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Desabafos da Mula

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos.

Desabafos da Mula

Livro: Stalker de Lars Kepler

Finalmente!

Finalmente!

Finalmente!

Rufem tambores, lancem purpurinas e confetis.

Quase um ano depois... Finalmente terminei de ler o Stalker de Lars Kepler. Eu disse que até ao final do mês o arrumava. E como canta o Rui Veloso: Prometido é devido.

 

 

Stalker é o quinto livro da saga de Joona Linna - e o segundo que leio desta dupla de autores - e conta a história de um assassino em série que ameaça mulheres em Estocolmo. A história começa quando o Departamento da Polícia Criminal começa a receber vídeos de mulheres na sua intimidade e horas mais tarde essas mulheres aparecem mortas. É impossível anteverem e protegerem as suas vítimas, pois as suas identidades são totalmente desconhecidas e não parece existir qualquer ligação entre elas. Erik Maria Bark é trazido novamente à trama, desta vez para hipnotizar o marido de uma das vítimas que está em estado de choque com a violência do crime, mas acaba como fugitivo e acusado de vários crimes. Será que Erik é culpado? Será que vai conseguir escapar? Quem é o Stalker de Estocolmo? Todas as respostas no livro.


O livro é bom, eu demorei imenso tempo a ler, mas o livro é bom. O meu erro foi nivelar-me pelo Hipnotista, porque o Hipnotista é realmente um livro muito, muito, bom e está lá bem em cima em destaque. Este tem uma trama boa mas não é comparável.

É um livro que cativa uma vez mais pelo macabro e pelo suspense, pela forma bruta e direta como nos é contada a história. Gosto do facto de ter capítulos curtos e escrita fluida, sendo um livro com bastante movimento e com poucos momentos de estagnação, no entanto, pareceu-me um livro que dá demasiadas voltas para ir parar constantemente a becos sem saída e isso enervou-me e levou-me a pousar mais vezes o livro do que o desejado. O final apesar de completamente inesperado pareceu-me pouco credível e isso desiludiu-me. O final é realmente surpreendente, a verdade é que - e não querendo, mas já sendo um pouco spoiler - o assassino é alguém que está realmente sempre presente mas que nunca associamos como assassino mas a verdade é que também não me fez qualquer sentido. Uma vez mais, fazendo uma ponte com o Hipnotista, este último parece-me mais credível, mais coeso, mais coerente.

 

É possível que tendo demorado tanto tempo a ler que me tenha feito perder alguns pormenores que neste momento me pudessem servir como ponte de ligação. É possível também que o facto de me faltarem 3 livros pelo meio me possa ter dificultado a compreensão... Não sei. Sinceramente não sei, mas a verdade é que não me convenceu. 

 

Pontos que considero importantes no livro: 

Não podemos confiar em ninguém, e mesmo a nossa memória pode atraiçoar-nos. É fácil estarmos no sítio errado e à hora errada, difícil é provarmos que estamos inocentes. O livro foca-se muito num pormenor importante que acontece no dia-a-dia: É mais fácil acreditar-mos numa mentira com uma solução à vista, do que admitir que estamos errados e que não detemos o controlo de nada e que por isso a situação não tem solução à vista e neste sentido o livro alerta para a quantidade de presos inocentes que existirão porque é mais fácil prender um "culpado" que está identificado do que procurar o verdadeiro culpado que é desconhecido. O livro mostra também a forma como determinadas pessoas influenciam o decurso da nossa vida de forma permanente e de modo irreversível.

 

Sabem que eu gosto de livros que me façam pensar, para além da história em si, e este realmente fez-me questionar algumas coisas... E já por aí sobe pontos na minha consideração.

 

Quem é que já leu? Opiniões?

[Quem já leu aprochegue-se aqui de mansinho à Mula e sem levantar grandes véus diga-me lá: O assassino fez-vos algum sentido?]

Livro: Foi sem querer que te quis de Raul Minh'Alma

Terminei de ler o livro que comecei a ler depois das férias: Foi sem querer que te quis de Raul Minh'Alma. Até é vergonhoso o tempo que o demorei a ler, tendo em conta que são só 300 páginas, mas pronto, foi indo, foi indo, e já foi.

 

Quem me conhece, e até quem me lê, sabe: Não sou nada fã de romances, mas não sei porquê, houve algo neste livro que me cativou. A mim e à minha mãe, e estou com ela: Mas que raio de final é aquele? Não querendo ser spoiler e avançando...

