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Desabafos da Mula

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos.

Desabafos da Mula

Desafio de escrita dos pássaros #10 Já chegamos? Já chegamos?

Mais uma semana, mais uma voltinha, mais um tema louco, e já sabem, quando a Mula não sabe muito bem como dar a volta ao texto... Vem poesia na certa. Parece que na poesia tudo faz sentido... Ou então não e só faz sentido na cabeça da Mula. Digam de vossa justiça.

 

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Já chegamos? Já chegamos?

Mas o carro teima em acelerar.

Já chegamos? Já chegamos?

Mas o mundo teima em não abrandar.

Já chegamos? Já chegamos?

Mas o tempo teima em não parar.

 

Temos pressa de chegar.

Muita.

E queremos o relógio abrandar.

Tantas vezes.

E não percebemos, dizemos nós, o motivo,

De não darmos pelo tempo passar.

 

Já chegamos? Já chegamos?

Para. Deixa-me respirar.

Deixemos de ter pressa, de correr.

Aproveitemos cada brisa que nos acolhe,

Esqueçamos o tic-tac que nos persegue,

Aproveitemos o tempo para realmente viver!

 

Viver é aproveitar, é verdadeiramente estar,

É ouvir em volta, é verdadeiramente escutar,

É sentir cada cheiro, é saborear,

Viver é o contrário de apressar.

Já não queremos chegar. Não assim tão rápido.

 

Desafio de escrita dos pássaros #7 Compotas compotas, cabelos à parte

 

Porque a rimar a rimar... Cumpre-se o desafio sem desesperar!

Não que eu não estivesse altamente preparada para desenvolver outro tipo de texto para este tão fantástico mote... Longe de mim!

 

 

Imagem retirada daqui

 

 

Constança queria uma máscara capilar,

Mas isso a Mula não lhe podia vender,

Então a Mula deu-lhe umas boas amostras

De compota, para o seu cabelo feliz ser.

 

Constança não queria a compota,

Mas mais a Mula não lhe podia dar,

Decidiu insistir nas amostras de compota,

Que iriam fazer o seu cabelo brilhar.

 

Que seus cabelos ruivos, cor de abóbora, vão agradecer!

Dizia tudo, a Mula, para vender!

Mas a Constança que não caía na cantiga,

Queria uma máscara, química, à moda antiga!

 

Olhe que a compota é boa!

Tem amêndoas para o cabelo esfoliar,

E mais a mais se não gostar...

Coma-a à colher prá fome saciar!

 

Em cantigas, aos poucos Constança caía,

Como acontecia com as que lhe cantava o homem,

E as embalagens até tinham uma imagem bonita...

Porque já se sabe... Os olhos também comem!

 

E assim Constança encheu a despensa,

De compotas que iria à colher comer,

Enquanto via à noite a novela,

Que até da máscara capilar lhe fazia esquecer!

 

E assim continuram secos, os cabelos.

Mas Constança com o estômago mais forrado,

Para depois se deitar junto do homem,

Que a esperava, como sempre, entusiasmado!

 

Das entranhas

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Podem encontrar a receita deste bolo aqui.

 

 

Enquanto o bolinho bom cresce no forno, 

Algo maravilhoso cresce dentro de mim, 

Será cansaço será gente?

Gente não é certamente, 

E o cansaço não bate assim.

 

É talvez a saudade, 

Mas há pouco, há poucochinho,

Nem uma saudade batia. 

Nem na quieta melancolia, 

Do vento que sopra lá fora.

 

Como cresce, assim, levemente,

Com tão tamanha vontade, 

Que mal se ouve, mal se sente?

Não é cansado, nem é gente,

Nem é saudade com certeza.

 

Percebi: Há muito não comia,

E das entranhas do meu ser, 

Uma vozinha susurra come, 

Comecei a salivar,

E então aí percebi: É fome! 

 

 

Há dias assim... Dias que me dá para a parvoíce! Mas é uma verdadeira ode ao meu estado natural!

Desafio de escrita dos pássaros #5 Na fila para o purgatório

Relembrem-me por favor o motivo de eu ter participado nesta loucura? E expliquem-me lá que tema é este? Obrigada!

 

Hitler no céu queria tentar entrar.
Mas Deus não quis que ele entrasse!
Que apesar de ser bom a perdoar,
Não havia feito de bem que se registasse.

 

Então Hitler para o inferno espreitou,
Que esse já lho tinham garantido,
Mas Diabo com maus modos o desconsiderou!
"Aqui não entra tamanho pervertido!"

 

E a fila não andou. Por contrário... Aumentou!
E Hitler bufou, e todo o purgatório parou.

 

E o homem de bigodes esperou,
Impaciente, o Diabo, os olhos revirou,
E então Hitler percebeu que ainda demoraria,
A tal busca pela última moradia!

 

E eu que só queria subir,
Para nalgum canto quente ou frio me encostar. Para dormir.
Bufei desesperada, que não chegava a minha vez,
Blasfemei o purgatório com altivez!

