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Desabafos da Mula

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos.

Desabafos da Mula

Operação Respirar # 3 Recuperação

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Quanto pesa um nariz?

 

A sério: Quanto pesa um nariz? É que apesar das porcarias todas que eu comi, a balança reduziu os valores... Ainda que se calhar a pergunta mais acertada é: Quanta massa muscular se perde em 15 dias sem qualquer tipo de exercício?

 

A médica foi bastante clara: Os primeiros sete dias de recuperação implicaram repouso total e absoluto. Sete dias foram passados na cama, os suficientes para ter ficado com o rabo quadrado e com as costas feitas num oito. Para além do repouso, os banhos durante estes dias foram frios - e estamos numa altura ótima para tomarmos banhos frios, não acham? - a comida foi fria, as divisões estavam frias, e tornei-me a melhor amiga do meu edredão. Obviamente ainda não recuperei totalmente da minha constipação, que assim é difícil... Mas agora que aos poucos retomo a minha vida normal, a ver se me livro dela totalmente. Para já, posso é assegurar-vos de que é bom, poder voltar a comer comida quente! É bom, poder voltar a tomar banho de água quente. É bom, poder voltar a ter o meu quarto com uma temperatura confortável.

 

Quanto ao rosto que estava deformado, como vos contei aqui, aos poucos vai ganhando forma. Estive sem qualquer tipo de cor no rosto - até pensei que me tivessem curado da rosácea, confesso  - durante uns 4 dias, mas aos poucos o rosto foi ganhando cor, e aos poucos a boca foi ganhando mais mobilidade e comecei a ficar mais tranquila e mais descansada. Mas aqui, ainda não estou totalmente recuperada. Ainda tenho o nariz anestesiado, o lábio ainda está com fraca mobilidade, e apesar de já conseguir sorrir - sim, era coisa que eu tinha deixado de conseguir, incrivelmente - ainda tenho algumas dificuldades na fala e é aqui que se percebe que ainda não estou totalmente recuperada. A seu tempo... A médica diz que ainda pode levar mais uma semana, semana e pouco.

 

A parte fantástica é que respiro integralmente pelo nariz desde o primeiro dia em casa. Tenho muito corrimento nasal, essencialmente se estiver muito tempo em pé, mas é normal. Mas a verdade é que é incrível já respirar tão bem, e as noites são fantásticas e tenho adormecido muito mais rápido. Ainda vou descobrir que as minhas insónias se deviam à falta de oxigenação no cérebro...

 

Ontem fui à consulta de acompanhamento do otorrino e eles dizem que estou a recuperar muito bem. Só apenas um contratempo... Os pontos, que iriam sair naturalmente, precisaram de ser arrancados. Estavam a infeccionar, e antes que piorassem o doutor achou por bem removê-los na consulta de ontem. Eu não estava preparada para sofrer tanto numa consulta de acompanhamento confesso e vim de lá toda moída. Mas hoje já acordei melhor, e com ainda mais mobilidade facial, já que os pontos estavam a repuxar demasiado.

 

Quanto ao concerto, a médica diz que posso ir à vontade, que estou a recuperar tão bem que posso ir sem me preocupar. E diz que dentro de uma semana - ou assim que deixar de sentir qualquer dor ou desconforto - que posso regressar ao ginásio.

 

O que aponto de negativo na cirurgia, neste momento, são os efeitos da anestesia. Ontem deveria de ter falado sobre isto mas esqueci-me, mas como tenho nova consulta em Fevereiro, se não melhorar depois eu falo sobre isto: O meu cabelo está a cair em dobro ou em triplo - e ele que já caía pouco... - e a minha pele da cara está toda a descamar, por mais creme que ponha, parece que ele não hidrata de forma alguma, e até já usei cremes da minha mãe que são mais fortes e mais regenerativos.

 

Tirando tudo isso, confesso que estou mais animada com a cirurgia. Eu que assim que me olhei ao espelho me arrependi amargamente de me ter submetido a tal, hoje estou mais consciente de que não é possível sair ilesa de uma cirurgia, que as coisas demoram o seu tempo e que e preciso saber esperar. O facto de olhar para o espelho e perceber que aos poucos volto a ser eu, faz com que me tranquilize finalmente, e respirar bem tem compensado todos os pontos negativos. A verdade é que sonhei com esta cirurgia anos... Cerca de uns 10 anos. Desde há 10 anos que utilizava inaladores com cortisona para poder dormir. Desde há 10 anos que o meu olfato tem vindo a deteriorar-se. Desde há 10 anos que as minhas noites foram piorando e piorando... Desde há 10 anos que eu procurava uma cura que os medicamentos não traziam. Por isso sim, parece-me que correu tudo muito bem.