 

 

Foi sem querer que te quis conta a história de como Beatriz - doce, sonhadora, apaixonada - se apaixona por Leonardo - frio, mimado, e sem qualquer intenções de se apaixonar - com um problema crónico e com um passado e presente amargurado por não ter crescido com o pai. Nicolau - avô de Leonardo - pede a Beatriz uma missão quase impossível: devolver a Leonardo a felicidade e a alegria que outrora sentia em criança, mas Leonardo não vai tornar essa missão fácil. Assim Beatriz desenvolve um projeto que implica uma série de passos que Leonardo deve ultrapassar para assim cumprir a última vontade do seu avô. Será que Beatriz vai conseguir?

 

Não é um livro incrível, que me tenha prendido desde a primeira à última página, mas na generalidade gostei bastante. É um livro ligeiro, com um toque de humor perfeito para as tardes de verão - dentro do que é possível ser verão - e que cumpre o que promete, e nos entretém.

 

É no entanto um livro cheio de clichés - como de resto todos os romances são - e só por isso é um livro que não me apaixona e que não me marca. Mas para quem goste do estilo vai de certeza adorar.

 

Achamos que sabemos como o livro vai terminar mas o final é totalmente inesperado, e posso já dizer-vos que fui gozada por ter chorado no final, em plena praia. As últimas 100 páginas do livro foram incríveis, e sim prenderam-me e cativaram-me, o final achei desesperante, revoltante, e apetecia-me matar o autor, mas de resto... Achei uma história bonita, a forma como a personagem do Leonardo foi evoluindo é cativante, apesar de eu achar que ninguém evolui assim... Apesar disso, gostei da forma como Beatriz foi persistente e conseguiu traçar o seu objetivo independentemente de todas as dificuldades.

 

Eu que estava assim com baixas expectativas, confesso, foi um livro que surpreendeu. Apesar de tudo, gostei e recomendo o livro. Podia ser um livro escrito pelo Nicholas Sparks, é dentro do mesmo estilo. 

 

Quem já leu? Opiniões?

Livro: Quem Nunca Morreu de Amor de Eduardo Sá

Tive quase um ano para ler este livro tão pequeno... Também confesso que não é um livro para ser lido todo de uma vez, é para ir lendo, devagarinho e consoante nos fizer sentido, mas ainda assim foi demasiado tempo. Isto diz muito sobre o que eu achei do livro, digo-vos já.

 

O livro é uma reunião de várias crónicas/diálogos sobre o amor nas suas várias perspetivas. Fala sobre respeito, sobre paixão, sobre o desgaste, sobre o fim do amor. Sobre sacrifícios, sobre escolhas e sobre desejos e vontades.

 

Não é um livro espetacular e mais de metade das crónicas/diálogos são para encher chouriços, enfadonhas, e não acrescentam nada, mas há crónicas muito boas e muitas dessas boas crónicas permite-nos criar reflexões e como eu gosto de dizer: Faz-nos olhar para dentro. Digamos que muitas dessas crónicas nos faz pôr a nossa vida em reflexão e nos faz questionar o que estamos a fazer de bem e de mal e como poderemos fazer diferente, e até chamar-nos a atenção para um amor que nós não desejamos, porque o nosso respeito e dignidade são tantas vezes colocadas em causa em pequenas coisas que quase não notamos mas que nos causam mossa. Com este livro no fundo percebemos que não estamos sozinhos quando achamos que estamos a cismar em algo exageradamente.

 

Há crónicas que realmente me fizeram questionar muito o relacionamento que eu tinha e que colocou por palavras muito do que eu sentia e não sabia que sentia. Por isso é um livro que apesar de tudo deve ser lido com cuidado, porque lido numa altura má - em que nos sentimos mais em baixo - pode ser devastador.

 

Apesar de ter sido um livro que na generalidade me desiludiu confesso que gostei de ler e as crónicas boas, são mesmo muito boas e valem pelo livro todo.

 

E deixo-vos com um exemplo das crónicas que mais gostei.

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Que me dizem?

Alguém já leu?

Livro: O Hipnotista de Lars Kepler

A Mula comprou o Stalker do Lars Kepler sem saber que O Hipnostista deveria de ser lido antes e a querida Ana Gomes do blog A Minha Vida e Eu ofereceu à Mula O Hipnotista. Muito obrigada Ana! Foi um grande gesto e o livro é fantástico! Muito obrigada por me teres proporcionado este fantástico momento de leitura.