 

"Diabo deixa entrar para o inferno este homem,
Que te serviu, e que à tua semelhança se fez!"
Mas o Diabo bateu-me com a porta ofendido,
Que "nunca fora tamanha, [a sua] malvadez!"

 

E a fila não andou. Por contrário... Aumentou!
E Hitler bufou, e todo o purgatório parou.

 

E eu reclamei, certamente desesperada,
Que já só queria uma, quente ou fria, fofa almofada.
"Por favor querido Diabo deixa entrar este bigodes,
Que te garanto que te vai matar as fomes!"

 

E curioso o Diabo pela porta do inferno espreitou, 
Com o seu risinho malvado de mim se aproximou.
"Que dizeis?" perguntou pensativo
E eis que lhe dou uma dica sussurrada ao ouvido. 

 

Os olhos do Diabo brilharam,
E o sorriso malvado no seu rosto reapareceu,
De espeto de porco na mão, bem fumegante,
Com Hitler assado, o inferno abasteceu!

 

E a fila finalmente andou. Rapidamente... Se esfumou!
E Hitler já não mais bufou, e todo o inferno o degustou.

 

Desafio de escrita dos pássaros #3 Viver marca, encontrar-se dói

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Olhou para dentro de si e percebeu que tudo mudou,
Percebeu que a menina de outrora,
Doce, submissa e acolhedora,
Olhou para dentro de si e a si renunciou!

 

Marcou-a sentir que a alma de si fugia,
Que de si escapou e a si já não voltou.
Porque apesar de ser já gritante a sintomatologia,
Foi preciso cair ao chão. A menina se arranhou.

 

Deixou de querer brincar, a menina,
Renunciou às casinhas e aos brinquedos,
Renunciou à estabilidade e aos segredos,
"Deixou de ser séria, a menina!"

 

Então arrumou a sua casa e o seu coração,
Bateu a porta com dor mas sem exasperação,
Saiu sem caminho convenientemente delineado,
Buscou, a menina, com esperança o seu verdadeiro fado.

Tudo deixou para trás em busca do desconhecido,
Como se a vida por si só não fosse aventura suficiente,
E durante esse caminho enegrecido,
Foi colando as peças de si, resiliente.

 

E assim a menina que se perdeu,
E que certamente errou mais do que acertou,
Se foi encontrando por entre caminhos encalhados,
E abriu finalmente os olhos, outrora vendados.

 

E continuou a chorar e continuou a sorrir,
Que vida que se preze também tem muros a ruir.
E agora com a alma aconchegada, finalmente entendeu...
Essa menina que se olha no espelho e se perdeu... Afinal, era eu!

 

_______________

Podem ler este, e outros textos do Desafio de Escrita dos Pássaros, aqui.

Pedaços de um blog em decadência #1

Acho que já vos tinha dito que em tempos tive um blog de poesia. Ele ainda está ativo mas há muito que não é alimentado, basicamente só um poema é que lhe traz visualizações, várias, provavelmente na altura dos Lusíadas e da Mensagem nas escolas.

 

Basicamente deixei de escrever poesia quando deixei de me sentir deprimida, se calhar nem era eu que escrevia se calhar era o socian... Mas uma coisa é certa, com ou sem socian, há alguns poemas que ainda hoje fico toda orgulhosa da minha pessoa e fico saudosa de já não escrever assim... Este é um deles (motivada pela professora de português da altura):

 

A mulher nos Lusíadas e na Mensagem

 

Pelo amor à mensagem de Pessoa,
Criou com amor e dedicação,
O nosso rei lutador,
Que conquistou a nossa nação!

 

Porém vingativa e cruel,
Contra seu filho se debateu,
Na escritura d’Os Lusíadas,
De seu filho se esqueceu!

 

D. Filipa abençoada,
Grandes filhos criou.
Na Mensagem de Pessoa,
O povo a idolatrou!

 

Porém Inês de Castro, coitada,
Que D. Pedro tanto amou,
Traída pelo destino,
D. Afonso a degolou.

 

Lembremos também aquelas mulheres devotas,
Que em Camões se impugnaram,
Que em Pessoa desesperaram,
E que seus filhos viram partir!

 

Mães, esposas, irmãs, noivas,
Não nos esqueçamos de todas aquelas que participaram,
Nas maiores obras que contaram,
Os grandes feitos do povo português!

Poema: Tentar

Eu já tentei, tento e continuarei a tentar...

Mas creio não dispor de mais forças para lutar!

E já sofri, sofro e continuarei a sofrer,

Até ao dia que me permitir deixar de te socorrer!

 

Eu já não sou eu...

Eu já não sou ninguém, efectivamente!

E continuas com força a cravar,

O punhal no meu coração dormente!

 

Dormente porque já não sente,

Dormente como meus olhos que  há muito já não vêem

O lascar de um sentimento que não existe,

De uma vida que deixará, também de existir!