 

Sei que há muita gente que me lê que precisa de se submeter a esta cirurgia - ou outra semelhante, que cada caso é um caso - e que tem medo porque a recuperação é chata... Posso apenas dizer-vos que sim, que é muito chata, e se a minha foi uma operação simples - basicamente foi ressecar mucosas, reduzir os cornetos, reduzir as narinas e corrigir o desvio do septo - e já foi chata, imagino aquelas em que é preciso partir o nariz, e quase refazer o dito... Mas digo-vos que vale a pena. São alguns dias de sacrilégio? São. Dói ao contrário do que vos possam dizer? Dói! Passamos dias e noites que só nos apetece chorar? Passamos! Mas bolas, o que são sete dias, quinze dias e até um mês, quando comparamos com todo o resto da nossa vida? Submeti-me a esta cirurgia para ganhar qualidade de vida. Não foi por uma questão estética - aliás o meu nariz era bem mais bonito antes... - nem por um capricho, foi mesmo para ganhar qualidade de vida.

 

Pensem nisso e... Coragem!

Operação Respirar # 2 Pós-operatório

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O Hospital Pedro Hispano, onde fui operada, não tem grande espaço, então em vez de ficar na ala de otorrino - que até tem quartos individuais - fui para a ala de urologia e partilhei o meu quarto com mais duas pessoas. Uma totalmente acamada em estado vegetal, que até metia dó, e uma senhora que tinha um problema num olho. Era vizinhança simpática mas muito barulhenta. A senhora acamada ressonava de noite e de dia, e a senhora que tinha o problema no olho, também deveria de ser um pouco surda porque via televisão com o som demasiado alto e tinha visitas desde a hora que se levantava até à hora de deitar. E o telemóvel? Nem sabia que era possível um telemóvel tocar tão alto! Sempre que ele tocava parecia a 3ª Guerra Mundial, e eu ficava com vontade de a matar. Por isso, eu que só queria estar sossegada - aliás era a única em pós-operatório, acho que merecia algum descanso -, tive com barulho o tempo todo. Enquanto tive o efeito da anestesia ainda consegui descansar minimamente, depois foi simplesmente uma tarefa impossível. Ansiedade nos píncaros! 

 

Entretanto a anestesia foi passando e eu fui acordando...

 

Quando acordei, percebi de imediato que a recuperação ia ser mais difícil do que previ. Sempre me disseram que era difícil, mas confesso que não estava preparada para o quão difícil. Disseram-me que sentiria apenas desconforto, que dores não teria muitas, mas dores tive sempre muitas e os analgésicos não aliviavam. Aliás cheguei a ter de implorar às enfermeiras por mais drogas, porque as que me davam não faziam efeito e poucas horas depois eu ficava num estado lastimável. O que ainda me aliviava as dores era o gelo. Mas nem esse era fácil de conseguir, acho que teria conseguido mais depressa morfina do que gelo. Sabemos que estamos num país em crise quando deixam acabar gelo num hospital: "deixaram acabar o gelo... vamos ter de pedir para fazer mais, ainda vai demorar..." E não mentiram. Demorou. Demorou quase 2 horas a darem-me gelo. E quando me trouxeram, lá me trouxeram duas ou três pedrinhas, mas já foi melhor que nada e eu estava com tantas dores, que apesar de me terem dito "fique uns 15 minutos com o gelo" eu fiz gelo para aí durante 1 hora que a auxiliar até brincava comigo: "Nem vai precisar de ir ao ginásio, de tão tonificada que vai ficar nesses braços!" A malta de uma forma geral foi muito simpática comigo, tive muita sorte com a equipa de auxiliares e enfermeiras que me calhou, do mal o menos.