 

 

 

O Hipnotista é o primeiro livro da saga do comissário da polícia Joona Linna e  tudo começa quando uma família é brutalmente assassinada. Muitos acreditam que esta tragédia se deve a um ajuste de contas devido às dívidas de jogo contraídas pelo chefe de família, mas Joona Linna defende que é muito mais que isso e que é necessário proteger a filha mais velha, que sobreviveu ao massacre por estar longe, e Josef Elk, o irmão mais novo que sobreviveu e está em coma. Para conseguirem perceber o que aconteceu, chamam Erik Maria Bark que é o mais famoso hipnotista da Suécia e é quando percebem que nada tem que ver com um ajuste de contas e que o culpado está mesmo à frente dos seus olhos. Assim Erik Maria Bark tenta ajudar o comissário Joona Linna enquanto a sua própria família entra em colapso e o seu filho Benjamim desaparece. Em contra relógio para salvar a sua família Erik percorre, através da sua memória, o seu passado para tentar encontrar culpados pelo desaparecimento do seu filho. Será que as duas histórias estão relacionadas? Será que vão conseguir salvar Benjamim? E a irmão de Josef Elk, será que sobreviverá?

 

Adorei este livro. Só mais recentemente é que percebi que adoro thrillers policiais e a verdade é que é atualmente o meu estilo literário favorito.

 

Este livro é denso, é complexo, é mórbido e é incrível. O que eu adorei neste livro é que quando achamos que estamos perto de conhecer a história e as razões, logo descobrimos que só estamos a cair numa armadilha. Kepler consegue-nos mostrar tudo e ocultar tudo ao mesmo tempo. É impossível não sentir a dor dos personagens que são retratados, é fácil sentir empatia por quase todos eles - com uma ou outra exceção.

 

Neste livro percebemos como as nossas ações têm tantas vezes influência na vida dos outros sem que por vezes tenhamos consciência e foi este desmontar da vida de Erik para tentar encontrar a peça que faltava no puzzle que eu adorei.

 

Confesso que gostaria de ter conhecido mais e melhor alguns personagens. Alguns personagens secundários pareceram-me tão incríveis que poderiam ter um livro dedicado e isso frustrou-me um pouco, porque são levantadas algumas pontas dos véus mas depois não lhes é dado seguimento.

 

Gostei muito. Se são fãs de policiais não ser irão arrepender de ler este livro que prende desde a primeira página até à última.

 

E agora, siga para o Stalker que também já está a mexer comigo!

 

Quem é que já leu este livro? O que acharam?

Livro: O Homem de Giz de C. J. Tudor

Descobri há pouco tempo uma nova paixão literária: os thrillers. Já gostava de thrillers e filmes de suspense mas ao nível de livros sempre optei por outros géneros. Mas depois li Zafón, e depois de Zafón li o mestre do terror, o Stephen King e isso fez com que me apaixonasse por livros com mais mistério e menos romance, e então comecei a ler mais dentro deste género.

 

Numas das visitas à Bertrand, descobri O Homem de Giz, e já não consegui sair de lá sem ele. Soube depois que é o primeiro livro da autora, e digo-vos que para primeiro me pareceu muito bem. Incrivelmente bem.

 

Wook.pt - O Homem de Giz

 

O Homem de Giz conta a história de um grupo de crianças que descobrem o corpo de uma rapariga num bosque e toda a história se desenrola à volta do grupo e da rapariga morta. A história é-nos contada através de um dos jovens - Eddie - em duas escalas temporais: em 1986 e em 2016. Os capítulos vão alterando entre espaço e tempo para termos uma visão global da história, do antes e do depois, e de como os acontecimentos que ocorreram em 1986 influenciaram toda a vida dos seus intervenientes. Quem terá morto a rapariga no bosque?

 

Este é um livro que mostra como nunca somos meros expectadores, que mesmo sem querer conseguimos influenciar a ação e por vezes nem sempre de modo positivo. Neste livro todos influenciaram os acontecimentos, todos têm segredos, todos têm algo que não querem que se saiba que os poderá prejudicar de alguma maneira e por isso não há só e apenas um culpado.

