais sofrer, mas vão-te ensinar que o tempo cura tudo. Vais perceber que não é verdade, mas como um adulto normal, vais fingir que sim, que assim é. E a vida continuará.

 

Acredita no Pai Natal! Quando cresceres vais perceber que temos de acreditar em alguma coisa, ainda que tonta, para nos levantarmos todas as manhãs de cabeça erguida e sorriso no rosto e ir trabalhar. E por falar em trabalhar, não caias no erro de ir trabalhar tão cedo, como está previsto que o faças. Vamos tentar construir um novo percurso, tudo a seu tempo, tens tempo para ter a tua independência, o teu dinheiro. Sê criança o máximo de tempo que puderes e não te esforces para que os outros gostem de ti, quem gostar vai ficar, e o tempo encarregar-se-á de te ensinar que quem não fica não é importante. Evita preocupações desnecessárias.

 

Aplica-te na escola. Estuda também o que não gostas porque logo logo o 1+1 vai-se transformar em números irreais, em raízes quadradas e em derivadas e nem vais perceber como chegaste ali, àquele ponto. Vai sempre ser assim na tua vida, nunca vais saber como chegaste àquele ponto. Mas vais aprender a conviver com a velocidade excessiva do tempo.

 

Sê acima de tudo feliz. Abstrai-te do que te rodeia de mau e sê apenas criança. Sê feliz!

 

Vemo-nos no futuro, pequeno eu.

 

 

P.S.: Choca-te: Em adulta vais gostar de sopa! Por isso deixa de fazer birra e come!

Desafio de escrita dos pássaros #7 Compotas compotas, cabelos à parte

 

Porque a rimar a rimar... Cumpre-se o desafio sem desesperar!

Não que eu não estivesse altamente preparada para desenvolver outro tipo de texto para este tão fantástico mote... Longe de mim!

 

 

Imagem retirada daqui

 

 

Constança queria uma máscara capilar,

Mas isso a Mula não lhe podia vender,

Então a Mula deu-lhe umas boas amostras

De compota, para o seu cabelo feliz ser.

 

Constança não queria a compota,

Mas mais a Mula não lhe podia dar,

Decidiu insistir nas amostras de compota,

Que iriam fazer o seu cabelo brilhar.

 

Que seus cabelos ruivos, cor de abóbora, vão agradecer!

Dizia tudo, a Mula, para vender!

Mas a Constança que não caía na cantiga,

Queria uma máscara, química, à moda antiga!

 

Olhe que a compota é boa!

Tem amêndoas para o cabelo esfoliar,

E mais a mais se não gostar...

Coma-a à colher prá fome saciar!

 

Em cantigas, aos poucos Constança caía,

Como acontecia com as que lhe cantava o homem,

E as embalagens até tinham uma imagem bonita...

Porque já se sabe... Os olhos também comem!

 

E assim Constança encheu a despensa,

De compotas que iria à colher comer,

Enquanto via à noite a novela,

Que até da máscara capilar lhe fazia esquecer!

 

E assim continuram secos, os cabelos.

Mas Constança com o estômago mais forrado,

Para depois se deitar junto do homem,

Que a esperava, como sempre, entusiasmado!

 

Desafio de escrita dos pássaros #6 O amor, uma cabana… e um frigorífico!

 

 

Ana e Rui viviam lá longe, bem longe da civilização. Viam muitas vezes o Rui, mas nunca ninguém vira Ana. Ainda assim, dizia-se lá na terra que eram um casal muito apaixonado, que Ana vivia para Rui e Rui só tinha olhos para Ana. Mas a civilização nunca vira Ana.

 

Rui trabalhava num pequeno café apenas algumas horas por semana, era homem de poucas palavras, não dava grande confiança às pessoas, mas sempre falava de Ana com muito amor, com paixão. Eram o casal perfeito. Viviam um para o outro, e Rui trabalhava pouco para poder ter todo o tempo para Ana. O mínimo para aconchegarem os seus estômagos.

 

Dizia-se que viviam numa cabana lá longe, na floresta, quase junto à falésia. Ana não trabalhava porque não precisava. A cabana não tinha luz, não tinha água, não tinha Internet nem condomínio, precisavam de pouco, apenas o suficiente para se alimentarem. Alimentavam-se essencialmente do amor um do outro, dizia Rui. Era o amor perfeito, o idílico dos livros, o das canções de amor e o dos poemas dos enamorados. Muitos diziam que Ana não existia. Rui jurava que sim, e que um dia a apresentaria à clientela.

 

Um dia uns caçadores ao passarem próximo da cabana da Ana e do Rui sentiram um cheiro nauseabundo. Apreensivos, desaceleraram o passo e aproximaram-se da cabana. E o cheiro pestilento cada vez mais intenso. Entraram.

 

E ali encontraram o que não queriam encontrar. E viram o que não queriam ver. Ana, pele e osso, acorrentada às paredes da cabana, já morta. Rui dava-lhe muito pouco para comer, e desta vez ela não conseguiu aguentar. Mantinha-a assim há vários anos. Ana nunca gostou de Rui e Rui nunca se conformou. Assim achou que iria ter Ana para sempre.

 

E eis que entra Rui de rompante, percebendo intrusos na cabana, pergunta aos caçadores o que estão ali a fazer. Os caçadores não deveriam de ali estar.

 

- Seguimos o cheiro, senhor! - Disseram os caçadores revoltados e chocados com o que acabaram de encontrar.

 

-  Peço desculpa senhores, é que não tenho frigorífico para a guardar. - Disse Rui, estranhamente tranquilo.

 

Rui fechou a porta atrás de si e até hoje mais ninguém viu os caçadores. Rui continuou a trabalhar tranquilamente no café algumas horas por semana e a falar do seu amor perfeito.

 

Fim.

 

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Espero que não se tenha notado muito a minha TPM neste texto!

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos. Mais do que um blog, são pedaços de uma vida.