 

Quando despertei totalmente comecei uma luta interna. E não foi só com a vontade de espirrar. Eu não me podia levantar, isso já me tinham dito. Mas estava desde as 7h da manhã sem ir à casa-de-banho... E já eram umas 15h... e eu já tinha alguns litros de soro em mim... Tem de ser. Decido chamar alguém, basicamente tive que escolher entre a humilhação de fazer xixi nas calças e na cama, ou de pedir ajuda para tal. Chega lá um moço, auxiliar - estagiário pareceu-me - e lá lhe expliquei o que precisava. Senti que o moço ficou mais assustado que eu. Tranquilizou-me tanto isso - #sóquenão - mas lá foi buscar ajuda e veio de imediato uma auxiliar que me resolveu de imediato a situação sem me deixar demasiado nervosa, agiu com a naturalidade expectável, e deixou-me super confortável. Mas digo-vos que depender de terceiros para uma necessidade tão básica é horrível. Mas adiante, jurei para mim própria que iria aguentar-me até conseguir levantar-me e ir pelo meu próprio pé. E assim foi. Ir à casa de banho era sempre um assunto muito tabu "ai não se levante, que ainda não sei se pode! Espere que eu já vou chamar alguém!"; "Foi à casa de banho sozinha? E se se tivesse sentido mal? Para a próxima tem de chamar alguém..." Até que comecei a optar por fazer a coisa quase em segredo, como se tivesse ido roubar a farmácia do hospital, pé ante pé, rapidinho. Estar no hospital é uma aventura.

 

Quanto às refeições... Não falemos sobre isso! Eu sei que a comida nos hospitais não é boa, mas não era preciso ser tão má, é que vocês sabem, eu não sou esquisita, aqui com a Mula marcha tudo - é esse basicamente um dos meus grandes problemas - mas as duas sopas dos dois dias eu não consegui comer. A segunda era só estranha, mas a primeira posso assegurar-vos que sabia a ferrugem, ao ponto de eu achar que estava com sangue na boca... Mas não estava! Passei tanta fome, mas tanta fome, que dou graças à francesinha que almocei na véspera e que deve ter ajudado a alimentar este meu corpo guloso durante umas boas horas e só por isso não desmaiei de fraqueza.

 

Confesso que com as horas a passar que comecei a acreditar que se tinham esquecido de mim. Disseram que a médica viria de manhã para me dar alta mas só recebi a alta ao final do dia. Comecei a achar que teria de ali passar mais uma noite... E confesso que comecei a panicar. Felizmente não. No final do dia, lá me foram buscar para ir à médica destamponar e receber as recomendações para me mandarem embora.

 

A operação pelo que percebi correu melhor do que o esperado, porque me disseram que teria uns tubos no nariz, e que depois viria com a tala para casa, mas só me tamponaram e vim para casa com o nariz já totalmente aberto sem tala, e com apenas um pontinho em cada lado no nariz, mas internamente que saem com o tempo. Disseram-me também que iria ficar congestionada como se estivesse com gripe e isso felizmente também não aconteceu. Assim que me libertaram o nariz tive uma noite tranquila e a respirar melhor que nunca.

 

Estava a sentir-me bastante alegre e satisfeita com o resultado, já que respirava como nunca, até ter olhado para o espelho a primeira vez...

 

Ansiedade aos píncaros assim que me olhei ao espelho... Fiquei totalmente sem expressão, parece que me submeti a uma operação estética e que fui toda esticada... E aí o pânico, a ansiedade, a vontade enorme de chorar... Comecei a achar que teria de fazer uma outra operação para pôr a minha cara como estava, e que teria de passar por tudo isto novamente... E disseram-me que não, que estou assim apenas por estar inchada. E pronto, agora tenho de esperar que a cara desinche para ter a certeza que não vou virar a noiva feia do Spock, porque sinceramente, para já, é assim que me sinto... E começa a bater um arrependimento de me ter submetido a isto...

 

Em breve conto-vos como está a ser a recuperação... Fiquem desse lado.

Operação Respirar # 1 Pré-operatório

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Fui internada na segunda-feira logo de manhã. Às 7h30 já estava a fazer check in lá no hotel. Aliás, às 7h30 não, porque apesar de dizerem que o internamento era às 7h30, essa é também a hora de abertura do hospital, por isso cheguei atrasada, e ainda tive que discutir com o segurança que me estava a impedir de subir dizendo "não tenho nada a ver com isso! Tem de esperar!". Quanta sensibilidade. Quem é que tem a ver isso? Eu, que fui informada da hora? A malta da secretaria que definiu a hora? Ou o segurança que é só um energúmeno a trabalhar num hospital? Lá consegui entrar. E fiquei à espera na receção para entrar juntamente com um montão de gente que ia submeter-se à mesma operação.