 

É um livro que fala sobre bullying e de como por vezes situações inocentes levam à desgraça e ao horror. Fala sobre o amor e sobre a falta dele. Fala sobre a moral, fala sobre a diferença entre o que fazemos e o que realmente acreditamos e somos. Fala sobre manter-nos fieis àquilo que acreditamos.

 

Confesso que apesar de ter gostado, no final, bastante do livro foi um livro que em certa medida me desiludiu. O livro é bastante explícito, bastante macabro e tem muito mistério, disso não me posso queixar, no entanto não assusta. Não me fez olhar em volta e ver se alguém estava a observar por medo. Conseguia ler o livro com muita ou pouca luz e isso diz muito sobre o terror psicológico, que na minha opinião era nenhum. No entanto é um livro que a dada altura nos prende bastante, queremos saber quem é afinal o homem de giz, quem matou a moça do bosque, quem é que anda assustar os jovens que entretanto se fizeram adultos, e só descansamos quando paramos e quando encontramos o final.

 

O que gostei do livro é que apesar de existir algumas coisas inexplicáveis, que acabam por não passar de sonhos, que é bastante real, com explicações reais. Por isso se é verdade que esperava um livro diferente, mais assustador, é um livro que acabou por surpreender. Tem um início lento, que me custou continuar por não perceber o porquê de ser tão lento, mas depois rapidamente compreendi que era necessário para podermos compreender realmente a dimensão das relações entre as diferentes personagens.

 

É um livro bastante fluido, que alternando entre os vários espaços temporais nos vai surpreendendo, onde as personagens se vão revelando e onde vamos sabendo que cada personagem sabe sempre muito mais do que o que aparenta. O que gostei bastante é que o final surpreendeu totalmente, porque a verdade é que fui tecendo as minhas considerações mas que se revelaram bastante ao lado da realidade.

 

Gostei bastante do livro, fico a aguardar mais desta autora. E sabem que mais? Apesar de saber que livros e filmes nada têm que ver por vezes, esta história com o realizador certo, dava um grande filme!

 

Boas Leituras!

Livro: Marina de Carlos Ruiz Zafón

Andava na minha wishlist há imenso tempo - basicamente desde que a Nathy me adoçou o gostinho - e depois de me apaixonar pela Saga d'O Cemitério dos Livros Esquecidos tinha mesmo que ler este que é considerado um grande livro de Zafon, sendo um dos favoritos do próprio autor. Claro que tinha de ler! Aproveitei por isso no final do ano a Black Friday, comprei este menino em promoção e agora finalmente consegui lê-lo.

 

O que dizer-vos de Marina?

 

Acho que tudo o que eu vos possa dizer será muito pouco, mas vou tentar.

 

 

Marina conta-nos pelos olhos de Óscar - um rapaz que vive num colégio interno - a história de Marina e a aventura que os dois viveram no submundo de Barcelona. Tudo começa quando Óscar entra numa casa que julgava desabitada, roubando um relógio. Quando o rapaz decide devolver o relógio percebe que a casa está habitada e que nela vive Marina e Gérman - o seu pai. Desde logo os dois estabelecem uma grande amizade, sendo que Marina e Gérman se tornam - de certa forma - na família de Óscar. Um dia, Marina leva Óscar a um cemitério para lhe mostrar uma mulher de negro que visita uma campa com frequência, e ao seguirem essa mulher - por curiosidade e diversão - vão encontrar uma espécie de estufa abandonada carregada de membros, que não conseguem perceber se são humanos ou apenas de bonecas. Aí percebem que o espaço tem vida própria e desde a visita que umas criaturas estranhas os começam a perseguir. Assim, Óscar e Marina começam a investigar a história daquele local e da pessoa que o criou e sempre que ficam mais perto de saber do que se trata algo sempre lhes acontece. As pessoas envolvidas na história começam a morrer... Marina e Óscar têm de apressar antes que a história os apanhe por completo e lhes ceife a vida. Será que vão conseguir?

 

Marina é classificado por muitos como um livro de aventura juvenil. Não concordo. Marina é realmente uma história vivida por dois jovens, mas trata-se de algo muito mais grandioso do que uma aventura, antes mais uma história de terror, onde criaturas estranhas difíceis de imaginar são, no fundo, protagonistas.

 

Tudo o que eu adoro em Zafón encontrei em Marina: As descrições que nos teletransportam para os cenários - eu que não gosto de livros descritivos, adoro as descrições de Zafón -, o suspense - que nos faz agarrar os livros como se o mundo fosse terminar amanhã -, o enredo denso e cheio de portas com diferentes saídas e entradas com tantas interpretações distintas.