 

Sim eu tentei, tento e continuarei a tentar...

Mas preciso que continuemos a tentar juntos.

Tenta tu também, por favor,

Para que o nosso amor não se junte, aos já defuntos!

Celebração dos 125 anos de Álvaro de Campos

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No dia 15 de Outubro pelas 21h30, celebram-se os 125 anos de Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa, na Biblioteca Pública Municipal do Porto. Por isso, quem gostar e estiver pelo Porto, que aproveite. 

 

Partilho convosco o meu poema favorito de Álvaro de Campos, que é também o meu heterónimo preferido de Fernando Pessoa.

 

 

DATILOGRAFIA


Traço sozinho, no meu cubículo de engenheiro, o plano,
Firmo o projeto, aqui isolado,
Remoto até de quem eu sou.

 

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tic-tac estalado das máquinas de escrever.
Que náusea da vida!
Que abjeção esta regularidade!
Que sono este ser assim!

 

Outrora, quando fui outro, eram castelos e cavaleiros
(Ilustrações, talvez, de qualquer livro de infância),
Outrora, quando fui verdadeiro ao meu sonho,
Eram grandes paisagens do Norte, explícitas de neve,
Eram grandes palmares do Sul, opulentos de verdes.

 

Outrora.

 

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro.
O tic-tac estalado das máquinas de escrever.

 

Temos todos duas vidas:
A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,
E que continuamos sonhando, adultos num substrato de névoa;
A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,
Que é a prática, a útil,
Aquela em que acabam por nos meter num caixão.

 

Na outra não há caixões, nem mortes,
Há só ilustrações de infância:
Grandes livros coloridos, para ver mas não ler;
Grandes páginas de cores para recordar mais tarde.
Na outra somos nós,
Na outra vivemos;
Nesta morremos, que é o que viver quer dizer;
Neste momento, pela náusea, vivo na outra...

 

Mas ao lado, acompanhamento banalmente sinistro.
Ergue a voz o tic-tac estalado das máquinas de escrever.

 

in Poesias de Álvaro de Campos (1933)

 

Mentira*

Sorrir. Chorar.
Amar. Odiar.
Beijar. Sofrer.
Compreender. Não compreender.
Acreditar. Estupidez de acreditar.
Sofrer! Sofrer muito!

 

Tudo é efémero e constante. Inconstante!
Tudo é incertamente certo!
Verdade. Mentira.

 

A verdade da mentira é que ela é doce, sempre amargamente doce. Amada, desejada, esperada! Mas sempre amargamente doce. Vale mais a mentira que a verdade, toda a gente a adora, toda a gente a venera e espera. Espera sempre! Espera… até ao dia que a longa espera passe e a verdade a alcance!

 

Verdade… Sofrida a verdade! Largas horas de sofrimento, tão certo e incerto a cada pensamento!

 

Que sei eu da verdade? Que sabes tu?
Verdade é apenas o indesejado! Tudo o que é indesejado é verdadeiro! Tudo o que é terrificamente mau é verdadeiro! Tudo o que faz sofrer é verdadeiro! Tudo o que faz doer é verdadeiro! E eu? O que sou eu? No que penso eu? Que digo eu?

 

Mentira…

 

*Texto antigo

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Este é um texto, que apesar de já ter sido escrito há vários anos, continua bastante actual, porque continuo a pensar exactamente da mesma maneira.

Creio que todos nós somos uma cambada de hipócritas que andamos a fingir, a fingir, a fingir. É comum ouvirmos: "- Diz-me a verdade, eu não gosto que me mintam!"

 

Não gosta que lhe mintam? Eu não gosto é que me façam mal, eu não gosto é de sofrer, e com a verdade sofre-se bem mais do que com a mentira. Porque na realidade as pessoas não querem a verdade, quando esta é dolorosa, ninguém a quer, o que as pessoas não gostam na mentira é de um dia poderem descobrir a verdade, porque se a verdade nunca for reposta, nunca haverá problema e a pessoa será feliz. Isto acontece, porque o ser humano é - saudavelmente, ou não - egoísta.

 

A verdade, quando dolorosa, implica mudanças, tomadas de atitude e sabemos que o ser humano é um bicho de hábitos, não gosta de mudar, não gosta de ser obrigado a tomar decisões, mas quando somos confrontados com questões que magoam somos obrigados a reagir. E ninguém gosta de reagir. Eu não gosto de reagir.

 

Agora, claro que ninguém gosta de ser enganado, mas o que não gostamos é da atitude que levou ao engano, que levou à mentira. Tudo o resto, só serve para amenizar o nosso sofrimento.

 

Convenhamos que, mentira só é mentira, se for descoberta e até lá podemos ser estúpidos mas vivemos felizes.

 

Ou tudo isto é verdade, ou sou apenas uma lunática a viver dentro de uma bolha.

 

See You*

Desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes enfadonhos, mas sempre desabafos. Mais do que um blog, são pedaços de uma vida.