 

Quem me conhece e me lê há algum tempo, sabe o quanto eu adoro ter pessoas que não conheço de lado algum a falar para mim - #sóquenão - , por isso imaginam o tamanho da minha alegria quando uma senhora com uma excitação que mais parecia que ia de visita à Disneylandia, veio de imediato ter comigo meter conversa dizendo que íamos ser operadas juntas e que a primeira a acordar acordaria a outra. Começou logo a dizer o meu nome a toda a gente, que, a sério, parecia que tínhamos ganho uma viagem e não uma cama no bloco. Imaginei logo a visão do inferno: toda ligada, cheia de dores e uma senhora com o dobro da minha idade mas com o triplo da minha energia a fazer conversa para me animar quando eu só desejaria dormir e desaparecer deste mundo. Sou muito dramática nas recuperações  confesso. Acho que tive mais medo da senhora do que da operação em si. E não estou a brincar! Felizmente, e posso já adiantar-vos, nunca mais a vi. 

 

Fui logo a primeira a ser chamada para o quarto e a ser preparada para ir para o bloco e por isso disseram-me que me tinha de despachar, porque já estávamos atrasadas. Vesti aquela roupa fantástica e altamente moderna - já criavam um modelito mais aconchegante e menos humilhante não? - e 'bora lá colocar o cateter. Já fui operada duas vezes, mas já não me lembrava do quão horrível era colocar o dito. E pior do que colocar um cateter...  É colocar dois! Porquê dois? Pelos vistos os capilares das minhas veias da mão direita são demasiado finos... O soro não passava. 'Bora lá aplicar o cateter na segunda mão. Já vos disse que estávamos com pressa certo? Pois... Fantástico...! Nada doloroso... Nada! 

 

Cateter aplicado... Lá vou eu na maca para o bloco. Um frio do caraças... Chego ao bloco:" Esta é a paciente da ginecologia?"

 

Alto lá. Para tudo. Até me levantei! "Otorrino! A minha operação é ao nariz!". Pediram desculpa e lá me esclareceram que estavam à espera de uma paciente que ainda não tinha aparecido, e que era da ginecologia. Comecei a antever chegar do recobro com um penso na barriga em vez de no nariz, confesso. Eu, que já estava pouco nervosa! 

 

Eis que encontro a primeira pessoa altamente preocupada comigo e me põe uma manta aquecida em cima de mim. Que momento fantástico, que levarei para sempre no coração. Senti que podia dormir uma sestinha naquele momento  até porque a coisa ainda podia demorar porque o meu cirurgião ainda não tinha chegado. Comecei por fechar um pouquinho os olhos... Mas eis que as pessoas foram chegando, e cada pessoa que chegava me fazia as mesmas perguntas: nome, data de nascimento, o que estava ali a fazer e eventuais alergias a medicamentos. Se vos disser que passaram por ali umas 20 pessoas diferentes não estou a exagerar. Tantas vezes respondi às mesmas perguntas que comecei a duvidar da minha identidade... De quem eu era, do que estava ali a fazer e quase senti uma certa vontade de bem, obrigada por tudo mas eu vou andando... Mas entretanto o cirurgião chegou. Pergunta-me se estou bem disposta - como se fosse possível estar bem disposta à porta de um bloco operatório, com umas cuecas descartáveis e uma bata azul onde se viam as minhas mamocas todas sem dificuldade - respondi que sim - dizer que não implicaria uma conversa que eu não iria querer - e lá fui levada para o bloco.

 

Já tinha visto nos filmes aquelas máscaras que nos adormecem, mas quando fui operada anteriormente não tinha sido assim. Colocaram-me a máscara, disseram-me para respirar fundo e quando estava quase, quase a perguntar onde é que poderia arranjar aquilo lá para casa... Adormeci! 

 

Acordei umas horas mais tarde graças a uma máquina que me registava as tensões de 15 em 15 minutos e que sempre que estava quase quase a adormecer me acordava. Ainda não tinha percebido muito bem o que me tinha acontecido, mas senti-me violentada por um elefante com excesso de peso... Falaram para mim para ver como estava,  e eu que poderia ter mil e uma perguntas, a única que me ocorreu foi: "posso pôr vaselina nos lábios quando for para cima?" e não vos minto, foi a primeira coisa que pedi à minha mãe assim que fui para o quarto, não imaginam a miséria dos meus lábios. 

 

E pronto, é isto, sabem que falar de coisas sérias com a seriedade que os assuntos implicam, não é comigo. Por isso se querem saber como correu o pós-operatório fiquem desse lado, tentarei contar o pós-operatório com a mesma descontração, apesar de neste momento só ter vontade de chorar quando me lembro. 

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos. Mais do que um blog, são pedaços de uma vida.