 

É claramente um livro diferente de A Sombra do Vento mas para quem gostou da mordacidade deste, Marina tem também. Adorei o livro mas... Vendo bem, o mesmo tem vários elementos que fariam com que eu não o apreciasse: tem misticidade, tem elementos da fantasia, tem uma perceção difícil de distinguir o que pode ser ou não real, no entanto a forma como nos é contada a história é tão incrível que no fundo me esqueci que não gosto de livros de fantasia.

 

O livro poder-nos-ia querer demonstrar que não nos devemos meter onde não somos chamados e que isso traz consequências sérias mas não creio - de todo - que seja essa a mensagem que pretende transmitir. Marina pretende-nos acima de tudo, mostrar o valor da vida. Sobre o que estamos dispostos a fazer para nos proteger e para protegermos os outros. Fala-nos também do valor da amizade, e do valor da palavra. Demonstra-nos como é mais fácil julgar do que olhar para o nosso interior e perceber que também seremos capazes - se levados ao limite - de fazer coisas horrendas, coisas absurdas se isso permitir que vivamos uns minutos mais junto de quem amamos.

 

Marina é... tudo de bom! Tem mistério, tem terror, tem aventura, tem até algum humor e até tem drama. Diria até que é um livro bastante completo.

 

Aconselho vivamente!

 

Boas Leituras!

Livro: A Boneca de Kokoschka de Afonso Cruz

Tenho poupado imenso dinheiro em livros. Em compensação tenho lido grandes livros. É a vantagem de ser uma leitora confiável a quem emprestam bons livros.

 

Desta remessa de livros emprestados chegou-me A Boneca de Kokoschka de Afonso Cruz. Depois do Para onde vão os guarda-chuvas - que é só assim um livro incrível - confesso que estava com algum medo de baixar a fasquia onde mantinha este autor. É inevitavelmente um livro diferente, é bastante diferente, mas continuei com a fasquia sobre este autor bem lá em cima. A genialidade de Afonso Cruz está lá. A Boneca de Kokoschka surpreendeu.

 

 

É difícil resumir este livro sem contar demais. Não é um livro com uma só história. É na realidade um livro com três histórias que nada parecendo ter que ver entre si, têm tudo. O incrível deste livro é que tem um livro dentro do livro, com uma escrita tão diferente, como se fossem dois autores, com dois estilos distintos. O que une as três histórias é a história verídica de Oskar Kokoschka, que por estar tão apaixonado por Alma Mahler decide, quando esta o abandona, construir uma boneca em tamanho real com todos os pormenores de Alma. Na história de Afonso Cruz, Kokoschka deita fora a boneca que um dia é encontrada por um outro homem que imagina ser uma Deusa. Toda a história é influenciada por esta boneca e é esta boneca que faz com que todos os personagens de certa forma se encontrem. Mas contrariamente ao que nos indica na sinopse, não é um livro sobre Oskar Kokoschka nem sobre a boneca. Como pano de fundo desta história temos Dresden durante a II Guerra Mundial que foi bombardeada e destruída e esse é mais um ponto de influência para que os personagens - tão complexos e tão diferentes - se reúnam.

 

Afonso Cruz tem uma maneira brilhante de nos apresentar factos assombrosos. Apresenta-nos sempre uma história à partida triste, à partida terrível, com humor, com ligeireza. Com uma ligeireza que não ofende. Com uma ligeireza que nos quer fazer ler mais e mais e mais. Aqui encontramos um  homem que tem reticencias na cabeça e a sua boca faz um "O" que vê tudo como se visse sempre pela primeira vez, temos um outro homem que se assume como seu filho mas que no fundo faz de pai e que carrega a cabeça do amigo de infância na sua bota. Aqui encontramos Adela que quer descobrir sobre o seu passado e descobre que a sua avó manteve relações com um sobrinho sem saber, e encontramos acima de tudo personagens que por vezes não compreendemos se são reais ou imaginadas - mesmo no plano de Afonso Cruz - e que por vezes nos exige uma atenção redobrada.

 

A Boneca de Kokoschka tem mistério e tem misticidade, tem um pouco de tudo para nos maravilhar. Não é um livro de leitura fácil. Diria até que não é fácil ler Afonso Cruz, devido à forma tão estranha - estranha de tão bom  como escreve. Todo o livro é incrível mas é inegável que a primeira parte é a melhor de todas. A primeira parte é a mais semelhante ao livro Para onde vão os guarda-chuvas, a segunda parte do livro - a do livro dentro do livro - é mais banal, é uma história que não tem tanto a marca de Afonso Cruz - propositadamente, creio -, mas essa marca regressa novamente na terceira parte para o grande final.

 

Basicamente este livro quer-nos passar uma mensagem: Nem sempre o real e o imaginário é claro, e nem sempre um livro tem apenas personagens, pois por vezes esses personagens são apenas uma versão melhorada de pessoas reais, que existem, com histórias que poderiam realmente ter acontecido. É um livro que nos fala de amor mas de um amor diferente. Aliás, fala-nos de vários tipos de amor: do amor à família, do amor que magoa, do amor que humilha, mas também do amor pelo qual suspiramos toda a vida, inclusive no leito de morte.

 

Afonso Cruz hoje e sempre. Quero ler mais e mais deste autor!

 

Acho que é escusado dizer que recomendo, e muito, a leitura d'A Boneca de Kokoschka!

Livro: Viver sem ti de Jojo Moyes

Com o livro há vários meses a catrapiscar-me da estante, finalmente consegui tempo para passar umas horas com ele, e foram apenas isso: algumas horas, porque as páginas voaram num ápice.

 

Como contei aqui, conheci a história um pouco de modo diferente: primeiro vi o filme e só depois, porque queria saber mais e conhecer melhor as personagens decidi ler o livro e posso garantir-vos que é dos poucos livros-filme que adorei. Há espaço no meu coração para gostar deste livro e deste filme, sem grandes revirar de olhos e pontadas no coração. Como não poderia deixar de ser, tinha de ler o seu seguimento e apesar de ser uma história bastantes diferente, mais ligeira, gostei bastante do livro.

 

 

Em Viver Sem Ti acompanhamos Lou após a perda de Will. Apesar deste lhe ter deixado em testamento um pé de meia generoso para que Lou pudesse sair da vila, conhecer mundo e organizar a sua vida, percebemos que Lou não consegue abstrair-se da sua perda e que vive infeliz, numa casa que não vê como sua, num trabalho que odeia e sem amigos. No entanto, uma misteriosa e rebelde rapariga do passado de Will aparece e vem revirar toda a vida de Louisa e pôr tudo o que acredita em causa. Toda a tranquilidade da vida de Lou termina logo nas primeiras páginas do livro. Viver Sem Ti é assim um percurso deste o luto até à reconciliação consigo mesma, até à superação da morte do amor da sua vida.

 

Este é um livro totalmente diferente do primeiro, se o primeiro nos colocava divididos entre um dilema, sendo mais pesado e triste, apesar do humor que vai sendo constante, este traz-nos a inevitabilidade da perda. É um livro que demonstra a importância das relações que estabelecemos com os outros para a nossa felicidade. É um livro que nos fala do medo de sermos felizes porque não conhecendo o futuro amanhã tudo pode ser diferente e poderemos sofrer ainda mais. É também um livro que fala de como o medo nos faz colocar uma capa protetora à nossa volta impedindo-nos de viver, e de falarmos com os outros sobre o que sentimos. É um livro com uma mensagem de esperança e que nos demonstra que a expressão "o tempo cura tudo" não é apenas um cliché e que apesar de existirem dores que nunca desaparecerão, que até essas podem ser aliviadas.

 

Gostei muito deste livro. Se procuram um livro tão intenso como o primeiro não vão encontrar, mas a verdade é que acho que a outra história merecia uma continuação, porque Lou viveu tanto o Will que merecíamos conhecer o caco em que ela ficou e como é que ela conseguiu superar/lidar com o seu sofrimento. Achei curiosa a reviravolta que a história levou, mas gostei do resultado. Acho que é fácil perdermos a noção do tempo no meio destas páginas, por isso só significa que nos absorve e isso é sempre um bom sinal.

 

Quem é que daqui já leu o Viver sem ti da Jojo Moyes? O que acharam?

Livro: A casa dos espíritos de Isabel Allende

Finalmente terminei de ler A casa dos espíritos de Isabel Allende e finalmente pude devolvê-la à sua fiel depositária. Confesso que já não me lembrava de demorar tanto tempo a ler um livro, é mais um daqueles casos cujo problema sou eu, não ele, mas enfim. Terminei é o que importa.

 

 

A Casa dos Espíritos retrata a história da Família Trueba, uma família chilena, ao longo do século XX. Apesar de ser uma história romanceada desta família, este livro relata paralelamente o movimento de esquerda revolucionária chilena até ao golpe de estado de 1973 pelas forças armadas chilenas que matou o presidente chileno, Salvador Allende - primo do pai da escritora - e que vitimou muitos civis.

 

Esteban Trueba na história foi um dos homens que mais esteve envolvido contra o movimento de esquerda. Era um homem de ideias extremistas, muito conservador, defensor da pátria e dos patrões. Esteban era um homem violento, com frequentes acessos de raiva, e devido ao seu poder, ninguém lhe faz frente. Este casa-se com Clara, uma jovem muito diferente, que com nada se importava e que possuía poderes místicos, conseguindo mover saleiros com a mente e comunicar com espíritos, esta consegue ainda prever o futuro, e com isso vamos tendo algumas informações do que acontecerá mais tarde, apesar de não sabermos efetivamente como. Clara é a única que durante algum tempo consegue controlar o marido, mas não será sempre assim. Deste casamento nasce Blanca, Jaime e Nicolau, também eles muito distintos entre si e que vão tendo papéis muito diferentes na história. Com o desenrolar da história Esteban acaba por afastar toda a família de si. Nenhum dos filhos se dá verdadeiramente com o pai, e só quando a sua neta Alba - filha de Blanca - nasce é que Esteban dá sinais de começar a amolecer. 

 

Esta história é narrada por três narradores, o que dá uma visão bastante global e diferente da história: É narrada por Esteban, por Clara e por Alba e que se baseia nos diários escritos por Clara ao longo da vida e não é uma história narrada no presente. A história é contada olhando para um passado, com as devidas emoções da vida que não correu como deveria, e com um certo pé na nostalgia e no arrependimento.

 

A Casa dos Espíritos é uma história muito completa, muito sul americana - com imeeeensas mortes -, e muito moderna para a época. É uma história que à parte de tudo, relata a história de uma mulher que ama outra mulher. De uma mulher que toda a vida ama um homem de uma classe social inferior e cujo maior inimigo é o próprio pai da moça. É uma história que demonstra que não há regimes políticos perfeitos e que retrata o sofrimento de um povo cujos políticos não se entendem. É uma história que consegue dividir o leitor em certa medida. Exemplificando. Esteban Trueba decide reedificar a terra Las Tres Marias que era da família e que desde a morte do pai estava ao abandono. Sem Trueba o povo não sabia cultivar, as casas estavam apodrecidas e as pessoas passavam muitas necessidades. A chegada de Trueba foi uma alegria, conseguir reerguer a terra, o povo voltou a ter trabalho, e Las Tres Marias passou a ser uma referência da região. Aquelas pessoas passaram a ter trabalho, passaram a ter o que comer e passaram a ter melhores condições de vida. No entanto, com a ascensão do comunismo isso não era suficiente - e não o é, efetivamente - e o povo começou a rebelar-se contra os patrões. Quando o comunismo voltou a chegar ao poder, a terra voltou a ficar mal parada - porque ninguém trabalhava para outrem - e tudo voltou a ficar destruído. Ou seja, o povo precisava de alguém que o gerisse, e a verdade é que cada um reger-se por si, não dá bom resultado, e vários episódios da história portuguesa e mundial demonstram isso mesmo. Então o livro divide o leitor: porque se por um lado queremos apoiar os comunistas porque realmente os trabalhadores merecem melhor, por outro lado sabemos o que é que vai acontecer se os apoiarmos. No final, com o golpe de Estado tudo piorou e instalou-se inevitavelmente uma ditadura onde muitas atrocidades foram cometidas, inclusive contra a família Trueba que até então era intocável..

 

Esta é uma história incrível, muito tocante, muito bem escrita - apesar da edição que li estar cravadinha de gralhas ortográficas - no entanto a temática não me envolveu o suficiente para querer devorar o livro como gosto, não me motivou e por isso confesso, foi um livro que me aborreceu mais do que me divertiu. É para mim um livro demasiado político, demasiado histórico, demasiado descritivo, e são tudo características que não aprecio num livro, no entanto, sei separar as águas e tenho perfeita consciência que é um livro muito bom, só que não é um livro para mim.

 

Agora, quero ver o filme! Mas confesso-vos desde já que Antonio Banderas e Pedro Garcia Tercero são tão diferentes do que eu imaginava, e a Meryl Streep e a Clara não têm nada que ver! Acho que vai ser daqueles filmes que nenhuma das minhas personagens vai encaixar ali, mas estou curiosa para ver como é que transformaram esta trama tão densa num filme.

 

Quem já leu? Opiniões do livro e do filme?

 

Boas leituras.

Livro: O Bibliotecário de Paris de Mark Pryor

Ofereci o livro O Bibliotecário de Paris de Mark Pryor a um amigo mas a verdade é que fiquei tão curiosa, mas tão curiosa - como sabem, adoro a temática da Segunda Guerra Mundial - que tive mesmo de o ler. Não quero já ser desmancha prazeres mas... Foi um livro que me dececionou.

 

 

Quem leu O Livreiro, já conhece as personagens - não li mas sei que o Tom e Hugo estão de volta - e no caso d'O Bibliotecário de Paris a história inicia-se com a morte de Paul Rogers, diretor da Biblioteca Americana de Paris, aparentemente devido a causas naturais, apesar do seu amigo Hugo Marston - responsável pela segurança da Embaixada dos EUA em Paris - achar a morte de Paul estranha. Tudo apontava para uma falha cardíaca, mas quando a viúva também aparece morta na banheira de sua casa, aparentemente por suicídio, a trama complica-se e é aberta uma investigação. Por esta altura, duas amigas e jornalistas de Martson chegam a Paris para investigar uma ex-atriz famosa dos anos 40 que julgam ter sido espia durante a II Guerra Mundial a favor da resistência e havia relatos de que tinha morto um oficial da Gestapo com um punhal. Hugo Marston acredita que as duas histórias podem estar relacionadas e inicia uma busca incansável para descobrir quem matou o amigo e porquê.

 

Antes de mais dizer-vos o motivo da minha desilusão: É só um policial e não é, de todo, um livro sobre a II Guerra Mundial.

 

Spoiler alert!!!!!!!!!!

As duas histórias estão longe de se relacionarem, e o final é tão fora de contexto que não percebi a ideia do autor. Basicamente há duas histórias paralelas, uma que se entende, que no final tem uma explicação, e outra - a que fala sobre a atriz que pode ter sido espia - que afinal não nos leva a lado nenhum e é só para entreter e confundir o leitor.

 

O livro lê-se muito bem, li-o em duas noites, mas não me cativou tendo em conta que esperava um livro sobre a II Guerra Mundial e tal não se verificou. Ao longo do livro encontramos muitos diálogos despropositados, tem muita palha para encher chouriços muitas frases e diálogos para encher páginas que nada têm que ver com a história em si - e isso enerva-me, ó se me enerva - e o assassino é - pelo menos para mim foi - óbvio desde o início, apesar do motivo ser totalmente surpreendente. 

 

É um bom policial, não digo que não o é, mas é só isso. Não é um livro histórico - ainda que tenham tentado sem sucesso que o fosse - não é um livro de crimes de guerra - apesar de terem tentado sem sucesso que o fosse - nem é um livro sobre livros - ainda que tenham tentado sem sucesso que o fosse. É certo que se passa numa biblioteca, é certo que o Paul estava a escrever um livro - de ficção científica, é que até este elemento nada tem que ver com a história - e é certo que se fala de uma coleção de livros que pode conter uma coleção secreta de crimes de guerra - mas que nunca se verifica e que acaba por se perder no vazio. É por isso só um livro sobre um crime, e sobre o desvendar desse crime, e aí não é mau.

 

O que me revolta no livro é que o considero de publicidade enganosa. Não é um livro sobre o que diz ser. À parte disso, não é mau, é um livro que se lê bem, que entretém, que não maça. Mas no entanto, acho que a trama tinha todos os elementos para ser um grande livro e tem uma capa lindíssima que atrai, mas que no fim, na minha opinião claro, acabou por ser muito mal concretizado, para além de que - e isso o autor não tem culpa mas revolta-se-me as entranhas todas - a tradução/edição estava cheia de erros ortográficos.

 

Fiquei zangada, confesso! Eu que até tinha alguma curiosidade com O Livreiro agora acho que não o irei ler.

 

Boas leituras.

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos. Mais do que um blog, são pedaços de uma vida.